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Archive for the ‘Biblíon’ Category

Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os fluxos da prosa.

Durante toda essa trajetória, partilhar os ritos da escrita formou esse laço que participa dos fundamentos de nossa experiência de irmandade. Sempre fomos leitores um do outro. Muitas vezes, isso suplantava silêncios impostos pelo hábito – sobretudo meu, que sempre fui um animal silencioso e sempre usei a escrita também como um escudo, onde tentava realizar a impossível tarefa de esconder fragilidades. Não pude deixar de pensar no silêncio – e na escrita esgarçando sons e, por vezes, dissonâncias nas entranhas dele – ao ler os versos “Foi preciso muita palavra / até arrancar deste silêncio / um lugar seguro.”

A leitura é sempre uma experiência pessoal. Aqui neste livro, em especial, é muito frequente eu cometer o “pecado” de inserir na literatura o biográfico. Em diversos momentos, me lembro que uma parte central daquilo que nos tornamos teve início naquela longínqua atividade em que cada um de nós consagrou um caderno somente para a escrita. Vivíamos uma segunda mudança de cidade e, naquele momento em que o movimento parecia mais definitivo – dentro do provisório de todas as coisas –, tomávamos contato com a poesia de nosso pai, junto dos livros da minha mãe que haviam chegado do Rio de Janeiro – e longe dos quais estivemos por mais de um ano. Nosso pai já era uma ausência há alguns anos e, naquele contato com poucos de seus escritos, pudemos buscar uma espécie de diálogo literário para preencher o vazio de sua presença. Sei que essa é uma experiência marcante tanto para minha irmã quanto para mim. São essas histórias, que fundam nossa memória, que são evocadas por um poema como Art is a guaranty of sanity:

A aranha se nivela ao espaço urbano
o rosa é alimentado pelas cavidades orais
dois pedaços de madeira se abraçam
duas pessoas se amam e não se veem.

No refratário masculino ou museu
da imensa colcha de retalhos, almejo
Louise Bourgeois entre pernas mutiladas.

De peles que habitam almodôvares
de casas sobre eus femininos
de lampejos da gritaria

do passado, da máquina do tempo.
Na mania de cheirar o teto
de fotografar as árvores, de olhar o pai morto.

Amantes se deitam ao frio chão da sala
do ano de 2006 onde guarneço devires e cachorros.

Dez anos se passam: o céu se abre aos minaretes
o olhar de um muezim vale o templo
onde a arte é uma garantia de sanidade.

Após mais de vinte e cinco anos de leituras recíprocas, partilhadas desde o fim da infância, acompanho a publicação de Uma casa perto de um vulcão. Para o leitor e o irmão que sou, é um acontecimento muito especial. Se o irmão por vezes acaba lendo por trás de muitos versos os traços biográficos de memórias partilhadas, o leitor vai além, por não identificar na literatura uma escrita confessional. Ainda mais porque aqui encontro a força de um fenômeno da natureza, um derramamento poético diante do qual não é possível estar incólume. Com isso, adentramos noutras camadas vulcânicas da palavra, sendo especialmente tocado pelo trabalho com a linguagem dessa poeta que diz: “mastigo o ermo das palavras / quando não quero dizê-las / estendo os braços, frágeis de sentido / por algo como a luz – ou a fome.”

As lavas de um vulcão, quando emergem de dentro das entranhas da Terra, expõem as infâncias do mundo. O magma é uma espécie de memória, que dá a ver que as paisagens por aqui já foram formadas por ebuliente rocha líquida. Essa memória hoje irrompe, em geral, nas margens de placas tectônicas e quase sempre vem precedida por abalos sísmicos. Por isso, não nos enganemos: a profundeza dos chãos não guarda silêncios.

Pelo trabalho incansável nos meandros da linguagem, é possível exumar os diversos elementos que culminam na constituição da voz. São as lavas arrefecidas que se transformam em terras férteis e abrigam raízes em si. A poesia magmática ganha contornos de uma evocação de diversas formas de ancestralidade. Esse olhar poético voltado às origens (do cosmo, da casa/planeta que habitamos, das coisas, da vida, das estruturas que nos cercam, das referências, da linguagem e de si mesma) já se revela desde o primeiro poema do livro, chamado Infância, que anuncia: “Tenho a idade da Terra”.

Todos esses elementos ancestrais constituem a individualidade da voz em sua enunciação poética. E o tempo dessa condensação de elementos é o presente, ao qual esse livro também volta seu olhar. É possível vislumbrar os olhos frequentemente perplexos ante os absurdos que estruturam as relações de poder em que estamos inseridos. Nesse movimento, os versos se embatem tanto com as estruturas políticas dominantes quanto com a microfísica do poder, dando a ver dissimetrias. E se colocando, politicamente, ao lado daqueles que desejam e lutam e clamam e precisam de mudanças. Vapores é um exemplo expressivo desse movimento, trazendo versos como:

Caminho até a Praça XV
onde a seda vermelha
se enrola à estátua
equestre do general
Osório. Fagulhas
e fumaça alucinógena
fundida com os bronzes
dos canhões roubados
no Paraguai
incensam as acrobacias
das garotas
na manifestação.

Consciente de sua ancestralidade e desejosa de mudanças, a voz poética é permanentemente confrontada com as potências e os limites da linguagem. E, dessa forma, Uma casa perto de um vulcão faz uma incursão pelo pensamento meditativo. Talvez respondendo à constatação de que “Ninguém te ensina / a devassar / o cômodo / do que és”, a poesia adentra no terreno fecundo da reflexão filosófica. Ao lado de um fenômeno como um vulcão, é impossível que o pensamento não seja conclamado para dar conta, não de entender, mas talvez de erigir o mundo. “O mundo é menos / que acaso. Filos, ethos, ente / fatos.”

Esses três movimentos não são estanques. Talvez cada um deles predomine em determinado ponto da obra, mas todos podem ser percebidos constantemente, se fazendo presentes ao mesmo tempo em muitos poemas. E assim o livro se assemelha a um vulcão. O passado do mundo vem à tona na erupção de tudo o que se guarda nas funduras da terra. Esse passado/lava encontra de forma imediata e avassaladora com o presente em torno, a casa perto do vulcão, promovendo o embate e, por vezes até, a destruição das estruturas e a necessidade de novos fundamentos. E, por fim, no tempo mais lento da reflexão e do pensamento, a poesia sedimenta a experiência de perplexidade diante de tudo o que há, como as rochas que, quando resfriadas, deram conformação de eternidade aos últimos momentos de Pompeia e Herculano, após a erupção do Vesúvio.

Nesse sentido, a linguagem do livro recria a própria experiência vulcânica que enuncia. A palavra em ebulição escapa para a superfície da folha e se molda aos contornos da voz – com tudo aquilo que lhe dá um timbre único. Desse vulcão, repleto da densidade de camadas poéticas, irrompe um jorro sempre em busca de fissuras sobre o sólido para emergir, quente e denso, e assim lançar outras novas camadas sobre o mundo. “O futuro / é logo ali” e, para dar conta do vir a ser, é necessário imaginação – essa memória alucinada como um poema. “Um poema sempre um poema / à deriva / da próxima página.”

(O livro está à venda no site da Editora Patuá. Clique aqui.)

Uma casa perto de um vulcão – Roberta Tostes Daniel

 

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Há livros que temos o privilégio de ler antes que ele se torne a obra que será. Lemos antecipadamente esses livros porque recebemos o presente de falarmos a futuros leitores do nosso testemunho de leitura. Neste ano, dois livros me chegaram como um presente, para que eu desse esse testemunho de leitura antecipada, e comungasse da espera de suas autoras para que aquelas páginas ganhem a concretude de papel e tinta: “Vísceras”, da Clara Baccarin, que deverá sair no ano que vem, e “Azul caixão”, da Julia Bicalho Mendes, que deve estar chegando logo por aí.

Faço essa digressão para dizer que ano passado, acompanhei o nascimento de um livro que espero há muitos anos, desde que ele habitava as planícies do sem nome, onde são depositados os projetos futuros. Posso dizer que espero pelo primeiro livro da Beta Tostes, minhas irmã, pelo menos desde 2000 ou 2001, quando a escrita tornou-se uma de suas marcas. Já planejamos, eu e a Fabi Turci, lançarmos esse livro-hipótese-desejo pela breve editora que tivemos nos idos de 2012 (a Vagamundo), finada com após um belo livro lançado.

