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Archive for the ‘Cogito ergo sum’ Category

ei, poeta! me conte sobre suas certezas, suas convicções poéticas?
(Carla Diacov)

 

Repara no corpo
das palavras empilhadas
verso a verso,
estrofe a estrofe –

ali dentro reside
o avesso de um aedo órfico.

Poesia é a dança
de um deus niilista
despindo-se da (in)utilidade
das palavras dos homens.

Para o movimento, os sons
delineiam sentidos.

Ouve a melodia silente
ressoando nas formas das letras
e nos entres das linhas.
Ela te convoca

para uma contradança
de fremir as carnes.

Poesia é o cosmo
que se engendra quando
aquele que será
diz: “faça-se”!

E na lucilação da palavra
o corpo se a(s)cende.

Poesia é atirar-se no abismo,
aceitando esta ética do acaso
a tecer um caos de formas.
Ao erguer e desmanchar paradoxos,

a criação vive
a incerteza da página em branco.

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I
Querer o mundo

Querer o mundo sem saber a forma
de o querer é querê-lo mesmo assim?
Bem sei que o meu desejo a si transforma,
mas qual a forma de o querer em mim?

Todo desejo sempre a si deforma
e adorna num desejo alterno afim.
Sei que todo querer não se conforma,
conformar-se é encontrar o próprio fim.

Às vezes meu querer, tão inconfesso,
se confunde com aquilo que é querido
e se confunde, enfim, com o próprio excesso

de mundo que os ouvidos meus escutam.
Eu tenho o mundo em tudo quanto é lido
e nisto os não-vividos se executam.

II
Pensar o mundo

É mais fácil viver num mundo cheio
de verdades vazias, ver o eterno
céu azul de uma infância sem recheio
de um real que também possui inverno.

Eu, quem quis o mundo, enfim achei-o
num ato tão contínuo quanto interno,
que só se justifica pelo meio
– é sem fim – e que em mim faz céu e inferno.

Pensar é padecer no paraíso!
Penso que pensa quem não tem juízo,
pois cultiva um prazer que é quase estoico.

Eu chego a acreditar na humanidade
e até que neste mundo há bondade.
Ao pensar eu me sinto paranoico!

III
Fazer o mundo

Somos todos uns loucos arquitetos
enchendo de futuros o universo.
O mais concreto dentre os meus concretos
às vezes faz tijolo de um meu verso.

Ao moldar meus objetos mais diretos
eu migro ao que é futuro e ao que é diverso.
Eu corro por alguns caminhos retos
à tangente presente do universo.

Tijolos de um futuro antecipado
e que pode jamais acontecer
eu utilizo no fazer o mundo.

E este mundo por mim mal tracejado,
que pode um sofisma vir a ser,
é aquilo que me resta de fecundo.

___
Do livro Poemas para serem encenados (2008).

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Agosto termina deixando um abismo de dúvidas e receios sobre os rumos do país. Abismos, aliás, que nunca se fecharam. Talvez por isso, o dia hoje tentou seguir a normalidade. Mulheres e homens saíram para trabalhar, crianças foram para as escolas, os ônibus circularam normalmente, lojas e restaurantes abriram. Mas uma tensão — presente nos ares do país durante todo esse ano — não se dissipava. A chuva que caia desde cedo na cidade em que habito não lavava a alma de ninguém. Talvez os céus apenas chorassem por essa herança de incertezas.

Mas o que vivemos hoje está longe de ser uma exceção em nossa história. Olhando para trás, é possível constatar que “o maior eixo de continuidade da história recente do Brasil é a instabilidade”. Se pensarmos a história recente do país a partir da chamada Era Vargas, vamos perceber que tivemos somente onze eleições diretas para presidente desde 1930. Por isso, temos hoje estranhas configurações de pais que votaram para presidente o mesmo número de vezes que seus filhos. Mesmo no meu caso, minha mãe só votou para presidente duas vezes a mais do que eu.

