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Archive for the ‘Quinzenário’ Category

Um voo amplo tem início logo nas primeiras páginas. Casulo rompido, é hora de ganhar alturas e conhecer a vertigem do espanto. Violeta velha e outras flores (Editora Patuá, 2014), de Matheus Arcaro, lança logo o leitor, em seu primeiro conto, no olho do redemoinho, numa avalanche de sensações pequeninas – e incomensuráveis.

Esta narrativa me tocou como uma obra-prima a dizer do que o autor era capaz, acendendo em mim o desejo de seguir empós dessa prosa repleta de poesia.. Ali, a descrição inicial da estrada, numa viagem de carro em família, me remeteu inicialmente ao Caçador de vidro, conto de abertura de O volume do silêncio, de João Carrascoza. Mas as descobertas e epifanias na jornada do pequeno Lucas no decorrer da história me remeteram à poesia que encontrei nos olhos míopes de Miguilim. Este, porém, se revelou um Miguilim solitário, sem gozar de nenhuma cumplicidade com o irmão.

A intensidade da experiência de Lucas – e de sua comunhão com o mundo – provoca uma aterradora ternura. “Era como se sua alma se multiplicasse dentro do corpo.” Sim, é isso que nós, leitores, sentimos. Sentimos sua vertigem e seu alumbramento e sua dor, na descoberta da finitude – e também da solidão essencial. “E pela primeira vez Lucas chorou em silêncio.” Nós também choramos, mas sem a inocência da primeira vez.

Mas se Casulo rompido é o que primeiro me vem à cabeça, quando penso em Violeta velha – uma primeira impressão que ficou, de tão arrebatadora – o fato é que o livro vai muito além. São 22 contos que se dividem em seis conjuntos e exploram diversas formas de se narrar.

No primeiro conjunto, personagens simples são confrontados com a complexidade da vida: a criança de cinco anos se defronta com a imensidão do mundo, o indigente com os meandros da memória (no belíssimo O sonho), o mentalmente diverso com a rejeição e a própria fúria, o menino com um adeus, o garoto estranho e sua mãe aflita com a impossibilidade de se diagnosticar o extraordinário.

O segundo conjunto, composto por uma única história, descreve a experiência de ser atropelado pelo jorro incessante do quotidiano, cujas contingências desimportantes e cíclicas se sucedem feito enxurrada. Ou avalanche.

Um mergulho profundo no abismo de dentro de si me parece conectar as histórias do terceiro bloco. Desse mergulho, nem sempre é possível voltar (evoco aqui o pungente Ausência confirmada) ou encontrar o mundo da mesma forma (como em À beira do abismo, com seus ecos de surrealismo, absurdo ou realismo fantástico).

O quarto grupo de histórias funciona como um espécie de contraponto do segundo, com suas narrativas em que o estranhamento do quotidiano permite que se abram portas para fora da trivialidade de todo dia. As três histórias (Reencontro, Noite nua e Em nome do pai) são de uma beleza dorida e melancólica que me encheram de exclamações estupefatas. Talvez por ofertarem “Aos que transitam pela rua disseminando instintos e dissipando instantes, uma cara despida de esperança.” Ou talvez por mostrarem que mesmo a escuridão pode revelar e fortalecer outros sentidos do corpo. Seja como for, neste percurso a sensação que fica é o desejo de “acariciar cada vestígio do momento”.

As cinco histórias que compõem o quinto grupo exploram variações sobre o tema da degeneração, ou da destruição e da autodestruição. A iminência da morte, a violência, a velhice, o abandono, a doença, o vício, as sequelas do acaso que vitima o corpo e a morte são elementos presentes nessas narrativas. O horror instintivo de entregar-se “à sensação de não sentir” acompanha cada percurso aqui. Não sei se esses contos formam uma ode à vida, cantada às avessas, ou se apenas testemunham a inexorável finitude e a impermanência de todas as coisas.

Para além da morte, o conjunto derradeiro oferece ao leitor três histórias que abordam questões ligadas à construção da fé, à descrença, ao confronto entre ciência e religião e à experiência mística. Nesse conjunto primoroso, a diversidade de formas narrativas conduz o leitor, com ironia mordaz, pelas muitas moradas de um além que se espelha no mundo – ou que faz do mundo seu espelho (em Está tudo escrito), para depois assombrá-lo com o vislumbre de uma verossímil comprovação científica capaz de abalar os pilares da fé ocidental (Dois homens mortais).

Fechando este grupo – e toda o livro – Condenado à liberdade nos convida a voltar à própria obra, sugerindo a repetição cíclica de um eterno retorno. Por vezes, parece fletir-se e refletir sobre a própria linguagem: “Aqui consegui ouvir a vida gritando em meus pulsos, consegui apanhar a eternidade em cada átimo e soltá-la para que tudo não passe de possibilidades”. Penso que, nesse lugar, “o mundo é pequeno demais; eu só caibo nesta cela”, que pode ser a palavra, essa entidade que carrega em si o gérmen do incomunicável.