Foi no ano passado que esse livro ganhou corpo de obra. Em pouco mais de um mês, a Beta cerziu das várias centenas de obras de seu (excelente!) blog, o Sede em Frente ao Mar (https://sedemfrenteaomar.com/), junto a poemas inéditos, o corpo poético de seu primeiro livro. Um livro que se escrevia há pelo menos quinze anos, habitou vários projetos possíveis, e amadureceu sob as intempéries dos tempos presentes. Um livro fundante e fundamental, poético e político. Essa erupção vulcânica nasceu. E do lugar de leitor e irmão, além de acompanhar e participar da estruturação do livro, que ganhou o nome lindo de “Uma casa perto do vulcão“, escrevi-lhe o prefácio (cujos primeiros parágrafos deixo abaixo, apenas para dizer um pouco mais do que virá).

Ontem, a Beta estava no ônibus, vindo para nossa casa aqui São Paulo, quando recebeu a capa do livro, para aprovar ou sugerir mudanças. Mas diante de uma erupção vulcânica, não há o que fazer, senão contemplar-lhe — se estamos protegidos — a beleza e a potência, o imenso terror de entranhas da terra (semelhante ao terror despertado pela beleza que, segundo Rilke, seria “o começo do Terrível que ainda suportamos”). A capa que chegou era uma leitura generosa e precisa dessa poesia imensa e imersa em delicadezas vulcânicas. Não havia o que refazer. Havia muito pelo que sorrir e comemorar.

Não imaginávamos que era apenas o início de um período de preciosas surpresas. Uma vez aprovada a capa, vista e aprovada ontem, o livro já está em pré-venda lá no site da Editora Patuá. Aguarda leitores — muitos! — que há anos — e muitos — andam ávidos por essa ebulição poética.


Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os fluxos da prosa.

Durante toda essa trajetória, partilhar os ritos da escrita formou esse laço que participa dos fundamentos de nossa experiência de irmandade. Sempre fomos leitores um do outro. Muitas vezes, isso suplantava silêncios impostos pelo hábito – sobretudo meu, que sempre fui um animal silencioso e sempre usei a escrita também como um escudo, onde tentava realizar a impossível tarefa de esconder fragilidades. Não pude deixar de pensar no silêncio – e na escrita esgarçando sons e, por vezes, dissonâncias nas entranhas dele – ao ler os versos “Foi preciso muita palavra / até arrancar deste silêncio / um lugar seguro.”

(…)

(trecho de “Nas camadas vulcânicas da palavra” – prefácio de “Uma casa perto do vulcão)

Uma casa perto de um vulcão – Roberta Tostes Daniel

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Ontem (8/7) fez um mês que se abriu uma cisão mágica no tempo e no espaço, cisão capaz de promover profundos encontros e comunhão. Numa sexta-feira, 8 de junho, ocorria a primeira edição do Sarau Verbo Raio, organizada pela Lilian Sais e pelo Marcus Groza. E essas duas potências juntaram outras vozes, promovendo uma polifonia rara e especial. Além de mim e dos curadores do sarau, estiveram também os incríveis artistas (da palavra, do verbo, do som) Alexandre Marinho, Julia Mendes, Luiza Borba e Maria Giulia Pinheiro.

Sarau Verbo Raio

Os cinco primeiros vídeos registram, com as devidas edições, a minha apresentação. Mas para ver a beleza de tudo o que foi, recomendo fortemente assistir ao vídeo inteiro na página da Tapera Taperá, que sediou o evento.

Vídeos:

Trecho do conto “Gritos do açafrão”, de Trítonos – intervalos do delírio.

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Espaço público (poema) + Naci en Palestina (música)

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Corpo cerzido (poema) + Veredas do Tempo (música)

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Se eu acreditasse num deus (poema)

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Hinech Yafa (música) + Canção profética (poema)

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Leitura de um trecho do conto Gritos do açafrão, do livro Trítonos — intervalos do delírio (Editora Patuá)
Sarau Verbo Raio | Tapera Taperá
São Paulo, 8 de junho de 2018.

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Uma tradução fotográfica do conto “Gritos do açafrão” — Imagem de Fabiana Turci, retirada de vídeo do canal Laboratório dos sentidos.

Foi para cozinha pôr novamente fogo nas sobras de seu solitário banquete noturno. Na sala, quem punha fogo no corpo daquela mulher era sua imaginação, seus desejos, seus pensamentos embalados por vozes sefarditas. E, posteriormente, pelos aromas que se exalavam da cozinha, menos perturbadores do que os da noite anterior, mas igualmente empesteados pelos gritos do açafrão.

O que aquele ente de diverso feitio serviu à sua vizinha era, de fato, um banquete de fogo. Carne de cordeiro assada com alecrim, páprica, açafrão e abacaxi, acompanhada de um arroz com hortelã, batatas noissettes, e uma salada de agrião, rúcula, manga, cenoura e pétalas (de rosa?), temperada com um molho de mostarda e mel. Ofertou-lhe ainda uma taça de vinho branco. Enquanto ela banqueteava, estonteada por tantos aromas e sabores, aquele homem de olhos pintados contou que era músico. Fazia concertos e também tocava na noite, às vezes cantando. Também compunha sob encomenda, em geral trilhas para filmes, peças e séries de televisão. Demian ainda se desculpou por não acompanhá-la no almoço, mas seus horários eram totalmente adversos. Enquanto ela almoçava, ele tomava seu café da manhã, servindo-se de um pão negro com azeite, suco de laranja, frutas e iogurte.

Saciados do comer e do beber, cada um segundo sua fome, a mulher, após agradecer-lhe, perguntou se ele poderia tocar um pouco para ela. Ele sorriu e perguntou de seus gostos. Mais uma vez ela se esquivou de dar direção a qualquer coisa que fosse. Disse que queria ouvir coisas às quais não estivesse habituada, quase como se desejasse, sem o saber, refundar seu campo da escuta.

Demian sentou-se ao piano. Anunciou que iria tocar duas músicas de Eric Satie. Começaria por uma chamada Gymnospédie n° 1, nome derivado de um antigo ritual grego ao deus Apolo, em que jovens dançavam nus ao som de flauta e lira. Ela esperava um som insano, como aquele que invadiu seus ouvidos enquanto escutava as músicas judaicas. No entanto, do piano de cauda saiu um som lento, grave, suave, quase doloroso. Mas também agradável como uma luz leitosa de fim de tarde. Enquanto ele tocava, ela fechou as cortinas da sala, até chegar na luminância que sua mente imaginou para a música. Lenta e grave, tirou toda a roupa e começou a dançar, completamente nua, sobre o suave tapete da sala, até deitar-se nele, para ouvir os últimos acordes de olhos fechados.

(Trecho do conto “Gritos do açafrão”, publicado em “Trítonos — intervalos do delírio“)

Cada vez mais sinto que escrevo movido pelo desejo do encontro, do diálogo, da troca. Sonho que minhas palavras encontrem leitores, e que também a partir delas eles dialoguem — comigo, entre si, com seus textos e futuros leitores, com o mundo. É imprevisível o fluxo e o alcance que as palavras podem ter.

Por isso, ver um encontro que efetivamente se deu a partir de minha escrita é um presente. Há uma semana, no último domingo (22), foram publicados no Youtube dois vídeos muitos especiais. Um, no Laboratório dos sentidos, canal de minha amada esposa, fala sobre literatura e comida e traz trechos de algumas obras, em que a comida aparece de alguma forma emblemática. E nesse vídeo lindo, repleto da poética audiovisual tão própria da Fabi em seu canal, aparece o trecho do meu conto “Gritos do açafrão”, publicado no meu livro “Trítonos — intervalos do delírio“, publicado em 2015 pela Editora Patuá. E meu conto aparece bem acompanhado, com trechos de “No caminho do Swann” (Marcel Proust), “Cem anos de solidão” (Gabriel Garcia Marques) e do conto “A terceira margem do rio” (Guimarães Rosa).

O outro vídeo foi publicado no canal LiteraTamy (em que eu já estive para falar do meu livro). Lá, a Fabi indica alguns livros marcantes sobre literatura, filosofia, comida e culinária.

