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Archive for the ‘Cogito ergo sum’ Category

A alegria é o presente do amor. A tristeza é o preço do amor. A raiva é a força que o protege. Esta foi minha terceira lição de amor revolucionário. Nós amamos a nós mesmos quando respiramos no fogo da dor e recusamos a deixá-la transformar-se em ódio (1).
– Valarie Kaur

Há exatamente uma semana, Marielle Franco foi executada. E até hoje, eu não havia conseguido digerir em palavras essa dor política. A dor de uma morte violenta choca sempre, especialmente num país em que os números da violência urbana superam os números de países em guerra. Abre a chaga latente que nos faz sentir que estamos todos vulneráveis. Uns bem mais do que outros, é verdade.

Escrevo agora, não apenas por Marielle, ou por Anderson, seu motorista que também se tornou alvo incidental. Eles já foram mortos covardemente e nenhuma palavra poderá fazer o tempo retroceder. Não escrevo por suas famílias, que lidam com a dor íntima da perda e a lacuna que a partida de uma pessoa querida deixa. Desde os primeiros momentos, eles lidam com o desafio de viver o recolhimento de um luto que também tem uma dimensão pública. Tampouco escrevo por uma obrigação de dizer qualquer coisa. Vozes mais qualificadas e representativas vêm ecoando a luta e o luto por Marielle. Escrevo para fazer o exercício fundamental que sempre foi a escrita para mim: a oportunidade de colocar as ideias no lugar, diante do assombro. Seja o assombro diante do sublime (que frequentemente me leva à literatura), seja diante do absurdo, que encontra não apenas na literatura, mas em textos tateantes como este, uma forma de dar vazão e significado ao que não tem sentido, nem nunca terá. Porque nossos olhos sempre ardem por compreender e interpretar as coisas. E assim cosemos nossas precárias explicações sobre o mundo.

Há uma semana eu estava trabalhado no computador e entrei num site de notícias e li uma matéria, publicada mais ou menos naquela hora, que falava da morte de uma vereadora do PSOL. Naquele momento (sempre somos bastante autorreferentes), meu primeiro susto foi o local, relativamente próximo de dois locais em que morei no Rio, um deles em que minha mãe e minha irmã moram até hoje.

Mas o espanto ao ler a matéria se transformou. Pelo que estava escrito, havia indícios de que se tratava de uma execução, o que se confirmou depois. Era, portanto, um crime que vinha em resposta à atuação política da ex-vereadora. O leque de suspeitos é grande, de policiais que cometeram abuso de poder e foram denunciados a milicianos.

Os dias que se seguiram prolongaram o assombro. Foram dias de peso e perplexidade. Pelo ocorrido e pelos desdobramentos dessa morte. Pois à dor pessoal de quem perdeu Marielle se somou a dor política de uma parcela do país que anda sedenta por justiça e paz. Um luto de milhões acabou invadindo o luto particular da filha, da companheira, da irmã, dos pais e dos amigos de Marielle. A família, certamente, sofre a impossibilidade do recolhimento, nesse momento de dor tão íntima. Mas segue lutando, para dar sentido à essa perda. Ou muitos sentidos.

Por mais que até o momento não se tenha nenhuma certeza sobre quem seriam os responsáveis por esse crime, as investigações mostraram claramente que o carro em que estava a vereadora foi seguido desde o evento de que ela participou, na Lapa (região central do Rio de Janeiro), até o local da execução, a cerca de quatro quilômetros. A munição usada foi comprada originalmente pela Polícia Federal e desviada, sabe-se lá sob que circunstâncias. O que se sabe é que se trata do mesmo lote de munições usadas em crimes nos locais mais variados, tanto no Rio de Janeiro quanto fora do estado. O principal deles foi a chacina de Osasco, a maior ocorrida no estado de São Paulo. Cometida por policiais militares (e um guarda civil) que teriam vendido parte dessa munição para PMs do Rio.

