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Archive for the ‘Quinzenário’ Category

Se eu acreditasse num deus

se eu acreditasse
num deus

não seria no seu

que se vinga para sempre
da ignorância
e da fragilidade humanas

que demanda louvores uníssonos
ou destina quarenta virgens
para serem eternamente
estupradas por assassinos
que explodem pessoas aleatórias
e o próprio templo-corpo
em nome da pureza da fé

que é menos capaz
de acolher o múltiplo e o diverso
do que a própria humanidade

que não ri condescendente
das estranhezas do comportamento humano
como pais riem
dos pensamentos pueris
de seus filhos pequenos

se eu fosse tocado pela graça
de crer em alguma coisa para além
da agnosia
minha divindade seria

mais mãe do que pai
mais Gaia do que Yahweh
mais terra do que céu
mais água do que fogo
mais fecundidade do que ascese
mais mística do que dogma
mais andrógina do que máscula

mais amor

do que o amor condicional
dos deuses
em que jamais fui capaz de crer

Gaia - Desktopography 2012, by TheLGX

Gaia – Desktopography 2012, by TheLGX

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Eu aprendo a escritura de um poema
de novo, a cada vez que me defronto
com a página em branco. No confronto
entre o corpo de versos e um esquema

prévio, minha poesia se reinventa.
Ela habita os silêncios matutinos,
os vermelhos da aurora, e os desatinos
de quem ri, de quem chora e de quem venta.

Assim eu participo da matéria
de que os sonhos são feitos. E me faço
criador brincante dessa forma etérea

de eternidade órfica que, um dia,
num arroubo ou num grande descompasso,
incerto alguém propôs chamar poesia.

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Frequento orvalhos,
essas formas úmidas
do silêncio.

Habito a pele das folhas.
Na hora mais silente da madrugada
eu me banho do escuro da noite.

Exalo aromas ressonantes,
quando fio o avesso do verbo
que cria o que sou.

Enquanto sou,
soa um silêncio essencial
chamado solidão.

Invento só,
banhado por minhas noites.
Mas a matéria espessa

dos silêncios consonantes

fundamenta auroras
e solares sentires.

quinzenario0049

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ei, poeta! me conte sobre suas certezas, suas convicções poéticas?
(Carla Diacov)

 

Repara no corpo
das palavras empilhadas
verso a verso,
estrofe a estrofe –

ali dentro reside
o avesso de um aedo órfico.

Poesia é a dança
de um deus niilista
despindo-se da (in)utilidade
das palavras dos homens.

Para o movimento, os sons
delineiam sentidos.

Ouve a melodia silente
ressoando nas formas das letras
e nos entres das linhas.
Ela te convoca

para uma contradança
de fremir as carnes.

Poesia é o cosmo
que se engendra quando
aquele que será
diz: “faça-se”!

E na lucilação da palavra
o corpo se a(s)cende.

Poesia é atirar-se no abismo,
aceitando esta ética do acaso
a tecer um caos de formas.
Ao erguer e desmanchar paradoxos,

a criação vive
a incerteza da página em branco.

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I
Querer o mundo

Querer o mundo sem saber a forma
de o querer é querê-lo mesmo assim?
Bem sei que o meu desejo a si transforma,
mas qual a forma de o querer em mim?

Todo desejo sempre a si deforma
e adorna num desejo alterno afim.
Sei que todo querer não se conforma,
conformar-se é encontrar o próprio fim.

Às vezes meu querer, tão inconfesso,
se confunde com aquilo que é querido
e se confunde, enfim, com o próprio excesso

de mundo que os ouvidos meus escutam.
Eu tenho o mundo em tudo quanto é lido
e nisto os não-vividos se executam.

II
Pensar o mundo

É mais fácil viver num mundo cheio
de verdades vazias, ver o eterno
céu azul de uma infância sem recheio
de um real que também possui inverno.

Eu, quem quis o mundo, enfim achei-o
num ato tão contínuo quanto interno,
que só se justifica pelo meio
– é sem fim – e que em mim faz céu e inferno.

Pensar é padecer no paraíso!
Penso que pensa quem não tem juízo,
pois cultiva um prazer que é quase estoico.

Eu chego a acreditar na humanidade
e até que neste mundo há bondade.
Ao pensar eu me sinto paranoico!

