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Archive for the ‘Intertextos’ Category

Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os fluxos da prosa.

Durante toda essa trajetória, partilhar os ritos da escrita formou esse laço que participa dos fundamentos de nossa experiência de irmandade. Sempre fomos leitores um do outro. Muitas vezes, isso suplantava silêncios impostos pelo hábito – sobretudo meu, que sempre fui um animal silencioso e sempre usei a escrita também como um escudo, onde tentava realizar a impossível tarefa de esconder fragilidades. Não pude deixar de pensar no silêncio – e na escrita esgarçando sons e, por vezes, dissonâncias nas entranhas dele – ao ler os versos “Foi preciso muita palavra / até arrancar deste silêncio / um lugar seguro.”

A leitura é sempre uma experiência pessoal. Aqui neste livro, em especial, é muito frequente eu cometer o “pecado” de inserir na literatura o biográfico. Em diversos momentos, me lembro que uma parte central daquilo que nos tornamos teve início naquela longínqua atividade em que cada um de nós consagrou um caderno somente para a escrita. Vivíamos uma segunda mudança de cidade e, naquele momento em que o movimento parecia mais definitivo – dentro do provisório de todas as coisas –, tomávamos contato com a poesia de nosso pai, junto dos livros da minha mãe que haviam chegado do Rio de Janeiro – e longe dos quais estivemos por mais de um ano. Nosso pai já era uma ausência há alguns anos e, naquele contato com poucos de seus escritos, pudemos buscar uma espécie de diálogo literário para preencher o vazio de sua presença. Sei que essa é uma experiência marcante tanto para minha irmã quanto para mim. São essas histórias, que fundam nossa memória, que são evocadas por um poema como Art is a guaranty of sanity:

A aranha se nivela ao espaço urbano
o rosa é alimentado pelas cavidades orais
dois pedaços de madeira se abraçam
duas pessoas se amam e não se veem.

No refratário masculino ou museu
da imensa colcha de retalhos, almejo
Louise Bourgeois entre pernas mutiladas.

De peles que habitam almodôvares
de casas sobre eus femininos
de lampejos da gritaria

do passado, da máquina do tempo.
Na mania de cheirar o teto
de fotografar as árvores, de olhar o pai morto.

Amantes se deitam ao frio chão da sala
do ano de 2006 onde guarneço devires e cachorros.

Dez anos se passam: o céu se abre aos minaretes
o olhar de um muezim vale o templo
onde a arte é uma garantia de sanidade.

Após mais de vinte e cinco anos de leituras recíprocas, partilhadas desde o fim da infância, acompanho a publicação de Uma casa perto de um vulcão. Para o leitor e o irmão que sou, é um acontecimento muito especial. Se o irmão por vezes acaba lendo por trás de muitos versos os traços biográficos de memórias partilhadas, o leitor vai além, por não identificar na literatura uma escrita confessional. Ainda mais porque aqui encontro a força de um fenômeno da natureza, um derramamento poético diante do qual não é possível estar incólume. Com isso, adentramos noutras camadas vulcânicas da palavra, sendo especialmente tocado pelo trabalho com a linguagem dessa poeta que diz: “mastigo o ermo das palavras / quando não quero dizê-las / estendo os braços, frágeis de sentido / por algo como a luz – ou a fome.”

As lavas de um vulcão, quando emergem de dentro das entranhas da Terra, expõem as infâncias do mundo. O magma é uma espécie de memória, que dá a ver que as paisagens por aqui já foram formadas por ebuliente rocha líquida. Essa memória hoje irrompe, em geral, nas margens de placas tectônicas e quase sempre vem precedida por abalos sísmicos. Por isso, não nos enganemos: a profundeza dos chãos não guarda silêncios.

Pelo trabalho incansável nos meandros da linguagem, é possível exumar os diversos elementos que culminam na constituição da voz. São as lavas arrefecidas que se transformam em terras férteis e abrigam raízes em si. A poesia magmática ganha contornos de uma evocação de diversas formas de ancestralidade. Esse olhar poético voltado às origens (do cosmo, da casa/planeta que habitamos, das coisas, da vida, das estruturas que nos cercam, das referências, da linguagem e de si mesma) já se revela desde o primeiro poema do livro, chamado Infância, que anuncia: “Tenho a idade da Terra”.