Por fim, aproveito para deixar aqui novamente o vídeo do canal da Tamy que fala sobre o meu “Trítonos — intervalos do delírio”.

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No próximo sábado (20 de janeiro), terei a alegria de participar do Sarau Hilda Hilst: Desejo e Cintilância. Organizado pela querida Geruza Zelnys, o sarau reúne os participantes de um curso que ela conduziu no fim do ano passado sobre a obra de Hilda. No sarau, vou apresentar uma série de dez poemas chamados “Ode fragmentária e pós-mítica para viola e cello, de Dionísio para Ariana”, feitos para minha amada Fabi Turci, que me apresentou, logo que nos conhecemos, a “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – De Ariana para Dionísio“, obra a partir da qual eu conheci a poeta.

Vou ler os poemas de minha ode em resposta aos poemas da ode hilstiana, que serão apresentados pelas queridas Brunna Amicio e Fernanda de Paula. Além disso, poemas e texto de Hilda e outros inspirados em sua obra. Vai ser lindo!!!

Os dois primeiros poemas da ode hilstiana e da minha ode:

I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

(Hilda Hilst)

I

“Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.”
(Hilda Hilst)

No tempo do mito, recusei
teus fluxos,
teus jorros.
No tempo em que me julgava um deus

e desconhecia
a minha própria divindade mortal.
E habitava a Terra

jogado no vento
que me espargia e fragmentava

no oco das coisas sozinhas.

Atado à vida, Dionísio é,
com cantos e sem tempos,
dos encantos de Ariana.

(Teofilo Tostes Daniel)

II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

(Hilda Hilst)

II

Tu conheces, Ariana, meu avesso,
meus silêncios,
meus outros.
Até mesmo a face
de Apolo

em mim, Dionísio, tu a conheces.

Sabes do fundo de ordem
no meu caos,
da seriedade dos meus dias de féria,
do meu mau humor sonolento tarde da noite
e da preguiça de minhas manhãs.
Sabes ainda que até quando durmo

te amo
e busco teu corpo como
um satélite.
E que mesmo antes dessa dádiva

já me habitava a tua poesia.

(Teofilo Tostes Daniel)

O sarau vai acontecer na Casa das Rosas, a partir das 19h de sábado (20/1). Estão todos convidados!

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Capa do livro “Trítonos – intervalos do delírio” (Editora Patuá, 2015)

Faz exatamente dois anos do lançamento de “Trítonos – intervalos do delírio“. Era uma quarta-feira, 2 de dezembro de 2015. Eu estava de férias. O lançamento havia começado às 19h e seguiu até 22h na Casa das Rosas (e até mais tarde em casa, com a família e amigos. Essa é uma data que celebro muito. E que celebrarei sempre, não tenho dúvidas. Ter publicado “Trítonos” foi o acontecimento literário mais importante na minha vida até hoje.

Exatamente no dia de hoje, recebi da querida Tamy, do canal LiteraTamy, dois presentes muito especiais. O primeiro foi uma resenha muito generosa no site dela, que foi um verdadeiro mergulho em meu livro. Um mergulho capaz de trazer a tona muitas camadas do livro e de cozer sentidos a partir do lido — afinal, quem sempre tem a palavra (ou o silêncio, pois na minha experiência de leitor, há leituras que me calam) final é o leitor.

O outro presente foi um vídeo-entrevista, publicado hoje em seu canal no Youtube. O vídeo é resultado de uma conversa deliciosa que tivemos no dia 17 de novembro. E como forma de retribuir a todos os leitores (que já me leram ou me lerão), dei ao canal um exemplar para ser sorteado a quem tiver interesse em ganhá-lo. Para participar do sorteio, basta ser inscrito no canal e dizer nos comentários que deseja participar.

Deixo o meu muito obrigado à Tamy. Pela leitura generosa, que se transformaram nos presentes que me deu nesse dia!

Fiquei muito feliz com essa conversa. Mas gostaria muito de ter falado duas coisas durante ela, que acabei não dizendo. Por isso, uso a palavra escrita — que costumo manejar um pouco melhor do que a fala — para fazer isso.

A primeira delas não é algo essencial. Mas há um determinado momento em que a Tamy me pergunta, além de Guimarães Rosa, que outros autores foram importantes para mim, como autor de um modo geral, mas principalmente para o livro, e até que ponto eles me influenciaram. Eu falei de Jorge Luis Borges e Ítalo Calvino. Mas faltou dizer que omiti dois essenciais: Raduan Nassar e Ismail Kadaré. Há “apropriações” de trechos tanto do “Lavoura Arcaica” quanto do “Abril Despedaçado” na fala do personagem Marco Ukaçjerra. Aliás, a forma da fala desse personagem, num fluxo contínuo sem pontuação, é inspirada no início da novela “Um copo de cólera” do Raduan. Já o nome do personagem é apenas forma aportuguesada de Mark Ukaçjerra, nome do feitor de sangue do kanun do “Abril Despedaçado”.

A segunda omissão que há no vídeo é bem mais essencial em tudo. Isso porque acabei não dizendo em nenhum momento da importância que a minha esposa, a Fabi, teve para o livro. Já escrevi em outro texto que, como leitora primeira, modificou muitas vezes e essencialmente os rumos de minha prosa nesse projeto. E isso ocorre em praticamente tudo que escrevo, desde que nos conhecemos. E, sobretudo, desde que começamos a namorar, quando a Fabi se tornou a primeira leitora e, de alguma maneira, destinatária de tudo que escrevo. E esse processo começou antes mesmo do nosso namoro, quando seus comentários ao conto “Gritos do Açafrão” permitiram que ele se transformasse naquilo que ele se tornou. Foi assim em todo o “Trítonos”. E tem sido assim em todos os meus escritos. No livro, seu nome aparece como revisora (além da parte da dedicatória). Mas sua importância não tem nem um nome apropriado, pois ela participa, amplia e torna mais bonito tudo o que consigo fazer durante meu processo de escritura. Devo a ela muitas ideias, muitas indicações (como a do livro do José Miguel Wisnik, indicação que eu não cito no vídeo-entrevista, embora já tenha escrito sobre ela). Além disso, lhe devo também muitos sorrisos e alegrias, mas isso não é o terreno da literatura (embora a literatura esteja sempre imbricada na vida).

“Trítonos — intervalos do delírio”, no LiteraTamy

 

Foto: Tamy Ghannam – Instagram do Blog e Canal LiteraTamy (Divulgação)

 

Foto: Tamy Ghannam – Instagram do Blog e Canal LiteraTamy (Divulgação)

Atualização em 18/12: Na semana passada, foi feito pela Tamy o sorteio de um exemplar de Trítonos, que vai encontrar um leitor do Rio Grande do Sul!

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Foto: Mell Ferraz – Blog e Canal Literature-se (Divulgação)

A Mell Ferraz, do canal e Blog Literature-se, vai promover um sorteio especial, para celebrar os 70 mil inscritos no canal do Youtube. E a maneira não poderia ser melhor: sorteando livros.

Ao todo, são 12 kits de livros, chegando no total de pouco mais de 70 livros sorteados. Tem livros para todos os gostos e idades: clássicos, infanto-juvenis, bestsellers, livros de não ficção… E algo especial nesse sorteio é que dois desses kits são compostos por livros nacionais contemporâneos. Num deles está o meu Trítonos – intervalos do delírio, como um presente pelos dois anos de seu lançamento, que se comemora amanhã (2 de dezembro). O livro foi resenhado pela Mell num vídeo em dezembro do ano passado.

O sorteio vai ocorrer quando o canal chegar a 70 mil inscritos (e falta pouco!). Quer participar? Assista ao vídeo abaixo para saber como. E não deixe de se inscrever, pois o conteúdo do canal é ótimo. E, além disso, para participar do sorteio é preciso ser inscrito por lá.

www.youtube.com/watch?v=40q7I8ZY2rw

Aproveito o ensejo para relembrar a resenha que a Mell fez, há quase um ano, do meu livro. Uma resenha generosa que até hoje me enche de alegria.

Como o Trítonos só está em um dos Kits, para quem tiver interesse no meu livro de contos, mas não ganhá-lo nesse sorteio, ele está à venda no site da Editora Patuá, em http://bit.ly/tritonospatua.