III
Fazer o mundo

Somos todos uns loucos arquitetos
enchendo de futuros o universo.
O mais concreto dentre os meus concretos
às vezes faz tijolo de um meu verso.

Ao moldar meus objetos mais diretos
eu migro ao que é futuro e ao que é diverso.
Eu corro por alguns caminhos retos
à tangente presente do universo.

Tijolos de um futuro antecipado
e que pode jamais acontecer
eu utilizo no fazer o mundo.

E este mundo por mim mal tracejado,
que pode um sofisma vir a ser,
é aquilo que me resta de fecundo.

___
Do livro Poemas para serem encenados (2008).

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Quando nos lançamos num caminho de leitura, não me parecem valer muito cartografias, mapas e guias de viagem. A experiência de perder-se entre linhas toca o incomunicável. Toda preparação prévia, bem como toda elaboração posterior diante do lido, consegue adicionar novas camadas à experiência. Mas é no encantamento que se tem quando se percorre os caminhos de uma obra que reside o mistério. E cada autor guarda consigo os segredos que adicionam sabores e temperam um texto. Talvez seja o desejo de se aproximar desse encantamento que levou Barthes ao conceito de textoleitura, que diz respeito a uma forma específica de se entregar ao ato de ler. Em lugar de se debruçar na busca das verdades inerentes ao texto e às suas intenções, Barthes propõe “ler levantando a cabeça” para sistematizar as digressões e os momentos em que se interrompeu a leitura para interrogá-la.

Sem vista para o mar“, de Carol Rodrigues – que tem o belo subtítulo “contos de fuga” –, pede isso o tempo todo ao leitor: que ele levante a cabeça e, num assombro, interrogue a obra. É assim desde a primeira frase, quando nos deparamos com a síntese do personagem principal da primeira história: “Ele não existe e de repente ele existe.” Quando enfim é possível sair dessa frase-armadilha, somos informados de que “Faz cinco dias foi jurado.” E acompanhamos um adolescente de uniforme escolar, que segue o mais longe que seu pouco dinheiro e o mapa que tem conseguem lhe levar. O personagem acaba fazendo o caminho da leitura, indo para “Onde acaba o mapa”. Quando termino esse conto o livro me espera, mas estanco após sua leitura. Preciso relê-lo. Não para que o entenda – tudo nele é de uma simplicidade precisa, o roteiro, as estradas e lugarejos, o uniforme de escola pública que o garoto usa, o desfecho, as revelações e os sonhos. E tudo nele é imenso e nos convida à imensidão. Sentimos o mundo reverberando essa história. “Saindo de casa era grande, grande o mapa, sem bordas, só curvas que davam noutras curvas noutros beiços noutros braços”.

Sigo adiante, depois da releitura, pegando carona em histórias e estradas diversas, repletas de delicadezas e brutalidades, sujeiras e sonhos. Alguns contos depois, estanco novamente. No conto que dá título ao livro, acompanho a primeira história que não passa por estradas. Cheia de uma ternura infantil, mas também de uma dureza que atordoa como um ofuscamento, ela nos narra a história de um menininho apaixonado pelo pôr-do-sol. Depois dela, voltamos para a estrada.

Porque é justamente nas estradas que grande parte das histórias de “Sem vista para o mar” acontece. Por elas, passam caminhoneiros, travestis, ladrões de carga, noivas fugidas, criminosos, viciados, aposentados. A partir delas, nos deparamos com ansiedades adolescentes, crueldades, dores, medos, alegrias, sonhos, prazeres, amores, angústias, desesperos, desejos, além de sensações inominadas. E cada história, cada narrativa compõe uma sequência que se encadeira – pensava eu que em redor de estradas e mapas – até que o último conto parece abrir o livro, fazendo os caminhos que se bifurcam cruzarem-se novamente. Como se eu estivesse assistindo a uma sequência de road movies que, no fim, se revelasse uma única e grande viagem.

Ainda que o livro tenha me alertado de que eu estava adentrando no terreno “onde acaba o mapa”, eu segui em busca de indícios que me confirmassem o que eu já sabia sobre o livro. Sabia que “Sem vista para o mar” conquistou, na categoria contos, a 57ª Edição do Prêmio Jabuti e o Prêmio Literário da Biblioteca Nacional. A própria orelha me adiantava informações. Nela, Ivana Arruda Leite sinaliza que os contos “se encadeiam como elos de uma corrente que se fecha no final, circunscrevendo o mundo particularíssimo de Carol Rodrigues”.

