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Archive for the ‘Cibercultura’ Category

Tenho para mim que o tempo é a medida de nossas histórias, a constante fundamental de nossa memória. Nestes últimos dias, tornou-se uma espécie de febre nas redes a comparação entre uma imagem atual e outra registrada há dez anos. Entro da dança com minha habitual fascinação pelo tempo, evocando os lodos primitivos de nossa individualidade, local onde surgem, como uma espécie de bolor vivo e úmido, as lembranças.

Deparo-me contigo com trinta recém-completos – a foto foi tirada em julho – e constato o quanto você viveu nessa década. Às vésperas de completar quarenta anos – o que ocorrerá em junho – sinto que muita vida pulsou, transbordante. Seus pés se fincaram por tantos caminhos. Sua voz ressonou por tantas paragens. Sua escrita encontrou novos leitores – menos do que gostaria de ainda conquistar, porém mais do que você supunha que teria ao longo desses dez anos.

Você viveu imensas alegrias nessa década. Encontrou um amor para a vida (a Fabi), casou, abriu e fechou uma editora (a Vagamundo), publicou seu primeiro livro de contos pela Editora Patuá. A literatura, aliás, te trouxe muitos amigos — sedimentando essa antiga noção de que o que te move à escrita é o desejo de encontro. A música, outros tantos. Você ainda abrigou três cachorrinhas (@ matilhalab) e em breve adotará um filho ou uma filha – o futuro é aberto!

Nesses dez anos, também viveu novos desafios, o corpo mudou e exigiu novos cuidados. O positivo efeito colateral disso é que esses desafios te obrigaram a se aceitar mais e se acolher nas necessidades de seu corpo. E todas essas experiências – e muitas outras – estão no cerne daquilo que te levou a escrever que “o rosto do real é sempre de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.”

Dois eus deslocados no tempo.

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Se o país não estivesse imerso em tanta fúria, tanto ódio, tanto grito, se por um instante se instalasse algum silêncio, talvez todos ouvissem o sinal de alarme: algo está em perigo. Funcionam os hospitais, os tribunais, as delegacias, abrem-se as repartições, mas não há nenhuma normalidade em nossos dias, nenhuma tranquilidade é possível. Em pouco tempo caminharemos às urnas com as mãos desarmadas, exerceremos com liberdade o ofício do voto, e ainda assim o alarme soará por toda parte: a democracia está em perigo.

A democracia não se resume à possibilidade de depositar um voto na urna; supõe, antes disso, o direito de todos e todas, pleno e absoluto, à existência. O candidato Jair Bolsonaro fere a democracia porque defende o desaparecimento de muitos: de seus adversários, que anseia por banir da política; dos ativistas, que quer extirpar do país; de quilombolas e índios, que pretende privar de suas terras; da comunidade LGBT, intimidada a conter em público seu afeto; dos jornalistas críticos, constantemente ameaçados por ele próprio ou por seus seguidores.

A democracia não sobrevive apenas com um respeito momentâneo às normas; sua preservação requer um compromisso constante com o Estado de Direito. Bolsonaro vem ferindo a democracia há décadas, em seu louvor às opressões da ditadura, em sua defesa insistente da tortura e do extermínio. Ameaçou a democracia no passado, e sua candidatura a ameaça no futuro, com o aceno a medidas autoritárias. A cada declaração ou insinuação, o sinal de alarme soa mais alto.

A cultura ele também quer abater, mas a cultura não se abate. A literatura ele quer calar, mas a literatura não se cala. Contra a censura, contra o desprezo, contra o desdém, contra a imposição de falsas verdades e de equívocas certezas, escritores e escritoras sempre souberam se erguer. Eis o ativismo da literatura, o ativismo que ele não poderá extirpar: a literatura será sempre um dos grandes antídotos para a desumanidade e a indiferença.

Por isso aqui nos erguemos, escritores e escritoras, críticos e críticas, editores e editoras, exercendo nosso ofício da palavra, ouvindo como outros o ruído das sirenes. Por isso clamamos por uma união de todos e todas que prezem pela democracia, que valorizem a existência da diversidade e do dissenso. A literatura, afinal, tem como ideal e como fim a aproximação ao outro, a compreensão de suas aflições, de seus suplícios, o encontro entre diferentes. E ainda que resista às circunstâncias mais adversas, como resistimos e resistiremos, a liberdade há de ser sempre o seu maior instrumento.

[Texto de autoria de Julián Fuks para o movimento independente]

Quem quiser, pode assinar por aqui: https://literaturapelademocracia.wordpress.com/.
Eu acabei de fazer isso!