Foto: Mell Ferraz – Blog e Canal Literature-se (Divulgação)

 

Atualização em 11/12/2017. O sorteio já ocorreu e teve o resultado divulgado no vídeo abaixo:

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A literatura para mim é um espaço de encontro e de conversa infinita. Imerso nela, dialogo com autores que se foram antes mesmo de eu nascer, dialogo com os que partilham comigo o tempo presente e, quem sabe, continue a dialogar com os que virão depois de mim, se o que eu hoje escrevo continuar a reverberar em minha ausência.

Neste domingo (12/11), recebi com grande alegria o convite da Camila Passatuto para participar da mesa “Práticas de leitura. Como nos tornamos leitores.”, durante o lançamento em Santo André da Revista O Último Leitor Morreu. Estarei dividindo experiências com o querido Escudeiro (companheiro na lindíssima Editora Patuá), com o Marcelo Nocelli, cujo trabalho com a Editora Reformatório acompanho com grande entusiasmo, e com Samuel Malentacchi e Alexandre Rabelo (mediador), autores que terei o prazer de conhecer no improviso concertante do diálogo.

A mesa está prevista para 20h, no Gambalaia Espaço de Artes (Rua das Monções, 1018 – Jardim – Santo André/SP). Mais informações, clique aqui.

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Por vezes, há presentes que o mundo espalha e vamos recebê-los depois, embora antes mesmo que soubéssemos eles já estavam ali. Como um fruto já maduro, aguardando as mãos que vão colhê-lo!

Cada leitura que recebo, recebo como um presente. Afinal, é um presente que alguém dedique seu tempo e seus olhos às palavras que escrevemos. E no dia de ontem, me deparei com um presente que já estava pronto para ser colhido desde o dia 17 de julho: uma generosa partilha de leitura do meu Trítonos – intervalos do delírio (à venda no site da Editora Patuá, no endereço http://bit.ly/teofilopatua), feita pela Carol Miranda em seu canal no Youtube. No vídeo, aliás, meu Trítonos está apenas com excelentes companhias!

Porque cada leitura é um presente, e cada partilha que testemunha a leitura é uma forma de multiplicar esse presente que recebo, com minha gratidão imensa divido esse presente por aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=UUDIHaJNNuU&t=228s

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Se perguntássemos a cem escritores o porquê de escreverem, certamente obteríamos cem respostas diferentes. Mas posso dizer que uma das razões que me levam à escrita é o desejo de encontro e de diálogo que a leitura propicia. Um evento como o de sábado é uma excelente oportunidade de exercício desse diálogo a partir da escrita, mas que se estende com a presença física, repleta de expressões, tons de vozes e sorrisos.

Fiquei feliz com cada abraço, cada dedo de prosa trocada, ainda que brevemente (era grande o desejo que o tempo não passasse e fosse possível conversar detidamente com todos). Fiquei muito feliz pelo interesse de muitos dos autores que me fazem companhia nesta coletânea tiveram em meu livro, lançado há um ano e meio pela Editora Patuá (saí com cinco novos potenciais leitores de meu Trítonos – intervalos do delírio!).

Compartilho aqui algumas lembranças fotográficas do lançamento pela Editora Oito e Meio da coletânea de contos Tabu (clique aqui para mais informações), da qual faço parte. O livro foi organizado pela Flávia Iriarte com integrantes do curso de escrita criativa do Carreira Literária.

Além das fotos, a Fabi (que, por ser a fotógrafa, acabou não saindo em nenhuma foto comigo) fez um vídeo lindo, para o canal do Laboratório dos Sentidos, sobre nossa viagem para o Rio de Janeiro. Deixo aqui também:

Lançamento do coletânea "Tabu" - 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Marisa Tostes Daniel (mamãe) – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com André Balbo – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com André Balbo e Samir Oliveira Ramos – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu, com Samir Oliveira Ramos” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Paula Giannini e Táscia Souza – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Fernando Sousa Andrade e Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do livro "Tabu" no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

Lançamento do livro “Tabu” no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

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Neste sábado (15/7), no espaço Oito e Meio, será lançada pelo Carreira Literária a coletânea Tabu, organizada pela editora e publisher Flávia Iriarte. A coletânea reúne cerca contos escritos por cerca de trinta autores, que se debruçam sobre as diversas interdições da cultura e da sociedade que regulam os corpos e a vida das pessoas.

O livro acabou surgindo como um desejo de continuação dos encontros virtuais semanais de autores que faziam a segunda edição do Curso de Escrita Criativa do Carreira Literária. E surgiu porque ocorreu algo durante o curso que não estava no script: além de das análises de contos e trechos de romances em processo de escrita, acabaram se desenvolvendo verdadeiros laços de amizade, que extrapolaram, no tempo e no espaço, os limites daquele breve período.

“Tabu”, além de reunir alguns dos escritores que estão produzindo a literatura de hoje, tem a proposta colocar luz sobre o inquietante tema dessas interdições. Câncer, incesto, nudez, necrofilia, pedofilia, zoofilia, antropofagia, eutanásia, homossexualidade, transgeneridade, poligamia, suicídio, morte… Como chama atenção a organizadora da coletânea, “talvez sejam essas palavras, muitas vezes proibidas de serem ditas, as que mais tenham a dizer sobre nós. E esta coletânea está aqui para isso. Para afirmar a literatura como um dos raros espaços possíveis de liberdade.”

Tenho um orgulho imenso de estar nessa coletânea, com o conto A última claridade desse dia. Li a versão inicial de cada um dos contos e posso assegurar: são demais! É uma honra habitar essas páginas ao lado de tantos ótimos escritores.

Lançamento da coletânea “Tabu”
Sábado (15/7), às 19h
Espaço Oito e Meio
Travessa dos Tamoios, 32-C – Flamengo

Lançamento do livro "Tabu" no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

Lançamento do livro “Tabu” no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

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Tenho um orgulho imenso de estar nessa coletânea que será lançada no próximo sábado (15/7), no espaço da Editora Oito e Meio, no Rio de Janeiro… Li a versão inicial de cada um dos contos e posso assegurar: são demais! É uma honra habitar essas páginas ao lado de tantos ótimos escritores.

Lançamento do livro "Tabu" no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

Lançamento do livro “Tabu” no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

Como surgiu o livro? Com a palavras, a querida Flávia Iriarte, organizadora da obra:

Estamos em outubro de 2016. Dois grupos de escritores de todas as partes do Brasil se encontram às quartas e quintas-feiras, durante um mês, para debater acerca de suas produções literárias, em um encontro online (bendita era digital!). Cada participante deve apresentar um projeto – romance ou coletânea de contos – para desenvolver, o quanto possível, ao longo deste período. Eu e a Maiara Líbano somos as encarregadas de coordenar o desafio, fazendo a leitura dos textos e dando um retorno com sugestões aos seus respectivos autores. Era esta a proposta da segunda edição do Curso de Escrita Criativa do Carreira Literária.

Com o que não contávamos, no entanto, era que, além de personagens e narradores, conflitos e pontos de virada, das nossas histórias, terminássemos os encontros falando sobre tudo que estava por detrás delas. Sobre nossos próprios conflitos e angústias e o quanto deles têm os nossos personagens, sobre nossos processos de criação e o quanto eles têm de falhas e acertos, sobre as relações – complexas e intrigantes – entre nossas vidas e nossas ficções.

Em suma, o que não estava no script, era que, além de contos e romances, se desenvolvessem, durante aquelas quartas e quintas, verdadeiros laços de amizade, que extrapolaram os limites daquele outubro para se desdobrar no tempo e no espaço.

É um livro, portanto, que nasceu a partir de uma certa política da amizade. Uma política em que a leitura — e a crítica que constrói junto — é um dever do amigo…

Participo da coletânea Tabu com o conto A última claridade desse dia, do qual deixo os primeiros parágrafos:

É estranho pensar nisso, mas a festa foi perfeita. Mal posso acreditar. Dois dias inteiros junto das pessoas mais importantes da minha vida. Tentei prever cada detalhe, controlar cada emoção. Porque, ao menos nesse instante, eu me queria rodeada apenas pela alegria de celebrar a existência com essas pessoas que amo tanto. Lá dentro, escuto Noah tocar no acordeão minha música preferida. É um presente que torna essa hora extrema ainda mais bonita. E difícil. O sol avermelha todo o horizonte. É impressionante como esses acordes melancólicos combinam com a feérica paisagem daqui.

