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Archive for the ‘Semanário’ Category

O Fortuna
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis
(Carl Orff – Fortuna imperatrix mundi // de Carmina Burana)

Projetamos nossos desejos sobre o mundo para, então, aguardarmos o tempo da realização. A essas projeções, chamamos umas vezes de sonhos, outras de utopias, outras ainda de idealizações e, eventualmente, de planos.

Os planos pressupõem um método que leve o desejo e a projeção a ganharem corpo e se plasmarem na concretude das coisas palpáveis. Planos são como que cartografias do desejo. Para que se concretizem em colheita ou realização, há um sem número de variáveis envolvidas. As contingências dirigem os planos a lugares insuspeitos, por vezes superando o imaginado, noutras frustrando sua matéria desejante, esfriando a motivação. Ou revelando que motivação era o que não havia, mas apenas uma ideia vaga sobre o que seria desejável.

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quinzenario0002A roda da fortuna é a imperatriz do mundo. A ela submetemos nossa finitude e nossas realizações. Sua impermanência deflagra o caráter provisório de tudo o que há. Haver no mundo é estar sendo. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. No ar do tempo, que corre dentro das gentes e das coisas.

Em relação aos planos permanentes que eventualmente tenhamos, uma das contingências que podem determinar sua realização, mudança ou abandono é o fôlego para levá-los ou não adiante. No breve suspiro que é a vida, quantos brevíssimos suspiros de horas temos para oferecer permanentemente ao planejado? Fomos audaciosos demais no que pretendíamos? Ou faltou ousadia?

Quando os calendários inauguraram o novo ano, comecei a plasmar no palpável do (ciber)espaço um plano de escrita permanente e de atualização periódica deste blog. Assim surgiu o Semanário, que hoje tem publicado o nono texto em quase dois meses. O projeto de atualização semanal foi executado até aqui com folga. No entanto, ocupou, nas horas livres dos dias e nos dias livres da semana, mais tempo do que o previsto, roubando de outros projetos os escassos instantes.

Diante da ausência de tamanho fôlego para tantos projetos, e da necessidade de estabelecer prioridades, uma mudança de planos se torna um imperativo. Abandono, então, o plano inicial de escrever semanalmente no blog, para me dedicar a outras escritas. E estabeleço um novo compromisso de produção de texto, que será quinzenal — ou, mais precisamente, ‘quatorzenal’, já que as atualizações vão ocorrer a cada duas semanas.

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No dia 16/03 volto à programação normal, com a publicação de algumas impressões sobre o livro Viagem solitária, de João W. Nery. O livro, que terminei nesta última semana, é uma releitura — devidamente atualizada — de sua obra anterior Erro de Pessoa, lançada 27 anos antes, em 1984. Vale para Viagem solitária o mesmo que Antônio Houaiss escreveu sobre Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”.

Até lá!

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Para ter a experiência primeva da chuva, talvez seja necessário esvaziá-la do nome. E apenas abandonar o corpo às águas que caem do alto do céu terrestre. Como bicho, dar-se à umidade do dia. Como infante, abrir os braços transido de encantamento e espanto.

Creio ser preciso ter passos vacilantes para viver a chuva. Não dizê-la: gritá-la. Não sabê-la: intuí-la. Não analisá-la: cantá-la em ritos pagãos. Diluir a água do próprio corpo nas águas vindas dos céus. Invocar seus pingos como se evocam deuses. Ou espíritos ancestrais. E dançar uma amplidão que se derrama em todo onde. Quiçá eu tenha aprendido isso quando fui chuva…

Não existem chuvas inocentes, no entanto. Elas são potências da natureza. São alento ou tempestade. Afetam-se pelo humano. E afetam o homem… Mas estão além de nossas forças para contê-la ou evocá-la. Carregam em si os gérmens da fecundidade e do terror. Aplacam sedes ancestrais, mas também arrasam casas. Fazem evolar a fertilidade da terra, mas também destroem plantações. Alimentam os corpos de toda vida, mas podem apodrecer raízes. E o humano intui isso antes do verbo, à maneira dos bichos.

Vivemos hoje, porém, um tempo que deseja ardentemente por chuva. Água se espalhando pelos desvãos da secura. Fecundando chãos e ideias. Alimentando raízes e horizontes. Creio que, por isso, toda chuva soe como dádiva. E todo encantamento do corpo ante o aquoso do mundo ressoe como êxtase.