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Ontem (8/7) fez um mês que se abriu uma cisão mágica no tempo e no espaço, cisão capaz de promover profundos encontros e comunhão. Numa sexta-feira, 8 de junho, ocorria a primeira edição do Sarau Verbo Raio, organizada pela Lilian Sais e pelo Marcus Groza. E essas duas potências juntaram outras vozes, promovendo uma polifonia rara e especial. Além de mim e dos curadores do sarau, estiveram também os incríveis artistas (da palavra, do verbo, do som) Alexandre Marinho, Julia Mendes, Luiza Borba e Maria Giulia Pinheiro.

Sarau Verbo Raio

Os cinco primeiros vídeos registram, com as devidas edições, a minha apresentação. Mas para ver a beleza de tudo o que foi, recomendo fortemente assistir ao vídeo inteiro na página da Tapera Taperá, que sediou o evento.

Vídeos:

Trecho do conto “Gritos do açafrão”, de Trítonos – intervalos do delírio.

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Espaço público (poema) + Naci en Palestina (música)

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Corpo cerzido (poema) + Veredas do Tempo (música)

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Se eu acreditasse num deus (poema)

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Hinech Yafa (música) + Canção profética (poema)

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Uma tradução fotográfica do conto “Gritos do açafrão” — Imagem de Fabiana Turci, retirada de vídeo do canal Laboratório dos sentidos.

Foi para cozinha pôr novamente fogo nas sobras de seu solitário banquete noturno. Na sala, quem punha fogo no corpo daquela mulher era sua imaginação, seus desejos, seus pensamentos embalados por vozes sefarditas. E, posteriormente, pelos aromas que se exalavam da cozinha, menos perturbadores do que os da noite anterior, mas igualmente empesteados pelos gritos do açafrão.

O que aquele ente de diverso feitio serviu à sua vizinha era, de fato, um banquete de fogo. Carne de cordeiro assada com alecrim, páprica, açafrão e abacaxi, acompanhada de um arroz com hortelã, batatas noissettes, e uma salada de agrião, rúcula, manga, cenoura e pétalas (de rosa?), temperada com um molho de mostarda e mel. Ofertou-lhe ainda uma taça de vinho branco. Enquanto ela banqueteava, estonteada por tantos aromas e sabores, aquele homem de olhos pintados contou que era músico. Fazia concertos e também tocava na noite, às vezes cantando. Também compunha sob encomenda, em geral trilhas para filmes, peças e séries de televisão. Demian ainda se desculpou por não acompanhá-la no almoço, mas seus horários eram totalmente adversos. Enquanto ela almoçava, ele tomava seu café da manhã, servindo-se de um pão negro com azeite, suco de laranja, frutas e iogurte.

Saciados do comer e do beber, cada um segundo sua fome, a mulher, após agradecer-lhe, perguntou se ele poderia tocar um pouco para ela. Ele sorriu e perguntou de seus gostos. Mais uma vez ela se esquivou de dar direção a qualquer coisa que fosse. Disse que queria ouvir coisas às quais não estivesse habituada, quase como se desejasse, sem o saber, refundar seu campo da escuta.

Demian sentou-se ao piano. Anunciou que iria tocar duas músicas de Eric Satie. Começaria por uma chamada Gymnospédie n° 1, nome derivado de um antigo ritual grego ao deus Apolo, em que jovens dançavam nus ao som de flauta e lira. Ela esperava um som insano, como aquele que invadiu seus ouvidos enquanto escutava as músicas judaicas. No entanto, do piano de cauda saiu um som lento, grave, suave, quase doloroso. Mas também agradável como uma luz leitosa de fim de tarde. Enquanto ele tocava, ela fechou as cortinas da sala, até chegar na luminância que sua mente imaginou para a música. Lenta e grave, tirou toda a roupa e começou a dançar, completamente nua, sobre o suave tapete da sala, até deitar-se nele, para ouvir os últimos acordes de olhos fechados.

(Trecho do conto “Gritos do açafrão”, publicado em “Trítonos — intervalos do delírio“)

Cada vez mais sinto que escrevo movido pelo desejo do encontro, do diálogo, da troca. Sonho que minhas palavras encontrem leitores, e que também a partir delas eles dialoguem — comigo, entre si, com seus textos e futuros leitores, com o mundo. É imprevisível o fluxo e o alcance que as palavras podem ter.