Violeta velha e outras histórias, de Matheus Arcaro (Editora Pautá, 2014)

Violeta velha e outras flores, de Matheus Arcaro (Editora Pautá, 2014)

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I – Armagedon

É todo dia que ocorre
a luta do fim dos tempos,
quando bombas e agressões,
lamas tóxicas, misérias
e execuções calam vidas.

É que o juízo final
também acontece agora.
Todo instante então povoa
o tempo do apocalipse
presente em cada morte.
.

II – Gênesis

No sem-fim desse universo
que talvez seja espelhado
ou até caleidoscópico,
um deus qualquer faz a luz
que sai de um buraco negro.

A cada vida que surge,
o princípio de um verbo,
no próprio dia primeiro
de alguma criação,
abre um eterno retorno.

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A dez dias do lançamento de meu livro “Trítonos – intervalos do delírio” (Patuá, 2015), além de sentir uma ansiedade boa por ver o corpo do livro feito de celulose e tinta, palavras e espaços vazios para o leitor, é inevitável olhar para trás e me assombrar com a constatação de que esse livro condensa e testemunha oito anos de minha escrita. Não que eu tenha me dedicado exclusivamente, durante todo esse tempo, ao livro que nasce. Nesse período, publiquei “Poemas para serem encenados”, participei da coletânea “História Íntima da Leitura”, escrevi poesia e prosa neste blog – ao qual imprimi uma periodicidade de publicação desde o ano passado – e participei de algumas oficinas de escrita. Além disso, escrevi e tenho escrito coisas inéditas, para projetos futuros. Mas desde 2007 que as três principais histórias desse livro me acompanham. E a partir do dia 2 de dezembro, esse livro deixará de ser exclusivamente meu – e eventualmente das pessoas próximas com quem tenho a alegria de compartilhar meus processos de escritura – para ser do mundo. “Porque a gente desaparece maravilhosamente entre as palavras”, diria um querido amigo que está intimamente ligado ao nascimento das duas primeiras histórias de “Trítonos”.

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Foi na casa em que Marcelo Tosta morava, no centro de São Pedro d’Aldeia, que sugiram os primeiros esboços de “Menina de Aruanda”. Foi lá que li os textos que habitavam o caderno verde de Micheli Coutinho – que hoje é fotógrafa e também mora em São Paulo – de quem roubei o nome e um pouco do êthos de minha personagem principal no primeiro conto deste livro. E numa de minhas idas a São Pedro, no segundo semestre de 2007, fui levado a uma gira num terreiro que funcionava em ermo local no distrito da Cruz – área rural daquela pequena cidade na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Todo esse conjunto de impressões fermentou minha escrita nos meses seguintes, até que eu terminasse a primeira história do livro. O livro, no entanto, ainda não existia. Não da mesma forma, pelo menos. Minha ideia na época era reunir contos que falassem de arte, talvez cada um focado numa das seis artes do mundo clássico (música, artes cênicas, pintura, arquitetura, escultura e literatura).

Ainda envolto nessa ideia primeira para um livro de contos, comecei a segunda história, concebida meio ao acaso a partir de um evento curioso ocorrido em minha casa. Num período em que o Marcelo e uma outra amiga estavam hospedados por lá – essa distância no corpo da escrita diz que não é a mesma casa de hoje –, eu acordo no meio da madrugada com um barulho muito alto – qualquer coisa caindo no chão. Saio do quarto e encontro os dois sentados, um pouco sem jeito. Marcelo me explica que o porteiro havia acabado de interfonar, pois um vizinho havia reclamado – do barulho, penso eu – do cheiro da comida que ele estava fazendo. Ainda com sono, dou uma pequena bronca, mais por causa de ter acordado com a conversa alta e os barulhos que eles estavam fazendo. Vou deitar e penso que aquilo é um ótimo argumento para uma história. Segundo o relato do Marcelo e da Karine, minutos depois eu volto com uma cara de alucinado e anuncio o destino literário daquele fato anedótico. Pego papel e caneta e volto para o quarto, que agora fica com a luz acesa por alguns minutos. Ali começara a nascer “Gritos do Açafrão”. Por alguns meses, escrevi metade da história, mas ela ficou em suspenso por quase um ano porque me faltavam os elementos musicais – já que o personagem principal era um pianista. Foi depois da leitura de “O som e o sentido”, de José Miguel Wisnik, que consegui terminar o conto. O livro me fora apresentado e emprestado pela minha amada Fabiana Turci, antes mesmo de começarmos a namorar. Ainda antes de namorarmos, ela foi a primeira leitora crítica – e, para minha alegria, entusiasta – desse conto.