Todos esses elementos ancestrais constituem a individualidade da voz em sua enunciação poética. E o tempo dessa condensação de elementos é o presente, ao qual esse livro também volta seu olhar. É possível vislumbrar os olhos frequentemente perplexos ante os absurdos que estruturam as relações de poder em que estamos inseridos. Nesse movimento, os versos se embatem tanto com as estruturas políticas dominantes quanto com a microfísica do poder, dando a ver dissimetrias. E se colocando, politicamente, ao lado daqueles que desejam e lutam e clamam e precisam de mudanças. Vapores é um exemplo expressivo desse movimento, trazendo versos como:

Caminho até a Praça XV
onde a seda vermelha
se enrola à estátua
equestre do general
Osório. Fagulhas
e fumaça alucinógena
fundida com os bronzes
dos canhões roubados
no Paraguai
incensam as acrobacias
das garotas
na manifestação.

Consciente de sua ancestralidade e desejosa de mudanças, a voz poética é permanentemente confrontada com as potências e os limites da linguagem. E, dessa forma, Uma casa perto de um vulcão faz uma incursão pelo pensamento meditativo. Talvez respondendo à constatação de que “Ninguém te ensina / a devassar / o cômodo / do que és”, a poesia adentra no terreno fecundo da reflexão filosófica. Ao lado de um fenômeno como um vulcão, é impossível que o pensamento não seja conclamado para dar conta, não de entender, mas talvez de erigir o mundo. “O mundo é menos / que acaso. Filos, ethos, ente / fatos.”

Esses três movimentos não são estanques. Talvez cada um deles predomine em determinado ponto da obra, mas todos podem ser percebidos constantemente, se fazendo presentes ao mesmo tempo em muitos poemas. E assim o livro se assemelha a um vulcão. O passado do mundo vem à tona na erupção de tudo o que se guarda nas funduras da terra. Esse passado/lava encontra de forma imediata e avassaladora com o presente em torno, a casa perto do vulcão, promovendo o embate e, por vezes até, a destruição das estruturas e a necessidade de novos fundamentos. E, por fim, no tempo mais lento da reflexão e do pensamento, a poesia sedimenta a experiência de perplexidade diante de tudo o que há, como as rochas que, quando resfriadas, deram conformação de eternidade aos últimos momentos de Pompeia e Herculano, após a erupção do Vesúvio.

Nesse sentido, a linguagem do livro recria a própria experiência vulcânica que enuncia. A palavra em ebulição escapa para a superfície da folha e se molda aos contornos da voz – com tudo aquilo que lhe dá um timbre único. Desse vulcão, repleto da densidade de camadas poéticas, irrompe um jorro sempre em busca de fissuras sobre o sólido para emergir, quente e denso, e assim lançar outras novas camadas sobre o mundo. “O futuro / é logo ali” e, para dar conta do vir a ser, é necessário imaginação – essa memória alucinada como um poema. “Um poema sempre um poema / à deriva / da próxima página.”

(O livro está à venda no site da Editora Patuá. Clique aqui.)

Uma casa perto de um vulcão – Roberta Tostes Daniel

 

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Se o país não estivesse imerso em tanta fúria, tanto ódio, tanto grito, se por um instante se instalasse algum silêncio, talvez todos ouvissem o sinal de alarme: algo está em perigo. Funcionam os hospitais, os tribunais, as delegacias, abrem-se as repartições, mas não há nenhuma normalidade em nossos dias, nenhuma tranquilidade é possível. Em pouco tempo caminharemos às urnas com as mãos desarmadas, exerceremos com liberdade o ofício do voto, e ainda assim o alarme soará por toda parte: a democracia está em perigo.

A democracia não se resume à possibilidade de depositar um voto na urna; supõe, antes disso, o direito de todos e todas, pleno e absoluto, à existência. O candidato Jair Bolsonaro fere a democracia porque defende o desaparecimento de muitos: de seus adversários, que anseia por banir da política; dos ativistas, que quer extirpar do país; de quilombolas e índios, que pretende privar de suas terras; da comunidade LGBT, intimidada a conter em público seu afeto; dos jornalistas críticos, constantemente ameaçados por ele próprio ou por seus seguidores.

A democracia não sobrevive apenas com um respeito momentâneo às normas; sua preservação requer um compromisso constante com o Estado de Direito. Bolsonaro vem ferindo a democracia há décadas, em seu louvor às opressões da ditadura, em sua defesa insistente da tortura e do extermínio. Ameaçou a democracia no passado, e sua candidatura a ameaça no futuro, com o aceno a medidas autoritárias. A cada declaração ou insinuação, o sinal de alarme soa mais alto.

A cultura ele também quer abater, mas a cultura não se abate. A literatura ele quer calar, mas a literatura não se cala. Contra a censura, contra o desprezo, contra o desdém, contra a imposição de falsas verdades e de equívocas certezas, escritores e escritoras sempre souberam se erguer. Eis o ativismo da literatura, o ativismo que ele não poderá extirpar: a literatura será sempre um dos grandes antídotos para a desumanidade e a indiferença.