Uns versos me revelam: “e quando faz sol — brilha / desejo de chuva”*. Neste momento, evoco-os como quem invoca, das nuvens, a água rara que transita pelos céus. Ou o deus dos sem deuses.

______

*Nydia Bonetti

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A dez dias de um grande evento desportivo, irrompe numa praça da cidade um protesto reunindo um número considerável de descontentes. Além daquele na iminência de acontecer, o país sediará, dois anos depois, outro grande evento esportivo de natureza diversa, mas de semelhantes proporções. A tensão no ar se sente, no entanto, desde antes. Aquele dia é precedido por meses de instabilidade política que, certamente, não é admitida — embora seja patente. Milhares de manifestantes tomam as ruas.

Quando cai a noite, ao menos cinco mil pessoas permanecem reunidas naquela praça para o que deveria ser uma manifestação pacífica. Mas o exército e a polícia, equipados com carros blindados e tanques, cercaram a praça e abriram fogo contra a multidão. Manifestantes e transeuntes foram apanhados pelos disparos. Fontes governamentais se referem a apenas quatro mortos e vinte feridos. Mas o saldo verdadeiro permanece incerto: algumas fontes chegam a falar em mil mortos, embora a maior parte chegue a um consenso de que em torno de duas ou três centenas de pessoas tenham perdido a vida.

A descrição acima não é uma previsão pessimista e, quero crer, exagerada do que poderia acontecer em alguma cidade do Brasil em junho deste ano. Isso aconteceu no dia 2 de outubro de 1968 na Plaza de las Tres Culturas em Tlatelolco, na Cidade do México. No dia 12, tinham início os Jogos Olímpicos de 1968, na capital mexicana. Dois anos depois, o Brasil se sagraria tricampeão mundial de futebol na mesma cidade, consolidando-se, no pior período da ditadura militar brasileira, como a pátria de chuteiras. O ufanismo permitia que generais gritassem seu slogan de ordem (e progresso?). “Brasil: ame-o ou deixe-o!”

Pawel Kuczynski - Soccer

Pawel Kuczynski – Soccer

Desde 1968, certamente para garantir o sucesso dos grandes eventos e o silêncio dos descontentes, uma política de exceção foi sendo, pouco a pouco, implantada. Era necessário mostrar ao mundo que tudo estava sob controle, mesmo que para isso o México se tornasse um repressivo e violento estado policial e apagasse uma parcela de direitos básicos da população. Deparei-me com o tamanho da minha ignorância sobre as relações de opressão recentes na América Latina nesta terça-feira (11), ao ler sobre esse fato num breve comentário feito pelo escritor Ricardo Lísias. A morte do cinegrafista da Band Santiago Andrade, atingido por um rojão enquanto registrava o confronto entre manifestantes e policiais no Rio, durante um protesto contra o aumento de ônibus, ainda reverberava. Ele havia sido ferido na quinta-feira (06) e morrera na segunda (10).

Estarreci-me pelas semelhanças com a atual conjuntura brasileira. O Brasil, como o México entre 1968 e 1970, também será sede, no intervalo de dois anos, dos dois maiores — e mais caros — eventos esportivos do planeta. No caso brasileiro, só se inverte a ordem: primeiro a Copa do Mundo e depois as Olimpíadas. Estarreci-me também porque me lembrei que os recentes episódios envolvendo a morte do cinegrafista certamente fariam o Legislativo tentar acelerar a aprovação da lei antiterror (PLS nº 499 de 2013), que me parece mais o próprio terror encarnado, ou em vias de.

Estarreci-me ainda ao constatar, enquanto escrevia este texto, que o projeto foi proposto em novembro de 2013, sob o eco das manifestações do ano passado, certamente para tentar controlá-las esse ano. E o projeto da lei antiterror — que em alguns pontos é mais dura do que a Lei de Segurança Nacional promulgada durante a ditadura — não foi a única ação do poder público no sentido de mutilar direitos para impedir protestos. Em julho de 2013, o governo do Rio de Janeiro publicou o Decreto nº 44.302/2013, com um texto claramente inconstitucional. O decreto, que criava a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (CEIV), dava poder à comissão para quebra de sigilo de dados telefônicos e de informática sem autorização judicial, o que era uma flagrante afronta à Constituição.