Dos oito presidentes eleitos nessas onze eleições que tivemos nos últimos 86 anos de nossa história, somente quatro conseguiram terminar seus mandatos. E em 127 anos de República, apenas 12 presidentes foram eleitos por voto direto, tomaram posse e governaram até o final, incluindo nesse cálculo a presidenta Dilma Rousseff no primeiro mandato. Constatar isso de forma quase didática é um pouco assustador… Ainda mais pelo fato de termos vivido os últimos vinte (e um?) anos com uma ilusão de estabilidade, derruída no decorrer de 2016. Realmente torço para que meus temores sejam exagerados, mas a história me mostra que a junção de um descrédito generalizado em relação à democracia com um crescimento preocupante de diversos discursos de ódio jamais produziu bons frutos.

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. - André Mendes Pini

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. – André Mendes Pini.

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Os três parágrafos abaixo, escritos por João Paulo Cuenca, abordam de forma quase precisa a inquietação que os acontecimentos do dia de hoje me trouxeram. Por isso mesmo, não poderia me furtar a dividir, com uma tristeza perplexa, tais reflexões aqui. Vem-me à cabeça a indagação sobre como o dia de hoje será narrado nos livros de história daqui a vinte e poucos anos (espero que ainda haja livros, história e humanidade até lá!). Espero quase fervorosamente que não seja como o antecedente de um golpe que pôs fim ao mais longo período democrático do país.

Há algo em jogo para além das disputas partidárias ou do apoio e da queda de um governo: são os rumos da República, ou melhor, da própria democracia. E para mim a atitude do juiz alçado à condição de herói despreza esse valor, ao divulgar grampos avidamente, atropelando a justiça com fins partidários — e não com fins políticos, posto que essa crítica me parece imprecisa já que o Judiciário É POLÍTICO, pois é um dos poderes da República.

Pois bem, ao tornar pública a conversa da pessoa que ocupa a presidência da nação, o juiz federal Sergio Fernando Moro, pelo pouco que sei de direito como leigo, cometeu um ato ilegal (veja mais aqui sobre essa questão). Uma vez que na interceptação existe o envolvimento de uma pessoa com prerrogativa de foro, não caberia ao juiz suspender o sigilo das interceptações telefônicas, mas sim remetê-la ao tribunal competente — no caso, o Supremo Tribunal Federal. Não estou nem pensando na questão da ilegalidade da própria interceptação, caso ela tenha sido feita após a própria ordem de interrupção da medida. A parcialidade do juiz me parece evidente quando se constata que esse é provavelmente o último ato dele antes de remeter toda investigação ao Supremo, em razão da prerrogativa de foro que ganharia um dos investigados, ou talvez o principal deles, chamado Luiz Inácio Lula da Silva. E Moro decide — ao meu ver, além de parcial, ilegalmente, divulgar tudo, sabendo bem das consequências políticas e sociais dessa divulgação.

Sei que isso dificilmente me livraria de argumentos ad hominem contra minhas breves reflexões, mas mesmo assim não custa afirmar aqui que acho que o PT, para se manter no poder, tomou muitos rumos desastrosos. Alianças com antagonistas históricos (como Maluf e Collor), distanciamento de pautas histórias em favor dos direitos humanos, desastrosas políticas ambientais e indigenistas, e repressão violenta ao direito de manifestação são os pontos mais tristes desses rumos fronteiriços ao desastre.

Por João Paulo Cuenca

A questão agora não é estar ou não com o PT. Não é ser “fora Dilma” ou “fica Dilma”. Eu nunca votei na Dilma, por exemplo, e acho seu governo desastroso. E daí? Essa não é a questão agora. Já deixou de ser há meses e vocês ainda não entenderam.

A questão é que o Juiz Moro não é imparcial e atropela a justiça com fins políticos, numa operação conjunta à grande parte da imprensa, partidos políticos e corporações. A imprensa não pode ser um partido político. O Judiciário não pode ser um partido político.

Entendam: o que está em jogo é algo muito mais importante do que quem ocupará ou não a cadeira de Presidente da República do Brasil. O que está em jogo é a própria cadeira. E a República.

(Publicado originalmente aqui.)