Ouvir esse acordeão me lembrou de quando cheguei aqui no Canadá, para fazer a residência artística. Com pouco dinheiro, pegava um monte de trabalhos paralelos. Num deles, fui contratada para fazer a ilustração da capa de um disco de Noah. E quem estava lá, me esperando para discutir sobre esse trabalho? Seu irmão, Ethan. Bastou trocarmos algumas palavras para que a afinidade entre nós se tornasse evidente. Dessa afinidade, veio um convite para sair… E hoje Ethan está aqui do meu lado. Nossos dedos se entrelaçam como no dia do nosso primeiro beijo, há quase vinte e dois anos atrás.

Ethan aperta minhas mãos com muita intensidade. Está lindo, escondido atrás desses óculos escuros. Ele evita a todo custo me olhar. Quer apenas cumprir o combinado, como se eu não estivesse vendo as lágrimas silenciosas que já caem em seu rosto. Penso agora na sorte de tê-lo conhecido. Em toda uma vida incrível ao seu lado, cercada de arte e dos amigos que estiveram aqui nesse fim de semana. Em nossa Daphne, que hoje segue os passos do tio na música. É estranho pensar que a minha menina já está na faculdade. Ainda penso como se ela fosse aquela coisinha pequena, espevitada, correndo pela casa e batucando em todas as coisas. Sentir que vou deixá-la desamparada é a única coisa que me faz pôr em dúvida minha resolução. Sei que isso não é real, mas a verdade da gente é aquilo que a gente sente. Acho que não… A verdade de um ser é seu próprio corpo.

Para saber mais sobre o livro Tabu, clique aqui.

Capa do livro Tabu, lançado pela Carreira Literária / Editora Oito e Meio

Tabu – Carreira Literária / Editora Oito e Meio

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Ontem essa indagação não me saiu da cabeça: a mitificação de alguém é uma forma de desumanizá-lo? Que processos nos levam a apagar o lado humano de alguém que admiramos demais, para torná-lo uma espécie de semideus?

Anteontem à noite (25/5), fui ao lançamento do livro Estórias autênticas (Editora Patuá), do querido André Balbo, no Patuscada. Ainda não havia conseguido que o André autografasse o meu exemplar (sim, uma ótima notícia: o lançamento foi bem concorrido!), quando o Edu (Eduardo Lacerda) comenta comigo que haviam dito que o Raduan Nassar estava lá.

Meu primeiro sentimento foi um misto de incredulidade e espanto. O Raduan Nassar habita, ao lado de outros quatro escritores, uma parede da minha casa, dedicada às referências literárias mais importantes, comuns a mim e à minha esposa. Um conjunto pensado há sete anos, quando planejávamos os detalhes de como seria a nossa casa. Num tempo em que a matéria da vida quotidiana se modificava e ganhava novos significados projetados pelas emanações de sonhos em comum. Alguns dos cinco quadros que existiam originalmente na casa da Fabi emoldurariam novas fotos.

Foram conversas várias para que chegássemos a cinco nomes. Havia uma projeção de que novos quadros poderiam vir, aumentar esse conjunto, mas isso não ocorreu. Claro que certos autores já então cogitados se agigantaram ainda mais (como no caso de Ítalo Calvino) e outros surgiram assombrosamente (como Ismail Kadaré). Mas acredito que ali habitam a base do que me forma como leitor, e boa parte do que forma a Fabi (que vai muito além de mim) como leitora. Não consigo imaginar minhas palavras sem tê-los encontrado um dia. Estão lá Drummond, sentado modestamente no chão a folhear um livro próprio; Hilda Hilst abraçada com ternura a um cão; Borges com um olhar de tempestade, voltado para a incerteza; Guimarães Rosa acariciando um excêntrico rinoceronte. E, no centro, sentado numa cadeira sob uma árvore, talvez em sua mítica terra que o fez abandonar a escrita, Raduan Nassar.

Drummond, Hilda Hilst, Borges, Guimarães Rosa e Raduan Nassar habitam nossa cozinha, o lugar mais sagrado da casa.

Isso significa que aquela espécie de entidade que habita nossa cozinha, que é o lugar mais sagrado da casa, estava ali. Devo muito da minha linguagem à leitura dos livros de Raduan. Mas não teria como dizer isso a ele. Não teria como contar o alumbramento perplexo suas palavras me causaram. O quanto elas foram fundantes para o prosador que sou, e que desejo me tornar. Também não teria como dizer que a fala de um dos personagens do meu Trítonos tem toda fala construída como um fluxo, um jorro, como o vi fazendo em “Um Copo de Cólera”. E que nessa mesma fala há uma espécie de incorporação de uma trecho do “Lavoura Arcaica”, em que o personagem diz que será o profeta da própria história.

Quando fui buscar o autógrafo do meu exemplar do livro do André, numa sala mais reservada, aquela figura deixou de ser apenas um quadro na parede, e um nome na capa de livros essenciais. Diante de mim estava ele: Raduan! Desde então, fui meio que levado pelos acontecimentos. Ainda não acredito que autografei e dei um exemplar do meu Trítonos – intervalos do delírio para Raduan Nassar. Era como conhecer uma entidade mítica. E a perplexidade paralisa. Ao lado de Raduan, outra figura conhecida. Embora longe de ser mítica, é alguém que, em tempos de uma política desumana que a administração da cidade vem adotando, deixa saudoso o cidadão político que sou: Fernando Haddad.

No entanto, num primeiro momento, só consegui ver o escritor e mito. Em vão tentei balbuciar algo absolutamente banal, falando do quanto era difícil de acreditar naquele momento. Mas eu sabia que quaisquer palavras eram insuficientes. Voltei para casa eufórico, como se tivesse vivido uma experiência sobrenatural. Repleto de uma emoção difícil de explicar, mas plenamente possível de entender. Ao mesmo tempo, porém, pensava no quanto aquela euforia e aquele maravilhamento, que quase me emudeceram, nasciam da mitificação de um homem. Ao entrar naquela sala, vi um homem frágil, talvez um pouco menor que eu, feito de carne e osso, sentimentos e incertezas. Mas essa dimensão havia se apagado. Meus olhos viam apenas a figura mítica, o escritor desmedido e o personagem repleto de idiossincrasias, que largou a literatura para cuidar da terra e seus maravilhamentos. E essa figura me parecia desumanizar o Raduan homem.

Longe da emoção, penso que talvez eu devesse ter falado que sabia que toda aquela situação talvez fosse um pouco constrangedora para ele, mas que certamente ele também entendia que, como leitor, me era impossível não lhe dizer o quanto o admirava. Afinal, era ele: Raduan Nassar. Há seis anos ele habita o espaço mais sagrado da minha casa. Suas palavras me habitam há pelo menos uns quinze. E era lindo conhecê-lo ali na Patuscada, pois aquele lugar também é, um pouco, uma espécie de casa para mim…

Fernando Haddad, Raduan Nassar, Edson Valente, Eduardo Lacerda e eu.

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Hoje me deparei com uma alegria que mostra que um livro não se esgota na novidade de seu lançamento. Ele é capaz de produzir vários e inesperados desdobramentos. Isso porque é o leitor quem direciona e determina os sentidos de uma obra.

Ontem, foi publicada a entrevista que o querido Fernando Sousa Andrade fez comigo, sobre o meu Trítonos – intervalos do delírio, para o Ambrosia.com.br. Foi um grande prazer e um grande privilégio refletir, a partir desse diálogo, sobre o processo de escrita do livro, revisitar temas e caminhos da criação.

Escrevo também pelo desejo de encontro. E essa entrevista foi um desses felizes encontros, em que senti que a escrita alcançou o seu delírio de alucinar nos olhos do leitor.

Para ler a entrevista, clique aqui. E caso tenha interesse em adquirir o livro, ele está à venda no site da Editora Patuá. Acesse http://bit.ly/teofilopatua.