Neste ponto, permito-me uma breve digressão para me declarar contrário a qualquer estratégia de manifestação que considere o uso da violência como arma legítima. E tenho duas razões para isso: uma ética e outra estratégica. Eticamente, enxergo que o uso da violência para fazer valer nossa recusa a algum tipo de opressão — exceto em casos de legítima defesa — nos iguala aos opressores. E, estrategicamente, buscar o confronto físico ou bélico contra a polícia e o exército, que são estruturas existentes em qualquer lugar do mundo para massacrar, não me parece uma opção sensata para se fazer ouvir. Parece-me somente uma tática suicida. O que eu apoio são as táticas que expõem o ridículo e o absurdo da violência oficial, que mina as estruturas de poder pela não colaboração, pelo boicote, pela recusa e pela ocupação dos espaços públicos.

Portanto, lançar uma pedra ou um morteiro em direção à polícia, atinjam eles um policial, um cinegrafista, um traseunte, ou ninguém, é sempre uma ação injustificável para mim. Ele difere essencialmente de ocupar uma via pública, recusar-se a sair dela e demonstrar, por exemplo, que sem ela a cidade para, porque simplesmente o transporte público é insuficiente para atender à população. E ocupar uma via pública e recusar-se a sair dela agride o direito de ir e vir da mesma forma que uma multidão de carros parados num engarrafamento, embora os discursos a favor da ordem tendam a dizer o contrário: que ocupar as ruas de gente agride o verdadeiro direito de ir e vir, que é o direito daqueles que vêm e vão no conforto de seus automóveis.

Ilustração de Pawel Kuczynski

Ilustração de Pawel Kuczynski

Voltando à questão da lei antiterror, é injustificável a pressa e o clamor que se criou em torno de uma suposta necessidade de se conter uma inexistente escalada de terrorismo no Brasil. Ao me indagar sobre o último grande ato terrorista no País, a resposta que me vem é imediata: abril de 1981. Portanto, há mais de 30 anos, ainda durante o governo Figueiredo — aquele general que disse que quem fosse contra a abertura, ele prenderia e arrebentaria. Apesar dessa ameaça, o atentado do Riocentro foi arquitetado por uma ala radical de militares descontentes com os rumos da “lenta e gradual” abertura. Ele acabou dando errado e uma bomba, que deveria ter sido explodida sabe-se lá onde durante um show que comemorava o Dia do Trabalhador, acabou explodindo dentro do carro parado no estacionamento do local, no colo de um dos militares que executavam o ato.

Anúncio do show de 1º de Maio no Riocentro

Cartaz anuncia o show de 1º de Maio no Riocentro

Ainda assim, o Inquérito Militar tratou, primeiramente, o militar morto e o ferido na explosão como vítimas. O governo, na ocasião, chegou a culpar radicais de esquerda pelo atentado. A hipótese oficial já não tinha sustentação na época e o fracasso nas investigações do atentado acabou levando à renúncia do ministro-chefe da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva. O caso foi arquivado e só foi reaberto em 1999, quando o ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), general Octávio de Medeiros, disse que soube do atentado horas antes que acontecesse, declarando posteriormente que a informação lhe fora dada pelo general linha-dura Newton Cruz. Apesar de o crime não estar prescrito, o Superior Tribunal Militar (STM) rejeitou, em maio de 2000, a retomada da apuração sobre o caso sob o fundamento que em 1988 o próprio STM já havia decidido aplicar para ele a Lei de Anistia, que era de 1979 e anistiava os “crimes” ocorridos até aquela data.

Curiosamente, mesmo com o fracasso na execução do atentado do Riocentro, em 1983 foi promulgada a Lei 7.170/83, conhecida como Lei de Segurança Nacional. Ela foi publicada em pleno período das grandes manifestações pelas Diretas Já. Essa lei definia “os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento”.

Com essas palavras, não quero espalhar o terror, mas apenas chamar a atenção para o fato de que é necessário olharmos as similitudes entre o hoje e nosso passado recente, para evitarmos recair nos mesmos erros. Chamar a atenção para a necessidade de defendermos constantemente nossos direitos, nossas conquistas. Até porque o clamor por um Estado mais autoritário nunca gerou bons frutos na História. E, certamente, não seria hoje que esse clamor daria certo…

Capa do jornal "Correio Braziliense", de 12 de fevereiro de 2014. Um exagero?