Por isso aqui nos erguemos, escritores e escritoras, críticos e críticas, editores e editoras, exercendo nosso ofício da palavra, ouvindo como outros o ruído das sirenes. Por isso clamamos por uma união de todos e todas que prezem pela democracia, que valorizem a existência da diversidade e do dissenso. A literatura, afinal, tem como ideal e como fim a aproximação ao outro, a compreensão de suas aflições, de seus suplícios, o encontro entre diferentes. E ainda que resista às circunstâncias mais adversas, como resistimos e resistiremos, a liberdade há de ser sempre o seu maior instrumento.

[Texto de autoria de Julián Fuks para o movimento independente]

Quem quiser, pode assinar por aqui: https://literaturapelademocracia.wordpress.com/.
Eu acabei de fazer isso!

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Há livros que temos o privilégio de ler antes que ele se torne a obra que será. Lemos antecipadamente esses livros porque recebemos o presente de falarmos a futuros leitores do nosso testemunho de leitura. Neste ano, dois livros me chegaram como um presente, para que eu desse esse testemunho de leitura antecipada, e comungasse da espera de suas autoras para que aquelas páginas ganhem a concretude de papel e tinta: “Vísceras”, da Clara Baccarin, que deverá sair no ano que vem, e “Azul caixão”, da Julia Bicalho Mendes, que deve estar chegando logo por aí.

Faço essa digressão para dizer que ano passado, acompanhei o nascimento de um livro que espero há muitos anos, desde que ele habitava as planícies do sem nome, onde são depositados os projetos futuros. Posso dizer que espero pelo primeiro livro da Beta Tostes, minhas irmã, pelo menos desde 2000 ou 2001, quando a escrita tornou-se uma de suas marcas. Já planejamos, eu e a Fabi Turci, lançarmos esse livro-hipótese-desejo pela breve editora que tivemos nos idos de 2012 (a Vagamundo), finada com após um belo livro lançado.

Foi no ano passado que esse livro ganhou corpo de obra. Em pouco mais de um mês, a Beta cerziu das várias centenas de obras de seu (excelente!) blog, o Sede em Frente ao Mar (https://sedemfrenteaomar.com/), junto a poemas inéditos, o corpo poético de seu primeiro livro. Um livro que se escrevia há pelo menos quinze anos, habitou vários projetos possíveis, e amadureceu sob as intempéries dos tempos presentes. Um livro fundante e fundamental, poético e político. Essa erupção vulcânica nasceu. E do lugar de leitor e irmão, além de acompanhar e participar da estruturação do livro, que ganhou o nome lindo de “Uma casa perto do vulcão“, escrevi-lhe o prefácio (cujos primeiros parágrafos deixo abaixo, apenas para dizer um pouco mais do que virá).

Ontem, a Beta estava no ônibus, vindo para nossa casa aqui São Paulo, quando recebeu a capa do livro, para aprovar ou sugerir mudanças. Mas diante de uma erupção vulcânica, não há o que fazer, senão contemplar-lhe — se estamos protegidos — a beleza e a potência, o imenso terror de entranhas da terra (semelhante ao terror despertado pela beleza que, segundo Rilke, seria “o começo do Terrível que ainda suportamos”). A capa que chegou era uma leitura generosa e precisa dessa poesia imensa e imersa em delicadezas vulcânicas. Não havia o que refazer. Havia muito pelo que sorrir e comemorar.

Não imaginávamos que era apenas o início de um período de preciosas surpresas. Uma vez aprovada a capa, vista e aprovada ontem, o livro já está em pré-venda lá no site da Editora Patuá. Aguarda leitores — muitos! — que há anos — e muitos — andam ávidos por essa ebulição poética.


Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os fluxos da prosa.

Durante toda essa trajetória, partilhar os ritos da escrita formou esse laço que participa dos fundamentos de nossa experiência de irmandade. Sempre fomos leitores um do outro. Muitas vezes, isso suplantava silêncios impostos pelo hábito – sobretudo meu, que sempre fui um animal silencioso e sempre usei a escrita também como um escudo, onde tentava realizar a impossível tarefa de esconder fragilidades. Não pude deixar de pensar no silêncio – e na escrita esgarçando sons e, por vezes, dissonâncias nas entranhas dele – ao ler os versos “Foi preciso muita palavra / até arrancar deste silêncio / um lugar seguro.”

