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Archive for the ‘Notas de Khrónos’ Category

“Tempo, tempo, tempo, tempo, / És um dos deuses mais lindos” – celebrar hoje quarenta anos me traz à mente esses versos de “Oração ao Tempo”. Tenho para mim que o tempo é a medida de nossas memórias. Olho para trás e vejo quarenta anos de histórias vívidas. E, navegando na nave do instante, chego a essa marca com a impressão de que olho o mundo a partir da mesma perspectiva do deslumbramento, desde que me entendo por ser no mundo.

Encaro esses vários “eus” que fui nas horas, dias, meses e anos que vivi, e sinto que essa sensação de continuidade tem muito a ver como essa perspectiva a partir da qual se olha. Isso a que chamamos interioridade, subjetividade, e que talvez responda pela forma como absorvemos, processamos e devolvemos ao mundo os estímulos que recebemos. Porque, de resto, somos a constante impermanência do vir a ser, incapazes de nos banharmos duas vezes nas águas do mesmo rio.

Fui acumulando – ou inventando – ferramentas e lentes que me ajudam a olhar para esse espanto que é o mundo, pois a imensidão da vida é maior até mesmo do que a do mar. Como o menino Diego, da bela história narrada por Galeano em “A função da arte”, que pede ao pai que o ajude a olhar a imensidão do mar, que ele avistava pela primeira vez. Ou como o menino Miguilim, que além das lentes corretivas, tentava levar em seus olhos a sagacidade do olhar de Dito, seu irmão morto, para desentender os mistérios da vida – no meu caso, levo a ausência do olhar de meu pai, que morreu na primeira década de minha vida.

Atingir quarenta anos é uma marca especial para quem foi batizado no segundo dia de vida, para não morrer pagão, e fez sete cirurgias antes dos três anos de idade. Hoje, na busca por firmar um acordo com o tempo, lembro o que ouço desde criança, que a vida começa aos quarenta, e peço no mínimo mais uns quarenta anos de caminhos, para continuar aprendendo a olhar, e uns vinte de bônus – a ideia de escrever até os cem anos é absolutamente fascinante. Quero que minhas palavras continuem a soar como vozes da própria memória. Cada vez mais rica e repleta. Enquanto isso, certamente, essa velha canção continuará ecoando em mim: “Tempo, tempo, tempo, tempo…”

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ADENDO – dia 23/06/2019

Gosto muito de fazer aniversário. Não sou de arquitetar grandes festas ou grandes celebrações. Eu, que sou uma pessoa naturalmente extrovertida, tendo a certa introspecção nesse período. Desconfio que seja porque, a cada renovação de ciclo solar, uma espécie de festa interna acontece.

Gosto muito de fazer aniversário, porque é um tempo de grande fluxo de afeto – que vem de muitas formas. Cada abraço, cada palavra dita ou escrita, por todos os meios – que se multiplicam nesse tempo de vertigem de comunicação em que vivemos –, cada manifestação de carinho acende um sol dentro.

Obrigado a cada um por trazer um pouco de fogo para acender esse sol interno, por afluir afeto, por celebrar comigo esse marco que são os quarenta anos. Vou responder aos poucos a cada mensagem deixada em tantos lugares. Mas queria deixar desde já essa resposta, ampla e repleta de gratidão, ao universo múltiplo dos afetos afluentes que me rodeiam.

Gratidão infinita… ∞ ❤🧡💛💚💙💜

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Ontem essa indagação não me saiu da cabeça: a mitificação de alguém é uma forma de desumanizá-lo? Que processos nos levam a apagar o lado humano de alguém que admiramos demais, para torná-lo uma espécie de semideus?

Anteontem à noite (25/5), fui ao lançamento do livro Estórias autênticas (Editora Patuá), do querido André Balbo, no Patuscada. Ainda não havia conseguido que o André autografasse o meu exemplar (sim, uma ótima notícia: o lançamento foi bem concorrido!), quando o Edu (Eduardo Lacerda) comenta comigo que haviam dito que o Raduan Nassar estava lá.

Meu primeiro sentimento foi um misto de incredulidade e espanto. O Raduan Nassar habita, ao lado de outros quatro escritores, uma parede da minha casa, dedicada às referências literárias mais importantes, comuns a mim e à minha esposa. Um conjunto pensado há sete anos, quando planejávamos os detalhes de como seria a nossa casa. Num tempo em que a matéria da vida quotidiana se modificava e ganhava novos significados projetados pelas emanações de sonhos em comum. Alguns dos cinco quadros que existiam originalmente na casa da Fabi emoldurariam novas fotos.

Foram conversas várias para que chegássemos a cinco nomes. Havia uma projeção de que novos quadros poderiam vir, aumentar esse conjunto, mas isso não ocorreu. Claro que certos autores já então cogitados se agigantaram ainda mais (como no caso de Ítalo Calvino) e outros surgiram assombrosamente (como Ismail Kadaré). Mas acredito que ali habitam a base do que me forma como leitor, e boa parte do que forma a Fabi (que vai muito além de mim) como leitora. Não consigo imaginar minhas palavras sem tê-los encontrado um dia. Estão lá Drummond, sentado modestamente no chão a folhear um livro próprio; Hilda Hilst abraçada com ternura a um cão; Borges com um olhar de tempestade, voltado para a incerteza; Guimarães Rosa acariciando um excêntrico rinoceronte. E, no centro, sentado numa cadeira sob uma árvore, talvez em sua mítica terra que o fez abandonar a escrita, Raduan Nassar.

Drummond, Hilda Hilst, Borges, Guimarães Rosa e Raduan Nassar habitam nossa cozinha, o lugar mais sagrado da casa.

Isso significa que aquela espécie de entidade que habita nossa cozinha, que é o lugar mais sagrado da casa, estava ali. Devo muito da minha linguagem à leitura dos livros de Raduan. Mas não teria como dizer isso a ele. Não teria como contar o alumbramento perplexo suas palavras me causaram. O quanto elas foram fundantes para o prosador que sou, e que desejo me tornar. Também não teria como dizer que a fala de um dos personagens do meu Trítonos tem toda fala construída como um fluxo, um jorro, como o vi fazendo em “Um Copo de Cólera”. E que nessa mesma fala há uma espécie de incorporação de uma trecho do “Lavoura Arcaica”, em que o personagem diz que será o profeta da própria história.

Quando fui buscar o autógrafo do meu exemplar do livro do André, numa sala mais reservada, aquela figura deixou de ser apenas um quadro na parede, e um nome na capa de livros essenciais. Diante de mim estava ele: Raduan! Desde então, fui meio que levado pelos acontecimentos. Ainda não acredito que autografei e dei um exemplar do meu Trítonos – intervalos do delírio para Raduan Nassar. Era como conhecer uma entidade mítica. E a perplexidade paralisa. Ao lado de Raduan, outra figura conhecida. Embora longe de ser mítica, é alguém que, em tempos de uma política desumana que a administração da cidade vem adotando, deixa saudoso o cidadão político que sou: Fernando Haddad.

No entanto, num primeiro momento, só consegui ver o escritor e mito. Em vão tentei balbuciar algo absolutamente banal, falando do quanto era difícil de acreditar naquele momento. Mas eu sabia que quaisquer palavras eram insuficientes. Voltei para casa eufórico, como se tivesse vivido uma experiência sobrenatural. Repleto de uma emoção difícil de explicar, mas plenamente possível de entender. Ao mesmo tempo, porém, pensava no quanto aquela euforia e aquele maravilhamento, que quase me emudeceram, nasciam da mitificação de um homem. Ao entrar naquela sala, vi um homem frágil, talvez um pouco menor que eu, feito de carne e osso, sentimentos e incertezas. Mas essa dimensão havia se apagado. Meus olhos viam apenas a figura mítica, o escritor desmedido e o personagem repleto de idiossincrasias, que largou a literatura para cuidar da terra e seus maravilhamentos. E essa figura me parecia desumanizar o Raduan homem.

Longe da emoção, penso que talvez eu devesse ter falado que sabia que toda aquela situação talvez fosse um pouco constrangedora para ele, mas que certamente ele também entendia que, como leitor, me era impossível não lhe dizer o quanto o admirava. Afinal, era ele: Raduan Nassar. Há seis anos ele habita o espaço mais sagrado da minha casa. Suas palavras me habitam há pelo menos uns quinze. E era lindo conhecê-lo ali na Patuscada, pois aquele lugar também é, um pouco, uma espécie de casa para mim…

Fernando Haddad, Raduan Nassar, Edson Valente, Eduardo Lacerda e eu.

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os coturnos ecoam até aqui
manchando as ruas de terríveis
reminiscências

ouve a marcha dos soldados?
assinaram um papel
autorizando o emprego das forças

armadas
para quem não marchar direito

enquanto isso o concreto modernista
fincado na caatinga
por suaves linhas repletas
de eufemismos

pega fogo

no dia anterior
derrubaram um prédio
com gente dentro

quase gente talvez

e todo dia
pega fogo
chumbo quente
e bala dirigida
teleguiada, mas nunca

perdida
em distâncias tão vizinhas

o tempo é de temor
pois jamais nos recuperamos
de 1964

São Paulo, 25 de maio de 2017.

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Torturas, execuções sumárias, abusos de autoridade, exclusão ou preconceito oficial, ameaças veladas ou explícitas. O Estado Brasileiro não deixou de ameaçar significativa parcela de sua população (especialmente a mais vulnerável) por nenhum dia, desde que o país se redemocratizou.

Não promovemos uma transição que se pautasse pela verdade e pela justiça. Todos que mataram em nome do Estado, em prol de um regime que teve início há exatamente 53 anos estão anistiados.

Ainda no período da Ditadura Militar, foi realizado um projeto que tentou fazer com que a memória nefasta desse tempo não se perdesse. O BRASIL: NUNCA MAIS conseguiu reunir, clandestinamente, mais de 850 mil páginas de 710 processos que tramitavam no Superior Tribunal Militar. Ele foi coordenado por dois religiosos: o reverendo Jaime Wright e o cardeal de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns.