Mas o livro é soberano: não existe mapa para a leitura. Tanto que, mesmo sendo alertado sobre o mecanismo do livro, ainda me espanto com o que ocorre em seu ponto (ou conto) de fuga. “Questões ultramarinas” opera uma inversão no ponto de vista, na perspectiva narrativa, trazendo o foco para um personagem que era secundário em contos anteriores. Só ali, me dei conta da recorrência daquele personagem em outras histórias. Fui procurar refazer esse percurso, para constatar o que já me havia sido dado e eu não vi. Senti-me quase que voluntariamente enganado por uma ilusionista que, na minha frente, some com uma moeda e a retira por trás de minha orelha. Onde estava a moeda? Em mim, mas não a senti, a não ser quando ela se evidencia novamente.

“Carol Rodrigues é um assombro” – nos alerta a primeira frase da orelha do livro. Mas ela não vale como alerta, e terminamos o “Sem vista para o mar” cheios de assombro e espanto, por termos vivido uma experiência de leitura avassaladora e repleta de epifanias. Ainda assim, tateio esse texto para organizar minhas impressões, mas tenho certeza de que ele vale pouco em confronto com a experiência de passar pelo livro. Por isso, se posso dizer algo a partir daqui, é: façam essa viagem!

quinzenario0048-semvistaparaomarSem vista para o mar
(contos de fuga)
Carol Rodrigues
V. de Moura Mendonça Livros | Selo Edith – 2014
124 páginas
978-85-66423-19-8
Mais informações: clique aqui.

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Há onze dias, a ministra Cármen Lúcia foi eleita para assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. Naquela sessão de 10 de agosto, o atual presidente daquele Tribunal deixou no ar a pergunta se ela preferia ser chamada de presidente ou presidenta:

– Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita… ou presidente?

Cármen Lúcia deu uma resposta em que era clara sua intenção de marcar distância da presidenta Dilma Rousseff.

– Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não?

A resposta da ministra, além de marcar esse distanciamento (político) da presidenta, hoje afastada por um processo de impeachment, usa uma crítica bastante comum desde que Dilma assumiu a presidência, em 2011, e optou por ser chamada de presidenta. Essa crítica busca associar a escolha da presidenta à ignorância, como se ela não tivesse sido estudante ou não tivesse apego à “Última flor do Lácio, inculta e bela”, como Olavo Bilac se refere num poema à língua portuguesa.

Pode-se, como a ministra Cármen Lúcia, preferir o uso de “presidente” também para mulheres. Pode-se tentar afirmar que o termo, por ser comum de dois gêneros, efetivamente alcançaria uma espécie de “neutralidade” (num país que ocupa o 121º lugar no ranking de participação feminina na política, de acordo com a ONU). Mas não é possível fazer dessa opção política (num tempo de polarização partidária) uma mera opção linguística, como tenta fazer a ministra do STF, e como fizeram muitos dos que criticaram a opção de Dilma pela forma feminina da palavra, como se essa opção fosse fruto da (suposta) ignorância ou falta de estudos da presidenta.

Parece que o grande argumento dos que não gostam da opção de Dilma (e que, curiosamente, também são muitos daqueles que não gostam dela políticamente) seria a inexistência da forma feminina em muitas palavras semelhantes a “presidente”. Em outras palavras, não existiria “presidenta” porque não há “adolescenta” ou “serventa”.

Esse tipo de argumento tenta mostrar os processos linguísticos como equações matemáticas, embora as línguas sejam pouco ou nada cartesianas. Palavras têm histórias que às vezes subvertem a lógica, novas línguas se formam do rompimento das regras de línguas mais velhas (o português nasce da “degeneração” de regras do latim, assim como o italiano, o francês e o espanhol). Talvez por isso mesmo o chamado príncipe dos poetas a chame de “inculta e bela”.

E por falar em “poeta”, é interessante notar que essa palavra acabou fazendo durante um tempo o caminho inverso à palavra “presidente”, sendo seu uso como substantivo de dois gêneros preferido à forma feminina poetisa. Talvez por isso mesmo, entre quem não gosta de “poetisa”, ninguém diga que a palavra não existe simplesmente por não existem “atletisa” ou “estetisa”.

