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Archive for the ‘Poemas’ Category

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forma delírio escrita primeiro
intervalos dessa amada leitura
hoje espécie livro
meio poema alegria
anos projeto poesia

leitor ainda

fazer trítonos exatamente palavras
patuá desse ontem
conto vida
publiquei sentidos

editora laboratório

(com Roberta Tostes Daniel, Fabiana Turci, Laboratório dos sentidos, Trítonos – intervalos do delírio e Editora Patuá)

Essas são as palavras que mais uso no Facebook. Quais são as suas?

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(em comemoração conjunta dos meus 38 anos e dos 81 anos de Hermeto Pascoal)

I

Ele conhece a intimidade do som,
as frequências brincantes
de cada nota.

Quase posso tocar
no ar
a cadência hermética

do impossível.

São sons de se ouvir
com a nuca.

II

Ele pega um compasso
e divide
e distorce
e retorce.

Acelera, ralenta, breca
ad infinitum.

III

Ele sabe que é possível extrair
a magnitude de cada
objeto.

Afinar brinquedos,
ritmar tamancos,
descobrir a embocadura
de uma chaleira

e fazer de qualquer coisa
matéria de soar.

IV

Ele joga com as notas,
empilha várias delas
e dança com suas durações.

Em seus jogos herméticos,
a única verdade
do som é o corpo
que o produz

e determina

suas inúmeras qualidades
e efeitos.

V

Ele improvisa a chuva
que mareja os olhos
a partir dos ouvidos.

Diante do milagre
do som, compreendo
que música é coisa
de criança

eterna.

Toda brincadeira é imensa demais
para não ser levada a sério.

VI

Ele entende do trítono,
esse tão íntimo

intervalo do delírio.
Em suas mãos
nada desafina
e os semitons deslizam

caudalosos

como leitos de rio.

VII

Em consonância
estão também os nossos sóis.
E neste novo ciclo

que se inicia no céu
de nossa boca
(esse instrumento
de pulsos, tons e palavras),

celebro a viva certeza
de que há oitenta e um anos
(descontados os sons uterinos
e as composições placentárias)
ele se diverte

com notas
como eu

com palavras.

> São Paulo, 22/6/2017.

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os coturnos ecoam até aqui
manchando as ruas de terríveis
reminiscências

ouve a marcha dos soldados?
assinaram um papel
autorizando o emprego das forças

armadas
para quem não marchar direito

enquanto isso o concreto modernista
fincado na caatinga
por suaves linhas repletas
de eufemismos

pega fogo

no dia anterior
derrubaram um prédio
com gente dentro

quase gente talvez

e todo dia
pega fogo
chumbo quente
e bala dirigida
teleguiada, mas nunca

perdida
em distâncias tão vizinhas

o tempo é de temor
pois jamais nos recuperamos
de 1964

São Paulo, 25 de maio de 2017.

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Nessa quarta-feira (8/3), às 20h, daremos início aos encontros do Grupo de Poesia Falada, na sede da Comunidade Dedo Verde (Rua Mauro, 400, próximo da estação Saúde de metrô). Os encontros, serão coordenados por mim e pelo querido amigo Ivan Carlos Regina.

O objetivo é formar um conjunto permanente de pessoas dedicadas a discutir e desenvolver técnicas de declamação de poesia. Não se trata de Sarau, de forma que não serão trabalhados textos dos próprios participantes, pois será dada ênfase às técnicas de declamação. Dentre as atividades previstas para esse trabalho, haverá audição de poemas, bate papo sobre técnicas, oficinas de interpretação de textos, jogos e dinâmica de grupos. Todas as atividades culminarão na formação de um grupo permanente de declamação de poesia, de forma participativa.

Haverá um valor de contribuição voluntária que será revertido para a Comunidade, com sugestão de R$ 60 por mês (se constante), ou R$ 20,00 por participação avulsa. As inscrições estão abertas podem ser feitas pelo email grupodepoesiafalada@gmail.com. Convido a todos!

Primeiro encontro do Grupo de Poesia Falada
Quarta-feira, 8 de março, às 20h
Comunidade Dedo Verde (Rua Mauro, 400, próximo à estação Saúde de metrô).
Inscrições: grupodepoesiafalada@gmail.com.

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Se eu acreditasse num deus

se eu acreditasse
num deus

não seria no seu

que se vinga para sempre
da ignorância
e da fragilidade humanas

que demanda louvores uníssonos
ou destina quarenta virgens
para serem eternamente
estupradas por assassinos
que explodem pessoas aleatórias
e o próprio templo-corpo
em nome da pureza da fé

que é menos capaz
de acolher o múltiplo e o diverso
do que a própria humanidade

que não ri condescendente
das estranhezas do comportamento humano
como pais riem
dos pensamentos pueris
de seus filhos pequenos

se eu fosse tocado pela graça
de crer em alguma coisa para além
da agnosia
minha divindade seria

mais mãe do que pai
mais Gaia do que Yahweh
mais terra do que céu
mais água do que fogo
mais fecundidade do que ascese
mais mística do que dogma
mais andrógina do que máscula

mais amor

do que o amor condicional
dos deuses
em que jamais fui capaz de crer

Gaia - Desktopography 2012, by TheLGX

Gaia – Desktopography 2012, by TheLGX

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Eu aprendo a escritura de um poema
de novo, a cada vez que me defronto
com a página em branco. No confronto
entre o corpo de versos e um esquema

prévio, minha poesia se reinventa.
Ela habita os silêncios matutinos,
os vermelhos da aurora, e os desatinos
de quem ri, de quem chora e de quem venta.

Assim eu participo da matéria
de que os sonhos são feitos. E me faço
criador brincante dessa forma etérea

de eternidade órfica que, um dia,
num arroubo ou num grande descompasso,
incerto alguém propôs chamar poesia.

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Frequento orvalhos,
essas formas úmidas
do silêncio.

Habito a pele das folhas.
Na hora mais silente da madrugada
eu me banho do escuro da noite.

Exalo aromas ressonantes,
quando fio o avesso do verbo
que cria o que sou.

Enquanto sou,
soa um silêncio essencial
chamado solidão.

Invento só,
banhado por minhas noites.
Mas a matéria espessa

dos silêncios consonantes

fundamenta auroras
e solares sentires.

quinzenario0049

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