O projeto foi responsável por ser a primeira — e talvez, até hoje, uma das mais importantes — pesquisa sistemática que revelou a violação frequente violação aos direitos humanos por parte de agentes do estado. E tudo isso, com uma característica peculiar: tais revelações eram extraídas de documentos produzidos pelo próprio Estado, autor de tais violações.

A História hoje nos mostra que esse foi um trabalho ousado, arriscado e imenso. Pode-se imaginar a dificuldade de copiar clandestinamente mais de 850 mil páginas, preservá-las e remetê-las a um local seguro, para que não se perdessem.

Tenho orgulho de trabalhar hoje numa instituição que luta para preservar e, não só isso, para ampliar essa memória. Hoje o Ministério Público Federal é responsável por manter no site Brasil: Nunca Mais digital (http://bnmdigital.mpf.mp.br/) todo esse acervo, digitalizado e indexado, permitindo pesquisas textuais nesses documentos, disponíveis na íntegra para consulta de qualquer cidadão.

No entanto, sinto que, como sociedade, falhamos terrivelmente em preservar a memória, a lembrança desse passado. “Para que não se esqueça; para que nunca mais aconteça”, como dissera Dom Paulo. Mas infelizmente não deixou de acontecer um só dia. As torturas e execuções sumárias (de culpados ou inocentes, pouco importa) continuam ocorrendo. A polícia continua vandalizando quase toda manifestação contra o status quo (isso ficou evidente em 2013, nas manifestações do Movimento Passe Livre, quando bastou a polícia se retirar, apostando no caos, e o caos deixou de existir nas ruas). Abusos de autoridades, detenções por desacato após ordens claramente ilegais e arbitrárias, tudo isso continua. O arbítrio da força ainda impera, gerando medo, dor, morte e desaparecimentos forçados.

E como a história acontece como tragédia e se repete como farsa, ganha força hoje no país um estarrecedor discurso de ódio anti-comunista, como se ainda vivêssemos em plena guerra fria. E no ano passado, em outro dia 31, dessa vez de agosto (52 anos e cinco meses depois daquele 31 de março), assistimos a mais um envergonhado golpe. Inegavelmente, algo mudou desde então. Algo difícil de precisar e cujas consequências estamos bem longe de vislumbrar agora, enquanto vivemos no turbilhão desses dias.

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Há onze dias, a ministra Cármen Lúcia foi eleita para assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. Naquela sessão de 10 de agosto, o atual presidente daquele Tribunal deixou no ar a pergunta se ela preferia ser chamada de presidente ou presidenta:

– Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita… ou presidente?

Cármen Lúcia deu uma resposta em que era clara sua intenção de marcar distância da presidenta Dilma Rousseff.

– Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não?

A resposta da ministra, além de marcar esse distanciamento (político) da presidenta, hoje afastada por um processo de impeachment, usa uma crítica bastante comum desde que Dilma assumiu a presidência, em 2011, e optou por ser chamada de presidenta. Essa crítica busca associar a escolha da presidenta à ignorância, como se ela não tivesse sido estudante ou não tivesse apego à “Última flor do Lácio, inculta e bela”, como Olavo Bilac se refere num poema à língua portuguesa.

Pode-se, como a ministra Cármen Lúcia, preferir o uso de “presidente” também para mulheres. Pode-se tentar afirmar que o termo, por ser comum de dois gêneros, efetivamente alcançaria uma espécie de “neutralidade” (num país que ocupa o 121º lugar no ranking de participação feminina na política, de acordo com a ONU). Mas não é possível fazer dessa opção política (num tempo de polarização partidária) uma mera opção linguística, como tenta fazer a ministra do STF, e como fizeram muitos dos que criticaram a opção de Dilma pela forma feminina da palavra, como se essa opção fosse fruto da (suposta) ignorância ou falta de estudos da presidenta.

Parece que o grande argumento dos que não gostam da opção de Dilma (e que, curiosamente, também são muitos daqueles que não gostam dela políticamente) seria a inexistência da forma feminina em muitas palavras semelhantes a “presidente”. Em outras palavras, não existiria “presidenta” porque não há “adolescenta” ou “serventa”.

Esse tipo de argumento tenta mostrar os processos linguísticos como equações matemáticas, embora as línguas sejam pouco ou nada cartesianas. Palavras têm histórias que às vezes subvertem a lógica, novas línguas se formam do rompimento das regras de línguas mais velhas (o português nasce da “degeneração” de regras do latim, assim como o italiano, o francês e o espanhol). Talvez por isso mesmo o chamado príncipe dos poetas a chame de “inculta e bela”.

E por falar em “poeta”, é interessante notar que essa palavra acabou fazendo durante um tempo o caminho inverso à palavra “presidente”, sendo seu uso como substantivo de dois gêneros preferido à forma feminina poetisa. Talvez por isso mesmo, entre quem não gosta de “poetisa”, ninguém diga que a palavra não existe simplesmente por não existem “atletisa” ou “estetisa”.

Ao compreendermos que palavras têm história, podemos entender o porquê de certas escolhas. Enquanto a forma feminina “presidenta”, em lugar do comum de dois gêneros “presidente”, testemunha a urgência de se transformar a política num lugar que abrigue igualmente homens e mulheres, a palavra de dois gêneros “poeta”, em lugar de “poetisa”, talvez lembre que aquela que escreve versos não pode ser diminuída diante daquele que exerce  mesmo ofício. Em fins do século XIX e início do XX, tornaram-se populares tanto em Portugal quanto no Brasil saraus lítero-musicais de senhoras. Como nessa época, as leituras comumente recomendadas às mulheres eram a Bíblia, livros de receitas, revistas femininas e romances água-com-açúcar, eram raras as mulheres que fugiam a lugares-comuns nesses saraus. E o termo poetisa acabou muito associado a esses eventos e à poesia de qualidade ruim que comumente se produzia neles. E para fugir desse esteriótipo, era comum que escritoras em versos de grande fôlego preferissem ser apontadas como “poetas”, e não como “poetisas”.

Curiosamente, Florbela Espanca foi uma frequentadora desses saraus. Mas, diante da força de seus versos, o escritor António Ferro buscou distanciá-la do que ele chamava de “poetisas de colmeia”, e a “promoveu” num ensaio à categoria “poetisa-poeta”. E pelo que me parece, diante das grandes poetas (ou poetisas?), a crítica frequentemente se comportou assim, preferindo apagar o caráter feminino dessas autoras e afirmando que poetas não têm diferença de sexo. Evidentemente, em resposta a isso há também aquelas autoras que preferem se identificar como “poetisas”, e não como “poetas”.

Mas voltando ao tema desse texto, “presidenta” não foi uma invenção de Dilma ou do partido pelo qual ela se elegeu. Consta em minha edição do Houaiss, de 2009 – anterior à sua eleição, portanto. Tenho ainda uma edição do Aurélio tão velha que está sem imprenta, mas tenho razões para crer que é anterior à Constituição de 88. Nela também se lê a palavra “presidenta”. E Pasquale, num artigo recente escrito para a Folha de São Paulo, fala de um dicionário de 1913 que registra “presidenta”, então como um neologismo.

A ministra Cármen Lúcia, na presidência da mais alta corte do país, pode preferir ser chamada de “presidente”. Mas o cargo é “presidente” ou “presidenta”. Até mesmo Machado de Assis usou a palavra “presidenta” numa obra sua (portanto, em 1913, ela já era um neologismo um tanto velho!). E não foi numa obra qualquer de juventude, ou nalguma crônica mais descuidada de jornal. Como a ministra é amante da língua portuguesa, eu a convido a reler o capítulo LXXX de uma das principais obras machadianas, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Neste capítulo, Brás Cubas se encontra como Lobo Neves, que acaba de ser nomeado presidente da província, e Virgília, grande amor de Cubas e esposa de Lobo Neves. O novo presidente da província oferece a Brás Cubas um cargo político de secretário. E lá no último parágrafo desse capítulo, lemos:

Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1988, p. 141.)

No entanto, a opção de Cármen Lúcia, evidentemente, é uma opção política. Certamente ela não ignora os registros da palavra “presidenta” nos dicionários. Mas a chamada norma culta é apenas um dos registros possíveis da língua. E quem está acostumado a ler a língua empoeirada escrita nos processos que correm pelos tribunais de todo país sabe bem o quanto todo juridiquês e seu latinório costumam andar propositalmente distantes desse organismo vivo.

Gosto de pensar nossa língua como o eu-lírico do poema “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, quando diz: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”. Isso porque palavras não passam a existir apenas quando estão em estado de dicionário. Elas são registradas nos dicionários porque existem, por serem usadas na língua viva do povo, por se encontrarem registros de seu uso. E essa luta por existência e legitimação não deixa de ser um ato político de certos grupos falantes. Assim como é um ato político que tenha sido necessária a eleição de uma mulher para a presidência do Brasil para fazer com que a palavra “presidenta”, presente até mesmo em Machado de Assis, mas que até então existia mais como uma possibilidade linguística, ganhasse a concretude das ruas na língua certa do povo.

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Panorámica de la Mano del Desierto - Desierto de Atacama (Chile)

Panorámica de la Mano del Desierto – Desierto de Atacama (Chile)

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz.

De onde vem tanta gente saudosa de disciplinar os corpos? Desejosa de impor suas normas? Empenhada em converter o mundo à sua moral? Uma moral que não acolhe, mas extirpa a diferença.

As feiticeiras continuam sendo assassinadas pela turba raivosa. Ainda que seus atos sejam boatos. As cicatrizes da História ainda estão expostas sobre a pele dos dias. Em tempos de fria desesperança, elas doem mais.

A humanidade olha para os lados, perdida. O pó das utopias é insuficiente. Não direciona os passos nem promete coisa alguma. Apenas testemunha o que ruiu.

Resta perguntar: para onde vamos? Com espanto, não com cinismo. Talvez da incerteza surja algum alento. Talvez nalgum asfalto brote uma flor. Talvez uma resposta poética desafie nossa era de eficácias momentâneas. Talvez, talvez, talvez.

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz. Mas há também enormes desertos nos entremeios do ódio, demandando os contrapontos da presença, do afeto e do acolhimento. Se bem que isso nunca deixou de ser.

Agora resta habitá-los.