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Neste dia 29 de janeiro, quero me juntar a vozes quotidianamente caladas que pedem ouvidos que ouçam. Vozes de pessoas que passam invisíveis por nós, sem que tenhamos olhos de vê-las. Gostaria que este texto conseguisse propagar, por transdução, esse grito contido — levando adiante a força e a emissão dessas vozes sem alterá-las.

Hoje, celebra-se o Dia da Visibilidade Trans*, data que alude ao lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. Aproximei-me das pautas de pessoas trangêneras ao começar a pesquisar sobre o tema, por causa de um projeto literário. Mas conhecer as questões ligadas às chamadas identidades trans* é — que bom! — um caminho sem retorno. Em primeiro lugar, por ser impossível a indiferença ao conhecermos a urgência de suas pautas e a negação sistemática (ou, melhor dizendo, “cistemática”) de quase todos os aspectos ligados à sua cidadania. Em segundo lugar, por tornar-se impossível aceitar como natureza os diversos elementos que engendram nossa identidade e nosso ser no mundo.

No propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras.

Até há bem pouco tempo, eu não me sabia um homem cisgênero. Como a maior parte das pessoas cis, eu simplesmente ignorava esse termo. Isso equivale a dizer que, aos meus olhos, a minha identidade era experimentada como uma espécie de natureza. Isso não quer, no entanto, dizer que eu ignorasse que houvesse homens e mulheres trans*.

Para mim, reconhecer a cisgeneridade é um ato político. É compreender, em primeiro lugar, que eu ocupo um lugar específico no mundo, que tenho privilégios específicos por conta disso e que é a partir desse lugar discursivo que meu olhar se conforma. É, ainda, não aceitar como uma natureza a construção de minha identidade. E é, também, reconhecer minha liberdade para me determinar perante o mundo.

Eu sou alguém a quem todos sempre identificaram como pertencente ao gênero masculino e me identifico dessa forma. Mas, ao reconhecer que isso é uma construção, ganho ferramentas para questionar certos papéis que me são atribuídos pelo simples fato de eu ser homem cisgênero e heterossexual. Papéis esses que fazem com que alguns direitos que tenho, e que deveriam ser comuns a toda e qualquer pessoa, sejam, na verdade, privilégios.

Para mulheres ligadas às pautas feministas, esses questionamentos não são uma novidade, uma vez que o feminismo também questiona a suposta natureza feminina e os papéis de gênero designados a homens e mulheres. Essa, inclusive, não é uma discussão nova no feminismo. Logo no início de “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir já aborda questão:

“Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: o que é uma mulher?”

O mesmo também me parece valer para o movimento gay. A homossexualidade já foi considerada um crime e isso se refletia na linguagem. O mundo que via a prática homossexual como delito costumava se referir a ela pelo termo pederastia. Como homossexualismo, figurou na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, sob o número 320.0, até 1990, ou seja, até há muito pouco tempo. E o desejo por alguém do mesmo gênero não seria um comportamento esperado, pelos papéis heteronormativos destinados a homens e mulheres. Contra a naturalização da heteronormatividade se insurge o movimento gay.

É neste ponto que o meu espanto pela oposição ao termo cisgênero se dá. Existe um discurso dominante transfóbico que desconsidera a existência de homens e mulheres trans*. Essa lógica, espalhada e naturalizada pelo senso comum, considera que homens trans* seriam falsos homens, assim como mulheres trans* seriam falsas mulheres. Esse tipo de pensamento está impregnado na fala quotidiana. Mas também, de forma mais sutil, está presente no discurso médico cissexista, que designa como doente mental ou transtornada a pessoa que apresenta uma identidade transgênera — ou seja, uma identidade desconforme com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

Vejo o uso do termo cisgênero, que teve início no interior da comunidade trans*, como um fenômeno linguístico que abre a possibilidade de contestação da normatividade cisgênera — ou cisnormatividade. E os diversos modos de tentar silenciar esse uso contribuem para a oposição de pessoas transgêneras a pessoas normais. Por isso, não consigo entender que pessoas cisgêneras, aparentemente inseridas em lutas a favor de grupos oprimidos, recusem o termo cisgênero como se ele fosse um absurdo, ou até uma ofensa, sem atentar para as consequências disso. Deslegitimar o termo cisgeneridade é continuar aceitando que existam as pessoas trans* e as… biológicas! Uma outra forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans.