Mas a perplexidade não estancou aí, na morte brutal e premeditada, e na proliferação de suspeitos. Depois de morta, Marielle não esteve imune ao ódio que parece se alastrar como praga pelo país. Não basta matar a mulher. Muitos querem também apagar sua memória. Na falta de fatos concretos, proliferam mentiras. Numa ampla campanha difamatória, afirmaram que ela era ex-esposa de um traficante, teria sido eleita com apoio do tráfico e que sua morte estaria ligada a uma suposta troca de facção criminosa. Quando não apelam para mentiras, se valem de lógica deturpada. Como a afirmação de que, por defender bandido, ela acabou sendo morta por eles, num claro movimento de responsabilizar Marielle pela própria morte.

Toda essa campanha difamatória acaba apagando o caráter político de sua morte. Além disso, ela funciona como uma espécie de recado velado a toda pessoa que defende os direitos humanos, um alerta insinuando que “o próximo pode ser você”. Isso é extremamente preocupante, ainda mais nesse momento, pouco mais de um mês depois de o comandante do Exército, o general Villas Boas, declarar que os militares precisam ter garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade. Isso no início de uma intervenção federal no Rio de Janeiro da qual o presidente em exercício pretende obter ganhos eleitorais.

Há ainda uma terceiro aspecto que essa campanha difamatória cumpre, que eu só compreendi ao assistir a um vídeo (que reproduzo aqui, ao fim deste texto) de uma ativista norte-americana, de origem indiana, chamada Valarie Kaur. Cheguei a esse vídeo também pela Fabi, que o assistiu no dia seguinte à morte de Marielle. Ela disse que passou todo o dia com um nó na garganta, pensando em como seguir, e então foi atravessada pelo vídeo e voltou a respirar. No vídeo, Valarie diz o seguinte:

“As histórias podem criar o milagre que transforma estranhos em irmãs e irmãos. Esta foi a minha primeira lição do amor revolucionário – que as histórias podem nos ajudar a não vermos estranhos.” (2)

Essa foi a chave que me fez ver que é um risco, para um sistema de pensamento pautado pela raiva, tomar contato com a história do outro, que pensa e age de forma distinta. Pois isso pode minar essa raiva, dissipar esse ódio. Encontrar a humanidade nessa alteridade pode parecer inaceitável. Por isso também é tão importante destruir reputações. Se eu vejo uma pessoa como Marielle, que milita em favor dos direitos humanos, como oponente, eu não posso descobrir que ela é tão semelhante a mim em seus sonhos, seus medos, suas alegrias. Não posso sentir como legítimas as lágrimas de quem chora por sua partida. Preciso desqualificar a memória de quem parte e o luto de quem chora essa perda. Além de desencorajar quem segue pelo mesmo caminho.

Como alguém que é atingido por esse recado que desqualifica a dimensão política da morte de Marielle, me vi impelido a tentar ouvir essas críticas e refletir sobre sua origem. Sobre que mundo é esse, que torna possível a articulação desses discursos.

Quem defende os Direitos Humanos defende bandidos?

Uma das primeiras tentativas que vi de culpar Marielle pela própria morte foi uma imagem amplamente compartilhada (inclusive por um vereador de São Leopoldo pelo MDB), com uma foto da ex-vereadora e os seguintes dizeres: “Trate bandido como vítima e um dia a vítima será você”. Essa frase tem como pressuposto que quem defende o respeito aos direitos humanos é contra a punição a quem comete crimes. E tem um segundo pressuposto, ainda mais complicado, que é o de que a criminalidade estaria ligada à pobreza. Os dois pressupostos são, no entanto, falsos.

Quem defende os direitos humanos se opõe à execução de culpados (e, não custa lembrar, também inocentes) por agentes que detêm o monopólio do uso legal da força (a polícia). Ou seja, defende que quando se flagra alguém cometendo um crime, o criminoso deve responder por seu ato perante a justiça. No entanto, num país com alto índice de violência e forte sensação de impunidade, defender o devido processo legal soa como defender que criminosos não paguem pelo que fizeram.

Opor-se a execuções por grupos de extermínio ou ao linchamento (no Brasil, algumas fontes apontam a média de um linchamento por dia) é ser contrário à prática do justiçamento, da vingança. E defender que mesmo quem comete um crime deve ter alguns direitos básicos garantidos, como o direito à vida, o direito de não ser considerado culpado sem um devido processo legal, o de não sofrer tortura e outras penas cruéis e desumanas, entre outros.