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Nesta quarta-feira (28/12) me chegou uma aguardada caixinha pelo correio, trazendo alguns livos da Editora Oito e Meio. Já que estamos olhando para o novo ciclo solar que se aproxima, uma de minhas metas para 2017 é conseguir ler o que acabou se acumulando em minhas estantes ao longo desse 2016 (meio corrido e muito insano).

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Pois bem, entre os livros que eu aguardava, estava uma coletânea, organizada pela querida Flávia Iriarte, com alunos de um curso do Carreira Literária que aborda os desafios para um autor divulgar seu trabalho, seja antes, seja após a publicação (o que era o meu caso, já que minha principal motivação de fazer esse curso eram os desafios para projetar, ao longo deste 2016, o meu Trítonos – intervalos do delírio).

O desafio final desse curso era a escrita de um conto, para ser publicado numa coletânea. Com limites de extensão, desafio natural dentro de uma coletânea de texto, e prazos para entrega e aprovação do texto.

O livro me chegou ontem, e aguarda para ser lido em 2017 (devo dizer que já li o conto delicadíssimo da Paula Giannini, que fala de um tipo de amor tátil e visceral pelas palavras, mas o conjunto dos textos será lido somente depois). Logo que enviei o meu conto para a coletânea, minha expectativa com o livro era apenas ter em mãos um conjunto de textos de autores com trajetórias, estilos e temáticas diversas. Mas que, ao mesmo tempo, fosse um testemunho da vitalidade de autores que estão produzindo hoje.

Quando o livro me chegou, no entanto, eu estava com a expectativa sobre o livro alargada. Porque, para além disso, havia nomes que eu conheci num segundo curso que fiz, dessa vez de escrita criativa, com a Flávia e a Maiara (entre eles, o da Paula, de quem já li o conto da coletânea). Portanto, já sabia o que esperar de alguns dos nomes que estavam no livro. De alguns autores de quem já havia não apenas lido, mas discutido alguns textos.

Por fim, devo dizer que meu conto Gravitação universal, que está nessa coletânea, foi o primeiro texto literário em prosa que escrevi desde a publicação de Trítonos – intervalos do delírio pela Editora Patuá, no fim de 2015. Foi como uma espécie de ponto de virada, exorcismo, limpeza, banho de sal grosso, sessão de descarrego temático, a partir do qual pude, enfim, me distanciar dos oito anos de escrita de meu livro (sobretudo dos três últimos anos, em que escrevi seu último conto). Fazer o curso de escrita criativa foi um segundo passo nessa direção. Nesse processo, pude olhar para meu próximo projeto. Portanto, outra meta para 2017, além de ler, é me dedicar a escrever meu próximo livro (ainda sem título), que já tem alguns contos escritos e outros em processo.

A coletânea está à venda no site da Editora Oito e Meio (clique aqui). Deixo abaixo um trecho inicial do meu conto Gravitação universal:

Notou pela primeira vez a existência de dois gatos no apartamento embaixo do seu. Enquanto um dormia, seduzido pela tarde preguiçosa, o outro preparava o pulo, talvez para estraçalhar uma barata. Logo depois, viu uma senhora, esquecida em sua cama de enferma, esperando a morte que tardava em vir. Lançava para o nada um olhar desolador e alheado. Perdera a consciência de si, isso era nítido. Se pudesse escolher, viveria assim ou também saltaria fora da ponte da vida?

Passou por dois apartamentos sem vislumbrar pessoa alguma. No primeiro, viu o quarto de um adolescente. Via-se uma rebeldia envelhecida e sem vitalidade nos pôsteres colados à parede e no caos das coisas espalhadas. Roupas pretas de couro e camisetas de bandas se misturavam a gravatas sobre a cama. Uma guitarra não mais tocada adornava a parede ao lado de uma foto antiga, na qual um rapaz de uns vinte anos empunhava aquele instrumento hoje em desuso. As roupas e o aspecto geral da imagem revelavam que pouco mais de duas décadas se acumularam desde então sobre os ombros daquele jovem. Já o outro apartamento lhe trouxe uma sensação dura de vazio. Sem móveis nem moradores, era um apartamento desocupado, despossuído de vida, despido de alma.

No andar de baixo, deparou-se com uma nudez ainda mais avassaladora. Uma moça, sentada sobre a cama, percorria o próprio corpo com as mãos repletas de alguma dessas alquimias de farmácia que prometem manter incólumes juventude, beleza ou saúde. Chegou a vislumbrar sua expressão de susto quando ela o viu caindo.

Sentia o ar ao redor de seu corpo se agitar cada vez mais. A sensação de queda livre provocava vertigens em suas entranhas. Embora acelerasse como uma massa compacta, eram várias e múltiplas as sensações percebidas pela longitude de suas carnes.

(…)

(Trecho do conto Gravitação universal, publicado na coletânea Escritor Profissional — Vol. 3)

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Trítonos – intervalos do delírio“, cujo lançamento faz hoje um ano, começou a tomar sua forma definitiva enquanto seu segundo conto, “Gritos do açafrão”, era escrito. Nele, há um personagem que é pianista. As pesquisas sobre música que fiz por causa dele acabaram me fazendo encontrar a metáfora central desse livro: a vida como dissonância.

Encontrar conceito do trítono também me fez encontrar a forma do livro, com três grandes narrativas, dispostas como uma espécie de programa de concerto, intercalando dissonância e consonância. Um jogo que culmina no trítono – o intervalo mais dissonante, em música – para depois voltar ao tom inicial do livro-delírio.

Pensando na importância da música nesse livro, compartilho uma sequência narrativa/musical, com as peças tocadas por Demian, o pianista do segundo conto, e os trechos correspondentes aos instantes em que elas soam dentro do conto. Basta assistir à playlist abaixo, criada no Youtube, e ler o trecho selecionado.

O livro “Trítonos – intervalos do delírio” foi lançado em 2015 pela Editora Patuá e pode ser adquirido no endereço http://bit.ly/tritonos.

Saciados do comer e do beber, cada um segundo sua fome, a mulher, após agradecer-lhe, perguntou se ele poderia tocar um pouco para ela. Ele sorriu e perguntou de seus gostos. Mais uma vez ela se esquivou de dar direção a qualquer coisa que fosse. Disse que queria ouvir coisas às quais não estivesse habituada, quase como se desejasse, sem o saber, refundar seu campo da escuta.

Demian sentou-se ao piano. Anunciou que iria tocar duas músicas de Eric Satie. Começaria por uma chamada Gymnospédie n° 1, nome derivado de um antigo ritual grego ao deus Apolo, em que jovens dançavam nus ao som de flauta e lira. Ela esperava um som insano, como aquele que invadiu seus ouvidos enquanto escutava as músicas judaicas. No entanto, do piano de cauda saiu um som lento, grave, suave, quase doloroso. Mas também agradável como uma luz leitosa de fim de tarde. Enquanto ele tocava, ela fechou as cortinas da sala, até chegar na luminância que sua mente imaginou para a música. Lenta e grave, tirou toda a roupa e começou a dançar, completamente nua, sobre o suave tapete da sala, até deitar-se nele, para ouvir os últimos acordes de olhos fechados.

Ela não acreditava que estava ali deitada, nua, na sala de um estranho, ouvindo aquela música que a furtava do presente e remetia à eternidade. Após ouvir o último acorde, sentiu uma imensa vontade de chorar. Um choro sem nome, sem sentimento. Mas não teve tempo. Ainda de olhos fechados, ouviu um barulho inominado. Abriu os olhos e viu o tampo das cordas fechado. Demian já estava praticamente ao seu lado. Levantou-a em seus braços, enquanto dizia que ela teria uma experiência de audição diversa. A ideia lhe havia surgido graças ao nome da próxima música de Satie que ele tocaria: Gnossienne nº 1, palavra provavelmente derivada de gnosis, inventada pelo compositor para nomear uma sequência de sete peças.

E o que ela experimentou foi uma nova forma de conhecer. Aquele quase deus da música deitou-a com rara delicadeza sobre o piano, com a cabeça virada para as cordas graves. Estava deitada como um horizonte ofertado aos olhos do pianista. Ela olhou os ornamentos do teto e ruborizou pensando que ele iria divisar detalhes de seu corpo que ela mesma indistinguia. Com sua voz aveludada, como se acariciasse seus ouvidos com o silêncio que mora nas entranhas de cada som, Demian pediu que ela fechasse os olhos e apenas mirasse o dentro de si. E se deixasse levar pelo imaginado, pela trama sonora e abstrata das músicas que iria tocar.