Por isso, ver um encontro que efetivamente se deu a partir de minha escrita é um presente. Há uma semana, no último domingo (22), foram publicados no Youtube dois vídeos muitos especiais. Um, no Laboratório dos sentidos, canal de minha amada esposa, fala sobre literatura e comida e traz trechos de algumas obras, em que a comida aparece de alguma forma emblemática. E nesse vídeo lindo, repleto da poética audiovisual tão própria da Fabi em seu canal, aparece o trecho do meu conto “Gritos do açafrão”, publicado no meu livro “Trítonos — intervalos do delírio“, publicado em 2015 pela Editora Patuá. E meu conto aparece bem acompanhado, com trechos de “No caminho do Swann” (Marcel Proust), “Cem anos de solidão” (Gabriel Garcia Marques) e do conto “A terceira margem do rio” (Guimarães Rosa).

O outro vídeo foi publicado no canal LiteraTamy (em que eu já estive para falar do meu livro). Lá, a Fabi indica alguns livros marcantes sobre literatura, filosofia, comida e culinária.

Por fim, aproveito para deixar aqui novamente o vídeo do canal da Tamy que fala sobre o meu “Trítonos — intervalos do delírio”.

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Nos três últimos anos, a cada novo ano eu fazia um movimento de olhar em retrospectiva o que ocorrera em meu blog no ano anterior. Tudo começou por uma novidade do WordPress, que fez relatórios anuais de 2014 e 2015. Creio que a iniciativa não tenha tido muita adesão, pois não houve relatório sobre o ano de 2016 (e nem 2017). Isso não impediu, no entanto, que eu me voltasse para os números daquele ano (como faço novamente agora, em relação a 2017). Além disso, foi a oportunidade de pensar nos novos rumos que eu pretendia dar ao blog em 2017.

Os números de 2016 me pareceram extraordinários no início de 2017. Foi o ano com o maior número de visitantes (contados apenas a partir de dezembro de 2012) e o segundo maior, até então, em número de visualizações. Foi ainda (aliás, ainda é) o ano com o maior número de publicações neste espaço: 42 posts.

Quando escrevi sobre os números de 2016, imaginava que os números de 2017 nem de longe seria comparáveis. Era fim de janeiro, e os números de janeiro de 2017 só não foram mais modestos do que os de janeiro de 2011. Além disso, em 2017 minha resolução foi abolir as publicações periódicas. Passaria a escrever eventualmente. Minha única resolução era não deixar de escrever ao menos uma vez por mês (embora eu tenha falhado em fevereiro do ano passado, um mês em que, após muito tempo, não houve nenhum post por aqui).

No entanto, 2017 apresentou números ainda mais surpreendentes do que os de 2016. E mais, os números mais surpreendentes de visualizações e visitas de toda a história do blog nessa plataforma. Durante o ano passado, esse espaço teve 4370 visualizações e 2681 visitantes. Isso apesar de a publicação de textos ter sido a menor desde 2014. Foram 25 textos, contra 42 em 2016 (ano com o maior número de publicações no blog), 28 em 2015 e 36 em 2014.

Nada indicava isso nos três primeiros meses do ano. Foi o segundo pior janeiro em acessos (perdendo apenas para 2011). Nos meses seguintes, números também modestos, que só aumentaram um pouco em abril. Mesmo assim, até junho, nada diria que os números de 2017 seriam inigualáveis (ao menos, até agora). Em julho, a surpresa de obter o maior número de visualizações num único mês: 546 — número que ainda seria superado em outubro, com incríveis 725. De julho a dezembro, todos os números foram os melhores da história do blog naquele mês.

Eu me questiono se 2018 reservará números semelhantes, ou se essa incrível alta será momentânea. Embora seja muito cedo para fazer qualquer previsão, 2018 já registrou os melhores números da breve história desse espaço nos meses de janeiro e fevereiro (com dados até 27/2).

Dados de 27/2/2018, às 14h.

Todos os anos, eu desconsidero os números obtidos pelo texto “O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você“. Em todos os anos, ele é o texto mais visualizado certamente pela involuntária “isca” da famosa canção, que faz com que muita acabe caindo nele por mecanismos de buscas. No ano passado, diferente do que ocorria desde 2014, o texto mais lido (com essa exceção do texto-isca), não foi produzido em 2017. Mas fiquei feliz de ver que o texto mais lido do ano foi o “Cisgeneridade: a suposta natureza é um silêncio“. A alta leitura desse texto, publicado em 2015 no Dia da Visibilidade Trans, parece indicar a importância do tema da transexualidade em 2017. O segundo texto mais lido também dialoga bastante com alguns dos temas em alta em 2017: trata-se da resenha, escrita em abril de 2016 do livro “Olhos d’Água”, da Conceição Evaristo, autora destaque da Flip de 2017. Esse texto, aliás, havia sido o mais lido no ano em que foi escrito.