Quem defende os direitos humanos não defende a impunidade e, muito menos, supõe que bandidos sejam vítimas da sociedade. Afinal, há criminosos ricos e pobres. A ausência de Estado em locais mais periféricos apenas permite que criminosos ajam com mais liberdade, aumentando a sensação geral de insegurança e submissão ao crime. Mas muito dificilmente na mais violenta das favelas a porcentagem de ligadas a atividades criminosas será maior do que, por exemplo, no Congresso Nacional. Portanto, bandidos não são vistos como vítimas da sociedade por quem defende os direitos humanos. Mas é evidente que quem milita nessa área vai se opor à criminalização da pobreza.

Aqui, lembro a crítica tecida por um procurador do Ministério Público Federal sobre quem se podem tecer várias críticas, menos a de ser a favor da impunidade. Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jata no Paraná, foi uma das muitas vozes que se insurgiu contra o absurdo mandado de prisão coletivo que se pretendia expedir em determinadas regiões (pobres) do Rio de Janeiro, no começo da intervenção no Rio. Seguindo a tradição de defesa dos direitos humanos, que marca o MPF, o procurador declarou que “se cabem buscas e apreensões gerais nas favelas do Rio, cabem também nos gabinetes do Congresso”.

Quem defende os direitos humanos não liga quando morre um policial?

Outra crítica comum contra militantes e organismos que trabalham em favor dos direitos humanos é que esses organismos e essas pessoas agiriam quando se executa um bandido, mas não fazem nada em relação aos policiais que morrem. Esse tipo de crítica frequentemente é feita por quem não costuma se engajar quando ocorre a morte de policiais e certamente não sabe que no Rio (estado que tem a segunda polícia que mais mata e a primeira que mais morre no país), a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa realiza um trabalho de apoio aos parentes de policiais mortos. A própria Marielle, quando era assessora do deputado estadual Marcelo Freixo, trabalhou nessa comissão. O ex-chefe do estado-maior da PM no Rio, que acompanhou e incentivou esse trabalho desde o início, se manifestou homenageando Marielle Franco e pedindo que cessassem as tentativas de macular sua memória com boatos e notícias falsas.

Quem defende os direitos humanos não está preocupado com quem é vítima da violência?

Não é raro ouvir que quem defende os direitos humanos cobra investigação quando um bandido é morto, mas ignora as pessoas que morrem vítimas da violência urbana. Essa crítica talvez se fundamente no fato de que vítimas de crime buscam amparo nas forças de estado (polícia e judiciário), enquanto militantes em prol de direitos humanos costumam ser mais ouvidos quando é um agente de estado que comente um crime (o que pode deixar a vítima desse crime órfã de amparo). No entanto, pessoas que defendem os direitos humanos têm forte preocupação acerca de que modelos de segurança pública o país utiliza. Isso porque é impossível conceber um estado que garanta os direitos humanos se os direitos básicos à vida e à segurança não são garantidos.

Evidentemente, os modelos de segurança podem divergir. Mesmo entre os grupos que militam em prol dos direitos humanos. Em geral, no entanto, esses grupos tentem a preferir uma polícia desmilitarizada ou, no mínimo, com uma melhor formação para o respeito aos direitos humanos (a desmilitarização foi recomendada em 2012 pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, num relatório que continha 170 recomendações diversas ao país — mas essa recomendação sobre a política não foi aceita pelo então governo). Também tendem a apoiar restrições ao porte e uso de armas pela população e a progressiva descriminalização das drogas. E contrários, em geral, à pena de morte. Até aqui, há o espaço para divergências, pois se trata de modelos de políticas de segurança pública. No âmbito do inegociável, esses grupos costumam defender de forma incisiva os cidadãos contra torturas, execuções, abusos de autoridade, buscando proteger o cidadão quando este é perseguido por agentes estatais e perde o amparo do próprio estado.