Capa do jornal “Correio Braziliense”, de 12 de fevereiro de 2014. Um exagero?

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Li em algum lugar que “uma leitura que surpreende é aquela que nos faz ver o que estava posto, mas não sabíamos nomear”. Qualquer leitura, pois não lemos apenas textos. Lemos imagens, movimentos, sons, gestos. Lemos até sorrisos.

Particularmente, aprecio leituras que me desarticulam da palavra. Que me pedem silêncio para absorver o que dizem, pelo impacto sobre a sensibilidade, o intelecto, as emoções…

Gosto de leituras que me deixam a tatear imprecisões. Que trazem à boca uma palavra que ainda não tem nome. Ou umas tantas. Linhas que aquecem dúvidas, como um delírio de sol. Que expandem o que há dentro para dilatar os afetos, embora sem substância definível — afinal, onde é a sede dos sentimentos que nos acometem?

Persigo, no ato de ler, aquilo que apenas reverbera. Aquilo que se entreouve no incerto. Aquilo que escapa, a esperar o que não pode ter fim. E que saiba na boca como voo ou mergulho.

Sigo empós o desvelar das estruturas do silêncio. Sim, preciso de leituras que me encham de silêncio. Que me ensinem a ouvi-lo. Veredas lógicas que desvelem sons e sentidos. E que ressoem como a música de Pärt.

Preciso de leituras que me façam inconclusivo. Que agucem o desejo de ir. Além… Além de mim, além do homem. Procuro discursos que me provoquem. Desafiem-me. Enovelem-me, para que eu possa me entretecer em textos… Seguindo o fio de Ariadne, no percurso entre Cloto e Átropos.

Pawel Kuczynski - Book Jumping

Pawel Kuczynski – Book Jumping

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O primeiro mês de 2014 mal se esvai, e os comentários sobre a passagem do tempo parecem um eterno dejá vu: “O ano nem começou e janeiro já foi embora!”, “O ano só começa depois do Carnaval”.

Neste ano, no entanto, é comum ouvir desde o início que o ano só começará depois da Copa. O que significa que seis meses de 2014 seriam apenas de espera. Pelo quê? Godot? Se uma Copa do Mundo já altera a agenda brasileira, uma Copa no Brasil talvez seja capaz de instaurar um caos ainda maior nos calendários da nação. Mas o impacto, sobre a economia brasileira, dos dias em que o Brasil parar para ver os jogos da seleção, assunto sempre explorado por algum tipo de especialista, certamente ficará diluído, neste ano, pelo assunto geral do impacto econômico da Copa de 2014.

Como ocorre desde 1994, para completar a incompletude dos anos de Copa do Mundo, alguns meses após a competição ainda haverá eleições gerais. Com isso, um novo estado de espera se instaura. Uma espera de outra natureza que, por incrível que seja, parece mover menos os cidadãos. Talvez porque a crescente descrença adquirida não autorize hoje qualquer esperança vencendo o medo. Mas é fato que as políticas públicas — e os noticiários políticos — viverão uma espécie de suspensão, no aguardo dos próximos mandatários.

E nossas eleições têm essa característica estranha: parecem incapazes de mobilizar os cidadãos — ao contrário da Copa. Aparentemente, ao menos são descoladas do que acontece nos campos de futebol, já que desde a retomada da democracia, os reveses da seleção foram sucedidos por vitória do grupo que já estava no poder, e a vitória da seleção em 2002 antecedeu uma ruptura. A única exceção foi o ano de 1994, justamente quando se inaugurou a era de Copas do Mundo somadas a Eleições Gerais.

Outra característica de nossas eleições é a primazia da atenção para os cargos executivos — talvez na espera de algum herói que mude a realidade, embora a figura do herói que arrebanha esperanças me pareça ter esmaecido imensamente após 2002, ou seja, não me parece hoje viável. Esquecemo-nos sempre, entretanto, de quem faz as leis. E nesse terreno, na verdade, não temos qualquer controle sobre quem elegemos. Por mais que escolhamos o menos pior, ou até, com alguma sorte, um bom candidato, não temos verdadeiramente como votar nele. Votamos necessariamente no partido.