Ao compreendermos que palavras têm história, podemos entender o porquê de certas escolhas. Enquanto a forma feminina “presidenta”, em lugar do comum de dois gêneros “presidente”, testemunha a urgência de se transformar a política num lugar que abrigue igualmente homens e mulheres, a palavra de dois gêneros “poeta”, em lugar de “poetisa”, talvez lembre que aquela que escreve versos não pode ser diminuída diante daquele que exerce  mesmo ofício. Em fins do século XIX e início do XX, tornaram-se populares tanto em Portugal quanto no Brasil saraus lítero-musicais de senhoras. Como nessa época, as leituras comumente recomendadas às mulheres eram a Bíblia, livros de receitas, revistas femininas e romances água-com-açúcar, eram raras as mulheres que fugiam a lugares-comuns nesses saraus. E o termo poetisa acabou muito associado a esses eventos e à poesia de qualidade ruim que comumente se produzia neles. E para fugir desse esteriótipo, era comum que escritoras em versos de grande fôlego preferissem ser apontadas como “poetas”, e não como “poetisas”.

Curiosamente, Florbela Espanca foi uma frequentadora desses saraus. Mas, diante da força de seus versos, o escritor António Ferro buscou distanciá-la do que ele chamava de “poetisas de colmeia”, e a “promoveu” num ensaio à categoria “poetisa-poeta”. E pelo que me parece, diante das grandes poetas (ou poetisas?), a crítica frequentemente se comportou assim, preferindo apagar o caráter feminino dessas autoras e afirmando que poetas não têm diferença de sexo. Evidentemente, em resposta a isso há também aquelas autoras que preferem se identificar como “poetisas”, e não como “poetas”.

Mas voltando ao tema desse texto, “presidenta” não foi uma invenção de Dilma ou do partido pelo qual ela se elegeu. Consta em minha edição do Houaiss, de 2009 – anterior à sua eleição, portanto. Tenho ainda uma edição do Aurélio tão velha que está sem imprenta, mas tenho razões para crer que é anterior à Constituição de 88. Nela também se lê a palavra “presidenta”. E Pasquale, num artigo recente escrito para a Folha de São Paulo, fala de um dicionário de 1913 que registra “presidenta”, então como um neologismo.

A ministra Cármen Lúcia, na presidência da mais alta corte do país, pode preferir ser chamada de “presidente”. Mas o cargo é “presidente” ou “presidenta”. Até mesmo Machado de Assis usou a palavra “presidenta” numa obra sua (portanto, em 1913, ela já era um neologismo um tanto velho!). E não foi numa obra qualquer de juventude, ou nalguma crônica mais descuidada de jornal. Como a ministra é amante da língua portuguesa, eu a convido a reler o capítulo LXXX de uma das principais obras machadianas, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Neste capítulo, Brás Cubas se encontra como Lobo Neves, que acaba de ser nomeado presidente da província, e Virgília, grande amor de Cubas e esposa de Lobo Neves. O novo presidente da província oferece a Brás Cubas um cargo político de secretário. E lá no último parágrafo desse capítulo, lemos:

Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1988, p. 141.)

No entanto, a opção de Cármen Lúcia, evidentemente, é uma opção política. Certamente ela não ignora os registros da palavra “presidenta” nos dicionários. Mas a chamada norma culta é apenas um dos registros possíveis da língua. E quem está acostumado a ler a língua empoeirada escrita nos processos que correm pelos tribunais de todo país sabe bem o quanto todo juridiquês e seu latinório costumam andar propositalmente distantes desse organismo vivo.

Gosto de pensar nossa língua como o eu-lírico do poema “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, quando diz: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”. Isso porque palavras não passam a existir apenas quando estão em estado de dicionário. Elas são registradas nos dicionários porque existem, por serem usadas na língua viva do povo, por se encontrarem registros de seu uso. E essa luta por existência e legitimação não deixa de ser um ato político de certos grupos falantes. Assim como é um ato político que tenha sido necessária a eleição de uma mulher para a presidência do Brasil para fazer com que a palavra “presidenta”, presente até mesmo em Machado de Assis, mas que até então existia mais como uma possibilidade linguística, ganhasse a concretude das ruas na língua certa do povo.

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