Sinto-me impelido a escrever sobre direitos humanos, pois o fato de Marielle Franco ter sido uma ativista dessa causa foi visto por muitas pessoas como motivo suficiente para questionar a gravidade de sua morte, ou para responsabilizar parcialmente a própria vítima pelo ocorrido. Além disso, há a difamação, que tem sido tão grave que um grupo de advogadas se uniu para rastrear os boatos contra a ex-vereadora, para encaminhá-los à Delegacia de Repressão contra Crimes de Informática. Elas pedem o seguinte:

“Se você se deparar com algum post de ódio ou que contenha alguma afirmação que difame a vereadora, salve uma cópia do material com o máximo de informações que puder, como o nome de quem fez o compartilhamento, link da postagem e do perfil da pessoa. Se tiver sido por WhatsApp, adicione também o número do telefone que te encaminhou a mensagem. Envie as informações para contato @ ejsadvogadas.com.br.”

Nos primeiros dois dias desse anúncio, mais de duas mil denúncias foram encaminhadas a esse grupo. Não devemos nos alarmar, pensando no alcance potencial das mentiras inventas. Essas duas mil denúncias testemunham algo poderoso, que é a intensa mobilização em torno da preservação de uma memória de luta.

Vivemos um tempo em que ter esperança é um exercício diário. Somos chamados a prosseguir e cada uma de nossas escolhas determina o lugar que ocupamos (ou desejamos ocupar) no mundo. Dá um alento saber que a morte de Marielle não produziu silêncio, e que atos se espalham pelo país. Enquanto vejo a dimensão dessas manifestações, canto mentalmente uma nova letra para uma velha canção. Quase ouço uma voz indistinta, entoando que “Mais que nunca é preciso cantar. / É preciso cantar e tomar as cidades.”

Se uma voz poderosa se cala, precisamos de dez novas que ressoem numa defesa intransigente das garantias e direitos que vêm sendo negados a tantos. Há tanto tempo! Vozes que se recusem a se deixar transformar em ódio. Que ocupem ruas, praças, tribunas e tribunais. Talvez nesses encontros surjam algumas dessas vozes.

Penso que é primordial aprender a usar os mecanismos de vigilância a nosso favor. Cada cidadão, hoje, tem a possibilidade de fiscalizar atos de agentes que detêm o monopólio da força. É importante que se saiba e se propague que qualquer cidadão tem o direito de filmar uma abordagem policial. Sabemos do risco de algo assim, pois forças autoritárias inventam regras que não existem para não serem fiscalizadas. Mas se estivermos em segurança, não precisamos hesitar de fazê-lo. Talvez estejamos contribuindo para criar uma cultura em que agentes públicos que detêm o monopólio da força sintam medo de infringir a lei. Como qualquer cidadão.

Certamente há ainda muitos caminhos a percorrer e a se inventar. Mas, por fim, registro que hoje fiquei feliz quando, conversando com a Fabi, ela me contou que há diversos grupos que vêm fazendo um resgate do trabalho e da memória de ativistas vivos. Contando histórias como a de Marielle, que infelizmente só se tornou conhecida após sua morte. E, como sabemos, “as histórias podem criar o milagre que transforma estranhos em irmãs e irmãos”.

____
(1) No original: “Joy is the gift of love. Grief is the price of love. Anger is the force that protects it. This was my third lesson in revolutionary love. We love ourselves when we breathe through the fire of pain and refuse to let it harden into hate.”

(2) No original: “Stories can create the wonder that turns strangers into sisters and brothers. This was my first lesson in revolutionary love – that stories can help us see no stranger.”

Marielle Presente! Atos se espalham pelo país.

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Todo ano, gosto de escrever alguma mensagem a todos que me rodeiam, com a ternura nostálgica dos dias que se acumularam nas páginas do calendário que se encerra, e os desejos de vida e sonho para o novo ciclo solar que terá início. Hoje, no entanto, porque “um ano pode ser bem menor / que o calendário / e bem maior”, nada poderia dizer com mais exatidão tudo o que eu gostaria de exprimir do que algumas palavras que não são minhas. Mas que o amor permite que delas eu me aproprie e espalhe, como desejos também meus, ditos de forma perfeita e precisa pela voz e pela poesia de minha amada Fabi Turci.

http://bit.ly/anonovolab

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Acabo de ler admirado um artigo da Judith Butler sobre os acontecimentos em torno de sua vinda ao Brasil. Penso que se é possível discordar frontal ou parcialmente de sua leitura de mundo, pois, no olhar que lançamos à complexidade de tudo que há, estarão nossas certezas (ou incertezas) e nossos valores. Mesmo compreendendo discordâncias, tenho dificuldade de também compreender como se pode acusar de promover a pedofilia (aqui entendida como uma violência imensa contra alguém que, sendo criança, não é capaz de se defender), alguém que afirma o seguinte:

“Liberdade não é — nunca é — a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como livre — ela se torna uma ação lesiva.”