Alguns breves instantes silentes se seguiram após a mulher do apartamento 11 ter fechado os olhos. Sentiu-se esvaziar de todo, estimulada pelo silêncio e pela escuridão de suas pálpebras. Antes que formulasse pensamento, sentiu a primeira nota grave da música ressonando em seu tronco. Os arpejos passeavam pela longitude de seu corpo. Sentia-se capaz de distinguir a complexa estrutura das ondas sonoras que vibravam, também dentro dela. Diferençava timbres e alturas, pulsos e amplitudes, harmonia e melodia. Estremeceu assim que um fortíssimo fez reverberar todo o seu ente. Foi invadida, penetrada pelo som. Seu ventre se contraiu ao sabor da imaginação. Sentiu-se tocada pela mão forte e macia daquele homem, que fazia vibrar o corpo de madeira do piano que percutia em seu corpo. Imaginava, excitava-se, exercitava-se em silêncios.

Não sabia mais onde estava, quando ouviu as últimas notas daquela música ressonando ao longe e dentro. Ouviu uma voz que parecia sussurrar o nome de Chopin, acompanhado das palavras Estudo, dó, menor, Révolutionnaire, Noturno, mi e bemol. Aquilo parecia alguma poesia mística, cujos sentidos exatos ela não compreendia. Súbito, foi percorrida dos pés à cabeça por escalas rápidas e voragens arpejadas no seu corpo pelo corpo vibrante do instrumento. Aos poucos, uma melodia começou a se destacar, repetindo-se num registro agudo e noutro mais grave, levando-a a sobrevoar um campo muito verde montada num cavalo negro. Não entendeu a imagem. Aquele verde absoluto, com um veio d’água ao centro, sendo visto de cima. Ela, quase tocando nuvens… Aos poucos, os caminhos foram escurecendo, assim como a música, que parecia morrer lentamente, até uma nova escala descendente fazê-la estremecer. Dois acordes finais, graves, vibraram em seu peito.

Em alguns instantes de silêncio, percebeu-se ofegante. Quis abrir os olhos. Mas antes que o fizesse, uma melodia muito triste a invadiu. Ela já a tinha ouvido, mas nunca havia sentido sua imensidão. Invadida por aquele Noturno, não conteve as lágrimas. Chorou a alegria triste trazida por aquele som. Aquilo era um sentimento bom e nostálgico. Sentia saudade de coisas que sequer supunha existir. Seu ventre ainda se contraía, mas não apenas por gozo. Era também o pranto trazido pela paisagem sonora que estava dentro de si. Pela primeira vez em sua vida ela entendeu que tudo o que há vibra, desde a mais densa matéria até os raios cósmicos mais imperceptíveis. Chorava a pequenez de sua existência, diante de tanta amplidão… Era o que sinalizavam os compassos finais daquele Noturno, que ela já tinha ouvido outras vezes várias, numa escuta indistinta, abafada em meio a tanto ruído.

O silêncio após aquele noturno foi um pouco maior. Atrás do silêncio, um tênue ruído branco, grávido das possibilidades do som, escapava de todos os cantos da vida. Ouvia os próprios soluços, a própria respiração ofegante, o ranger do banco em que Demian estava sentado, passos no apartamento vizinho, o elevador em movimento… Ruídos ainda mais débeis ela conseguia perceber, como o barulho da geladeira, que vinha da cozinha, ou um murmúrio indistinto, que vinha da rua.

Domando o caos sonoro em que estava imersa, a voz quase sussurrante daquele homem mil vezes desejável suspendeu o instante, pronunciando coisas meio indistintas, sem um sentido fixo. Variação 18, rapsódia, Paganini… ou seria Rachmaninov? Juntos? Sentiu um arpejado muito suave, pianíssimo, percorrer-lhe as vértebras. De repente… sim, conhecia aquela música. Num longo hausto, compreendeu a amplitude daquilo, como que intuindo a beleza reversa de uma melodia espelhada nas entranhas daquela que agora ouvia. Provavelmente, já fora tema de filme. Sim, em algum lugar, no passado, ouvira aquela melodia. Antes, parecia-lhe o extremo de uma tristeza. Agora não. Trazia-lhe uma bem-aventurança, uma bem-avinda plenitude. Aquilo se elevava, se elevava, se elevava… indefinidamente. Quando não cabia mais em si, a música fez um diminuendo e adentrou de novo na melodia, levemente modificada. E tudo isso se conduziu a um acorde final que ficou vibrando dentro dela durante o silêncio de alguns pulsos.

A voz daquele homem que não se cansava de extasiá-la anunciou então dois prelúdios de Chopin. Um, em mi menor; outro, em ré menor. Já nos primeiros compassos, um choro incontido brotou, fazendo cair grossas lágrimas no corpo de madeira daquele piano. Chopin novamente? Como era triste, como era doído esse piano de Chopin! De repente, a melodia pareceu sufocar. Sufocá-la. Sentiu-se a chama de uma vela que é tampada por um pote. Pouco a pouco, o oxigênio vai embora e seu brilho vai apagando, apagando, até, num suspiro sufocante… morrer.

Só nos breves segundos de silêncio ela percebeu haver perdido a respiração. De repente, sentiu como que um jorro de notas percorrer-lhe o corpo. Toda umidade existida nele pareceu evidenciar-se para ela. Só ali relembrou que estava nua. Sentia um frio delicioso, como se estivesse em meio a uma tempestade de sons e sentidos. Parecia correr numa floresta tropical. Desejava Demian perdido na umidade de suas matas. Aquele Chopin era violento e terminava violento. Os graves do piano ressonavam todos em suas costas. Abriu os olhos e viu o teto ornado de pássaros e notas. Olhou, rápida e fugaz, para o pianista que, de olhos fechados, sorvia o soar daquele último acorde, repetido uma segunda vez. Fechou novamente os olhos e mudou, ligeiramente, de posição. Já não sabia precisar se o frio ou o calor fazia seu corpo arrepiar-se. Ou se era o terceiro ressoar daquele acorde que concluía, como um trovão, a fúria de uma tempestade feita de notas jorradas dos dedos daquele homem.

Aqueles três acordes ainda ecoavam dentro de si, quando ouviu as palavras Bach, fuga, cromática, ré e menor. Uma melodia simples apareceu sobre a fusão que eram seu corpo e o corpo negro, de madeira, daquele piano. Soavam quase infantis aquelas notas. Tinham gosto de pão quente com manteiga, café com leite, bolo e entardecer. Ressonavam como o cheiro dos brinquedos de meninice. Saltitantes. Sem que se esperasse, aquela melodia mudava de lugar. Como numa brincadeira de pique, alternavam-se outras melodias, polifônicas. Não era possível distinguir figura melódica de fundo harmônico. Às vezes a melodia se escondia em outros recantos do som e voltava, travessa. Carrosséis, abraços de mãe e pequenos tesouros guardados num baú pareciam voltar, evocados por aquela fantasia de Bach. Vinham e se punham em fuga, para dar lugar a outras fantasias, outras lembranças.

Ela não sabia novamente onde estava. Sorria. Aos poucos, começou a se sentir adolescente. As brincadeiras evocadas foram perdendo a inocência. Lembrou-se de desejos e amores eternos que ficaram cristalizados no tempo. Sorria ainda mais, sem sentir nem saber onde o real habitava. Aquela sonoridade vibrando em seu corpo despertava muitas memórias, vividas e imaginadas. Quando o ritmo da música prenunciou o último arpejo e os últimos acordes, recobrou a consciência de quem realmente era. Era ainda aquela menina que fora, crescida e incrivelmente só. A solidão da última nota grave, soando vários tempos, falava-lhe que o sozinho de cada ser é o fundamento de seu sentir. Seu íntimo exultava por conhecer e reconhecer-se através da música.