Nas eleições de 2010, por exemplo, apenas 35 dos 513 deputados foram eleitos com os próprios votos, ou seja, alcançaram individualmente o quociente eleitoral em seus estados, sem precisarem dos votos de suas coligações. Se ainda sei alguma coisa de matemática, isso representa 6,8% dos deputados que foram para o Congresso. Os outros 93,2% foram eleitos “indiretamente”. Esse fator, conjugado à crise na noção da representação política e ao voto obrigatório, engendra um sistema feito para perpetuar essa indiferença e essa invisibilidade relacionada às eleições legislativas. Mas como os que fazem as leis se beneficiam desse sistema, resta pouca esperança de que qualquer reforma política séria seja feita.

E, após as eleições, já nos encaminharemos, consumindo os dias e consumidos por eles, para o fim de um ano que talvez nem mesmo tenha começado. Pelo menos para quem deposita fora de si o tempo de qualquer realização. Mas para quem não alheia o próprio desejo, a própria vontade, sempre é o tempo. “Os dias nunca são iguais / quando a inocência se desfaz”…

Pawel Kuczynski - Calendar

Pawel Kuczynski – Calendar

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Felice: Mirco, você enxerga?
Mirco: Sim. E desde quando você é assim?
F: Desde que nasci. Como são as cores?
M: São lindas.
F: Qual é a sua predileta?
M: O azul.
F: Como é o azul?
M: É como quando anda de bicicleta e o vento bate na sua cara. Ou também é como o mar. O marrom… sinta isso. É como a casca desta árvore. Sente como é áspera?
F: Muito áspera. E o vermelho?
M: O vermelho é como o fogo. Como o céu no pôr-do-sol.
(Do filme “Vermelho como o céu”)

Estamos atentos aos detalhes todos do mundo que podemos perceber? A tudo que o mundo nos oferta? A tudo que ele pode nos dizer? Que lugar cada coisa, pessoa ou memória ocupa em nossos afetos e percepções? É difícil não se fazer essas perguntas depois de assistir a “Vermelho como o céu”. E, principalmente, é difícil não se arrebatar pelo filme de Cristiano Bortone, que conta a história de um menino que em 1970 perde a visão num acidente e, por falta de opção, já que as escolas italianas não aceitam cegos entre seus alunos (testemunho de que a educação inclusiva é recentíssima), acaba enviado para uma instituição de ensino “apropriada” em Gênova, longe de sua família e de sua cidade.

imgsemanario0005Inspirado na vida de Mirco Mencacci, editor de som do cinema italiano, o filme passa distante das edificantes e previsíveis histórias de superação. O espectador assiste a uma celebração da imaginação, dos sonhos e dos sentidos, enquanto acompanha as descobertas do pequeno Mirco em sua nova condição. E é provocado o tempo todo, seja pela grandiosidade da dimensão onírica — que ganha na tela traduções imagéticas, a partir dos sons de que o menino passa a se valer para dizer sobre o mundo –, seja pelas indagações ditas pelos próprios personagens, diante de suas dúvidas e abismos. Indagações sutis como a do professor que, ante a recusa de Mirco em aceitar que não mais enxerga e a participar de uma tarefa proposta em sala — tocar, cheirar e sentir objetos variados –, diz-lhe simplesmente:

— Eu também enxergo, mas não é suficiente. Quando vê uma flor, não quer cheirá-la? Ou quando neva, não quer andar sobre a neve branca? Tocá-la, senti-la derreter nas mãos? Vou lhe contar um segredo. Algo que notei vendo os músicos tocarem. Eles fecham os olhos. Sabe por quê? Para sentir a música mais intensamente. Pois a música se transforma, se torna maior, as notas ficam mais intensas. Como se a música fosse uma sensação física. Você tem cinco sentidos. Por que usar só um deles?

Ao se apropriar de um gravador, primeiramente surrupiado da sala dos professores — e depois veladamente ‘cedido’ por seu professor — Mirco passa a explorar a dimensão sonora de sua imaginação. Os resultados de suas investigações são de tal forma surpreendentes, que acabam por arregimentar os que estão ao seu redor.

