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Archive for the ‘Quinzenário’ Category

Vislumbres

Vem do fruto proibido
nossa herança original —
esse dom de presciência
da implacável finitude

contra a qual, porém, lutamos.
Se tudo são incertezas,
é demasiado humano
nossa luta por sentidos.

O corpo de nosso tempo
não está ao nosso alcance —
só se dá em perspectiva.

Caos são pequenos vislumbres
dessa máquina de instantes
que é o espírito do tempo.

quinzenario0047

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(para Marcelo Tosta)

Tão doce é correr estrelas!
Doce é tocá-las, é vê-las
nos sonhos em profusão.
Todas elas, ao meu lado,
vêm-me trazer o pecado
na forma de contrição.

Doces são esses teus olhos
que vêm banhados com óleos
de sagrada inspiração.
Quero retirar das lavras
que são as tuas palavras
os sonhos que me virão.

Cada ato, cada cena
dessa vida é um poema
perdido na viração.
Desde o proscênio à ribalta
tua vida verde salta;
vermelhos, teus sonhos vão…

Das ostras que pelos mares
ou rios tu espalhares
(filhas de padre elas são!)
as histórias quero ouvir.
Com as ostras desejo ir
conduzido pela mão.

Ouvir tuas filhas nuas
segredando-me, nas ruas,
alguma suave canção
é ver que o teu vasto orgasmo
— e com isso é que eu me pasmo —
semeia a tua criação.

– 10 / XII / 1998

[Do livro “Poemas para serem encenados” (Casa do Novo Autor Editora, 2008).]

Marcelo Tosta: "Pedro febril"

Marcelo Tosta: “Pedro febril”

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Cantares

Canto cada
acaso,
cada canto
da casa.

Cada lágrima
que rio
me deságua
num canto.

Conto a vida
que canto
e o meu conto
é canto

diverso.
Quem versa
sobre o canto
encanta?

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Do imoral

Defendo a imoralidade
dos passeios à beira-mar,
dos beijos apaixonados em praça pública,
dos ócios do orifício.

Ajunto-me ao que não presta,
ao que é inútil como um verso.
Faço proselitismo de gozos
e prego valores torpes como o riso
…………………………………………….a palavra
…………………………………………….o amor.

Desejo afeto gratuito,
despido da moral dos cínicos
…………………………..dos sádicos
e que desejo nenhum
seja violado.

Que não reine sobre o corpo
o vil metal.
E fogueiras não ameacem
a floração dos quereres,
pois indecente é subornar sorrisos.

Sustento o imoral,
porque a moral
………………………… e os bons costumes
exterminam a faculdade
de não saber
e se perguntar
sobre o porquê das coisas inexplicáveis.

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Talvez seja o conto um irmão misterioso da poesia, como aponta Cortázar. Sua raiz aparece híbrida. Por um lado, o primeiro intento que se mostra ao leitor é narrar uma história. Uma história qualquer, um acontecimento — por vezes banal — entrevisto de relance nos olhos de um passante. Sua forma é breve. E, no pouco espaço que se tem para narrar, é preciso torcer a linguagem para extrair dela a maior expressividade possível. Como ocorre também na poesia. E como também ocorre na poesia, o conto sobrepõe imagens que amplificam sua densidade. Testemunham isso os caminhos a que conduzem o leitor narrativas como as que falam da simples visão de um jaguar — se é que algo pode ser simples em Borges — por um prisioneiro indígena (em “A Escrita de Deus”, de Jorge Luis Borges), da singela identificação de uma menina com um cachorro, ambos ruivos (em “Tentação”, de Clarice Lispector), ou de um vaqueiro bêbado que tem a vida salva por um burrinho, única e humilhante montaria que lhe sobrara (em “O burrinho pedrês”, de Guimarães Rosa).

Raiz Forte” (Patuá, 2015), livro de contos de Edson Valente, traz ao leitor essa experiência poética que está escondida nos entremeios de enredos muitas vezes simples, ou até de sugestões de histórias. Seus contos são, sem dúvida, irmãos misteriosos da poesia. Erguem-se em diversas elaborações narrativas que não contam, não entregam tudo. Que revelam o essencial naquilo que não é dito, que escapa à sequência de fatos narrados, que se dá a ver pela forma, pela linguagem, pela sugestão e pela elaboração poética. E fazem da raiz desse livro, além de forte, híbrida — uma escritura em prosa escancarada ao poético, criando uma experiência em que pouco se distingue narração de arrebatamento.

Na dedicatória do meu exemplar, Edson diz que seus contos foram inspirados em pessoas que viu na rua, algumas que chegou a conhecer e outras de que nunca soube da existência e que lhe surgiram em devaneios. Vê-se bem que, mais do que extrair histórias de seus personagens, o autor explora sobretudo as sensações que essas “personas” (observadas, conhecidas ou devaneadas) têm potencial de causar no leitor. Já no primeiro conto do livro, o arrebatador “Nó na garganta”, percebemos que as histórias, ou os fragmentos delas, estão a serviço de uma poética da prosa. Nessa história, o nome de uma moça, raro como uma joia (no entanto, jamais mencionado) é mote para uma sobreposição de imagens fortíssimas e por vezes desconcertantes. Do nome da personagem, o leitor sabe que “não existia outro igual, e ele a marcara já nos tempos de primário, um oásis verbal em meio à proliferação de batismos tão repetidos, de tão pouca inspiração”.