A última história foi a que conduziu o livro a tornar-se o que hoje ele é. Intui sua ideia inicial após visitar a Oficina Brennand no Recife, em 2009, levado pela querida amiga Marina Barreto Gama e sua irmã Raquel. Mas só três anos depois comecei a escrevê-la. “Paisagens de sal”, o maior dos três grandes contos do livro, consumiu, até sua conclusão, três anos de escrita e pesquisas constantes, além de um mergulho no universo da loucura e o desenvolvimento de um olhar desconfiado em relação às certezas provisórias do discurso psiquiátrico. Por trabalhar com o tema das artes plásticas, mergulhei no universo da arte contemporânea, sobretudo a partir do surrealismo, o que me permitia traçar uma linha de contato com Hieronymus Bosch e suas representações da loucura – especialmente em pinturas como “A extração da pedra da loucura”, “A Nave dos loucos” e, no que diz respeito às angústias e ao delírio, “As Tentações de Santo Antão”, de onde, aliás, extraí a figura do demônio que tortura uma orquestra inteira sob a égide dos trítonos. Mas não bastava uma arte que desse voz ao inconsciente, pois o universo do conto era traçado a partir das narrativas de loucos. Foi inevitável, portanto, me deparar com a figura de Arthur Bispo do Rosário e, a partir dela, conhecer as histórias e mazelas da psiquiatria no Século XX. Como ocorre com meu personagem principal – um psiquiatra – também eu passei, no decorrer do desenvolvimento dessa última história, a desacreditar dos diagnósticos e das profilaxias psiquiátricas. Se os meus motivos interessam menos, os motivos do meu personagem foram alimentados sobretudo com as narrativas dos horrores cometidos no manicômio de Barbacena, narrados em pormenores por Daniela Arbex no livro Holocausto Brasileiro.

Com as três histórias concluídas, a obra me parecia pronta. No entanto, minha amada Fabi ainda me sugeriu acrescentar algo que conduzisse e interligasse os três contos a partir de uma voz que trabalhasse o aspecto feminino evocado nas três histórias. Não dei gênero algum a essa voz, para que qualquer pessoa pudesse se inserir nesse lugar. Pessoalmente, inclusive, não sei sequer apontar quem seria a persona por trás dessa voz – deixo ao leitor trabalhar essas hipóteses. Mas submeti a figura que narra a uma força e uma autoridade, ao mesmo tempo, mística e feminina, permitindo que às experiências dos três contos fossem aderidas novas camadas de significação a partir de uma noção de empoderamento do feminino, num mundo ainda submetido – e desgastado – pela violência da dominância masculina. Faltavam, portanto, serem escritas as quatro narrativas de interlúdio. E só soube definitivamente dessa necessidade quando ficaram prontas. Três delas estão publicadas na Mallarmagens revista de poesia e arte contemporânea. Já a quarta, que fecha o livro, assim como os três grandes contos, estão aguardando os leitores dentro da obra, que será lançada no dia 2 de dezembro, na Casa das Rosas, a partir das 19h. Todos estão convidados a mergulhar nesse labirinto de delírios sussurrados pelo ruído branco a que habitualmente chamamos silêncio.

Divido, por fim, a belíssima orelha do livro, escrita pela minha amada irmã e grande poeta Roberta Tostes Daniel:

“Trítonos – intervalos do delírio” desenha um mapa alucinatório, ponto por ponto, qual partitura, sobrepondo quaisquer linguagens aos ditames da experiência. Segue, ao longo de suas três histórias, um código denso e virulento, insólito e perigoso, expondo traços e máscaras do humano. A vilania incrustada nos despojos da civilização e em arraigados hábitos circunavega a inocência primordial da infância, os cumes da fantasia musical e dos labirintos da loucura, liberando a sordidez da dita normalidade, dos claustros de uma consciência socialmente martirizada. Sua escala chega ao trítono, som impossível porque persecutório, onde só é possível enfrentar a dissonância, e a cada leitor desnudar a obra “para descobri-la em seus próprios termos, sendo que nessa leitura final estará sozinho”. Após a tríade dessas geografias que se entretecem com meticulosidade de aranha, a solidão é uma instância-ritual. Referências se encontram escalavradas, rosários imiscuídos a tradições e povos margeados. A música tenta soar como silêncio ou como fogo? O que é ruído branco? Sendas de impossíveis transcendências de sangue e paisagens de sal. A palavra atenta à ira e à profecia, vacante e grávida de sentido. Levante de desejos plasmados por cheiros e volúpias indizíveis. Um livro dos desatinos, um lugar: corpo, palavra, prosódia. Num ritmo lento ou vertiginoso, sem jamais perder de vista a profundidade do rasgo da pele. Os nomes dos personagens são pistas, talvez falsas. A precisão das informações pode estar chagada pela invenção. A linguagem como o panteão do (im)possível.

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Trítonos – intervalos do delírio
Teofilo Tostes Daniel
Contos
São Paulo: Patuá, 2015
168 p.
Formato: 14×21.
ISBN: 978-85-8297-255-7
Preço: R$ 38,00 + frete
Venda no site da Editora Patuá.

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(em conversa com Ricardo Escudeiro)

Nas vozes angelicais
ou nas gargalhadas de enxofre,
todas as doze notas
se encontram em rigorosa
correspondência.

O diabo em música
altera apenas
os intervalos.
Seu ludíbrio consiste
em descartar o que não é
inteiro.

A inteireza de três tons
parece desafinar
o mundo todo.
Soa como ruído.
Vida proscrita dos cantos
litúrgicos.

O corpo espera sôfrego
a resolução e repete,
com o ouvido:
trítonos são os intervalos
do delírio.