Acho que o que mais me admirou neste artigo foi o esforço de tentar compreender as razões e as consequências de uma violência sofrida por si própria. E, a partir disso, reafirmar seu compromisso e sua luta por um mundo com mais liberdade e mais alegria.

Destaco abaixo um dos trechos do artigo da Judith Butler, publicado neste domingo (19/11), que mais me chamaram a atenção. Mas a leitura do artigo todo, para mim, só aumenta a potência das palavras abaixo.

“Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído ilesa, fiquei horrorizada com a ação.

Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais e de gênero seja abominada.

Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis serem protegidos contra violência e assassinato.

Pessoas que acreditam no direito dos jovens exercerem a liberdade de encontrar seu desejo e viverem num mundo que se recusa a ameaçar, criminalizar, patologizar ou matar aqueles cuja identidade de gênero ou forma de amar não fere ninguém.”

Para ler a íntegra do artigo, clique aqui.

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A literatura para mim é um espaço de encontro e de conversa infinita. Imerso nela, dialogo com autores que se foram antes mesmo de eu nascer, dialogo com os que partilham comigo o tempo presente e, quem sabe, continue a dialogar com os que virão depois de mim, se o que eu hoje escrevo continuar a reverberar em minha ausência.

Neste domingo (12/11), recebi com grande alegria o convite da Camila Passatuto para participar da mesa “Práticas de leitura. Como nos tornamos leitores.”, durante o lançamento em Santo André da Revista O Último Leitor Morreu. Estarei dividindo experiências com o querido Escudeiro (companheiro na lindíssima Editora Patuá), com o Marcelo Nocelli, cujo trabalho com a Editora Reformatório acompanho com grande entusiasmo, e com Samuel Malentacchi e Alexandre Rabelo (mediador), autores que terei o prazer de conhecer no improviso concertante do diálogo.

A mesa está prevista para 20h, no Gambalaia Espaço de Artes (Rua das Monções, 1018 – Jardim – Santo André/SP). Mais informações, clique aqui.

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Acolher talvez seja o ato político que nos resta. Perceber que, assim como eu, o Outro também vive a perplexidade de habitar um mundo impossível de compreender. A frustração de ter demandas urgentes que não são atendidas. E o medo decorrente do incerto. Essa foi a constatação que minha esposa, a Fabi, dividiu ontem comigo. Uma constatação precisa, quando olhamos os fluxos discursivos que nos cercam.

Pensei em como venho lidando com as diferenças que se evidenciam cada vez mais nos dias de hoje. Tenho buscado identificar o que há de comum para, então, oferecer meu ponto de vista em contraponto. Uma herança da ideia de alteridade evidenciada no diálogo, em que se movem pontos de vista e visões de mundo distintos. Mas a Fabi me apontou que iniciar um diálogo a partir das semelhanças para depois pontuar as diferenças ainda é uma busca por convencer o Outro. E é sobre a falência dessa pretensão que ela estava falando.

Ela me questionava qual era o resultado efetivo de tentar demover alguém de uma ideia, de um valor, de uma convicção? O que foi possível construir por meio desse tipo de prática? Que tipo de mundo e de sociedade é possível se criar quando alguém, do alto de seu saber verdadeiro, busca convencer o Outro do equívoco de seus valores? E eu não tenho respostas para essas questões.