Se o leitor é bem recebido logo no primeiro conto, a conquista definitiva não tarda. O segundo conto do livro, “Ilha do Soim”, me soou como uma obra-prima. Trata-se do luto de uma mulher, que fica “mascando as sobras dos sonhos” após perder o marido picado por uma cobra. A história acompanha-lhe o itinerário de solidão, sobretudo após os filhos se tornarem “histórias de viajantes, escafedidos em confins que não lhe cabiam na percepção”, enquanto ela permanece “plantada nos dias”, “colhendo ressonâncias de um rastro esmaecido”, pois a única coisa que lhe resta são “suas tocas, envenenadas pelo traiçoeiro e silencioso bote das lembranças”. Talvez esse conto ecoe a ambiência de um Guimarães — impressão essa reforçada pela escrita poética. Mas são ressonâncias longínquas como harmônicos no timbre da voz de um autor com entonação e poesia próprias.

Seguindo o fluxo das narrativas, constataremos que a voz de Edson Valente é a voz de nossos dias — por vezes fragmentada, como em “Wasabi”, noutras decadente, como em “Bodas” e “Estefânia”, noutras ainda metalinguística, como magistralmente ocorre em “Direitos reservados”. Há também histórias que evidenciam a crueldade dos tempos, como “Não chores por mim” e o belíssimo “Osni”, sobre uma travesti que fazia pouco da “virilidade da estirpe” e “esfregava em público o próprio corpo, no auge da anarquia hormonal”. Na imagem inicial desse conto, ela se imagina como um bebê dividido por um serrote — “inteiro, pela metade”. Evocação do “Visconde partido ao meio”, de Calvino?

Frequentemente leituras me levam ao comentário. É o que ocorre nas diversas resenhas aqui publicadas — incluindo essa. Mas há leituras que me pedem como resposta uma criação literária. Foi o que ocorreu quando comecei a ler Hilda Hilst — antes que eu lhe terminasse o primeiro livro, já estava rascunhando versos em cadernos. Ou com o livro “Jardim minado” (Patuá, 2014), de Pedro Tostes, que me levou à escrita de um poema homônimo.

No caso de “Raiz Forte“, a forma da escrita de “O último metrô” e o tema do suicídio explorado em “Meu tio” (os dois lidos em sequência, já no fim do livro) me levaram a resgatar uma ideia antiga para um conto, que estou em vias de concluir. Desde que terminei a escrita de meu livro “Trítonos — intervalos do delírio“, eu não havia roçado na escrita de um conto sequer. Talvez por ainda estar envolvido e precisar me despir das histórias, dos personagens e da temática do meu livro contos que, como o “Raiz forte”, também foi publicado em 2015 pela Editora Patuá. Portanto, além de todo o prazer que tive, como leitor, devo também isso ao livro do Edson Valente: o ensejo para uma nova escrita. E cada nova escrita me leva a recomeçar a ser escritor. Não do zero, evidentemente. Mas sempre tateando novas possibilidades de dizer.

Raiz, forte, de Edson Valente (Patuá, 2015).

Raiz Forte, de Edson Valente (Patuá, 2015).

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(em resposta indireta a Pedro Tostes)

Chamar de puta
o despautério da poesia.
Contar da luta
no cemitério da razão.

Voz desafinando
o coro dos contentes,
onde não cantam aqueles
que mascam balas de borracha
ou que beijam na boca,
bem gostoso,
a própria insanidade.

O verbo fundamenta
a carne das luzes
e das gentes.

Nau a vagar
por um caudaloso rio
que irriga o jardim minado,
onde flores
são sóis ou pequenos universos
que se abrem
a perfumes diversos.

Tomar cicuta
levando a sério uma sentença.
Com a pá – lavra enxuta –,
jogar húmus na semente do verso.

Jardim Minado - Pedro Tostes (Patuá, 2014)

Jardim Minado – Pedro Tostes (Patuá, 2014)

Enquanto leio, costumo ser alcançado pela poesia de duas formas distintas. Há versos que me exigem silêncio, para que eu adentre entorpecido em seus desvãos. E há outros que me pedem resposta imediata, às vezes antes mesmo que eu termine a leitura. Os poemas de Jardim Minado, de Pedro Tostes (Patuá, 2014), pertencem a esse segundo grupo. Seus versos me provocaram a tal ponto que exigiram que eu não me calasse diante deles. Exigiram minha voz, engendrando os sentidos abertos ao leitor a cada estrofe, a cada palavra.

O poema acima foi escrito como uma resposta em versos a esse livro. E para saber mais sobre ele, visite a página do Pedro no site da Editora Patuá.

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