Quando não aceitamos a cisgeneridade, reafirmamos discursivamente que pessoas trans* são anormais, doentes. Ou ainda, lhes negamos mais uma vez o direito à existência. Aliás, existe toda uma construção social que aceita a cisgeneridade (essa coisa sobre a qual não se deve falar!) como uma norma compulsória — ou um “cistema”, como dizem as pessoas ligadas ao movimento trans*. Esse mesmo cistema que aceita como evidência natural a cisgeneridade compulsória designa as identidades trans* como uma doença. Sim, a transexualidade (designada patologicamente como transexualismo) é ainda considerada um transtorno mental e tem um número na atual Classificação Internacional de Doenças (CID-10): F64.0.

Quem argumenta que o termo cisgênero engendra um novo par opositivo (cisgênero/transgênero), construído de forma hierárquica e dicotômica, ou então que não seria possível designar a pessoa cisgênera como aquela que se adéqua às suas expectativas de gênero porque ninguém se encaixa totalmente a elas — como se o termo cisgênero significasse isso — me parece ignorar tanto onde se irrompe a noção de cisgeneridade quanto seu significado usual. Essa noção se movimenta dentro de discursos que consideram fluidas as categorias de gênero e que reconhecem a autodeterminação como um direito humano.

O termo cisgênero simplesmente designa o sujeito que se identifica como pertencente ao gênero que lhe foi designado ao nascer. Ele circuscreve a alteridade para o transgênero. Define o “Outro” e, por oposição, o próprio sujeito que fala. E, o que é mais importante, ele sinaliza que as pessoas trangêneras são sujeitos do discurso sobre si mesmas, e não objetos de análise definidos de fora de suas vivências.

Além disso, diferente do que algumas críticas costumam afirmar, a cisgeneridade não se refere a pessoas que se adequam à expectativa de seu gênero. Até porque o discurso de onde essa palavra emerge compreende o gênero como uma construção. Ele é, portanto, amplo e plural para sujeitos cisgêneros, trangêneros ou não-binários. O que frequentemente ocorre, porém, é que nós nos esquecemos de que nossa identidade nunca é fixa, que se trata sim de uma construção contínua, o que é válido tanto para pessoas cis como para trans*. Mas as pessoas que têm formas de proceder ou identidades esperadas e naturalizadas não são questionadas sobre quando se perceberam ou se tornaram aquilo que são.

Site Transfeminismo.com

Site Transfeminismo.com

Não vejo como é possível conceber e aceitar como naturais a exclusão e a invisibilidade das identidades trans*. E, para mim, o silêncio em torno da cisgeneridade está intimamente ligado a isso. Como aponta a Bia Bagagli num texto intitulado Cisgeneridade e Silêncio, “podemos entender que o silêncio funda a cisgeneridade”. “Esse silêncio”, ela aponta, “se dá ao mesmo tempo em que produz coerências e inteligibilidades às identidades dos sujeitos cisgêneros e interdições à plena identificação de gênero aos sujeitos transgêneros”.

Conhecer minimamente a transfobia generalizada em nossa sociedade me impele à luta pela quebra desse silêncio. Por essa razão, me uno hoje à blogagem coletiva pela visibilidade trans*, convocada pelo site Transfeminismo. Porque reconheço os privilégios advindos de minha posição de homem cisgênero heterossexual e sei da exclusão e da violência diariamente enfrentadas por pessoas transgêneras, julgo que não tenho o direito de lavar as minhas mãos e contribuir com a perpetuação desse silêncio…

Chamada de uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com

Veja a chamada para uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com


Nota: Reconheço aqui minha dívida, durante a escritura deste texto, à leitura ou à releitura de alguns escritos da Bia Pagliarini Bagagli, da Hailey Kaas e da Viviane V., no site Transferminismo.com, e da Leila Dumaresq no blog Transliteração, que abordam o tema da cisgeneridade. Muito obrigado a elas e a tantas outras pessoas que tenho lido ultimamente e que me dão a oportunidade de compreender um pouco melhor sobre as vivências trans*.