Imagem alterada da contracapa do LP "A Rosa do Povo", de Martinho da Vila

Imagem alterada da contracapa do LP “A Rosa do Povo”, de Martinho da Vila

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Tendo por detrás um mundo arrasado, ele segue adiante. Leva em si uma síntese de toda a humanidade, capitaneada por uma brincante esperança — crer no amanhã é um jogo de todos os dias.

A loucura estúpida da guerra transmutou em pó e ruínas o concreto de seus dias. O céu absurdamente azul agride o cinza fumegante dos escombros e a rubra ideia de vermelho do sangue derramado. Ainda assim, ele ostenta um frágil sorriso. E brinca com a leveza e o equilíbrio precário de um balão rosa jogado no ar.

Sua imagem me chegou sem aviso e exigiu de mim o silêncio que há em cada palavra. Pediu ainda o vazio do espaço não preenchido dentro e entre cada letra. E foi um silente pedido com urgências. Pedido perdido de assombro, de espanto. Do espanto que produz palavras que não logram alcançar a delicada dureza da imagem sobre a qual falam.

Quem é? Está sozinho? Tem nome? Tem sonhos? Não ouso sequer dar-lhe uma história. Suponho antes da palavra. Imagino que, talvez, a dele já lhe pese um tanto, como a de todos nós, que tateamos finitudes. E prefiro ficar com o instantâneo de sua alegria lúcida e de sua lúdica ação comum a todo infante — e que bem poderia também ser comum a todos nós, homines ludens: ganhar alturas com o arremesso de uma bola.

Foto: القدس - alquds (Periódico)

Foto: القدس – alquds (Periódico)

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Ao menos setecentos anos de tradição poética apontam que no domingo passado cheguei ao meio do caminho. Está lá, nos primeiros versos de A Divina Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi retrovai per una selva oscura, / ché la diritta via era smarita.” O meio do caminho era a idade de 35 anos, que seria uma antiga metáfora para a meia idade, considerando uma vida potencial de 70.

Sendo o primeiro verso uma antiga metáfora, aos setecentos anos de tradição do poema de Dante se adicionam ainda os anos que dão antiguidade a ela. Como não tenho fôlego para retroceder tanto e encontrar salmos ou profetas que confirmem o arcaísmo dessa ideia, contento-me com a abertura da comédia dantesca. E aceito a noção nela encerrada de que chego ao ápice do arco da vida. Noção desconcertante, pois esse ápice é simplesmente minha vida toda, até aqui.

“Nel mezzo del cammin”, olho para os dois sentidos dessa estrada incerta. E dou graças pela metade que já pude viver. “Gracias a la vida, que me ha dado tanto”! Vejo-me como o resultado, a resultante desse caminho. Componho-me dos meus passos, dos meus afetos, das minhas experiências. Sou um desses bichos que deliram ser anjos, como sói acontecer a todos nós, demasiado humanos.

Se olho para trás grato, feliz com a memória que carrego, a outra metade do caminho intuo desejoso. Palmilhar o incerto não é tarefa das mais simples, mas é isso a existência. O que nem poderia ser, de repente é e se perpetua num tempo sem garantias. E nós nos fazemos, nos inventamos na tentativa de prover algum sentido a essa trajetória de absoluta gratuidade.

Em relação à segunda metade da vida — que é a trajetória descendente que me resta –, desejo especialmente três coisas. A primeira é que seja tão feliz e mais longa que a porção inicial. A segunda é que eu possa seguir ao lado da autora da foto abaixo — a mulher amada! — semeando alegrias, compartilhando sonhos e sorrisos. E, por fim, o terceiro desejo é que nessa segunda parte da jornada minha mente conserve seu poder de realização até o fim, mesmo quando o corpo já estiver fraquejando.

Esses são desejos absolutamente comuns, quase banais. Mas não é preciso ir além do homem para desejar o eterno retorno de cada alegria…

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto: Fabiana Turci

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto & Bolo: Fabiana Turci

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Entro no ônibus praguejando contra quem o projetou. Além de não ser acessível – todos os que servem essa linha também não são –, este possui ainda mais um obstáculo: uma barra bem no meio do último degrau, parecida com essas de fazer pole dance. Aquele requinte de inacessibilidade já era capaz de atrapalhar quem estivesse entrando com uma mochila um pouquinho maior. Com muletas, então, subir no ônibus é uma batalha.

Vou me sentar na cadeira isolada antes da roleta e não tem como, pois simplesmente não há espaço. Olho o símbolo que diz que o assento é preferencial e quase gargalho com aquela mentira. Um pouco aturdido, volto para procurar um lugar vago nas poltronas duplas, enquanto desvio dos passageiros que seguem atrás de mim, para pagar ao cobrador a passagem. Demoro alguns instantes imprecisos a me habituar ao pequeno caos e finalmente vislumbro onde vou sentar. Noto haver um lugar vago ao corredor, na poltrona mais próxima. O senhor que está sentado à janela faz menção de se levantar, para me ceder o seu lugar. Incisivo, falo que não precisa, que prefiro mesmo um lugar ao corredor, e me sento.

Nem bem me acomodo e já percebo certa ansiedade do meu companheiro de trajeto. Agradeço-lhe a intenção de me ceder o lugar na janela, mas novamente lhe explico que no corredor é melhor para minhas pernas. Logo em seguida, ele me pergunta para onde vou. Desconfiado, menciono a avenida principal perto de casa, que é grande o suficiente para manter a inexatidão.

Constatando que vou descer antes, ele explica que vai para Santo Amaro e me indaga se eu sei se aquele ônibus passa numa rua que não conheço. Revelo minha ignorância sobre o itinerário posterior ao meu. Ele busca se acalmar, dizendo-me que se não passar, ele pode descer na Avenida. E logo me revela que está indo para uma clínica que faz um tal exame de sono.

Na sequência, comenta sobre um assunto incontornável em São Paulo: o trânsito. Lamenta que o trânsito esteja caótico – e, naquele dia em especial, agravado pela chuva que caíra pouco antes. Conta que saiu de casa às 17h, pegou um ônibus, metrô e depois aquele ônibus em que estamos, e está com receio de não chegar a tempo – seu horário na clínica é às 20h30. Diz que em 1959, quando fez dezoito anos e começou a dirigir como chofer de táxi, quase não havia carros nas ruas.

Teria a opção de ir de trem, mas naquele horário seria impraticável para ele fazer várias baldeações, já com 71 anos. E para qualquer pessoa com um pouco mais de dificuldades. Lembro-me de já ter estado, pouco antes das 18h, numa das linhas que ele teria de pegar para chegar ao seu destino e, na hora de descer, foi quase uma operação de guerra. Hoje, eu também não teria condições… Mal termino o pensamento, num átimo, e atino que meu companheiro agora lamenta que hoje não exista mais uma linha direta que servia à região onde ele mora.

– Sabe aquela música que fala “moro em Jaçanã”? Então, eu pegava esse trem. Moro ainda depois de Jaçanã.

Não sei por meio de que conexão, ele dá início a uma ode ao seu tempo, quando os filhos tinham “medo e respeito” pelos pais. Lamenta que hoje os pais não possam ser firmes, não possam mais bater e educar seus filhos. Reclama então de seu neto, que não tem compromisso com nada e é muito mimado. Abstenho-me, nesse ponto, de participar da conversa, limitando-me a vagos monossílabos. Em geral, tenho grande resistência a toda louvação de um tempo em que certamente eu não estaria vivo. Só posso existir hoje. É o tempo que tenho, e é dele que devo fazer, para mim, o melhor dos tempos.

Em seguida, me relatou que deixou o táxi, tornou-se caminhoneiro e depois marinheiro para, então, voltar a ser taxista, que foi como se aposentou. Só quando diz ter sido marinheiro é que reparo numa enorme tatuagem que cobre todo seu antebraço direito.

Talvez por se deparar com sua vida em perspectiva, estanca a fala, reflexivo, como que olhando para dentro. Após um fundo suspiro, sem qualquer sinal de pompa ou encenação, exclama:

– Eu tive uma vida muito boa!

Tocado mais pelo tom de sua voz, que conferia às palavras quase banais uma verdade palpável, fiquei um tempo em silêncio. Compartindo o silêncio do meu companheiro de trajeto. Não sei precisar como e quem o quebrou, mas aproveitei o interesse despertado por sua fala anterior, para mudar o rumo da prosa. Em vez de denegrir o presente em nome de um passado repleto apenas de laivos de duvidosas idealizações, interessavam-me suas memórias.

Perguntei-lhe algo sobre como era a vida de marinheiro. Ele contou que havia conhecido metade do mundo nesse período. Esteve em diversos portos na América, na Europa e em alguns no Oriente Médio. Revelou-me que tinha medo de ir para os lados do Vietnã, por causa da guerra. Ficou quatro anos embarcando e desembarcando mercadorias em Lloyds brasileiros. Deixou a marinha mercante após se casar. A dura vida de marinheiro e, em especial, o fato de passar três a quatro meses embarcado a cada viagem foram decisivos para que tomasse essa decisão.

Viramos na grande avenida que passa perto da minha casa. Ali, me mostrou que naquela transversal funcionava a Metalúrgica Barbará, que seria, na época, do genro de Jucelino. Ele, como caminhoneiro, carregava material de construção ali, para levar a Brasília – que, embora já inaugurada, ainda era um canteiro de obras. Segundo o meu companheiro de trajeto, o dinheiro que se desviou daquela construção teria dado para construir “dez Brasílias”. Exageros à parte, não deixo de crer naquela testemunha e sua verossímil história. Infelizmente, não há como supor que a corrupção endêmica do país seja uma invenção dos dias atuais.

Nem bem nos afastamos do cruzamento com a antiga metalúrgica, ele diz, quase surpreso de si mesmo:

– Eu não tenho dinheiro nenhum, que é coisa que fica para provocar briga depois que a gente vai, mas tenho muitas histórias. Minha vida daria um livro…

Pergunto se ele não teria vontade de escrever um livro com suas memórias. Ele me diz que seus filhos insistem para que o faça. Seu tom reticente, no entanto, me revela que não, ele prefere contá-las a ter de escrevê-las.