Hieronymus Bosch - Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Hieronymus Bosch – Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Escrito a partir do poema “quinta diminuta”, publicado em fevereiro deste ano na Mallarmagens — Revista de Poesia e Arte Contemporânea, numa série de três poemas de Ricardo Escudeiro. Faço dele ainda um primeiro chamamento para meu livro Trítonos — intervalos do delírio (Editora Patuá), a ser lançado em breve.

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Cortar a ideia de lua
com a lâmina da língua.
Dizer o mundo não míngua
porque sempre o perpetua.

Extrair da lua cheia
o sumo que não é dito.
Erigir um monolito
feito de sal, ar e areia.

E adorar, por fim, o pó
daquilo que, na linguagem,
me deixa um pouco mais só.

Se houver alguma poesia,
que a minha voz, em viagem,
leve sua melodia.

Matt Cardy - Supermoon

Matt Cardy – Supermoon

http://www.perotachingo.com.ar/

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A matéria, reunida
na ampulheta do ano-luz,
aprende e se reproduz,
arquiteta, assim, a vida.

A vida, nalgum momento,
de chofre se vê dobrada.
No cérebro conectada
então cria o pensamento.

Não vejo mais os reflexos
da transcendência etérea
das crenças e das essências.

Pelos caminhos complexos,
eu ando a ler na matéria
o Livro das Imanências.

Nebulosa da Ampulheta (MyCn 18)

Nebulosa da Ampulheta (MyCn 18)

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Paraíso perdido

Vivemos sendo acossados
entre a nostalgia vã
e o augúrio do amanhã,
temendo ambos os lados.

Nós somos os degredados
do presente, pois no afã
dessa loucura louçã,
caímos amargurados.

Todas as mitologias
e as variadas poesias
demonstram essa constante:

sempre o hoje é preterido
e o paraíso perdido
podia chamar-se instante.

Salvador Dalí - Relógios Moles

Salvador Dalí – Relógios Moles

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Nesse tempo setembrino

Peço que o ritmo do verso
me setembre, e que floresça
em meus dedos todo espanto,
me alçando às portas do êxtase.

Que o sorriso em mim verdeje
e crie raízes fortes
no que eu chamo de meu cerne –
mais palpável do que essência.

Que o sal da terra tempere
os usos de minha língua
bem ao gosto do destino.

E, por fim, que primavere
em meu veio a própria vida
nesse tempo setembrino.

Primavera - Giuseppe Arcimboldo

Primavera – Giuseppe Arcimboldo

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Azuis me absurdam.
Enchem os céus de minhas manhãs
de insuportável poesia.

Para desafogar o peso brando desse sentir,
faço-me infante.
Brinco de evocar o instante presente,
este que desentendo
e que, quando termino de pronunciar-lhe
o nome,

já é passado.

Marc Chagall - O Tempo é um Rio sem Margens

Marc Chagall – O Tempo é um Rio sem Margens

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(para Sândrio Cândido)

A voz do outro tomando
posse de minha poesia
me lembra que minha escrita
respira fora de mim.

Eu ouço nas entrelinhas
as pausas da alteridade
com distintas intenções
daquelas que eu possuía.

O olhar do outro me rasga,
extraindo um estrangeiro
dentro de minhas entranhas.

Ao me ouvir noutro andamento,
prefiro minhas palavras
quando se tornam estranhas.

quinzenario0028-leitor* Poema escrito após ouvir a leitura do meu poema “Sim, há poesia“, feita pelo amigo, poeta e leitor Sândrio Cândido.

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…pois até quando o homem derradeiro
ocupar, só com sua finitude,
sua individuada solitude
e sua língua, um átimo rasteiro

da Terra, então é certo que a poesia
também habitará esses espaços
e seguirá os vacilantes passos
do anti-Adão, que uma Lilith poderia

vir a ser, percebendo em si o fim,
e depois que o respiro humano enfim
desabitar o orbe do planeta,

tanto faz que poemas sejam fósseis,
ou que as palavras tenham sido dóceis
e hoje sejam poeira de um cometa…

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Hoje leio preces
como se apenas poemas fossem,
poemas fósseis, latejantes
— mais poemas do que atos de fé!
(do meu poema Taxa de locação)

Beata Beatrix — Dante Gabriel Rossetti

Durante cinco meses e dezessete dias, atravessei um livro de poemas. Mas, da noção silente e imaginativa que trago da Liturgia das Horas, eu sei que um breviário não se cruza à galope, mas antes se navega no vagar dos dias e dos instantes, celebrando sem pressa as Laudes, as Meridianas, as Vésperas e as Completas.

O deus Insaciável do início do livro — que “sangra os passos da dúvida”, “eletrocuta a linguagem // diz o nosso nome / quando afundamos no mar” — já me havia demandado uma resposta poética. Invoquei, para isso, o meu sagrado sem nome, cujo altar é erguido sobre o corpo da dúvida. Já o poema inaugural do livro que atravessei — essa espécie de Gênesis — faz da divindade uma “enxada encostada no tempo”. Nele aprendi que “deus tem asas feridas / remendadas com o pano da terra”.

