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Archive for the ‘Confissões do que sente’ Category

Todo ano, gosto de escrever alguma mensagem a todos que me rodeiam, com a ternura nostálgica dos dias que se acumularam nas páginas do calendário que se encerra, e os desejos de vida e sonho para o novo ciclo solar que terá início. Hoje, no entanto, porque “um ano pode ser bem menor / que o calendário / e bem maior”, nada poderia dizer com mais exatidão tudo o que eu gostaria de exprimir do que algumas palavras que não são minhas. Mas que o amor permite que delas eu me aproprie e espalhe, como desejos também meus, ditos de forma perfeita e precisa pela voz e pela poesia de minha amada Fabi Turci.

http://bit.ly/anonovolab

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Neste, que será o último texto do ano aqui em meu espaço de ensaiar com palavras, vou falar sobre algo que me acompanha constantemente: a música. Se for revisitar minhas memórias, talvez eu tenha aprendido a cantar cedo. Ou melhor, aprendido o prazer de cantar. Quando criança, por conta de várias cirurgias que fiz, aprendi a andar tarde. Isso acabou me fazendo aprender a falar muito cedo. Essas não são memórias que propriamente eu tenho. Elas me vieram como uma espécie de herança, já que foram contadas pela minha mãe.

É curioso que as poucas e esparsas lembranças que eu tenho dessa época em que eu não andava estão ligadas à diversão. Lembro de uma espécie de mesinha toda decorada que minha mãe fez para que eu brincasse. Lembro de brincar com carrinhos sobre ela. Lembro de uma imensa caixa de lápis-de-cor de 36 cores, mas desconfio que essa minha lembrança seja de um tempo em que eu já andava. Mas minha mãe conta que com um ano, eu já conhecia todas aquelas cores, e que na minha festinha de um ano (será?) eu elogiei um vestido verde-água de uma tia, que combinava com os olhos dela. Lembro também de ouvir e cantar muito as músicas de uma fita que eu tinha, que eram as músicas da Arca de Noé, feitas pelo Toquinho a partir de poemas infantis do Vinícius de Moraes, e gravadas pelos maiores nomes da MPB na época. E também me recordo vagamente de gravar muitas coisas, inclusive coisas que eu e minha mãe cantávamos, num rádio preto, que tinha um gravador diferente. Ele dava para distorcer a fita durante o processo de gravação.

Quando eu já andava (e provavelmente também antes), minha mãe contava várias historinhas para mim e para minha irmã. Boa parte delas (ou talvez as que eu mais gostasse) eram historinhas cantadas. Talvez minha afinação tenha se aprimorado bastante nesse tempo.

Minhas memórias primeiras de música na escola, além de uma das minhas primeiras memórias políticas, estão relacionadas a músicas do Milton Nascimento. Eu achava que as principais músicas dele, que tocavam muito na época (Maria Maria, Canção da América e Coração de Estudante) eram tipo músicas folclóricas, que sempre haviam existido. Não conseguia imaginar um momento em que não houvesse essas músicas. Em relação a Coração de Estudante, foi exaustivamente tocada na época da morte do Tancredo Neves. Lembro de ter me assombrado com a tristeza da minha mãe diante daquela morte de alguém que a gente não conhecia. Lembro da minha mãe ter dito que com ele as coisas iam mudar, e eu lembro que a minha preocupação, de quem não entendia nada da conjuntura política com cinco para seis anos, era saber se ele havia contado para o vice dele — o Sarney! rs — o que iria fazer.

Músicas me acompanharam sempre. Na segunda metade dos oitenta, ouvi muito Cazuza, Legião Urbana, Lobão, Paralamas do Sucesso. No início dos 90, Dire Straits, Rod Stewart, Guns N’Roses, Queen (e sobretudo Fred Mercury), ACDC, Roxette, Pavarotti, Carreras, Domingos, Ketelbey, Peer Gynt, Tchaikovsky, Mozart (entre outros!) Fagner, Caetano Veloso, Elis Regina e Milton Nascimento (que passei a ouvir muito, invadindo a segunda metade). Na segunda metade, além de Milton, Flávio Venturini, Beto Guedes, Boca Livre, MPB4, Marisa Monte, Cássia Eller, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Bach (e toda galera da música barroca, pela qual me encantei) e Madredeus. Foi nessa época em que aprendi a tocar violão e que comecei a cantar no coral da Faculdade de Cabo Frio, a Ferlagos. Começar a cantar num coral descortinou um mundo para mim. Não só por conhecer novas músicas, como por aprender realmente a cantar.