Evidentemente, eu tenho meus valores, minhas convicções. Mas durante a conversa com minha esposa, o que ressoou fundo foi que talvez eu precise de esforço para compreender que eles não são universais – por mais que eu pudesse desejar que o fossem. Há muitas pessoas que se pautam por valores distintos, que têm demandas e projetos diferentes, visões de mundo e de sociedade, por vezes, contrárias. Se minha primeira reação, quase instintiva, é a de dizer que isso não me demoverá dos meus valores, por que posso julgar correta minha pretensão de demover o outro dos valores que lhes são caros?

Toda conversa de ontem me sinalizou que talvez o projeto político do esclarecimento não tenha dado certo exatamente porque pressupõe que haja uma visão correta de mundo que deva ser propagada. O embate dialético em busca do bem comum não me parece ter resistido à multiplicidade de desejos distintos, que não foram atendidos. E hoje o que acabamos testemunhando é um mundo em que muitos gritam e ninguém (se) ouve.

Reproduzo as ideias desse diálogo e divido essas percepções, não com a pretensão de quem afirma uma verdade categórica. São apenas impressões colhidas no instante. Reverberam uma forma nova como consigo ler o mundo de hoje, a partir do atravessamento das ideias trazidas pela Fabi. E só podemos pautar nossa ética em nossa forma de ler, ouvir e compreender o mundo ao redor. Assim como cada uma dos bilhões e bilhões de pessoas que habitam esse vasto e diverso mundo.

Essa nova percepção de nossos tempos me faz abrir mão de pretender convencer qualquer pessoa de qualquer coisa que seja. Porque não importam muito meus valores, minhas escolhas, minhas opiniões. Isso jamais será capaz de me aproximar do Outro. E quando me refiro ao Outro, falo daquele que pensa, age e se conduz no mundo de forma bastante distinta da minha. Porque aqueles com quem partilho valores, experiências e opiniões já fazem parte de um grupo que eu poderia chamar de Comuns. Com esses, eu comungo do mesmo corpus, e essa comunhão forja o conceito de comunidade – e há comunidades geográficas ou imaginadas, há vizinhanças físicas ou semânticas.

O que desejamos formular a partir daqui é uma ideia sobre como nos portar diante do Outro. Daquele que, quando ouvimos, pensamos que ele não deveria pensar como pensa nem agir como age. Teríamos o direito de também julgar que ele não deveria sentir como sente? Insistir com esse Outro que ele está errado e nós (supostamente) certos o fará pensar como pensamos? O estado de coisas ao redor parece sinalizar que não.

Love - Alexander Milov

Love – Alexander Milov

Percebi ontem que o maior desafio para aqueles que, como eu, defendem que a alteridade e a diversidade devem ser respeitadas e protegidas é abrir-se para verdadeiramente ouvir o Outro, aquele que tem valores opostos. Escutar suas demandas, seus medos, seus sonhos, seus desejos e ver a legitimidade de tudo isso. Porque são essas coisas que fundamentam aquilo que o Outro defende. Ouvir sem tentar demovê-lo de suas ideias. Mas também sem anuir com comportamentos e ações que firam meus princípios. Equilibrar-se nessa difícil corda bamba da alteridade parece urgente. Porque, como sociedade, estamos todos repletos de raiva e ódio. E, como a Fabi me disse, essa raiva, esse ódio não têm espaço de acolhimento nos imperativos do nosso mundo, pois não há espaços para acolher o que o Outro sente. Em geral, a raiva e o ódio são insuflados pela suposta confirmação das razões pelas quais se odeia, dada tanto por quem aplaude quanto por quem argumenta contra o que o Outro diz.

A nossa aposta é que pela escuta empática, por esse ato raro num mundo de ouvidos moucos, recuperemos nossa capacidade humana de conexão com o Outro, que anda perdida nos campos de batalha da vida. E assim substituir a política do convencimento por uma política do afeto, em que levar o Outro à (nossa) verdade dê lugar a acolher o Outro em seus sentimentos. Minha incapacidade para manejar as armas do ódio quer crer que, quando o Outro for acolhido por quem tem princípios e valores diferentes, talvez ele deixe de ver a diferença como um inimigo a se combater e destruir.