Essa foi minha primeira colheita do livro Epifania, de Sândrio Cândido. Depois dessas primícias, de Passagem, descubro que é “inútil dedilhar poentes /compor manhãs com os retratos desfigurados”. Na sequência, me deparo com uma ideia de oração que se irmana à minha própria. A incendiar essa noção, encontro versos me advertindo para “descalçar os passos da linguagem”, pois “é sagrado entrar no poema / galgar degraus oceânicos na palavra / dissecar o verbo”. Mas porque só tenho “a palavra suja de mundo” e tropeço com “a vida refugiada em goles de esperanças”, essa Oração revela em si a sua própria contradição, ao concluir, em seu último verso, que “é inútil erguer uma prece dentro do poema”.

Escrevi certa vez, noutro lugar, que a heresia é o que mantém viva a possibilidade de surgirem novas religiões, ou novas concepções místicas das que hoje vigoram. Não à toa, os místicos estiveram a um passo da heresia… O que gosto em geral nos místicos é que eles vivem uma experiência tão arrebatadora que acabam se afastando do dogmatismo de suas religiões. E flertam como os limiares da heresia. Mas, ao mesmo tempo, me parece que dificilmente eles — ou , ao menos, aqueles que escaparam das fogueiras e se tornaram santos — dão esse passo em direção ao rompimento. O que fazem é alargar os limiares de suas próprias fés. Penso em figuras como Francisco de Assis, Teresa d’Ávila, João da Cruz ou Rumi — exemplos que viveram esse limiar sem rompê-lo.

A filiação mística do livro Epifania (Editora Patuá, 2014), de Sândrio, se explicita já no quarto poema. Ali, aprendo que “os místicos embriagados de deus / devoram os nós” e me perco no labirinto do “tudo é tanto que não caibo em tudo”, mas sem saber quando “as canetas me escrevem no mundo”. Penso na Noche oscura del alma e já no poema seguinte colho, na conclusão, uma estrofe que diz: “esta noite sou incapaz de te escrever / dobro os joelhos sobre os vocábulos nascentes / peço-te: / — acolha o meu silêncio.”

Ecoando o bailar de Rumi — um antigo dervixe persa que para mim sempre pareceu ter sido mestre de Caeiro — Sândrio, “um verbo conjugado no encontro”, afirma que “em mim os deuses dançam / sentados à mesa da ausência”. Revolvendo a ancestralidade do mundo, constato ainda que “os astros pronunciam meu nome / me faço luz / irradio poeira cósmica” (e isso me evoca demais o poema de Rumi “Vem, / Te direi em segredo / Aonde leva esta dança. // Vê como as partículas do ar / E os grãos de areia do deserto / Giram desnorteados. // Cada átomo / Feliz ou miserável, / Gira apaixonado / Em torno do sol.”). No fim desse primeiro movimento com o poeta de Minas Novas, “regresso agora / trago o tempo enxugado, / alguns poemas. / o efêmero sentido de estar aqui // despenco dentro de outra solidão.”

Cruzando esse bloco, me deparo um poema que tem por epígrafe os versos “Buscamos na vida / a casa dos nossos nomes“, de minha irmã Roberta Tostes Daniel. Nesse poema de Sândrio (Nos meus olhos uma paisagem adormecida), “os telhados desabam nos alicerces do tempo”. Ali, encontro a mim mesmo, e de alguma forma a minha ancestralidade poética, espelhada na poesia de minha irmã caçula. Sigo para um Oásis em que “meu nome é uma canção pronunciada do outro lado”, onde “busco uma lamparina no ventre da morte.” Sigo célere o rastro dos místicos para contemplar o Crepúsculo nas varandas interiores, onde “quero entardecer rasgando miragens / descansar a sede em alguma fonte.” A Contemplação do crepúsculo revolve essa imagem do entardecer, lembrando que “os crepúsculos enfiam os dedos na minha garganta.”

A leitura é também um execício de esperança e espera no poder do que não é comunicável. Afinal “deve haver alguma luz nos escombros do amanhã”. Nesta paragem, contemplo “os templos sumindo dentro do mistério”. Ali me é soprado que também “sou uma igreja velando o horizonte: / minhas paredes murmuram canções arcaicas, / cacos umedecidos, mãos trituradas, incenso, / o perfume das velas. / tudo aponta para um jardim possível.” Na liturgia dessas horas de Epifania, “um monge queda de joelhos / sem conseguir se acasalar com o mistério.” Eu, que duvido dos absolutos da crença e do descrer, me vejo nele.

Ainda assim, em Comunhão, me encontro com “a voz possuída pela ancestralidade do canto / arranco pela raiz a erva solidão / acendo as palavras sobre o nada.” Eu, que “sou um rio escorrendo pelas pálpebras da terra”, sigo os rasgos dessa Claridade, em que “o silêncio é uma pedra tragada pela garganta das aves / um círio de arame aceso no coração do outono / uma varanda aberta no seio do pão.” Sei que “os calendários são ervas / crescem sobre a rosa do instante.” Ainda assim, me fixo neles. Ou por eles sou fixado, pois “o tempo tem fome do meu corpo”. Neste estado, “ergo-me / faço do corpo um monastério”. Ainda assim, “estou me habitando em estado de escavação”.