Só então me dou conta de que já estou quase chegando no meu destino. Levanto-me para passar o bilhete e rodar a roleta. O trânsito lento me dá ainda alguns minutos de conversa. De pé, detenho-me junto ao banco em que estava sentado.

– Você já deve estar cansado de tanto me ouvir falar, não?

– Imagina! Estou é lamentando ter que descer agora e interromper a conversa – respondo.

Seu sorriso me revela que ele captou a verdade do que lhe disse. Despedimo-nos. Por algum motivo, o motorista perde a entrada de seu trajeto habitual e acaba entrando na minha rua. Desço, contente com o erro, embora novamente me veja praguejando contra o projetista daquele ônibus e seus requintes de inacessibilidade.

Enquanto ando os poucos metros entre o ponto de ônibus e minha casa, me dou conta de que não perguntei o nome de meu companheiro de trajeto. Cogito tentar alcançar o ônibus, para perguntar-lhe da janela, mas a ideia vã desvanece quando vejo o ônibus dobrar a esquina. Apesar de inominados um para o outro, levo comigo algumas de suas histórias, a parcela de sua herança que ele deixou para mim…

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O primeiro mês de 2014 mal se esvai, e os comentários sobre a passagem do tempo parecem um eterno dejá vu: “O ano nem começou e janeiro já foi embora!”, “O ano só começa depois do Carnaval”.

Neste ano, no entanto, é comum ouvir desde o início que o ano só começará depois da Copa. O que significa que seis meses de 2014 seriam apenas de espera. Pelo quê? Godot? Se uma Copa do Mundo já altera a agenda brasileira, uma Copa no Brasil talvez seja capaz de instaurar um caos ainda maior nos calendários da nação. Mas o impacto, sobre a economia brasileira, dos dias em que o Brasil parar para ver os jogos da seleção, assunto sempre explorado por algum tipo de especialista, certamente ficará diluído, neste ano, pelo assunto geral do impacto econômico da Copa de 2014.

Como ocorre desde 1994, para completar a incompletude dos anos de Copa do Mundo, alguns meses após a competição ainda haverá eleições gerais. Com isso, um novo estado de espera se instaura. Uma espera de outra natureza que, por incrível que seja, parece mover menos os cidadãos. Talvez porque a crescente descrença adquirida não autorize hoje qualquer esperança vencendo o medo. Mas é fato que as políticas públicas — e os noticiários políticos — viverão uma espécie de suspensão, no aguardo dos próximos mandatários.

E nossas eleições têm essa característica estranha: parecem incapazes de mobilizar os cidadãos — ao contrário da Copa. Aparentemente, ao menos são descoladas do que acontece nos campos de futebol, já que desde a retomada da democracia, os reveses da seleção foram sucedidos por vitória do grupo que já estava no poder, e a vitória da seleção em 2002 antecedeu uma ruptura. A única exceção foi o ano de 1994, justamente quando se inaugurou a era de Copas do Mundo somadas a Eleições Gerais.

Outra característica de nossas eleições é a primazia da atenção para os cargos executivos — talvez na espera de algum herói que mude a realidade, embora a figura do herói que arrebanha esperanças me pareça ter esmaecido imensamente após 2002, ou seja, não me parece hoje viável. Esquecemo-nos sempre, entretanto, de quem faz as leis. E nesse terreno, na verdade, não temos qualquer controle sobre quem elegemos. Por mais que escolhamos o menos pior, ou até, com alguma sorte, um bom candidato, não temos verdadeiramente como votar nele. Votamos necessariamente no partido.

Nas eleições de 2010, por exemplo, apenas 35 dos 513 deputados foram eleitos com os próprios votos, ou seja, alcançaram individualmente o quociente eleitoral em seus estados, sem precisarem dos votos de suas coligações. Se ainda sei alguma coisa de matemática, isso representa 6,8% dos deputados que foram para o Congresso. Os outros 93,2% foram eleitos “indiretamente”. Esse fator, conjugado à crise na noção da representação política e ao voto obrigatório, engendra um sistema feito para perpetuar essa indiferença e essa invisibilidade relacionada às eleições legislativas. Mas como os que fazem as leis se beneficiam desse sistema, resta pouca esperança de que qualquer reforma política séria seja feita.

E, após as eleições, já nos encaminharemos, consumindo os dias e consumidos por eles, para o fim de um ano que talvez nem mesmo tenha começado. Pelo menos para quem deposita fora de si o tempo de qualquer realização. Mas para quem não alheia o próprio desejo, a própria vontade, sempre é o tempo. “Os dias nunca são iguais / quando a inocência se desfaz”…

Pawel Kuczynski - Calendar

Pawel Kuczynski – Calendar

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Gesú: Mãe, vamos no shopping tomar sorvete?

Maria: Minha Nossa Senhora! Ô Zuzinho, sossega. Vamos na sorveteria aqui da esquina, mesmo.

G: Mas tá quente, mãe. E no shopping tem arzinho gelado.

M: Não podemos, filho.

G: Ah! Por favor, mãe!

M: Um doutor proibiu. Agora, é mais fácil conseguir empréstimo em banco do que comprovar renda pra entrar em shopping.

G: Ah! Mas é rapidinho, mãe. A gente toma um sorvete, dá um rolezinho e volta.

M: Menino, não fale uma coisa dessas! Foi isso mesmo que o doutor proibiu: rolezinho no shopping.

G: Por quê?

M: Sei lá eu. Acho que tava dando confusão. Só sei é que a polícia agora fica lá pra vigiar e pegar o comprovante de renda de quem entra no shopping. Se não comprovar renda, é preso.

G: Mas a polícia pega de todo mundo que vai dar um rolezinho?

M: De todo mundo não. Só de quem tem cara de pobre. Se a polícia me pega e descobre que eu não tenho como comprovar renda, que eu faço faxina na casa dos outros… Melhor nem pensar nisso!

G: Mas como a polícia sabe quem tem cara de pobre? Como é cara de pobre, mãe?

M: Ai, como você é perguntador, menino. Não sei explicar essas coisas difíceis, não. Cara de pobre é uma cara assim, que nem a nossa.

G: E a gente nunca mais vai poder ir no shopping?

M: Só se a gente mudar de cara, moleque! (Risos. Depois, silêncio reflexivo.) Não, Zuzinho, só enquanto o pessoal tiver falando disso. Daqui a pouco, tudo volta ao normal, aí a gente vai poder ir no shopping de novo.

G: Ah! Mas quem tirou as coisas do normal justo no calor? Queria ir lá hoje tomar sorvete.

M: Filho, presta atenção numa coisa. Você é pequeno, mas é de pequenino que se torce o pepino. Então aprende que gente como a gente tem de saber o nosso lugar…

G: E qual é o nosso lugar, mãe?

M: Deixa de fazer perguntas difíceis, menino! Mas aprende isso: pobre que não sabe o seu lugar vira bandido. E eu não quero criar filho meu pra virar bandido, não, viu?

G: Vi, mãe!

M: Promete?

G: Prometo! (Silêncio.) Mas no próximo verão a gente vai poder ir no shopping tomar sorvete?

Observação: O diálogo acima pode ser inverossímil. Mas a realidade é bem mais (ver processo 1001597-90.2014.8.26.0100 e íntegra da decisão). E, por fim, não há como não lembrar do Gonzaguinha, numa hora dessas:

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Dormimos enquanto passava algum jogo na televisão. Lembro de ter deixado o volume mais baixo, para que somente um lance de emoção, ou um gol, pudesse nos despertar eventualmente. Sim… Palmeiras e São Caetano teria sido capaz de nos fazer dormir. Mas, embora a tv estivesse ligada durante esse jogo, não tentamos assisti-lo. E adormecemos durante Ponte e Atlético Sorocaba.

Não sei exatamente a que horas, acordo com um grito de gol exaltado: “Gooooooooooooooooooool do São Paulo!” Logo em seguida mais um gol do São Paulo. Só então, compreendo que se trata de algum programa esportivo mostrando gols dos estaduais. Lembro então do meu Flamengo, que perdeu mais uma vez para o Resende (isso volta e meia acontece nos cariocas da vida) e, até as últimas notícias que eu tinha então, ainda estava sem técnico.

calvinflaO tempo de uma lembrança foi o lapso entre o segundo gol do São Paulo e o gol do Oeste. O narrador, quando o tricolor paulista sofreu o gol, fez seu trabalho de forma quase burocrática, não prolongando o grito, que não chegou a ser sequer um grito. Recordo então que a última vez em que soube desse jogo – quando a tv transmitia Palmeiras e São Caetano – ele estava exatamente 2×1. Teria o São Paulo empatado? Perdido? Ou assegurou a vitória e a sobrevida do atual técnico? Apuro ouvidos e atenção, mas não me mexo. Quero apenas saber do resultado, sem grandes esforços. Se fosse preciso levantar e buscar a informação, permaneceria ignorando. Mas aquela informação era ofertada assim: fácil e ao acaso.

Um novo grito no mesmo tom e na mesma intensidade daquele primeiro, que me despertou, se repete. O terceiro gol do São Paulo foi claramente comemorado pelo narrador, durante o jogo. Mas teve ainda um último gol. Nele o narrador se esforça e prolonga o grito. Mas ele está nitidamente num tom abaixo. Antes que a narração me confirme – já que eu não olho para a televisão no momento –, advinho: gol do Oeste.

Aquela diferença tonal me intrigou. Tentei manter na mente o remembramento daqueles dois últimos gritos. Tinha de levantar e, no mínimo, me preparar tudo para dormir. Em contraste com a preguiça geral e quase endêmica do fim de semana, era preciso despertar na hora certa nesta segunda. Portanto, não poderia prescindir de um despertador.

Levanto, mas vou direto para o teclado que jaz quase esquecido no quartinho. Minha impressão era a de que o narrador havia gritado o gol do São Paulo em fá sustenido, e o do Oeste em mi. Parecia-me que um tom – significativo e marcante – separava a celebração de um mal disfarçado lamento. Em relação ao gol do São Paulo, erro por pouco. Ele foi comemorado em fá. Ou, pelo menos, a minha lembrança me diz assim, com o teclado confirmando.