(…)

(trecho de “Nas camadas vulcânicas da palavra” – prefácio de “Uma casa perto do vulcão)

Uma casa perto de um vulcão – Roberta Tostes Daniel

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Ontem (8/7) fez um mês que se abriu uma cisão mágica no tempo e no espaço, cisão capaz de promover profundos encontros e comunhão. Numa sexta-feira, 8 de junho, ocorria a primeira edição do Sarau Verbo Raio, organizada pela Lilian Sais e pelo Marcus Groza. E essas duas potências juntaram outras vozes, promovendo uma polifonia rara e especial. Além de mim e dos curadores do sarau, estiveram também os incríveis artistas (da palavra, do verbo, do som) Alexandre Marinho, Julia Mendes, Luiza Borba e Maria Giulia Pinheiro.

Sarau Verbo Raio

Os cinco primeiros vídeos registram, com as devidas edições, a minha apresentação. Mas para ver a beleza de tudo o que foi, recomendo fortemente assistir ao vídeo inteiro na página da Tapera Taperá, que sediou o evento.

Vídeos:

Trecho do conto “Gritos do açafrão”, de Trítonos – intervalos do delírio.

.

Espaço público (poema) + Naci en Palestina (música)

.

Corpo cerzido (poema) + Veredas do Tempo (música)

.

Se eu acreditasse num deus (poema)

.

Hinech Yafa (música) + Canção profética (poema)

.

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I

Costuro no ventre do tempo,
sob a forma de palavras,
o testemunho de como minha voz
adentrou no ouvido

da alteridade.

II

Gesto palavras que são afetos.
Palavras do Outro,
que me foram ofertadas
da leitura que fizeram

de mim.

III

Cada anotação que faço
é uma ultrassonografia do poema
que ainda vai nascer.
Cada afeto é uma ponte

que alimenta vindouros versos.

IV
Há fetos de afeto
em cada palavra gestada,
em cada ponte criada.
No solo fecundo e arcaico

do que me ultrapassa.

V

São olhos alheios
que desenham o esboço
de meu rosto.
Palavras que me antecedem

afluem para o que escrevo.

VI

As lembranças do Outro
fundam minha memória.
Com o afeto que recebo
é que aprendo

a sentir.

VII

Enterro palavras
nas entranhas daquilo
que tenho sido:
um corpo impermanente,

uma máquina desejante.

VIII

A sensibilidade da carne
é o que abre a vida
ao mundo das possibilidades.
Ela permite ao indivíduo

inventar-se no fora de si.

IX

Naquilo que sinto,
eu me torno múltiplo.
E assim, em nove movimentos,
estou prestes a parir

o poema recém-nascido.

Birth of Universe – Victoria Merki

Poema escrito durante a Oficina de Escrita Criativa “Entre Vodus e Ciborgues: a escrita como corpo e potência“, ministrada por Geruza Zelnys e Eduardo Guimarães.

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Uma tradução fotográfica do conto “Gritos do açafrão” — Imagem de Fabiana Turci, retirada de vídeo do canal Laboratório dos sentidos.

Foi para cozinha pôr novamente fogo nas sobras de seu solitário banquete noturno. Na sala, quem punha fogo no corpo daquela mulher era sua imaginação, seus desejos, seus pensamentos embalados por vozes sefarditas. E, posteriormente, pelos aromas que se exalavam da cozinha, menos perturbadores do que os da noite anterior, mas igualmente empesteados pelos gritos do açafrão.

O que aquele ente de diverso feitio serviu à sua vizinha era, de fato, um banquete de fogo. Carne de cordeiro assada com alecrim, páprica, açafrão e abacaxi, acompanhada de um arroz com hortelã, batatas noissettes, e uma salada de agrião, rúcula, manga, cenoura e pétalas (de rosa?), temperada com um molho de mostarda e mel. Ofertou-lhe ainda uma taça de vinho branco. Enquanto ela banqueteava, estonteada por tantos aromas e sabores, aquele homem de olhos pintados contou que era músico. Fazia concertos e também tocava na noite, às vezes cantando. Também compunha sob encomenda, em geral trilhas para filmes, peças e séries de televisão. Demian ainda se desculpou por não acompanhá-la no almoço, mas seus horários eram totalmente adversos. Enquanto ela almoçava, ele tomava seu café da manhã, servindo-se de um pão negro com azeite, suco de laranja, frutas e iogurte.

Saciados do comer e do beber, cada um segundo sua fome, a mulher, após agradecer-lhe, perguntou se ele poderia tocar um pouco para ela. Ele sorriu e perguntou de seus gostos. Mais uma vez ela se esquivou de dar direção a qualquer coisa que fosse. Disse que queria ouvir coisas às quais não estivesse habituada, quase como se desejasse, sem o saber, refundar seu campo da escuta.