Na verdade, aprender a cantar nunca é definitivo. Antes de entrar para o coral, tentava aprender a cantar acompanhando Milton Nascimento e Flávio Venturini. Se eram registros inapropriados para a minha voz, acabei desenvolvendo bem a chamada voz de cabeça, mesclada com o falsete. Esse, claro, foi um desenvolvimento intuitivo.

Descobrir novas músicas, novas sonoridades, e novas formas de cantas sempre me estimulou (tanto que não falei aqui de tipos de música (cigana, judaica, antiga), de compositores essenciais descobertos depois, como Arvo Pärt e Monteverdi, nem de músicos como Jordi Savall e Hermeto Pascoal, de bandas como Beatles, Secos e Molhados, Mawaca e Perotá Chingó, ou de cantores e compositores populares como Lenine, Mônica Salmaso, Renato Braz, Osvaldo Montenegro, Mercedes Sosa, entre outros, descobertos — ou redescobertos — depois dos anos 2000). Quando me mudei para São Paulo, comecei a cantar em dois corais com repertórios bem distintos. Um que fazia primordialmente MPB (embora eu já tenha cantado outras coisas nele, sobretudo no início com a regente anterior) e outro que cantava essencialmente música sacra, chamado Vox AEterna.

Foi logo que entrei no Vox AEterna que conheci o hoje meu amigo e professor de canto André Estevez. Ele tinha sido chamado pela regente do coro, a querida Muriel Waldman, para reforçar os tenores, que tinham muitos solos na música que o coro estava ensaiando: o belíssimo Requiem de Fauré. Na época, eu cantava nos dois coros como tenor (e acho que até hoje eu preferiria cantar assim em coral, por ter mais facilidade com os agudos do que com os graves).

Em 2010, comecei a fazer aula de canto com o André, e isso vem me mostrando que aprender a cantar nunca é definitivo. Sou, claro, um cantor amador, então o progresso é lento, o tempo de estudo é mínimo. Mas se eu olhar o cantor que fez as primeiras aulas e o cantor que sou hoje, a diferença é gritante. Comecei como tenor, mas me redescobri barítono, fazendo às pazes com os registros graves que haviam ficados esquecidos (embora eu tenha cantado como baixo no primeiro coro de que participei). Apesar disso, hoje tenho mais facilidade de fazer um sol ou até mesmo um lá agudo do que na época em que estudava como tenor.

Aliás, uma pequena digressão. Nesses dias, minha mãe lembrou de uma pequena história minha ligada a um importante barítono brasileiro. Uma história que mostra que talvez cantar, para mim, sempre esteve muito ligado à diversão. Reproduzo aqui a lembrança escrita pela minha mãe:

O pequeno Téo, no início nos anos 80, antes mesmo de aprender a falar, já cantava. Um exemplo: havia na tv uma campanha para incentivar a arrecadação de impostos através da emissão de NF, onde o também barítono Paulo Fortes surgia como um garçom que ao ouvir “garçom, a nota!”, erguia o braço e soltava um potente “dóóóóóóóóóó”! Ao iniciar a propaganda o Téo já erguia o bracinho e emitia o seu “dózinho”, achando muita graça.

Voltando da digressão, há algum tempo, o André faz concertos com seus alunos. Acho que o primeiro de que me lembro foi um pouco antes da inauguração do Espaço Núcleo, a sede do Núcleo Universitário de Ópera (NUO). Fizemos uma apresentação no salão de ensaios, num espaço ainda em construção — e que estava sendo construído para abrigar óperas e outros espetáculos artísticos e, sobretudo, musicais. De uns três anos pra cá, mais ou menos, esses concertos passaram a ser com alunos do André e da Angélica Menezes, também cantora do NUO e professora de canto. Foram dois concertos temáticos, antes desse último, livre.