Isso me leva a pensar no porquê escrevo. Talvez porque Os amigos não cabem no silêncio. Sim, eles são “altares circundando o interior / casa acolhendo as ausências”. Eu escrevo porque “incrível é a graça de entrar em comunhão / estar no outro / contemplar a vida escorrer lentamente”. Ou nem por isso, já que É inútil acordar as palavras e quem escreve este poema, ecoando Cioran, me segreda: “eu, porém, fiquei / habitando o ventre do desespero”. Ele me interroga: “dizer para quê?”, pois “amanhã será inútil acordar as palavras / hoje também.”

Se a ele falta a esperança, a mim falta a fé e, por isso, sigo escrevendo minha dúvida. Divirto-me com ela, com a finitude do meu saber. Ainda assim, sigo e também “sonho uma casa no interior das romãs”. Vejo que “nos límpidos lagos do tempo / cardumes de crianças nadam / segurando a flor luminosa da infância.” Pelo delírio das imagens que a poesia espalha, percebo: também eu “preservo as crianças interiores / essa espécie em extinção!”  Compreendo bem o verso que suplica: “deixa eu me rasgar para a epifania das flores”. Nas palavras, procuro um Lar. Evoco-me como habitação, eu que sou basicamente memória e efemeridade. Acompanho o poeta e “entro pela porta da cozinha / contemplo a chaleira sobre o fogão à lenha, / a felicidade fervendo.” Por motivos oblíquos, lembro de uns versos de Drummond: “Minha vida, nossas vidas / formam um só diamante. / Aprendi novas palavras / e tornei outras mais belas.”

Da Canção Amiga de Drummond — que me habita inteira de cor —, salto para um poema de Sândrio que se abre anunciando que “há canções mortas grudadas no corpo”. Percorro uma Efêmera prece que me lembra que “escrevo para desabitar a solidão”. Nessa prece — poema fóssil? — o poeta suplica: “mas me deixa dizer meu nome em teu nome.” Encontro novamente, então, o nome da minha irmã, e versos dela evocando o navegar: “Desveladas / correntezas / para aportar“, ela me diz. Já Sândrio peregrina por sua travessia de palavras e celebra uma Liturgia do exílio, onde os homens “acendem um círio na eternidade”.

Estanco brevemente o fluxo de minhas palavras, esta circum-navegação em torno do lido, pensando neste meu itinerário de leitura. O que ele diz? E o que me diz o próprio Itinerário da obra de Sândrio, que me conta que alguém “cravou os dentes no útero / abortando a gestação dos passos”? Não sei dizer. Sei é que leitor e autor fazem a obra. Juntos, “somos a comunhão das estradas / conjugamos o infinito em um instante, / no vazio mergulhamos / plantamos os olhos na eternidade.” Essa Contemplação não salva, mas revela “alguma tarde escorrendo / entre os dedos mergulhados no tempo.” Sim, “dentro dos olhos tudo é miragem / silêncio”. A leitura é uma Liturgia do encontro, onde “o verbo espera dentro do forno”. Por ela, pelo lido — esse lugar em que os não-vividos se executam —, “tentei ouvir os gemidos da terra / o êxtase das gotas adentrando o solo.”

As portas da revelação se abrem. Se no princípio havia um deus-verbo Insaciável com o qual os místicos se embriagavam, agora o último poema dessa Epifania me traz o Apocalipse. Nele aprendo sobre a palavra — a que também se pode chamar de “deus”: “posso adormecer sem um amanhã / ser a lamparina acesa em teus lábios / encontrar em teu corpo o instante perdido / nunca mais existir em um tempo / a isto chamo salvação.”

A essas palavras digo muitos améns!

Epifania — Sândrio Cândido

Epifania — Sândrio Cândido

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Colorir

Refratar a luz.
Decompor o branco,
extraindo um amplo
espectro de cores.

Reverenciar
o que é cada cor
— sua alteridade.
Por uma esperança,

louvar essa mística
que existe no número
de tons do arco-íris.

E por fim tingir-se,
querendo manchar
o mundo de amor.

The Newton's prism experiment

The Newton’s prism experiment

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(para Helena Stewat)

Porque o verso mora na repetição
obsessiva dos poetas,
nessa mania, nessa vocação
de juntar as tranqueiras da estrada,
é preciso celebrá-lo
como quem celebra a vida;
exaltar a plenitude do verso
com a lágrima luxuriante do riso.

Porque a poesia enxerga que é mais belo
no mundo aquilo que não vemos,
é preciso lançá-la nas águas
correntes de todo rio.
Quem sabe ela não é o lenitivo
daqueles enfermos da alma,
a alma daqueles sem alma,
o céu daqueles sem deus?

Porque a poética é avalanche
de estímulos, de sentires,
as sinestesias voam lépidas.
Porque a poesia tem residido
no caminho entre o som e o sentido,
a razão é apenas parte
daquilo a que usualmente
chamamos compreensão.