Como tenho a impressão de um tom de separação, tento o mi bemol. Baixo demais. Em relação ao gol do Oeste – ou, ao menos, em relação à minha lembrança, pois não tinha os áudios dos gols comigo, mas somente o eco ainda não longínquo ressonando como memória – eu havia acertado. Foi narrado em mi, num simulacro de comemoração que me soou como um lamento. Meio tom. Um deslize separando júbilo de… outra coisa qualquer que não fosse isso.

Volto para o quarto e a Fabi desperta, talvez com o som dos meus passos. Sorrio e conto a minha pequena descoberta, a história dos tons… Ela me sorri, lindamente perdida entre o sono e o júbilo. Ela, que começou a ver futebol por minha causa, hoje é mais entusiasta do que eu dos esportes. Acho que também por influência da conjugação de um ano olímpico com a ótima fase do seu Corinthians. Termino minha narrativa e logo o sono a vence. E eu fico ouvindo gritos de gol, aleatoriamente, na tv. Volto ao teclado e constato – ou invento, perdido entre memória e criação – que as vozes mais agudas costumam gritar gol entre fá e mi bemol – apenas o fá sendo verdadeiro grito de celebração. As vozes mais graves, ao que me parece, gritam em ré, narram gols sem envolvimento em dó sustenido e lamentam gols desfavoráveis entre dó e si (o si me soa como aqueles gols da Argentina sobre o Brasil).

tritonoCuriosamente, o espectro dos tons que constato ou crio para os gols vai de si a fá. Com os extremos formando um trítono. Esse fato me assombra e me faz desconfiar de que muito provavelmente eu invento praticamente tudo. Isso porque estou escrevendo uma história – algo entre um conto e uma pequena novela – que está num momento em que a percepção do trítono é algo de extrema importância. Isso depois de o personagem, que narra sua experiência, ter lido um pequeno tratado sobre o trítono. Portanto, andei lendo e escrevendo muito sobre trítonos ultimamente!

Sento-me para escrever esse breve relato e me recordo que o mesmo programa que me despertou e despertou em mim essas questões também me informou que o Flamengo já tem um novo técnico. Apesar disso, não consigo ver nesse momento mares melhores para ele. Talvez seja a saudade de ouvir mais gols do meu time comemorados com um sonoro grito sustentado em fá.

zico-flamengo

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O lançamento do livro História Íntima da Leitura, que ocorrerá no dia 16 de setembro, das 14h às 18, na Casa das Rosas, marca a estreia da Editora Vagamundo no cenário editorial brasileiro – e na vida dos leitores e dos escritores. A obra, uma coletânea de textos ficcionais de 18 autores sobre as relações entre a leitura e a escrita, apresenta as propostas da nova editora: dar voz a autores contemporâneos nos mais variados gêneros literários e ser uma editora feita por leitores para leitores, apostando na criação de canais de comunicação com o leitor e na publicação de livros de qualidade a preços acessíveis.

O livro traz uma teia de narrativas que forja uma história da literatura a partir da leitura e coloca em tensão e diálogo os papéis de leitores, livros e personagens, enveredando pela construção de uma biblioteca que reinventa a noção de intimidade. História Íntima da Leitura convida também o leitor a deixar suas marcas e inserir-se no texto, reescrevendo, a cada leitura, uma nova história. Nesse ponto, a Editora Vagamundo inova, chamando cada leitor, na última página dessa espécie de livro infinito, a continuá-lo com suas próprias histórias, fazendo do ato da leitura o centro do processo. Para isso, a Vagamundo mantém em seu site o “Espaço do Leitor”, onde as histórias íntimas dos leitores serão publicadas.

Em parceria com a Levante Cultural, a Editora Vagamundo lançou ainda um documentário com os autores da História Íntima da Leitura. O vídeo, bem como a íntegra dos depoimentos dos autores, estão disponíveis no site da editora sob licença Creative Commons. Trata-se de mais um convite para que o leitor possa se inserir na construção de um trabalho colaborativo, legitimando o processo de significação de todo o ato de leitura. No “Espaço do Leitor”, a Vagamundo também vai publicar os trabalhos derivados, em qualquer formato, feitos a partir do material audiovisual relacionado ao projeto.

Lançamento

O evento de comemoração do lançamento da História Íntima da Leitura e da Editora Vagamundo será realizado no dia 16 de setembro, das 14h às 18h, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura –, um importante espaço dedicado à literatura, situado na Avenida Paulista, 37.

O livro será vendido a R$ 23,00, valor abaixo da média do mercado, confirmando o compromisso da editora com os seus leitores. Quem quiser garantir seu exemplar durante o lançamento, poderá adquiri-lo mediante o pagamento em dinheiro ou cheque. Após o lançamento, o livro estará disponível no site da Editora Vagamundo, que aceita todos os cartões de crédito e tem como política permanente o envio gratuito para qualquer lugar do Brasil.

Serviço:
Lançamento do livro: História Íntima da Leitura
Quando: 16 de setembro de 2012, das 14h às 18h.
Local: Casa das Rosas – Avenida Paulista, 37 (próximo ao metrô Brigadeiro). Estacionamento pela Alameda Santos, 74.

Editora Vagamundo:
www.editoravagamundo.com.br

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Banner da Exposição. Tela utilizada: Amores Siameses

Olhos d’Água e de Fogo é uma exposição de 17 telas (óleo, pastel e técnicas mistas) e 7 desenhos (óleo sobre papel) do artista plástico Marcelo Tosta. Nesta exposição inaugural, o artista apresenta seu universo marcadamente dramático, povoado de figuras hipnóticas, repletas de expressividade, de paixão, dor e êxtase.

Da Meia Noite

Suas obras – de cores fortes, traços rústicos e frenéticos – apresentam um imaginário que se distingue pelo misticismo sincrético e pelas referências nômades, fragmentadas, andarilhas, quase ciganas. É o caso de telas como Maria Padilha, O Exu de Coração Negro e Seu Sete Flechas, fortemente impregnadas desses elementos, com representações de entidades tomadas da umbanda.

Maria Padilha

Muito além de uma pintura de evocação do sagrado, Marcelo Tosta consegue, em suas telas, inventar genealogias possíveis, sugerir as histórias (supostas ou inventadas) dessas entidades que evoca, como acontece em Vovó Putinha, A noiva do Zé Pilintra ou A Jovem Maria do Congo.

Vovó Putinha

Esse poder de sugerir histórias, certamente advindo de sua experiência como dramaturgo, é outra qualidade bem definida das pinturas do artista. As figuras que ele retrata são personagens, colocados em cena por seus traços e cores. A presença de elementos teatrais e circenses parece confirmar essa vocação cênica de suas pinturas, como é possível notar em Florações do Palhaço, Meu amor é do signo de peixes e Da Meia Noite, trazendo está última, segundo o artista, os traços da própria mãe.

A Floração do Palhaço

Comum a todos os trabalhos é sua carga dramática e expressiva, bem como a presença dos elementos de um misticismo nada dogmático, mas refeito e repensado num caráter todo pessoal, como se pode atestar em telas como Sóis Ciganos e Ovulação ou O Ciclo da Lua Vermelha. Isso ocorre mesmo quando o objeto retratado parece retirado do quotidiano, como em Nanete, Amores Siameses ou, mais marcadamente, no Auto-retrato do artista. Do quotidiano? Não. Trata-se da vida reinventada pela poesia de formas e cores.

Sóis Ciganos

Teofilo Tostes Daniel

O artista

Auto Retrato

Marcelo Tosta é ator, diretor, dramaturgo, professor de interpretação e artista plástico. Formado na Escola Estadual de Teatro Martins Penna, já foi premiado como ator em festivais como Prêmio Trianon (Campos/RJ), o Festival de Teatro Amador do Estado do Rio de Janeiro e Festival de Teatro de Macaé.

Como diretor, fundou a Companhia de Estudos Teatrais Religare, com a qual montou diversos espetáculos, trabalhando como ator, diretor e autor. Em sua Companhia, dedicou-se à investigação da linguagem corporal, da imagem e da vertigem, desenvolvendo método de interpretação próprio, a que batizou de “Fetiche”.

Sua experiência como artista plástico acompanha seu vasto percurso no teatro – seus primeiros trabalhos como ator remontam o ano de 1994, quando também produz seus primeiros desenhos, sempre marcados pela presença do sagrado e do profano, pelo erotismo e pelo universo onírico. Há cerca de quatro anos, diante da necessidade de expandir suas possibilidades de criação nas artes plásticas, começa a enveredar pela pintura, usando óleo sobre tela, pastel e outras técnicas mistas, desenvolvidas entre o acaso e a necessidade.

Nascido em Cabo Frio (RJ), cresceu e formou seu universo mítico e poético nos campos e matos de São Pedro d’Aldeia (RJ), mais precisamente na Rua do Fogo. De lá, há tempos, ganhou estradas.

A Noiva de Eduardo

Niño de Artes Luiz Mendonça

A casa Niño de Artes Luiz Mendoça é um espaço cultural mantido na região da Lapa (Rio de Janeiro) pela atriz Ilva Niño. O nome da casa rende uma homenagem ao falecido marido da atriz, o dramaturgo Luiz Mendonça. Desde sua fundação, em 2003, o Niño de Artes vem apresentando peças teatrais, grupos musicais e abrindo espaço para novos artistas.

Vídeo

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Tinha noção da desvalia de seu voto. Se com efeito escolhesse alguém, fatalmente se tornaria cúmplice de crimes que não conseguia sequer supor. Mas essa sensação era embaçada. Permanecia velada. Sombra assombrosa assombrando o não-pensar.

Na prática, tinha o claro desejo de não eleger ninguém. Sem, no entanto, anular o voto ou votar em branco. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder. Para isso, criou uma metodologia intrincada e de eficácia duvidosa. Dentre os candidatos para os cargos cujos números têm dois dígitos, votava sempre nos que estivessem menos bem colocados, de acordo com os institutos de pesquisa. Mesmo numa época em que tais estatísticas – e suas margens de erro – têm andado tão desacreditadas e incertas, a chance de seu voto para esses cargos eleger um candidato era bem remota, se não impossível. Quanto aos candidatos cujos números tinham três, quatro, ou cinco dígitos, só havia uma forma de decidir o voto: mesclando a sorte com a avaliação, o aleatório com a escolha.