Dentre os textos escritos no ano passado, o mais lido foi “Pânicos morais e o poder das artes ‘degeneradas’“, outro texto em consonância com temas importantes de 2017. Nele, eu discutia as diversas tentativas de censura a obras de artes, desde o episódio do fechamento da exposição “Queermuseu”, em Porto Alegre. Na sequência dos mais lidos, o poema “Jogos herméticos“, escrito no dia do meu aniversário, após assistir ao show de um outro aniversariante do dia: Hermeto Pascoal. A terceira publicação mais visualizada escrita no ano passado foi “Por uma política do afeto“, texto que nasceu a partir de reflexões feitas pela minha esposa, a Fabi, a partir de uma conversa que tivemos sobre acolhimento como o ato político que nos resta nos tempos atuais. Completam os cinco textos mais lidos, publicados no ano passado, a postagem da entrevista que eu dei sobre o meu livroTrítonos – intervalos do delírio” (Editora Patuá), para o canal “LiteraTamy”, e uma narrativa sobre como eu “conheci” o Raduan Nassar.

Dados de 27/2/2018, às 14h.

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Ouvir Bach foi sempre um enlevo para mim. E talvez a ária Erbarme Dich seja uma das peças que mais ouvi dele, exatamente porque é das que mais me arrebatam. Por isso, em primeiro lugar quero registrar meu agradecimento ao André Estevez (meu professor de canto), à Camila Brioli e à Carolina Rosati Colepicolo, por terem tornado esse momento possível, contornando as inseguranças de um cantor amador como eu, que se aventura num desafio arriscado (agradeço também à minha amada Fabi Turci, pelo registro).

Bach é um compositor único. Ao ouvi-lo, ele me parece conduzir o fio de suas melodias de uma forma quase orgânica. Ao cantá-lo (ou executá-lo), no entanto, vejo claramente o quanto ele fazia música como um exercício inconsciente da matemática. Sua precisão é aterradora e, por isso, vozes que parecem passear livres se encontram e se enlaçam tanto e com tamanha harmonia. Fazer uma peça de Bach exige em primeiro lugar uma precisão e uma segurança rítmicas que me ultrapassam. Por isso, ao ensaiar a peça, saí com grande temor. Qualquer tropeço seria emaranhar-se num novelo do qual ficaria impossível sair e voltar ao fio da meada. Por isso, acabei estudando loucamente, cantando de forma quase exaustiva, aparando aresta, firmando entradas. E, além disso, contei com a generosidade e a competência de duas grandes musicistas, que fizeram de tudo para que eu me sentisse mais seguro.

Com isso, superei a parte de tornar possível esse grande desafio. Tenho consciência que agora é preciso trabalhar mais, para tornar o possível mais fácil e — por que não? — transformar facilidade em mais beleza e expressividade. É um longo caminho a trilhar. Mas ter cantado pela primeira vez essa ária desafiadora, que escuto há tantos anos, já foi uma alegria e um importante primeiro passo. Quero, talvez no ano que vem, tentar novamente essa música e vislumbrar uma evolução — e, me ouvindo, ouço claramente que há ainda bastante a progredir…

O Erbarme Dich é uma ária do oratório “A Paixão segundo São Mateus” (BVW 244), de Johann Sebastian Bach. Ela é cantada logo após o trecho que narra o momento em que Pedro nega Cristo por três vezes. A ária expressa a penitência, o choro de Pedro, ecoando como um pedido de misericórdia. O trecho do Evangelho que narra a negação de Pedro termina dizendo que Pedro, saindo, “chorou amargamente”. E é o choro de Pedro que a música ecoa: Schaue hier, Herz und Auge / weint vor dir bitterlich (Olhai aqui, olhos e coração / choram amargamente diante de vós).