O último concerto de alunos ocorreu a exatamente doze dias. No início da noite de 16 de dezembro, o Espaço Núcleo recebeu diversos alunos, que apresentaram repertórios e formas de cantar variados. O que mostra mesmo que aprender a cantar nunca é definitivo. E ensinar a cantar também não, pois é sempre um novo desafio, a cada novo aluno que chega. Esse é o relato do André, e ouvir seus alunos me dá muito a dimensão disso.

No concerto, eu iria cantar três músicas e tocar violão para acompanhar outra cantora em duas. Cantora que, por motivo de trabalho, acabou não podendo ir. As músicas que eu cantei são do repertório mais antigo. Duas músicas barrocas e uma do período clássico. A primeira foi “Rosa del Ciel”, ária de uma das primeiras óperas de que se tem registro: Orfeo, do Monteverdi. A segunda, dando um salto no tempo, também foi uma ária de ópera. “Se vuol ballare”, da ópera As Bodas de Fígaro, de Mozart. E para fechar, o meu grande desafio pessoal do concerto, sobre o qual escrevi no texto passado: “Erbarme Dich”, ária da Paixão Segundo São Mateus, de Bach. Deixo aqui as três músicas, nessa exata sequência — que foi a sequência em que foram apresentadas.
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Barítono: Teofilo Tostes Daniel
Violino Barroco: Camila Rosati Colepicolo
Piano: Camila Brioli

Recital dos alunos de canto de André Estevez e Angélica Menezes
16 de dezembro de 2017
Espaço Núcleo

Filmagem: Fabiana Turci

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Acolher talvez seja o ato político que nos resta. Perceber que, assim como eu, o Outro também vive a perplexidade de habitar um mundo impossível de compreender. A frustração de ter demandas urgentes que não são atendidas. E o medo decorrente do incerto. Essa foi a constatação que minha esposa, a Fabi, dividiu ontem comigo. Uma constatação precisa, quando olhamos os fluxos discursivos que nos cercam.

Pensei em como venho lidando com as diferenças que se evidenciam cada vez mais nos dias de hoje. Tenho buscado identificar o que há de comum para, então, oferecer meu ponto de vista em contraponto. Uma herança da ideia de alteridade evidenciada no diálogo, em que se movem pontos de vista e visões de mundo distintos. Mas a Fabi me apontou que iniciar um diálogo a partir das semelhanças para depois pontuar as diferenças ainda é uma busca por convencer o Outro. E é sobre a falência dessa pretensão que ela estava falando.

Ela me questionava qual era o resultado efetivo de tentar demover alguém de uma ideia, de um valor, de uma convicção? O que foi possível construir por meio desse tipo de prática? Que tipo de mundo e de sociedade é possível se criar quando alguém, do alto de seu saber verdadeiro, busca convencer o Outro do equívoco de seus valores? E eu não tenho respostas para essas questões.

Evidentemente, eu tenho meus valores, minhas convicções. Mas durante a conversa com minha esposa, o que ressoou fundo foi que talvez eu precise de esforço para compreender que eles não são universais – por mais que eu pudesse desejar que o fossem. Há muitas pessoas que se pautam por valores distintos, que têm demandas e projetos diferentes, visões de mundo e de sociedade, por vezes, contrárias. Se minha primeira reação, quase instintiva, é a de dizer que isso não me demoverá dos meus valores, por que posso julgar correta minha pretensão de demover o outro dos valores que lhes são caros?

Toda conversa de ontem me sinalizou que talvez o projeto político do esclarecimento não tenha dado certo exatamente porque pressupõe que haja uma visão correta de mundo que deva ser propagada. O embate dialético em busca do bem comum não me parece ter resistido à multiplicidade de desejos distintos, que não foram atendidos. E hoje o que acabamos testemunhando é um mundo em que muitos gritam e ninguém (se) ouve.