O silêncio sem altura das pedras
é aprendido neles: poetas-versos-poemas,
com a mesma alegria nostálgica que medra
e desperta o aventureiro que não pude ser.
No lido os não vividos se executam,
pois no lido, nos livros, pude recolher
as vidas que sempre quis viver,
as máscaras que sobre mim labutam.

Nem sempre me olham aqueles
que dialogam comigo, distantes
de mim na dimensão ou no instante
(de versos suas falas são compostas!)
Olhos helênicos me enxergam
(menino torto e sem luz)?
Não sei saber bem ao certo a resposta
que o silêncio da pedra traduz.

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Panorámica de la Mano del Desierto - Desierto de Atacama (Chile)

Panorámica de la Mano del Desierto – Desierto de Atacama (Chile)

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz.

De onde vem tanta gente saudosa de disciplinar os corpos? Desejosa de impor suas normas? Empenhada em converter o mundo à sua moral? Uma moral que não acolhe, mas extirpa a diferença.

As feiticeiras continuam sendo assassinadas pela turba raivosa. Ainda que seus atos sejam boatos. As cicatrizes da História ainda estão expostas sobre a pele dos dias. Em tempos de fria desesperança, elas doem mais.

A humanidade olha para os lados, perdida. O pó das utopias é insuficiente. Não direciona os passos nem promete coisa alguma. Apenas testemunha o que ruiu.

Resta perguntar: para onde vamos? Com espanto, não com cinismo. Talvez da incerteza surja algum alento. Talvez nalgum asfalto brote uma flor. Talvez uma resposta poética desafie nossa era de eficácias momentâneas. Talvez, talvez, talvez.

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz. Mas há também enormes desertos nos entremeios do ódio, demandando os contrapontos da presença, do afeto e do acolhimento. Se bem que isso nunca deixou de ser.

Agora resta habitá-los.

Imagem alterada da contracapa do LP "A Rosa do Povo", de Martinho da Vila

Imagem alterada da contracapa do LP “A Rosa do Povo”, de Martinho da Vila

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Vivemos tempos estranhos. Em dois protestos contra o governo federal, ocorridos nos dias 15 de março e 12 de abril, manifestantes tiram selfs com as PMs. Como atos de cidadania, são protestos legítimos. Chama a atenção, no entanto, a cordialidade das polícias nestas manifestações. Dada a história de truculência de nossas polícias, talvez fosse de se esperar algum tipo de repressão em atos tão grandes contra um governo e contra uma ordem vigente — as manifestações abrigaram diversos lunáticos pedindo intervenção militar. Pouco menos de duas semanas depois do segundo desses protestos, porém, numa grande passeata de professores em São Paulo (bom, é verdade que os números, como usualmente ocorre, variam de acordo com quem conta…), um enorme contingente policial bem menos amistoso claramente intimida quem vai às ruas.

Mas o paroxismo chega ao máximo quando vemos as imagens da recente brutalidade — que alguns insistem em chamar de “confronto” — cometida pela PM paranaense contra professores que se manifestavam, também contra um governo, mas dessa vez o governo local. As imagens chocam o país, embora infelizmente só mostrem a polícia sendo… polícia. Infelizmente, o ocorrido não é uma exceção. Num outro caso recente, com menor repercussão — e certamente menos aparatos de guerra — a guarda municipal agiu de forma assemelhada, na prefeitura de Goiânia, contra professores em greve. E vendo os vídeos e as imagens mais recentes da repressão policial em Curitiba, talvez não seja tão difícil entender que, em manifestações que pedem algumas sandices como “basta de Paulo Freire”, os manifestantes se animem em aplaudir e tirar fotos com a polícia.

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Non, pas Charlie… Pardonnez-moi.

Algumas vozes veem que o “confronto” (essa detestável palavra eufemística para repressão policial) entre professores e a PM é mais um motivo de louvar os manifestantes dos dias 15 de março e 12 de abril, que não precisariam entrar em confronto com a polícia para lutar por um Brasil melhor — sim, em algum lugar cheguei a ler isso! Essas mesmas vozes questionam, num indisfarçável tom inquisitorial, se isso que aconteceu no dia 29 de abril é que seria uma manifestação “pacífica” de “professores” — as aspas aqui não são minhas. Curiosamente, entretanto, as manifestações de 12 março e 15 de abril foram marcadas por um tom bem raivoso e testemunhou — não poucas! — hostilidades contra vozes discordantes. Talvez até agressões contra portadores involuntários de cores dissonantes, de acordo com certo relato insólito de suposta agressão a um cachorro com um lenço vermelho — relato que pode até ser falso, mas vivemos tempos em que não é possível distinguir bem a realidade de certos absurdos

Mas não há como negar que as manifestações contra o governo federal foram bem pacíficas, se comparadas com tantas outras ocorridas nos últimos tempos — das primeiras do Movimento Passe Livre em 2013 às recentes dos professores paranaenses. Para mim, isso demonstra que manifestações podem ser bastante violentas especialmente se um determinado agente se empenhar em disseminar o “vandalismo” e o terror. Esse agente é a própria polícia.