Demian sentou-se ao piano. Anunciou que iria tocar duas músicas de Eric Satie. Começaria por uma chamada Gymnospédie n° 1, nome derivado de um antigo ritual grego ao deus Apolo, em que jovens dançavam nus ao som de flauta e lira. Ela esperava um som insano, como aquele que invadiu seus ouvidos enquanto escutava as músicas judaicas. No entanto, do piano de cauda saiu um som lento, grave, suave, quase doloroso. Mas também agradável como uma luz leitosa de fim de tarde. Enquanto ele tocava, ela fechou as cortinas da sala, até chegar na luminância que sua mente imaginou para a música. Lenta e grave, tirou toda a roupa e começou a dançar, completamente nua, sobre o suave tapete da sala, até deitar-se nele, para ouvir os últimos acordes de olhos fechados.

(Trecho do conto “Gritos do açafrão”, publicado em “Trítonos — intervalos do delírio“)

Cada vez mais sinto que escrevo movido pelo desejo do encontro, do diálogo, da troca. Sonho que minhas palavras encontrem leitores, e que também a partir delas eles dialoguem — comigo, entre si, com seus textos e futuros leitores, com o mundo. É imprevisível o fluxo e o alcance que as palavras podem ter.

Por isso, ver um encontro que efetivamente se deu a partir de minha escrita é um presente. Há uma semana, no último domingo (22), foram publicados no Youtube dois vídeos muitos especiais. Um, no Laboratório dos sentidos, canal de minha amada esposa, fala sobre literatura e comida e traz trechos de algumas obras, em que a comida aparece de alguma forma emblemática. E nesse vídeo lindo, repleto da poética audiovisual tão própria da Fabi em seu canal, aparece o trecho do meu conto “Gritos do açafrão”, publicado no meu livro “Trítonos — intervalos do delírio“, publicado em 2015 pela Editora Patuá. E meu conto aparece bem acompanhado, com trechos de “No caminho do Swann” (Marcel Proust), “Cem anos de solidão” (Gabriel Garcia Marques) e do conto “A terceira margem do rio” (Guimarães Rosa).

O outro vídeo foi publicado no canal LiteraTamy (em que eu já estive para falar do meu livro). Lá, a Fabi indica alguns livros marcantes sobre literatura, filosofia, comida e culinária.

Por fim, aproveito para deixar aqui novamente o vídeo do canal da Tamy que fala sobre o meu “Trítonos — intervalos do delírio”.

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No próximo sábado (20 de janeiro), terei a alegria de participar do Sarau Hilda Hilst: Desejo e Cintilância. Organizado pela querida Geruza Zelnys, o sarau reúne os participantes de um curso que ela conduziu no fim do ano passado sobre a obra de Hilda. No sarau, vou apresentar uma série de dez poemas chamados “Ode fragmentária e pós-mítica para viola e cello, de Dionísio para Ariana”, feitos para minha amada Fabi Turci, que me apresentou, logo que nos conhecemos, a “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – De Ariana para Dionísio“, obra a partir da qual eu conheci a poeta.

Vou ler os poemas de minha ode em resposta aos poemas da ode hilstiana, que serão apresentados pelas queridas Brunna Amicio e Fernanda de Paula. Além disso, poemas e texto de Hilda e outros inspirados em sua obra. Vai ser lindo!!!

Os dois primeiros poemas da ode hilstiana e da minha ode:

I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

(Hilda Hilst)

I

“Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.”
(Hilda Hilst)

No tempo do mito, recusei
teus fluxos,
teus jorros.
No tempo em que me julgava um deus

e desconhecia
a minha própria divindade mortal.
E habitava a Terra

jogado no vento
que me espargia e fragmentava

no oco das coisas sozinhas.

Atado à vida, Dionísio é,
com cantos e sem tempos,
dos encantos de Ariana.

(Teofilo Tostes Daniel)

II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

(Hilda Hilst)

II

Tu conheces, Ariana, meu avesso,
meus silêncios,
meus outros.
Até mesmo a face
de Apolo

em mim, Dionísio, tu a conheces.

Sabes do fundo de ordem
no meu caos,
da seriedade dos meus dias de féria,
do meu mau humor sonolento tarde da noite
e da preguiça de minhas manhãs.
Sabes ainda que até quando durmo

te amo
e busco teu corpo como
um satélite.
E que mesmo antes dessa dádiva

já me habitava a tua poesia.

(Teofilo Tostes Daniel)

O sarau vai acontecer na Casa das Rosas, a partir das 19h de sábado (20/1). Estão todos convidados!

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