Fizera isso nas três ou quatro eleições anteriores e teve a sorte de não eleger nenhum dos candidatos nos quais votou. Saia no dia da eleição a procurar no chão, entre os milhares de folhetos jogados, os candidatos nos quais votaria. Se simpatizasse com a figura, as cores e o número do candidato, o levaria consigo para a urna. Precisava, ainda, ser alguém que lhe fosse completamente desconhecido. Qualquer familiaridade no rosto da persona em questão, o candidato era prontamente descartado. Era uma escolha estética e empática. Das outras vezes havia dado certo – embora nas últimas eleições gerais quase tenha elegido um candidato de três dígitos. Para piorar a situação, dessa vez era ainda mais difícil. Tinha de escolher dois desses candidatos, quando da outra vez fora apenas um.

Lamentava essa extensa procura. Era tão mais fácil quando as eleições eram em ano de Olimpíadas. Tinha de votar em apenas dois candidatos. Em ano de Copa do Mundo, as coisas se complicavam muito. Tinha de escolher quatro ou cinco candidatos. Se bem que pior do que isso era quando havia o tal segundo turno. Seu voto sempre corria o risco iminente de ir para o candidato eleito. Ficava de olho em todas as pesquisas, até às vésperas do pleito. Em dúvidas muito cruciais, chegava a anular o voto – o que era contra seus métodos, mais do que contra seus princípios. Não se lembrava bem, mas tinha a impressão de que, na última vez em que votara com alguma esperança, o Brasil foi campeão mundial de futebol.

Naquele domingo, como em todas as últimas eleições, saiu já de manhã à procura de seus candidatos. Como eram escolhas aleatórias, estéticas e empáticas, havia necessidade de muito tempo para fazê-las. A combinação de cores do folheto, as expressões do rosto do candidato, tudo influenciava em sua decisão, que sempre trazia, no entanto, o risco quase certo de compactuar com algum crime, algum delito, algum embuste. Era assim que sentia. Era assim o seu temor.

Presto passou o dia. Eram mais de quatro horas da tarde e ainda estava à procura. Além dos últimos colocados nas pesquisas para os cargos de dois dígitos, já havia escolhido os dois candidatos para o cargo de três dígitos e um para o cargo de quatro. Todos absolutamente incógnitos – ao menos para si. Faltava ainda o candidato para o cargo de cinco dígitos. E como havia chovido, estava cada vez mais difícil encontrar folhetos apresentáveis. Uns estavam rasgados, outros desbotados. Muitos estampavam candidatos reles demais, conhecidos demais, familiares demais. Havia também diversos amálgamas desses chamados “santinhos”, numa indecifrável mixórdia de massas, cores, rostos e números.

Começou a se afligir. Em menos de uma hora se encerraria a votação. Não gostaria de se abster, bem como não gostaria de votar em branco ou anular seu voto. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder. Aquela chuva fora de hora parecia pôr fim a seu método, cultivado com tanto empenho, durante tantas eleições. Não se lembrava de ter votado num dia de chuva. Talvez, no ano em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo. Quem sabe? Mas nesse ano, nessas eleições de agora, mais uma vez a seleção não havia ganhado nada. Não havia esperanças carmesins com que vencer os temores. Ao menos era assim que via as coisa. E elas se mostravam com um feitio seco, oco, fatigado.

Não havia jeito. Precisava se dirigir a sua seção eleitoral. Era urgente votar, mesmo faltando aqueles cinco dígitos. Os dígitos que abririam a votação. Começar votando assim era sinal de mau agouro. Era assim que estremecia diante do imprevisto.

Com passos irresolutos, se aproximava da escola em que votava. Não se sabe se por conta de um buraco na calçada, de seu próprio andar vacilante, ou da providência divina, tropeçou e caiu, estatelando-se na calçada. A rua, àquela hora deserta, não abrigava uma testemunha sequer daquela queda ridícula. Ralou um pouco mãos e joelhos. Mas não se importou. Não reclamou sequer. E nem teve tempo para isso. O “santinho” que lhe faltava estava na sua frente. Uma paleta de cores perfeita, um número digno de confiança e, principalmente, um candidato de rosto simpático.

No entanto, talvez pela perturbação da queda ou pela turbação da pressa, não percebeu que o “santinho” era mais um desses amálgamas forjados pelas águas de muita chuva. A metade do número era de um candidato e a outra metade, de um candidato outro. O nome e a foto, de um terceiro candidato não identificável. A paleta de cores era resultante da fusão dos três folhetos, impressos em papel de qualidade duvidosa.

Sem notar esses pormenores, o achado devolveu-lhe a confiança, a incisividade dos passos. Rapidamente chegou ao local de votação, já quase vazio. Em sua seção, além de si apenas dois eleitores – um deles já na urna – e os mesários. Esperou pouco menos do que cinco minutos. Na urna, o primeiro número que digitaria era aquele último, achado ao acaso há poucos minutos.

Concluídos os cinco dígitos que figuravam naquele folheto, a surpresa: o número não existia. O voto seria nulo, caso o confirmasse. Só então percebeu que o “santinho” que tinha em mãos era um mistifório forjado pela união de três ou mais folhetos fundidos pluviosamente num único e ilusório exemplar. Percebeu que a própria técnica de fugir ao logro que lhe parecia ser o processo eleitoral, com seu sistema proporcional temperado pelo voto obrigatório, lhe ludibriara.

Experimentou um sentimento contraditório, uma espécie de desespero agradável, ao se ver naquela situação sem saída. Era profundamente antagônico tudo quanto sentia ali, diante daquela urna que, eletronicamente, demandava um voto impossível. Uma desesperança sem medo se apossava de tudo. Foi quando imaginou que aquele seria o número do candidato no qual gostaria de votar. O candidato ideal. Irreal. Imaginou e confirmou. Cortando sempre os últimos dígitos, foi votando em outros candidatos daquele mesmo partido nulo. Inexistente.

Decidiu ali os votos daquela e, muito provavelmente, das próximas eleições. Nunca mais correria o risco de eleger alguém que não quisesse. Votaria sempre naquele partido fictício cujo número – sugestivo – é 69. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder.

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Desejo de estradas, de árvores e de matas do caminho. Sentido norte, às bordas de Minas. Na até pouco tempo desconhecida — para mim — São João da Boa Vista, esperava-nos uma experiência de êxtase. Assim queríamos, assim imaginávamos, assim vivíamos este domingo último, desde o despertar.

Claro que entre o vivido e o imaginado, há imensos descompassos. O que planejamos não consegue dar conta de tudo quanto é. Certa vez escrevi uma frase, num conto, que se inscreveu em mim, no meu êthos: O real é de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.

O primeiro maravilhamento foi pegar a estrada. Eu e dois ciganos: Fabiana Turci e Marcelo Tosta. Tostes, Turci e Tosta têm o vício de se maravilharem com a amplidão azulada do céu, com a poeira vermelha levantada em estradas de terra, com o sol batendo verde na copa das árvores. E sob influência de determinadas músicas, os êxtases desses três seres que somos se intensificam.

Junto conosco, viajaram as paisagens sonoras de Madredeus, Trio Harel, Orquestra Popular de Câmara, Zeca Baleiro e suas dez cantoras das “Odes descontínuas”, Milton Nascimento e Gustav Mahler — este último, interdito. Não seria possível à condutora do carro manter-se na concretude da estrada com Mahler. Íamos nós e tudo quanto somos ao encontro da paisagem sonora de Yann Tiersen. Sim, esse ser que para nós se assemelha a um quase mito estaria em carne, osso e sons no Teatro de São João da Boa Vista, essa cidade até então desconhecida — para nós — às bordas das Gerais.

Já havíamos passado do meio do caminho, quando chegou a notícia pelo celular: acabaram os ingressos para o show. Eram 14h53 da tarde. Levamos alguns segundos para decidir que continuaríamos a viagem ainda assim e alguns minutos para nos refazermos da frustração trazida pela má notícia da “fortuna imperatrix mundi”. Não sei saber se foi pelo impacto da notícia, ou pelo alumbramento de ver uma lua imensa no azul do céu, que o caminho que seguimos a partir dessa hora tornou-se um desvio. Quase 90 quilômetros de desvio, por uma estrada que parecia voltar pelo avesso. Após nos certificarmos de que teríamos de pegar o primeiro retorno e, no Km 134 daquela estrada, seguir o caminho que leva a Mogi-mirim, lembramo-nos da importância do desvio para a tradição filosófica moderna. Era tarde. Chegaríamos depois de o show já ter começado. Mas, ainda assim, seguíamos, leves e corpóreos como as notas que soavam nossas canções de estrada.

Depois de percorrer mais chão do que havíamos imaginado, uma placa mandou que virássemos, indicando que aquela curva nos levaria a São João da Boa Vista. Encontramos no meio da estrada o limite entre a cidade que buscávamos e o município anterior. Um ponto melhor demarcado do que aquele em que o Trópico de Capricórnio corta uma das estradas que tomamos. Quero crer, porque a realidade poética é a que melhor me convém, que cruzamos o Trópico no exato ponto em que fizemos o retorno em nosso desvio.

O entorno foi deixando de ter aspecto de fazenda, sítio, zona rural; foi, pouco a pouco, revelando a cidade que nos recebia. Uma pequena e encantadora cidade que me fez recordar Cabo Frio. Sim, sempre que estou numa pequena cidade, lembro de Cabo Frio — ou, mais precisamente, da Cabo Frio em que morei. Mais do que isso, lembro do tempo em que lá vivi, quando o tempo parecia ter outro ritmo, quando as horas, os minutos, os segundos pareciam respeitar mais o instante do gozo e do aprendizado. Estar numa pequena cidade sempre me desperta essa nostalgia dos tempos que me formaram, que fizeram de mim o que sou.