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Depois deste texto, não voltarei a escrever sobre eleições neste ano. Mesmo com o segundo turno da eleição presidencial em aberto, não me interessa explorar seus desdobramentos e as eventuais diferenças entre os dois candidatos que permanecem na disputa nacional. Digo apenas que não voto no PSDB de forma alguma — minto, votaria no Aécio em pavorosas e remotas hipóteses como, por exemplo, se ele estivesse no segundo turno com o Levy Fidélix ou com o Everaldo (Pastor).

Este ano, o que me moveu a escolher meus candidatos e me posicionar publicamente sobre minhas escolhas tem pouca relação com a eleição presidencial — que frequentemente ocupa a centralidade das preocupações de grande maioria, como se ao presidente fosse possível mudar todo o país, se quisesse. Minha preocupação principal estava voltada a que tipo de parlamento iria se formar, tendo em vista os posicionamentos extremamente reacionários que vejo ganhando cada vez mais força em nossa sociedade.

Buscarei externar minha perplexidade por ver uma significativa vitória, nas eleições proporcionais, de projetos aos quais me opus com os meus votos. Uma vitória que não sei sequer mensurar, tendo em vista que meu escopo de análise se firmou apenas nos cinco candidatos a deputado federal mais votados no Brasil, todos do eixo Rio-São Paulo. Foram eles, por ordem de votação:

1º Celso Russomanno (PRB-SP) – 1.524.361
2º Tiririca (PR-SP) – 1.016.796
3º Jair Bolsonaro (PP-RJ) – 464.572
4º Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) – 398.087
5º Bruno Covas (PSDB-SP) – 352.708

Para mim, a grande surpresa foi a expressiva votação de Russomano. Minha dificuldade inicial de entender essa votação acabou se esvaindo, quando me dei conta de que ele teve uma boa exposição num programa da TV Record após as eleições de 2012, e que ele se elegeu pelo mesmo partido do Marcelo Crivella — sobrinho do Edir Macedo, senador pelo Rio de Janeiro que disputa o segundo turno para governador naquele Estado.

Por mais que se possa inferir algumas tendências parlamentares de Russomano, tendo em vista seu partido e o claro apoio que ele recebeu da Igreja Universal em 2012, eu não teria como dizer que seu discurso se afina no anverso exato das bandeiras dos direitos humanos e das minorias, que são as bandeiras em que votei. Pode ser que boa parte de seus mais de um milhão e meio de eleitores defenda, por exemplo, que direitos humanos são para humanos direitos e clame por um estado mais policialesco. É bem provável ainda que uma parcela deles se oponha a temas da ordem particular e que dizem respeito ao comportamento moral de cidadãos e cidadãs, como o casamento igualitário, a lei de identidade de gênero, a legalização do aborto e experiências de legalização das drogas. Mas não tenho hoje elementos irrefutáveis para associar todas essas opiniões ao candidato.

Dos cinco mais votados do país, porém, se pode saber, com exatidão, a pauta extremamente conservadora de dois deles: Bolsonaro e Feliciano. Juntos, os dois tiveram 862.659 votos. Além de levarem consigo outros parlamentares com algum tipo de afinidade por suas propostas, sei que a votação significativa dos dois certamente ecoa na eleição de outros políticos com pensamentos semelhantes, mas com votações menores.