Em 2013, quando a polícia paulista resolveu se retirar de cena, talvez apostando que sem sua presença os protestos acabariam ficando incontroláveis, o que se viu foi exatamente o contrário. Já nas recentes manifestações, a simpatia mútua entre PM e manifestantes, nas passeatas de 12 de março e 15 de abril, permitiu que, mesmo estando exaltados os ânimos, os incidentes violentos não tomassem grandes proporções.

Quando falo assim da polícia, não estou falando particularmente contra um ou outro policial. Afinal, sempre esperamos encontrar exceções. Aliás, de acordo com informações imprecisas, prontamente negadas pelas autoridades, 17 policiais paranaenses neste recente episódio de violência policial mereceriam não só aplausos, mas também assistência da sociedade para se defenderem da própria PM, ao supostamente serem presos por se recusarem a cumprir ordens. Ao dizer que os verdadeiros “vândalos” em manifestações são as forças policiais, o que critico é essa máquina de obediência cega que estrutura nossas polícias militares, o que favorece a disseminação da banalidade do mal. Talvez contra professores (nesta semana), contra jornalistas e contra estudantes (em 2013) a ação da polícia cause assombro e comoção. Mas essa forma de agir faz parte de sua lógica. E os massacres diários da polícia contra a parcela mais vulnerável da população, em especial contra pessoas negras, confirmam isso. A permanência da tortura como método de investigação também.

Nesta semana, a PM ensinou aos professores no Paraná uma dolorosa lição que certamente eles já conheciam. Na carne dos professores, foi novamente demonstrado que violência é o outro nome do trabalho das PMs. Ficou claro ainda que elas existem para coagir. E não para garantir alguma segurança a todos. Claro que quem está no poder busca minimizar o absurdo. O governador do Paraná, Beto Richa, ainda tentou defender o injustificável. “Os policiais ficaram parados protegendo um prédio público, conforme determinação do Judiciário. Na medida em que os manifestantes avançam nos policiais, eles têm de reagir, até numa proteção de sua própria vida”, afirmou. Faltou apenas combinar com os fatos, para que eles não desmentissem tão claramente sua fantasia. Acho que a eloquência do vídeo abaixo basta para evidenciar isso.

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O homem que diz “sou” não é
Porque quem é mesmo é “não sou”
(Vinicius de Moraes / Baden Powell – Canto de Ossanha)

Fabrico coletivamente um
indivíduo.
Importo peças do outro
lado múltiplo do ego.

Escolho ou subverto
predefinições.
Enquanto o tempo corporalmente escorre,
crio-me e retalho-me;

logos sou.
Laboro-me e me elaboro
pela tão íntima
palavra pública.

Torno-me
torno-me
entorno-me
sem nunca

no entanto vir a ser.

Pintura em Tela - Magda Colares

Magda Colares – Pintura em Tela

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Ouve a estrutura da palavra,
o antes e o porquê
de sua existência.
A palavra é pomo
do corpo.

Morde essa fruta.
Sente os significados
escorrendo da substância significante,
perpassando plurívocos pela língua
e expandindo pelo ar
tuas histórias, tuas mentiras,
teus segredos, tuas ideias,
tuas verdades, teus desejos
tuas gagueiras e tuas sinapses.

Celebra a palavra.
Ela é feita de teu sangue,
tua carne, tuas gosmas, tuas secreções
e de tudo o que te alimenta.
O verbo escapa das tuas entranhas,
é pedaço teu
como um coração, um fígado, um rim.
O logos testemunha teu desejo
imortal diante da finitude
de tua matéria
em combustão nos tempos.

Acende o corpo
na floração
do que gozas,
sentes,
ou enuncias.

Jules-Élie Delaunay - Sapho embrassant sa lyre

Jules-Élie Delaunay – Sapho embrassant sa lyre

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(para Sândrio Cândido)

Chamo a Deus
No semblante amorfo da música.
(Hirondina Joshua – “Ignoto Deo”)

Meu sagrado
não tem nome
nem forma,
desconhece teologias
e templos.
Seu altar é erguido sobre o corpo
da dúvida.

Invoco as incertezas
para louvar o que não sei.
Meus deuses se irmanam ao mistério
do impronunciável.
São fugazes como hipóteses e colcheias.
Ressoam na beleza, na dissonância
ou num acorde imperfeito e menor.

Minha divindade
é aquilo que sou:
um cosmo parido do caos.
Ela se alimenta à insaciedade
do que sinto e penso,
e goza os espasmos efêmeros
de nossa finitude.

Gozo santo
antes do silêncio
— ou simplesmente vida —
é um dos nomes disso
que adoro.
A fecundidade de cada palavra
ejacula a existência de um deus.

Encontro a transitoriedade do divino
no sorriso ou no abandono,
no júbilo ou na lágrima.
Acendo velas
e esboço litanias
para o que se esconde
atrás da amplidão do horizonte.

Cultuo pela agnosia
essa divindade multiface,
engendrada plural e corpórea,
que faz dançar a poeira e o tempo.
Dela, só se aproximam,
por um impalpável êxtase,
os hesitantes.

Os impronunciáveis nomes do que venero
se afugentam de dogmas
e se velam
atrás de manhãs
ou de epifanias,
onde comungo meu culto incréu
com místicos e hereges.

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