Ainda pensava nisso, quando se tornou óbvia a necessidade de pedir informações. Onde ficaria o Theatro Municipal? Seguíamos quase como se conhecêssemos a cidade, mas era preciso certificarmo-nos. Paramos no ponto exato que impediu mais um desvio nosso do caminho — que seria o terceiro! Quando andamos tendo um norte onde chegar, o caminho sempre parece mais difícil; os perigos e desvios sempre mais constantes, e a gente não experimenta nunca a sensação do ‘perder-se’, mas somente a de ‘estar perdido’.

Uma única indicação nos bastou. Naquilo que devia ser o centro da cidade estavam incrustrados a Catedral, sua praça, e o Teatro Municipal, onde havia começado há pouco o show de Yann Tiersen. Na porta do teatro, uma pequena multidão se aglomerava, discutindo sobre a distribuição antecipada dos ingressos com quem deveria ser da organização da Virada Cultural na cidade. Foi divulgado que os ingressos começariam a ser distribuídos uma hora antes do show (previsto para 16h30), mas antes das 15h os ingressos já estavam esgotados. Os mais exaltados começaram a se dispersar, após muita reclamação. Permaneciam aqueles que simplesmente queriam ver o show, como o rapaz que trazia nas mãos uma foto impressa do músico e sua família.

Eu já estava descrente. Mas os ciganos que me acompanhavam traziam no rosto uma certeza de que em breve entraríamos no teatro. Certeza fundamentada no impalpável, é necessário dizer. Não sei exato quanto tempo esperamos. Sei que começaram a sair algumas pessoas do teatro — e o assombro de todos que estavam às portas do teatro, impedidos de entrar, era: como alguém sai no meio desse show? Isso renovou os protestos dos que remanesciam atados a uma esperança sem fundamentos. Talvez todos nós que não brigávamos, não nos exaltávamos, mas apenas esperávamos, estivéssemos fruindo o espetáculo pela dimensão da ausência. O que é uma entidade como Yann Tiersen senão uma manifestação corpórea do inatingível? Os ídolos são outra coisa além disso?

Não soube nem precisar essa pergunta. Mas a resposta nos chegou de repente. As portas se abriram e, com a anuência de alguém, entramos no teatro. Umas quinze pessoas que o fio do destino havia guiado até essa experiência de converter em êxtase a frustração. “Sur le fil” nos recebia. O violino do instrumentista francês parecia saudar nossa chegada. Delírio, alumbramento, gozo, êxtase.

Dali para frente, adentramos num território em que as palavras só podem falar da dimensão da ausência da possibilidade de dizer algo. Tateio as palavras, os fonemas. Reviro do avesso as frases. Mas nada consegue dizer com exatidão da alegria, do maravilhamento que era estar lá dentro, que era sermos recebidos por aquela música.

A plateia do teatro estava absolutamente fascinada. Nós, que não acompanhamos todo o espetáculo, também estávamos. O inaudito, o impossível transmutado em experiência nos desnorteava. A celebração daquele instante eram os sons que se ouviam. Música inclassificável, além de toda palavra. Som exprimindo o indizível das gentes, dos dentros mais fundos. Aquele conjunto de vibrações nos lembrava do milagre que é existir quando — e onde — nada poderia haver. Não é possível ouvir Yann Tiersen sem se sentir grato à vida por isso.

Tudo beirava o indizível, tocava regiões onde palavras são poucas para tanto sentir. No entanto, se tudo parecia ser o ápice, pouco depois éramos surpreendidos por regiões ainda mais altas, por voos sonoros ainda mais amplos, anchos, largos. Talvez por isso, terminado o bis protocolar e acesas as luzes do teatro, a plateia não quis se pôr à caminho, não desejou retornar para a dimensão cotidiana da vida. Como os aplausos não cessaram, houve um segundo bis, este provavemente imprevisto — da dimensão e do tamanho de nosso desvio, durante nossa viagem. Ali se fez uma música que não pedia que se suprimisse o cansaço. Ela sinalizava apenas o desejo de haver um lugar onde seja possível estar cansado. Música indescritível, sonora e visualmente. Mesmo eu, que a testemunhei, por vezes não acredito no efêmero existir daquela massa sonora. Massa sonora que se perpetuava, neutra, na dimensão da ausência. Os músicos deixavam seus instrumentos ainda soando no palco, quase como por mágica. Ligavam algum aparato, se despediam da plateia e iam embora. Por fim, o último músico deixou seu instrumento soando, circulou pelo palco vazio, mas ressoando ainda, até se aproximar da chave que, desligada, inaugurou o silêncio. Luzes se apagaram. A plateia, enlouquecida, aplaudia o silêncio e a ausência.

Não nos restou outra opção a não ser celebrarmos tudo quanto testemunhamos e nos colocarmos no caminho de volta, junto com os sons que trazíamos. Gratos à vida por morarmos em nós…

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Movimento Dulcynelandia e Ocupação Manuel Congo celebram os 100 anos de Dulcina de Moraes e mostram que o espaço público ainda pode promover encontros

Neste domingo, dia 20 de julho, estive presente na comemoração do centenário de Dulcina de Moraes, promovido pelo Movimento Dulcynelandia, em frente ao teatro (fechado!) que leva seu nome, na Rua Alcindo Guanabara, 7. Fui ao ato na qualidade de expectador – entre os meus objetivos estava o de assistir à leitura de ‘Luz e Sombra’, que escrevi com a Alexandra Arakawa (e que acabou sendo magistralmente engolida pela voragem antropofágica dos fatos). E nessa condição escrevo meu breve depoimento do que vi por lá.

Quando cheguei ao local, tudo parecia ainda um tanto incipiente. Mal suspeitava que a polícia já houvesse passado por lá e levado um dos palhaços para prestar esclarecimentos – desconfio que ele não deva ter achado muita graça nisso. Também não sabia da queda de luz e dos vários percalços já enfrentados até ali. E, acostumado por vício de profissão à repercussão midiática dos fatos, ainda questionava qual seria a efetividade daquilo que ainda estava se construindo. Sem intuir, no entanto, o que ainda estava por vir.

Se o vício de profissão me levava a questionar a efetividade daquele ato – o primeiro dos 100 chutes simbólicos nas portas fechadas do teatro – um outro vício, o do escritor que sou, deixava-me com os olhos e os ouvidos atentos ao instante. Sim, estava pronto para colher o momento que passa (esse “inquietante animalzinho, todo asas e todo patas” que, nas palavras de Quintana, “ardia como uma brasa, trepidava como um motor, dava uma angustiosa sensação de véspera de desabamento”.). E o momento que passa estava grávido das possibilidades que adviriam do improviso antropofágico, do encontro, do movimento.

Pouco depois da minha chegada, a roda de coco e ciranda “A Pisada” ditou o ritmo dos acontecimentos. O sentido pelo qual eu estava procurando logo na minha chegada parecia querer esboçar sua face para minhas retinas. E ele residia na celebração da possibilidade de encontros num espaço público. Mas ainda era um esboço de sua face que me chegava, pela celebração quase ritualística do canto e da dança – essas formas artísticas tão profundamente ligadas às formas mais primordiais do culto ao sagrado.

O Ensaio Aberto da quadrilha da Ocupação Manuel Congo foi para mim o ponto que desencadeou o inesperado, o surpreendente, o maravilhamento que a face do real tem quando supera o ideado. E talvez a força desse ensaio aberto tenha vindo do casamento perfeito de duas formas de espontaneidade: a da criança e a do artista. A partir dali, as crianças e os artistas comungaram no engendramento do caminho fluvial dos fatos. A beleza passou a transbordar nas brincadeiras, nas danças, na correria, na explosão do lúdico no meio da rua, sem pudores nem censuras. As fotos das crianças, dos palhaços e das danças, das cores e das imagens projetadas nas portas fechadas do Teatro Dulcina e nas retinas de todos ali presentes não me deixam mentir. Esse transbordamento de beleza e de euforia infantil, essa voragem antropofágica dos fatos engoliu muito do planejado – entre os quais a leitura do texto que eu tinha ido ali para ver. Mas engoliu pela força dos acontecimentos, com a magia dos feitiços peculiares às crianças e aos artistas. Tudo isso, sem esquecer do parabéns à Dulcina e da distribuição do bolo, feito em parceria pelo Movimento Dulcynelandia e pela Ocupação Manuel Congo.

Após a ida do DJ, a conversa entre aqueles que permaneciam ali, a troca de histórias, idéias e experiências (que me é tão cara, rara e preciosa, já que é material para o que escrevo) terminou de esculpir para mim a face do sentido e da efetividade daquele ato. Estava claro que em tempos onde a rua é vista quase como um obstáculo a ser transposto, é uma grande vitória celebrar a rua, o espaço público – tão esvaziado – como local de encontro, de troca, de arte e de luta. Voltei para casa, dentro do ônibus, pensando nisso. E lamentando o fato de não poder estar presente no próximo chute simbólico nas portas fechadas do Teatro Dulcina, que vai acontecer no dia 03 de agosto, já que estarei de volta a São Paulo…

Mesmo assim, acredito que um pouco do meu pé estará neste segundo chute, assim como a lembrança deste primeiro estará bem viva dentro de mim.

***

Texto escrito na madrugada do dia 22 para o dia 23 de julho de 2008 e publicado em http://www.apoiodulcynelandia.blogspot.com/.

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O que faz com que nos alegremos com uma conquista que, racionalmente, não é nossa?

Se o conceito de Estado-Nação, como argumenta Benedict Anderson em Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism, depende do desenvolvimento dos meios de comunicação (especificamente da imprensa) que integram diferentes falantes de uma mesma língua, que passam a se conceber uns aos outros como uma comunidade, uma comunidade imaginada, não é muito diferente o que acontece em relação a uma torcida de futebol. Uma relação identitária é erigida e passamos a nos comportar como se determinados eventos fossem intimamente ligados a nós, a todos quantos se integram nesta relação.