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E neste aspecto “Vermelho como o céu” tem uma dimensão política irrefutável. Aliando doses suficientes de coragem e talento, Mirco, um menino que acabara de ficar cego e de chegar a um ambiente estranho — e por vezes hostil –, termina por promover mudanças na instituição antiquada e um tanto castradora que o recebera. Para além da fragilidade óbvia, uma força insuspeita irrompe deste personagem. Contagia a muitos. E promove mudanças. Como que a nos indagar se estamos prontos para sermos a mudança que queremos ver no mundo.

Não sei se, neste ponto, a história de Mirco Balleri, o personagem, se confunde com a história de Mirco Mencacci, a pessoa real em cuja história o filme se baseia. Mas os acontecimentos de “Vermelho como o céu” não precisam ser verdadeiros. Para que a história se sustente, basta que sejam verossímeis. E não é possível descrer da sucessão de eventos que leva a surpreendentes mudanças nos rumos daquele colégio, e de tantos personagens que trabalham nele, habitam-no e, com tijolos de si, constroem aquele lugar.

“Vermelho como o céu” foi uma surpresa do último domingo. Assisti-lhe sabendo apenas que era um filme sobre um menino que fica cego e enfrenta dificuldades para continuar estudando. De repente, ele tomou dimensão de deslumbramento. O filme leva às lágrimas, mas não pela constatação das durezas da condição humana. Chorei no final por um inominado sentimento de celebração e gratidão à vida. E a todas as suas potências criadoras.

Evoé!

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Deixo abaixo uma versão legendada de “Vermelho como o céu” que encontrei no youtube quando comecei a escrever sobre o filme:

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Gesú: Mãe, vamos no shopping tomar sorvete?

Maria: Minha Nossa Senhora! Ô Zuzinho, sossega. Vamos na sorveteria aqui da esquina, mesmo.

G: Mas tá quente, mãe. E no shopping tem arzinho gelado.

M: Não podemos, filho.

G: Ah! Por favor, mãe!

M: Um doutor proibiu. Agora, é mais fácil conseguir empréstimo em banco do que comprovar renda pra entrar em shopping.

G: Ah! Mas é rapidinho, mãe. A gente toma um sorvete, dá um rolezinho e volta.

M: Menino, não fale uma coisa dessas! Foi isso mesmo que o doutor proibiu: rolezinho no shopping.

G: Por quê?

M: Sei lá eu. Acho que tava dando confusão. Só sei é que a polícia agora fica lá pra vigiar e pegar o comprovante de renda de quem entra no shopping. Se não comprovar renda, é preso.

G: Mas a polícia pega de todo mundo que vai dar um rolezinho?

M: De todo mundo não. Só de quem tem cara de pobre. Se a polícia me pega e descobre que eu não tenho como comprovar renda, que eu faço faxina na casa dos outros… Melhor nem pensar nisso!

G: Mas como a polícia sabe quem tem cara de pobre? Como é cara de pobre, mãe?

M: Ai, como você é perguntador, menino. Não sei explicar essas coisas difíceis, não. Cara de pobre é uma cara assim, que nem a nossa.

G: E a gente nunca mais vai poder ir no shopping?

M: Só se a gente mudar de cara, moleque! (Risos. Depois, silêncio reflexivo.) Não, Zuzinho, só enquanto o pessoal tiver falando disso. Daqui a pouco, tudo volta ao normal, aí a gente vai poder ir no shopping de novo.

G: Ah! Mas quem tirou as coisas do normal justo no calor? Queria ir lá hoje tomar sorvete.

M: Filho, presta atenção numa coisa. Você é pequeno, mas é de pequenino que se torce o pepino. Então aprende que gente como a gente tem de saber o nosso lugar…

G: E qual é o nosso lugar, mãe?

M: Deixa de fazer perguntas difíceis, menino! Mas aprende isso: pobre que não sabe o seu lugar vira bandido. E eu não quero criar filho meu pra virar bandido, não, viu?

G: Vi, mãe!

M: Promete?

G: Prometo! (Silêncio.) Mas no próximo verão a gente vai poder ir no shopping tomar sorvete?

Observação: O diálogo acima pode ser inverossímil. Mas a realidade é bem mais (ver processo 1001597-90.2014.8.26.0100 e íntegra da decisão). E, por fim, não há como não lembrar do Gonzaguinha, numa hora dessas:

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