Erbame Dich (do oratório “A Paixão segundo São Mateus”)
Johann Sebastian Bach

Barítono: Teofilo Tostes Daniel
Violino Barroco: Camila Rosati Colepicolo
Piano: Camila Brioli

Recital dos alunos de canto de
André Estevez e Angélica Menezes
16 de dezembro de 2017
Espaço Núcleo
Filmagem: Fabiana Turci

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Capa do livro “Trítonos – intervalos do delírio” (Editora Patuá, 2015)

Faz exatamente dois anos do lançamento de “Trítonos – intervalos do delírio“. Era uma quarta-feira, 2 de dezembro de 2015. Eu estava de férias. O lançamento havia começado às 19h e seguiu até 22h na Casa das Rosas (e até mais tarde em casa, com a família e amigos. Essa é uma data que celebro muito. E que celebrarei sempre, não tenho dúvidas. Ter publicado “Trítonos” foi o acontecimento literário mais importante na minha vida até hoje.

Exatamente no dia de hoje, recebi da querida Tamy, do canal LiteraTamy, dois presentes muito especiais. O primeiro foi uma resenha muito generosa no site dela, que foi um verdadeiro mergulho em meu livro. Um mergulho capaz de trazer a tona muitas camadas do livro e de cozer sentidos a partir do lido — afinal, quem sempre tem a palavra (ou o silêncio, pois na minha experiência de leitor, há leituras que me calam) final é o leitor.

O outro presente foi um vídeo-entrevista, publicado hoje em seu canal no Youtube. O vídeo é resultado de uma conversa deliciosa que tivemos no dia 17 de novembro. E como forma de retribuir a todos os leitores (que já me leram ou me lerão), dei ao canal um exemplar para ser sorteado a quem tiver interesse em ganhá-lo. Para participar do sorteio, basta ser inscrito no canal e dizer nos comentários que deseja participar.

Deixo o meu muito obrigado à Tamy. Pela leitura generosa, que se transformaram nos presentes que me deu nesse dia!

Fiquei muito feliz com essa conversa. Mas gostaria muito de ter falado duas coisas durante ela, que acabei não dizendo. Por isso, uso a palavra escrita — que costumo manejar um pouco melhor do que a fala — para fazer isso.

A primeira delas não é algo essencial. Mas há um determinado momento em que a Tamy me pergunta, além de Guimarães Rosa, que outros autores foram importantes para mim, como autor de um modo geral, mas principalmente para o livro, e até que ponto eles me influenciaram. Eu falei de Jorge Luis Borges e Ítalo Calvino. Mas faltou dizer que omiti dois essenciais: Raduan Nassar e Ismail Kadaré. Há “apropriações” de trechos tanto do “Lavoura Arcaica” quanto do “Abril Despedaçado” na fala do personagem Marco Ukaçjerra. Aliás, a forma da fala desse personagem, num fluxo contínuo sem pontuação, é inspirada no início da novela “Um copo de cólera” do Raduan. Já o nome do personagem é apenas forma aportuguesada de Mark Ukaçjerra, nome do feitor de sangue do kanun do “Abril Despedaçado”.

A segunda omissão que há no vídeo é bem mais essencial em tudo. Isso porque acabei não dizendo em nenhum momento da importância que a minha esposa, a Fabi, teve para o livro. Já escrevi em outro texto que, como leitora primeira, modificou muitas vezes e essencialmente os rumos de minha prosa nesse projeto. E isso ocorre em praticamente tudo que escrevo, desde que nos conhecemos. E, sobretudo, desde que começamos a namorar, quando a Fabi se tornou a primeira leitora e, de alguma maneira, destinatária de tudo que escrevo. E esse processo começou antes mesmo do nosso namoro, quando seus comentários ao conto “Gritos do Açafrão” permitiram que ele se transformasse naquilo que ele se tornou. Foi assim em todo o “Trítonos”. E tem sido assim em todos os meus escritos. No livro, seu nome aparece como revisora (além da parte da dedicatória). Mas sua importância não tem nem um nome apropriado, pois ela participa, amplia e torna mais bonito tudo o que consigo fazer durante meu processo de escritura. Devo a ela muitas ideias, muitas indicações (como a do livro do José Miguel Wisnik, indicação que eu não cito no vídeo-entrevista, embora já tenha escrito sobre ela). Além disso, lhe devo também muitos sorrisos e alegrias, mas isso não é o terreno da literatura (embora a literatura esteja sempre imbricada na vida).

“Trítonos — intervalos do delírio”, no LiteraTamy

 

Foto: Tamy Ghannam – Instagram do Blog e Canal LiteraTamy (Divulgação)

 

Foto: Tamy Ghannam – Instagram do Blog e Canal LiteraTamy (Divulgação)

Atualização em 18/12: Na semana passada, foi feito pela Tamy o sorteio de um exemplar de Trítonos, que vai encontrar um leitor do Rio Grande do Sul!

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