Ontem (26/07), o Flamengo “levantou poeira”, venceu o Vasco por 1 x 0 e sagrou-se bicampeão da Copa do Brasil. É uma conquista que, diretamente, não tem relação real comigo. Mas estou muito satisfeito com essa vitória, como se minha fosse. Hoje, caso eu encontrasse o porteiro do prédio no qual morei no Rio de Janeiro, certamente eu ou ele diríamos: “nós ganhamos”. A um vascaíno, diríamos: “vocês perderam”. E tudo isso é uma relação imaginada, pois, em verdade, nem eu nem o Victor (o porteiro) estivemos lá no local do jogo (a relação é mediada por um meio de comunicação de massa, que nos integra) e, inda que estivéssemos lá, como torcedores, entre os milhares que estiveram no Maracanã, não poderíamos dizer, de fato, que nós ganhamos. Podemos dizer, ao acompanharmos a vitória do Flamengo sobre o Vasco, que vimos vencer o time de nossa predileção. Mas isso parece frio!

Efetivamente, sofremos se o time de nossa predileção perde, e nos alegramos, quando se dá a sua vitória. Por quê? A relação se torna apaixonada, como uma relação patriótica (a idéia de morrer pela pátria é tão estranha quanto esta que ora exponho).

Isto para mim se constitui um mistério. Por que é tão bom conquistar um título, ou antes, ver o time do Flamengo conquistar um título em cima do time do Vasco?

(Texto publicado originalmente no “Tablo[i]g” de meu antigo site, no dia 19 de abril de 2004)

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Esperava o sushi na mesa quase do lado de fora do restaurante, um pequeno restaurante japonês no estacionamento de um hipermercado a poucos metros da Avenida Paulista. Estava de costas para o estacionamento e para rua. Os olhos estavam voltados para o interior do restaurante e seu movimento de pessoas apressadas. O olhar, no entanto, se mantinha voltado para dentro, mirando paragens, cartografias, tons e ruínas do íntimo.

Não pensava no trabalho — nem no realizado, nem naquele que me esperava. Acho que eu vagava entre desejos, esperanças e escombros. Estava tão dentro de mim, que não via o movimento, não notava a demora do sushi, nem a realidade à minha volta.

Súbito, a realidade toca em meu ombro direito e me chama:

— Tio, você tem um trocado pra me ajudar pra eu comprar (o que?) para o meu irmão?

A realidade era pequenina, como sua voz. Tinha o nariz sujo e uma espontaneidade na forma de pedir sem gaguejar. Falava baixo, como convinha a uma realidade pedinte, ainda mais sendo tão desprovida de tamanho. A realidade — um menino de pouco mais de seis anos, creio eu — não estava sozinha. Vinha acompanhada de outra realidade, provavelmente o irmão, igualmente com o nariz sujo, mas com o olhar assustado de quem certamente não saberia pedir sem gaguejar. Aquela realidade ainda menor, que não devia ter acompanhado mais do que quatro primaveras, segurava uma nota de um real, que às vezes era levada à boca.

O repentino encontro com aquelas realidadezinhas de narizes sujos me assustou. Elas chegaram silenciosas e sorrateiras e, com a voz mansa e macia, me arrancaram violentamente de meu mundo. O susto, que me fez retesar o corpo e empalidecer, chegou-me logo ao toque sutil da mãozinha da realidade em meu ombro. Naquele instante, conheci o pavor das feras despertadas de seus sonos pela iminência dos perigos selvagens.

Visivelmente confuso, gaguejando bastante, talvez reaprendendo ali mesmo, no improviso da hora inesperada, a encaixar na minha fala os eixos sintagmático e paradigmático da língua (onde estaria Barthes e seus elementos de semiologia?), respondi:

— Aqui comigo, eu não tenho nem dinheiro nenhum, não.

Aquela realidade diminuta sorriu, com olhos e lábios, achando graça do ocorrido, embora a muito custo tentasse demonstrar alguma seriedade. Aquele sorriso não era do pedinte, mas da criança que extrai graça a um acontecido. A realidade menorzinha não sorriu, parecia ainda mais assustada com meus olhos empalidecidos de susto. A essa altura, já recobrei a cor e imaginava que gosto teria aquela nota verde na boca da criancinha. O menino maior, que conduz seu irmão, ensaia entrar no restaurante. Percebe, no entanto, que logo será enxotado dali, afinal, clientes tão ocupados com suas próprias realidades objetivas, com seus trabalhos, seus negócios, seus laudos, números, sistemas e cifrões, não podem ser importunados por aquelas nanicas realidadezinhas pedintes. Talvez somente eu, que estava tão dentro de mim e tão fora do mundo, pudesse ser abordado àquela hora. Então, o menino perde o jeito sério de pedinte e põe molecagem infantil em seus olhinhos. Vira para mim já se rindo e me pergunta:

— Você levou o maior susto, né?

Sorrio, mas antes que eu responda uma voz donde emana autoridade e coerção aborda aqueles seres reais:

— Onde estão seus pais que não estão acompanhando vocês?

— Tá ali, ó — aponta o maior.

— Me leva lá pra eu poder conversar com eles.

É o segurança do estacionamento, creio eu. Tenta coibir a exploração infantil ao mesmo tempo em que impede que a realidade dos clientes do hipermercado, incluindo aí os clientes do restaurante que fica em suas dependências, seja disturbada por quaisquer realidades mendicantes. Talvez até conheça os pais daquelas crianças. O maior, com toda desenvoltura, ainda tenta contornar a situação. Os olhinhos do menor, no entanto, ficam ainda mais assustados e sua boquinha morde com sofreguidão a nota verdinha de um real que ele conserva em mãos. Certamente pela pressão dos que exploram a sujeira de seus narizes pedintes, mas também pela necessidade de sobreviver, aquele serzinho aprende, com lições duras e de sabor amargo, qual o valor do dinheiro.

Ainda meio atônito com a rapidez do ocorrido, não olho para trás. Apenas meus pensamentos se despedem daquelas realidades tão pequerruchas. Ou nem isso, pois meus pensamentos, antes alheios ao que me circundava, não conseguem se desvencilhar daquela súbita invasão da realidade. Não volto logo para dentro de mim, e mesmo quando o faço, não retorno mais aos pensamentos de desejos e ruínas que me alheavam e ensimesmavam. Em vez disso, começo a imaginar como seria um insólito convite àquelas realidades para que almoçassem comigo. Esse pensamento me chega junto com o meu sushi. Fico a imaginar como seria ensinar àqueles serezinhos a usar o hashi para pegar aquelas trouxinhas de salmão cru com arroz, para colocar o gengibre sobre os sushis e mergulhá-los no shoyu. Assim, compartilharíamos boas gargalhadas com as bagunças e as tentativas malogradas. Não… Isso não faz parte da realidade, concluo. É apenas um devaneio meu.

Queria, no entanto, ter ofertado algo mais do que o meu susto àquelas criaturazinhas. Não que o meu susto tenha sido oferta sem valor algum, já que despertou um pequeno riso. Sim, não foi pouco, pois involuntariamente eu ofertei um motivo para sorrir. E foi um riso gostoso de criança, espremido e sufocado diante do rito formal que a ocasião exigia — já que não é usual que sorriam os pedintes. Acho que fiquei até com saudades daqueles narizes sujinhos, das outras risadas que imaginei que poderíamos dar juntos, ante o afogamento de um sushi no shoyu.

Via-me envolto nestes pensamentos enquanto tentava conduzir um pouco do gengibre para cima de um sushi com o hashi. Mas não estava totalmente alheado da realidade circundante. Na mesa ao lado, duas mulheres falavam de negócios, números e contratos. O sushiman pegava mais uma posta de salmão para fatiar. Eu quase afoguei meu sushi outra vez…

Neste instante, reparo que outra realidade se aproxima. É uma menina de uns doze anos, idade de Otoyo, personagem de “O Barba Ruiva”, de Kurosawa, que protagoniza a mais bela cena que eu vi até hoje no cinema ao lado de seu novo amigo Chobo, de sete anos, em que este, em meio a um varal de roupas estendidas, dá-lhe pirulitos roubados por ela tê-lo deixado escapar quando ele roubara uma tigela de sopa de aveias da clínica Koshikawa. Esta Otoyo que se aproxima tem traços nordestinos e carrega nas costas uma sacola. Não tem nariz sujo como os daquelas duas realidadezinhas que me abordaram pouco antes, mas suas roupas estão um pouco sujas. Ela percebe que a olho e, não sei se pela proximidade ou se por eu ter sido o primeiro ali a notar-lhe a presença, ela, sem rodeios, pede-me para eu lhe pagar um refrigerante.

— Pode pedir lá dentro — respondo timidamente.

Ela entra, pede o que lhe apraz à dona do restaurante, que fica no caixa, e aponta para minha mesa. Aceno positivamente com a cabeça e com um sorriso. Não reparo com que refrigerante ela sai de dentro do restaurante. Ela sai apressada, como pressentindo que ali não é seu lugar e que somente o acaso a pôs ali dentro. Mas na saída, olha para mim e diz:

— Obrigada! Deus lhe pague!

Como resposta eu apenas sorrio. Os papéis, embora ninguém notasse, estavam invertidos. Era eu quem devia lhe agradecer, pois não é sempre que um raio de realidade cai duas vezes sobre o mesmo lugar e muito menos freqüente ainda é a materialização súbita de nossos devaneios. Penso nisso enquanto a Otoyo nordestina alcança uma saída lateral no estacionamento e some numa rua paralela à Avenida Paulista, a duas quadras do coração de São Paulo.

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A gente é arrancado de uma porção de coisas e está no mesmo lugar, diz Guimarães Rosa. Tal sentença, a que ele aplica ao personagem Miguilim, contém uma verdade que se verifica não apenas nas grandes tragédias, nas escolhas cruciais da vida, mas nas pequenas saudades e distâncias, nas mais corriqueiras situações.

Há dois dias atrás, aniversariou a mulher de minha vida. E como eu queria estar junto dela, celebrando os seus 26 anos, com a alegria e o maravilhamento pelo simples fato de sua existência, de sua vida pulsante, radiante, cintilante! Mas as contingências não me trouxeram no rastro, na sucessão da existência, esta oportunidade.

Por isso, envio meu abraço, meu beijo e meu melhor sorriso (juntamente com minha melhor roupa) codificada em bits e bytes, que poderão ser decodificados por qualquer computador em que ela estiver. Assim, ela poderá decodificar o meu amor!

Parabéns, minha amada Cynthia!!!

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