Ao fim da reverberação da última nota, ecoando mais dentro de si e de seu corpo-piano do que no aéreo espaço das ondas sonoras, seguiu-se um hiato preenchido com imensos silêncios. Foi um tempo suficiente para manter suspensos os cinco sentidos daquela mulher, mas exíguo para exigir-lhe qualquer coisa além da fruição do instante. Bastava-lhe sorver a matéria-prima de todo som em reverência extática, estética, estésica ao som há pouco extinto. Bastava-lhe a recordação sonora em todas as instâncias de seu corpo, das profundas lembranças à epiderme.

(Do livro “Trítonos – intervalos do delírio“, páginas 62 a 67)

Capa do livro "Trítonos - intervalos do delírio"

Capa do livro “Trítonos – intervalos do delírio”, lançado em 2015 pela Editora Patuá

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Quando nos lançamos num caminho de leitura, não me parecem valer muito cartografias, mapas e guias de viagem. A experiência de perder-se entre linhas toca o incomunicável. Toda preparação prévia, bem como toda elaboração posterior diante do lido, consegue adicionar novas camadas à experiência. Mas é no encantamento que se tem quando se percorre os caminhos de uma obra que reside o mistério. E cada autor guarda consigo os segredos que adicionam sabores e temperam um texto. Talvez seja o desejo de se aproximar desse encantamento que levou Barthes ao conceito de textoleitura, que diz respeito a uma forma específica de se entregar ao ato de ler. Em lugar de se debruçar na busca das verdades inerentes ao texto e às suas intenções, Barthes propõe “ler levantando a cabeça” para sistematizar as digressões e os momentos em que se interrompeu a leitura para interrogá-la.

Sem vista para o mar“, de Carol Rodrigues – que tem o belo subtítulo “contos de fuga” –, pede isso o tempo todo ao leitor: que ele levante a cabeça e, num assombro, interrogue a obra. É assim desde a primeira frase, quando nos deparamos com a síntese do personagem principal da primeira história: “Ele não existe e de repente ele existe.” Quando enfim é possível sair dessa frase-armadilha, somos informados de que “Faz cinco dias foi jurado.” E acompanhamos um adolescente de uniforme escolar, que segue o mais longe que seu pouco dinheiro e o mapa que tem conseguem lhe levar. O personagem acaba fazendo o caminho da leitura, indo para “Onde acaba o mapa”. Quando termino esse conto o livro me espera, mas estanco após sua leitura. Preciso relê-lo. Não para que o entenda – tudo nele é de uma simplicidade precisa, o roteiro, as estradas e lugarejos, o uniforme de escola pública que o garoto usa, o desfecho, as revelações e os sonhos. E tudo nele é imenso e nos convida à imensidão. Sentimos o mundo reverberando essa história. “Saindo de casa era grande, grande o mapa, sem bordas, só curvas que davam noutras curvas noutros beiços noutros braços”.

Sigo adiante, depois da releitura, pegando carona em histórias e estradas diversas, repletas de delicadezas e brutalidades, sujeiras e sonhos. Alguns contos depois, estanco novamente. No conto que dá título ao livro, acompanho a primeira história que não passa por estradas. Cheia de uma ternura infantil, mas também de uma dureza que atordoa como um ofuscamento, ela nos narra a história de um menininho apaixonado pelo pôr-do-sol. Depois dela, voltamos para a estrada.

Porque é justamente nas estradas que grande parte das histórias de “Sem vista para o mar” acontece. Por elas, passam caminhoneiros, travestis, ladrões de carga, noivas fugidas, criminosos, viciados, aposentados. A partir delas, nos deparamos com ansiedades adolescentes, crueldades, dores, medos, alegrias, sonhos, prazeres, amores, angústias, desesperos, desejos, além de sensações inominadas. E cada história, cada narrativa compõe uma sequência que se encadeira – pensava eu que em redor de estradas e mapas – até que o último conto parece abrir o livro, fazendo os caminhos que se bifurcam cruzarem-se novamente. Como se eu estivesse assistindo a uma sequência de road movies que, no fim, se revelasse uma única e grande viagem.

Ainda que o livro tenha me alertado de que eu estava adentrando no terreno “onde acaba o mapa”, eu segui em busca de indícios que me confirmassem o que eu já sabia sobre o livro. Sabia que “Sem vista para o mar” conquistou, na categoria contos, a 57ª Edição do Prêmio Jabuti e o Prêmio Literário da Biblioteca Nacional. A própria orelha me adiantava informações. Nela, Ivana Arruda Leite sinaliza que os contos “se encadeiam como elos de uma corrente que se fecha no final, circunscrevendo o mundo particularíssimo de Carol Rodrigues”.

Mas o livro é soberano: não existe mapa para a leitura. Tanto que, mesmo sendo alertado sobre o mecanismo do livro, ainda me espanto com o que ocorre em seu ponto (ou conto) de fuga. “Questões ultramarinas” opera uma inversão no ponto de vista, na perspectiva narrativa, trazendo o foco para um personagem que era secundário em contos anteriores. Só ali, me dei conta da recorrência daquele personagem em outras histórias. Fui procurar refazer esse percurso, para constatar o que já me havia sido dado e eu não vi. Senti-me quase que voluntariamente enganado por uma ilusionista que, na minha frente, some com uma moeda e a retira por trás de minha orelha. Onde estava a moeda? Em mim, mas não a senti, a não ser quando ela se evidencia novamente.

“Carol Rodrigues é um assombro” – nos alerta a primeira frase da orelha do livro. Mas ela não vale como alerta, e terminamos o “Sem vista para o mar” cheios de assombro e espanto, por termos vivido uma experiência de leitura avassaladora e repleta de epifanias. Ainda assim, tateio esse texto para organizar minhas impressões, mas tenho certeza de que ele vale pouco em confronto com a experiência de passar pelo livro. Por isso, se posso dizer algo a partir daqui, é: façam essa viagem!

quinzenario0048-semvistaparaomarSem vista para o mar
(contos de fuga)
Carol Rodrigues
V. de Moura Mendonça Livros | Selo Edith – 2014
124 páginas
978-85-66423-19-8
Mais informações: clique aqui.

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Onde faltam palavras, resta a música do delírio. E os mil e um fragmentos de memória, tecidos numa imensa colcha dos afetos. A noite de 2 de setembro reverbera ainda. E continuará reverberando uma teia de reencontros com amigos que cruzaram meus caminhos há dez, quinze ou até vinte e cinco anos. Se as estradas por vezes traçam pontos de fuga, os laços da amizade aproximam…

Agradeço cada presença, cada abraço, cada sorriso. Agradeço também cada palavra, dita pelos timbres da voz presente ou pelas mensagens escritas por tantas vias. Agradeço cada leitura, cada leitor que a Editora Patuá permitiu que minha escrita encontrasse, realizando assim seu delírio. E dou graças à vida por todos vocês fazerem parte dela.

Compartilho aqui algumas lembranças fotográficas do Lançamento de Trítonos – intervalos do delírio no Rio de Janeiro, na sede da Editora Oito e Meio.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), na sede da Editora Oito e Meio – 2 de setembro de 2016.

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Pós-lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio – 2 de setembro de 2016.

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Pós-lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio – 2 de setembro de 2016.

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Pós-lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio – 2 de setembro de 2016.

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Pós-lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio – 2 de setembro de 2016.

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Pós-lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio – 2 de setembro de 2016.

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Pós-lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio – 2 de setembro de 2016.

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Pós-lançamento no Rio de Janeiro de Trítonos – intervalos do delírio – 2 de setembro de 2016.

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Hoje, o querido amigo Sândrio Cândido publicou um texto que me emocionou demais, com reflexões feitas a partir do meu “Trítonos — intervalos do delírio” (Editora Patuá, 2015). Convido todos a lerem “Teofilo e as arapucas“, que me fez sentir verdadeiramente que esse livro não é mais meu. O livro se dá para que o leitor faça o que quiser com ele. Como autor posso ter feito a cartografia, mas o mar é de quem o navega. Gratidão infinita por navegar minhas palavras…

“O texto lido já não é apenas o texto do autor, mas é acima de tudo a enxada doada ao leitor, para limpar suas próprias terras e assim plantar suas próprias roças.” Essas palavras do Sândrio não param de ecoar em mim. Que mais pode querer um autor, se não fazer de suas palavras uma enxada doada ao leitor?

Leia aqui a íntegra de “Teofilo e as arapucas”, de Sândrio Cândido.

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