Reproduzo as ideias desse diálogo e divido essas percepções, não com a pretensão de quem afirma uma verdade categórica. São apenas impressões colhidas no instante. Reverberam uma forma nova como consigo ler o mundo de hoje, a partir do atravessamento das ideias trazidas pela Fabi. E só podemos pautar nossa ética em nossa forma de ler, ouvir e compreender o mundo ao redor. Assim como cada uma dos bilhões e bilhões de pessoas que habitam esse vasto e diverso mundo.

Essa nova percepção de nossos tempos me faz abrir mão de pretender convencer qualquer pessoa de qualquer coisa que seja. Porque não importam muito meus valores, minhas escolhas, minhas opiniões. Isso jamais será capaz de me aproximar do Outro. E quando me refiro ao Outro, falo daquele que pensa, age e se conduz no mundo de forma bastante distinta da minha. Porque aqueles com quem partilho valores, experiências e opiniões já fazem parte de um grupo que eu poderia chamar de Comuns. Com esses, eu comungo do mesmo corpus, e essa comunhão forja o conceito de comunidade – e há comunidades geográficas ou imaginadas, há vizinhanças físicas ou semânticas.

O que desejamos formular a partir daqui é uma ideia sobre como nos portar diante do Outro. Daquele que, quando ouvimos, pensamos que ele não deveria pensar como pensa nem agir como age. Teríamos o direito de também julgar que ele não deveria sentir como sente? Insistir com esse Outro que ele está errado e nós (supostamente) certos o fará pensar como pensamos? O estado de coisas ao redor parece sinalizar que não.

Love - Alexander Milov

Love – Alexander Milov

Percebi ontem que o maior desafio para aqueles que, como eu, defendem que a alteridade e a diversidade devem ser respeitadas e protegidas é abrir-se para verdadeiramente ouvir o Outro, aquele que tem valores opostos. Escutar suas demandas, seus medos, seus sonhos, seus desejos e ver a legitimidade de tudo isso. Porque são essas coisas que fundamentam aquilo que o Outro defende. Ouvir sem tentar demovê-lo de suas ideias. Mas também sem anuir com comportamentos e ações que firam meus princípios. Equilibrar-se nessa difícil corda bamba da alteridade parece urgente. Porque, como sociedade, estamos todos repletos de raiva e ódio. E, como a Fabi me disse, essa raiva, esse ódio não têm espaço de acolhimento nos imperativos do nosso mundo, pois não há espaços para acolher o que o Outro sente. Em geral, a raiva e o ódio são insuflados pela suposta confirmação das razões pelas quais se odeia, dada tanto por quem aplaude quanto por quem argumenta contra o que o Outro diz.

A nossa aposta é que pela escuta empática, por esse ato raro num mundo de ouvidos moucos, recuperemos nossa capacidade humana de conexão com o Outro, que anda perdida nos campos de batalha da vida. E assim substituir a política do convencimento por uma política do afeto, em que levar o Outro à (nossa) verdade dê lugar a acolher o Outro em seus sentimentos. Minha incapacidade para manejar as armas do ódio quer crer que, quando o Outro for acolhido por quem tem princípios e valores diferentes, talvez ele deixe de ver a diferença como um inimigo a se combater e destruir.

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Torturas, execuções sumárias, abusos de autoridade, exclusão ou preconceito oficial, ameaças veladas ou explícitas. O Estado Brasileiro não deixou de ameaçar significativa parcela de sua população (especialmente a mais vulnerável) por nenhum dia, desde que o país se redemocratizou.

Não promovemos uma transição que se pautasse pela verdade e pela justiça. Todos que mataram em nome do Estado, em prol de um regime que teve início há exatamente 53 anos estão anistiados.