Bolsonaro e Feliciano tiveram mais votos do que a soma dos cinco deputados eleitos pelo partido em que votei nas eleições proporcionais (730.097 votos). Veja a votação desses deputados federais abaixo:

Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) – 170.604
Chico Alencar (PSOL-RJ) – 195.964
Jean Willys (PSOL-RJ) – 144.770
Cabo Daciolo (PSOL-RJ) – 49.831
Ivan Valente (PSOL-SP) – 168.928

Evidentemente, o PSOL não é o único partido que congrega candidatos que defendem essas pautas. Além disso, tenho grandes e fundadas dúvidas sobre se o deputado menos votado desse grupo se afina com as lutas dos demais eleitos. Mesmo assim, apenas a título de comparação, considerei a soma de voto dos cinco candidatos eleitos deputados federais pelo partido. Do mesmo modo, também é claro que não são apenas Bolsonaro e Feliciano que concentram o voto dos eleitores extremamente conservadores do país. Mas tanto os parâmetros de comparação superficiais que usei como o notório crescimento das bancadas de partidos, grupos e candidatos eleitos com pautas declaradamente reacionárias me assustam.

E por que me assustam? Acho que o temor com esses resultados vem de uma constatação inegável: ao contrário de uma possível alienação política visível em quem vota, por exemplo, num candidato como o Tiririca, os votos em favor da dupla Bolsonaro e Feliciano são conscientes. Eles dizem respeito a um tipo de sociedade que esses eleitores desejam construir. E não tenho como não lamentar essa escolha, tão antagônica à minha. Eu desejo construir uma sociedade que acolha a diversidade e se esforce por promover a justiça. Uma sociedade que entenda que o corpo e os aspectos particulares da vida de cada pessoa devem ser ingovernáveis, e que os conflitos advindos dos diversos desejos precisam ser resolvidos buscando promover o máximo de igualdade possível. Não quero, ainda, que os direitos que eu tenho sejam privilégios, negados a outros grupos ou pessoas. E não quero um Estado que me dite a moral e os bons costumes, como ousam defender alguns grupos.

Li numa rede social uma postagem de um colega dos tempos de colégio que fazia a comparação entre a votação de Bolsonaro e de Jean Willys (candidato em quem eu votaria, caso ainda morasse no Rio de Janeiro). Demorei um pouquinho para me dar conta de que a postagem não lamentava a alta votação de Bolsonaro, mas a celebrava. Diante do fato de o candidato do PP ter recebido três vezes mais votos do que o do PSOL, o autor dessa publicação comentava, sob a forma de pergunta: “E agora quem representa o pensamento da sociedade brasileira?”. Mesmo com o pequeno crescimento da bancada do PSOL, amargo a impressão de que o pensamento da sociedade brasileira parece estar mais próximo ao do Bolsonaro do que ao do Jean Willys.

Lamento sim, mas respeito as escolhas das quais discordo frontalmente. Sei que elas retratam o país em que vivemos. Continuarei, claro, me opondo a elas, tendo em vista que o processo democrático é construído dentro da diversidade e da pluralidade de opiniões, e tem como sua condição de possibilidade a não opressão às minorias . O processo democrático não se faz só pelo voto. Ele amadurece quando os eleitores cobram, fiscalizam, respeitam a pluralidade de visões e buscam interlocução com aqueles que receberam, pelo voto, um mandato para representar as bandeiras que defendem.

Mesmo pensando assim, assombra-me o abismo de minha própria perplexidade com os legislativos eleitos este ano. Segundo campanha veiculada pela Justiça Eleitoral, o domingo passado teria sido o dia da “Festa da Democracia”. Porém, diante da onda conservadora que vejo se alastrar pelas legislaturas estaduais e federal, o dia 5 de outubro de 2014 pode significar muitas coisas. Mas nenhum de seus significados está no mesmo campo semântico da noção que eu tenho de festa.

Textos referidos pelos links (por ordem de aparição):
» Meus candidatos e minhas candidatas defendem as famílias e a vida. E os seus? – Teofilo Tostes Daniel
» O Congresso não ficou pior. Apenas está mais parecido com o Brasil – Leonardo Sakamoto
» Congresso eleito é o mais conservador desde 1964, afirma Diap – Estadão / Política / Eleições 2014 (autor: João Carlos Magalhães)
» Mais conservadora, Câmara deve barrar ações liberalizantes – Folha de São Paulo / Eleições 2014 (autores: Nivaldo Souza e Bernardo Caram)

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