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Já torturamos blasfemos e apóstatas, queimamos bruxas, hereges e livros em praça pública, já chamamos de degenerada a arte que questionava seus fundamentos e abria a porta para a criação de novas percepções e sensibilidades. Devo me corrigir. Continuamos torturando e matando bruxas, hereges, blasfemos e apóstatas – esses são crimes oficialmente passíveis de morte em vários países do mundo.

Talvez o peso de toda incapacidade histórica (e contínua, e atual) de acolhermos o Outro em sua profunda alteridade seja o que mais me aterra na sequência de acontecimentos ligados ao desejo de banir manifestações artísticas “degeneradas” (impossível, diante desses episódios, não lembrar do conceito de Arte Degenerada na Alemanha Nazista). Esses acontecimentos começaram no domingo (10/9), quando, por meio de pressão de um movimento que se define como liberal, a exposição “Queermuseu” – que estava aberta ao público desde o dia 8 de agosto em Porto Alegre – foi encerrada prematuramente por um museu mantido por um grande banco.

Cruzando Jesus Cristo com o Deus Shiva – Fernando Baril – uma das obras da exposição Queermuseu.

Na quinta-feira (14/9), quatro dias depois o encerramento da exposição “Queermuseu”, parlamentares da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul registraram um boletim de ocorrência, por apologia ao estupro de vulnerável (pedofilia), contra a artista plástica mineira Alessandra Cunha, que tinha obras expostas no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande. A denúncia foi feita por causa de um quadro chamado “Pedofilia”, em que se vê uma espécie de sombra de uma figura masculina, com um pênis ereto, próximo a uma menina de olhos arregalados e assustados. No quadro, pode-se ler duas vezes a frase “O machismo mata, violenta, humilha”. Os deputados classificaram a obra da artista como promoção “de sacanagens e desrespeito à família e aos bons costumes”. Com base nessa denúncia, um delegado de polícia julgou que, como no quadro aparece a figura de um homem com o pênis muito próximo de uma criança, teria havido o crime de apologia e apreendeu o quadro (apesar de ser bastante óbvia a crítica que a obra faz desse ato), além de ter intimado a coordenadora do museu a depor sobre a exposição “Cadafalso”, da artista mineira.

Pedofilia - Alessandra Cunha - obra da exposição Cadafalso.

Pedofilia – Alessandra Cunha – obra da exposição Cadafalso.

Para coroar a semana de pânicos morais em relação a manifestações artísticas “degeneradas”, na sexta-feira (15/9), decisão liminar de um juiz proibiu a apresentação, no Sesc de Jundiaí (SP), da peça de teatro “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, em que Jesus Cristo é representado por (e como) uma travesti. A liminar foi concedida em ação movida por uma advogada para quem “a peça afeta a dignidade cristã, expondo ao ridículo símbolos como a cruz e a religiosidade que ela representa” (Processo n° 10164228620178260309 – Primeira Vara Cível da Comarca de Jundiaí/SP).

O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu – apresentação no Sesc de Jundiaí foi cancelada por decisão judicial (retirado da página do espetáculo).

Existe uma linha tênue que marca a diferença entre o caso do cancelamento da exposição “Queermuseu” e os outros dois casos ocorridos nessa semana. O cancelamento do “Queermuseu” foi fruto da pressão de movimentos que se insurgiram, por causa de certo pânico moral, fazendo com que indivíduos, assumindo o lugar de cruzados morais, se levantassem para acusar uma determinada manifestação artística, fazendo com que a instituição que a apoiava deixasse de fazê-lo. Já nos casos de quinta e sexta-feira, há uma intervenção direta de poderes públicos (a polícia ou o judiciário) contra a liberdade de expressão. O que ocorreu em Campo Grande, aliás, guarda muitas semelhanças a histórias contadas pelo Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto) na série de livros chamados “Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País”. Li o Febeapá na adolescência, durante a primeira metade da década de 90, e naquela época não podia imaginar que eu veria histórias como aquelas se repetindo. Nunca me esqueci de uma dessas histórias, em que um delegado de polícia havia apreendido todos os exemplares de uma encíclica papal, por se tratar de material pornográfico. Aquilo era tão absurdo – mesmo para os padrões do período da ditadura militar, em que o nonsense e o medo imperavam irmanados –, que ele foi questionado sobre como aquilo era possível. Mas o delegado respondeu, com uma truculência que perdura até os dias de hoje entre os que exercem poder policial, que quem entendia de literatura era a polícia… E hoje, na literatura contemporânea, temos o exemplo de um autor (Ricardo Lísias) que teve problemas com a Justiça por polêmicas relacionadas a pelo menos duas obras suas. Numa delas, Lísias teve de explicar à Polícia Federal algo óbvio: que uma decisão judicial dentro da obra Delegado Tobias era apenas ficção, e não uma falsificação documental.