Ainda no período da Ditadura Militar, foi realizado um projeto que tentou fazer com que a memória nefasta desse tempo não se perdesse. O BRASIL: NUNCA MAIS conseguiu reunir, clandestinamente, mais de 850 mil páginas de 710 processos que tramitavam no Superior Tribunal Militar. Ele foi coordenado por dois religiosos: o reverendo Jaime Wright e o cardeal de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns.

O projeto foi responsável por ser a primeira — e talvez, até hoje, uma das mais importantes — pesquisa sistemática que revelou a violação frequente violação aos direitos humanos por parte de agentes do estado. E tudo isso, com uma característica peculiar: tais revelações eram extraídas de documentos produzidos pelo próprio Estado, autor de tais violações.

A História hoje nos mostra que esse foi um trabalho ousado, arriscado e imenso. Pode-se imaginar a dificuldade de copiar clandestinamente mais de 850 mil páginas, preservá-las e remetê-las a um local seguro, para que não se perdessem.

Tenho orgulho de trabalhar hoje numa instituição que luta para preservar e, não só isso, para ampliar essa memória. Hoje o Ministério Público Federal é responsável por manter no site Brasil: Nunca Mais digital (http://bnmdigital.mpf.mp.br/) todo esse acervo, digitalizado e indexado, permitindo pesquisas textuais nesses documentos, disponíveis na íntegra para consulta de qualquer cidadão.

No entanto, sinto que, como sociedade, falhamos terrivelmente em preservar a memória, a lembrança desse passado. “Para que não se esqueça; para que nunca mais aconteça”, como dissera Dom Paulo. Mas infelizmente não deixou de acontecer um só dia. As torturas e execuções sumárias (de culpados ou inocentes, pouco importa) continuam ocorrendo. A polícia continua vandalizando quase toda manifestação contra o status quo (isso ficou evidente em 2013, nas manifestações do Movimento Passe Livre, quando bastou a polícia se retirar, apostando no caos, e o caos deixou de existir nas ruas). Abusos de autoridades, detenções por desacato após ordens claramente ilegais e arbitrárias, tudo isso continua. O arbítrio da força ainda impera, gerando medo, dor, morte e desaparecimentos forçados.

E como a história acontece como tragédia e se repete como farsa, ganha força hoje no país um estarrecedor discurso de ódio anti-comunista, como se ainda vivêssemos em plena guerra fria. E no ano passado, em outro dia 31, dessa vez de agosto (52 anos e cinco meses depois daquele 31 de março), assistimos a mais um envergonhado golpe. Inegavelmente, algo mudou desde então. Algo difícil de precisar e cujas consequências estamos bem longe de vislumbrar agora, enquanto vivemos no turbilhão desses dias.

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Sabe aquela sensação de plenitude quando você se depara com algo imenso? É assim o último texto da minha amada Fabi Turci no seu Laboratório dos sentidos. Imenso, cheio de força e vida, sabor e nuances. Como a receita: um incrível espaguete de abobrinha e cenoura com molho de guacamole.

Ao ler hoje esse Manifesto ao ato de cozinhar e de inventar pela junção de sabores e aromas, cores e texturas, sensação que me deu foi de que esse projeto da Fabi vive uma espécie de ápice, desde a publicação da primeira receita há quase dois anos, em julho de 2014.

Mas talvez não seja verdade que seja propriamente um ápice. Já era imenso desde aquele primeiro bolo, condimentado com escrita, literatura, ideal e paixão. Mas hoje ele ganha uma nova dimensão, um novo começo. Esta é a primeira receita que se faz acompanhar de um vídeo. E assim nasce o canal do Laboratório dos sentidos no Youtube.

Para ler o Manifesto e a receita no Laboratório dos Sentidos, clique aqui. Já para acessar o Canal do Laboratórios no Youtube, clique aqui. E veja abaixo o vídeo que inaugura o canal. Sabores para ler, assistir e se deliciar!

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Leio em loop infinito os versos que recebi hoje de minha irmã. Releio-os numa felicidade de imensidões. Eu, que me sei poeta e escritor por sua influência. Por desejar também ter cadernos pautados para jogar com a linguagem. Numa desmedida de ternura, quando os todos caminhos parecem abertos e transitáveis. Se bem que já havia tendências nesse tempo, quando você tinha pouco mais do que nove anos e eu, quase doze. Você tinha a altura e a intensidade de uma linguagem esgarçada pelo trágico. Eu arquitetava formas, engendrava desgastadas rimas e me divertia em impor regras para constranger a liberdade absoluta do dizer. Se a poesia em você eram jorros de metáforas dilaceradas nas asas dos pássaros, para mim valia a diversão de pôr palavras num pilão e extrair-lhes os óleos do inabitual.

Que dizer desse caminhar que, ao mesmo tempo, é solidão e partilha? Ouvimos de Drummond um conselho sobre os poemas: “Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.” E o silêncio é um outro nome para a solidão. Por isso o poeta das sete faces nos diz também: “Penetra surdamente no reino das palavras.” No entanto, poetas tocam o incomunicável para voltear e dar a ver o lodo das palavras, essas metáforas gastas, repletas de histórias e corruptelas. Para sentar junto na fogueira dos tempos e cantar sobre essas descobertas. A solitária escrita deseja a leitura, almeja o encontro.

E nosso encontro precede à palavra. Nasce anterior ao verbo. Remete a signos ainda cindidos, significantes com cambiantes significados. O logos do afeto nos guiou os passos. E, por graça e obra da vida, caminhamos num mesmo sentido, mesmo que por caminhos diversos. E sob a égide dos versos, das metáforas e da poesia espargida, fizemos o pacto dessa fraternidade. Juntos seguimos. Sempre, sempre, sempre, e cada vez mais.

Com um amor que precede e transcende o verbo, te amo, minha irmã!

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Irmão

A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

Roberta Tostes Daniel

 

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Lançar um livro depois de oito anos me dedicando a escrevê-lo foi algo transformador. Por isso, não consigo ser o mesmo depois de ter lançado Trítonos – intervalos do delírio. Olho para os meus locais de escrita e noto que eles hoje estão esperando para serem povoados por novas obsessões, novos projetos, novas histórias. É nesse estado de espera que me encontro um pouco desde o lançamento, como se eu ainda estivesse me despindo de meu livro.

Hoje, “Trítonos – intervalos do delírio” é uma linda marca em mim, em minha vida, em minha história… Agradeço demais à Editora Patuá, e ao querido editor e amigo Eduardo Lacerda por isso. Agradeço também à minha amada Fabiana Turci que, como leitora primeira, modificou tantas vezes e tão essencialmente os rumos de minha prosa nesse projeto. E à minha irmã Roberta Tostes Daniel, poeta de grandes alturas que me ofereceu o testemunho poético de sua leitura na linda orelha escrita para meu livro.

Meu livro também se tornou uma linda marca na parede de minha casa. O querido Leonardo MAthias presenteou “Trítonos” com uma capa simplesmente fantástica. Lembro do deslumbramento ao vê-la pela primeira vez. Era diferente de tudo quanto eu havia pensado, em termos de referências visuais. Era uma nova leitura e uma recriação do meu livro, com a distância de um leitor — algo que me era impossível fazer como autor. E, por isso mesmo, era maior do que a minha imaginação poderia projetar. Sim, nesse caso, o real foi de um maravilhamento que desconcertou o imaginado.

Quando adquiri a arte original de minha capa, descobri que o Leo fizera um trabalho incrivelmente plural. Na verdade, são duas imagens distintas, que mudam conforme o lado a partir do qual a obra é observada. Descobri poder usá-la de modos diferentes, se desejo evocar a visão interna de uma sacerdotisa ou as amplas asas de uma harpia. Estava devendo essas fotos para o querido Leo MAthias. Com uma alegria imensa, divido-a com ele e com todos meus amigos. Dividir alegrias e belezas é, na verdade, multiplicá-las. A arte não se cansa de me ensinar isso.

E meu livro está à venda no site da Editora Patuá (acesse aqui). E está muito bem acompanhado, com cerca de 350 títulos de autores contemporâneos. Vale muito explorar seu catálogo!

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