No entanto, há também uma clara linha de continuidade nos três casos. Apenas quando uma parcela significativa da população clama por censura é que os poderes públicos têm o espaço necessário para exercê-la. Foi assim no nazismo. Foi assim no regime stalinista. Foi assim também em todas as ditaduras latino-americanas, durante a Guerra Fria. A decisão que proibiu a exibição da peça em Jundiaí, por exemplo, veio precedida, segundo a própria diretora do espetáculo censurado, por “ameaças de censura, ameaça física, insultos e difamação na internet” no decorrer de um ano que a peça está em cartaz – embora esta tenha sido a primeira vez em que o espetáculo foi impedido de acontecer. Já no caso da denúncia contra a autora do quadro “Pedofilia”, é sintomático que, antes de ela ocorrer, os deputados estivessem discutindo exatamente a exposição encerrada precocemente em Porto Alegre.

Inevitável pensar que as críticas que aparecem em meu livro “Trítonos – intervalos do delírio” a uma concepção divina dominada pelo masculino também podem ser vistas como degenerações, levando certos grupos a querer censurá-las um dia. Ali, invento uma obra perdida da filósofa Hipátia em que ela diz que, havendo um deus trino que criou o homem e a mulher a sua imagem e semelhança, sendo Jesus um homem e o Espírito Santo a relação de amor entre Jesus e a divindade criadora, essa primeira pessoa divina só poderia ser uma mulher, uma deusa mãe. No conceito de arte degenerada da Alemanha Nazista, fica muito claro que determinado tipo de arte era associada a certos grupos de pessoas. Por essa razão, me parece que proibir a arte é um limite tão extremo e perigoso, que tende sempre ao fracasso. Dizer que uma arte não pode ser feita significa que um determinado tipo de pessoas não deveria existir. Embora o estatuto do artístico dê – ou ao menos devesse dar – a possibilidade de abordar tabus sem fazer apologia, o discurso da arte não é panfleto e contém em si também a própria crítica. Assim, de uma certa forma não há assunto proibido à arte – e talvez aí resida seu maior poder.

Mas celebro uma constatação, talvez óbvia, diante de tudo isso: a força avassaladora da arte. A arte mobiliza as pessoas, funda sensibilidades, provoca e expõe as entranhas dúbias, inclusive, dos poderes. Numa semana como a última, em que três manifestações artísticas, em três pontos distintos desse imenso país, sofreram com perseguição e censura, há um pequeno alento em me dar conta de que as artes são uma forma de poder, nas mãos daqueles em que me reconheço.

Heronimus Bosch - O Jardim das Delícias Terrenas

O Jardim das Delícias Terrenas – Hieronymus Bosch – Arte Degenerada no fim da Idade Média?

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ei, poeta! me conte sobre suas certezas, suas convicções poéticas?
(Carla Diacov)

 

Repara no corpo
das palavras empilhadas
verso a verso,
estrofe a estrofe –

ali dentro reside
o avesso de um aedo órfico.

Poesia é a dança
de um deus niilista
despindo-se da (in)utilidade
das palavras dos homens.

Para o movimento, os sons
delineiam sentidos.

Ouve a melodia silente
ressoando nas formas das letras
e nos entres das linhas.
Ela te convoca

para uma contradança
de fremir as carnes.

Poesia é o cosmo
que se engendra quando
aquele que será
diz: “faça-se”!

E na lucilação da palavra
o corpo se a(s)cende.

Poesia é atirar-se no abismo,
aceitando esta ética do acaso
a tecer um caos de formas.
Ao erguer e desmanchar paradoxos,

a criação vive
a incerteza da página em branco.

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