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Archive for the ‘A Carne da Multidão’ Category

Agosto termina deixando um abismo de dúvidas e receios sobre os rumos do país. Abismos, aliás, que nunca se fecharam. Talvez por isso, o dia hoje tentou seguir a normalidade. Mulheres e homens saíram para trabalhar, crianças foram para as escolas, os ônibus circularam normalmente, lojas e restaurantes abriram. Mas uma tensão — presente nos ares do país durante todo esse ano — não se dissipava. A chuva que caia desde cedo na cidade em que habito não lavava a alma de ninguém. Talvez os céus apenas chorassem por essa herança de incertezas.

Mas o que vivemos hoje está longe de ser uma exceção em nossa história. Olhando para trás, é possível constatar que “o maior eixo de continuidade da história recente do Brasil é a instabilidade”. Se pensarmos a história recente do país a partir da chamada Era Vargas, vamos perceber que tivemos somente onze eleições diretas para presidente desde 1930. Por isso, temos hoje estranhas configurações de pais que votaram para presidente o mesmo número de vezes que seus filhos. Mesmo no meu caso, minha mãe só votou para presidente duas vezes a mais do que eu.

Dos oito presidentes eleitos nessas onze eleições que tivemos nos últimos 86 anos de nossa história, somente quatro conseguiram terminar seus mandatos. E em 127 anos de República, apenas 12 presidentes foram eleitos por voto direto, tomaram posse e governaram até o final, incluindo nesse cálculo a presidenta Dilma Rousseff no primeiro mandato. Constatar isso de forma quase didática é um pouco assustador… Ainda mais pelo fato de termos vivido os últimos vinte (e um?) anos com uma ilusão de estabilidade, derruída no decorrer de 2016. Realmente torço para que meus temores sejam exagerados, mas a história me mostra que a junção de um descrédito generalizado em relação à democracia com um crescimento preocupante de diversos discursos de ódio jamais produziu bons frutos.

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. - André Mendes Pini

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. – André Mendes Pini.

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O dia de hoje é cinza.
Assim se tingiram
os céus da cidade
que ontem festejou
com fogos de artifício
artifícios discursivos
– o que há para comemorar?
Indiferente à perplexidade
ante os duros golpes
dos tempos, segue
a luta.

A luta da mulher
que acorda de madrugada
para cruzar a cidade
e garantir seu lugar
à sombra dos patrões,
e depois levar para casa
a comida pouca,
que cozerá com seu cansaço
para alimentar o crescimento
das crianças.

A luta de quem mora
longe – inda que perto de nós –,
onde o estado de
exceção é regra,
e o Estado, uma exceção.
A luta das pessoas
que são governadas,
das que são despojadas
de palavras,
das que não sabem
quanto custa o dólar,
mas contam cada centavo
do trigo.

Há muito foi exilada
a esperança.
Ouço gritos, que ainda
parecem longínquos,
pedindo cárcere de quem
luta por mais do que circo
e pão.

Agora, parece que vão banir
o vermelho das ruas
– quem sangra,
que fique em casa!
O dia de hoje é cinza.

São Paulo, 12 de maio de 2016.

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Diante da força de um escrito, em algumas condições nos esquecemos de que quem escreve o faz a partir do lugar que ocupa no mundo. A aristocracia periférica de um Jorge Luis (Borges), escritor ao mesmo tempo europeu e argentino; o provincianismo de um menino de Cordisburgo chamado João (Guimarães Rosa), capaz de colocar muita filosofia na boca de seus personagens sertanejos; e a origem negra de um certo Joaquim Maria (Machado de Assis), cuja cor foi desbotada nos livros de história da literatura, importam menos, quando eles são lidos, do que a chamada “grandeza universal” de suas obras. Mesmo quando elas têm cores essencialmente regionais.

O mesmo não ocorre com quem não pode ter seus traços tão facilmente apagados na estrutura da sociedade. A cor de um Afonso Henrique (de Lima Barreto), a sexualidade de um Caio (Fernando Abreu), o gênero de uma Cecília (Meireles) ensejam muito frequentemente debates sobre o lugar que ocupam e a partir do qual escrevem. Por quê?

Parece-me muito evidente que a literatura escrita por homens cisgêneros, brancos (ou embranquecidos) e heterossexuais é recebida como literatura universal. E o que é escrito por mulheres, por transexuais, por gays ou por negros, o que seria? Se, por um lado, a análise a partir do lugar de enunciação de quem escreve só costuma valer para quem ocupa lugares periféricos na própria periferia do capitalismo que é o nosso país, por outro marca um ato de resistência, ao demonstrar que a humanidade se engendra, complexa e plural, em todos, e que existem vozes imensas relegadas a um absurdo silêncio.

O livro “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo, pode ser visto como uma realização estética dessa resistência, ao ressoar a voz de uma multidão habitualmente silenciada. Uma multidão de mulheres negras e de filhos dessas mulheres. O que ouvimos é a sua humanidade, e não a voz de um esteriótipo engessado, de um personagem-tipo cobaia de teses sociológicas.

Antes que o leitor enverede por qualquer história, a primeira frase da Introdução à obra, escrita por Jurema Werneck, já adverte que “A mulher negra tem muitas formas de estar no mundo (todos têm).” Parece óbvio, mas alguns de nós temos o privilégio de nos esquecemos disso com assustadora frequência, porque podemos apagar a própria existência dessas mulheres. No entanto, a literatura de Conceição Evaristo é um grito de resistência que nos recorda desse fato e dessas vidas.

Com um realismo complexo e repleto de poesia, mas às vezes narrando alegorias míticas, nos encontramos com um enorme caleidoscópio de mulheres de todas as idades: Ana, Duzu, Maria, Natalina, Salinda, Luamanda, Cida, Zaíta, Bica. Enquanto algumas dessas mulheres morrem de balas achadas ou perdidas, outras fazem cooper em Copacabana antes do trabalho. Há as que choram seus maridos mortos, as que são linchadas e as que amam — seus homens ou suas mulheres. Uma aborta e depois aluga seu ventre. Outra realiza uma viagem em busca da lembrança da cor dos olhos de suas mães…

conceicao-evaristoCuriosamente não tem nome a mulher que faz essa viagem, ao mesmo tempo íntima e mensurável em quilômetros, de retorno a Minas, após acordar bruscamente se perguntando de que cor eram os olhos de sua mãe, no belíssimo primeiro conto que nomeia o livro. Talvez o nome dessa personagem seja Conceição. Pelo menos, na minha liberdade leitora, foi assim que a chamei, lutando, no entanto, para não confundir a personagem com sua criadora. Isso porque Conceição Evaristo, a autora, reside hoje no Rio, onde se formou em Letras pela UFRJ e se tornou mestra e doutora em Literatura, mas nasceu e cresceu numa favela em Belo Horizonte.

Seu “Olhos d’Água” traz múltiplas histórias, repletas de intensidades por vezes brutais e doridas, protagonizadas por mulheres negras, como a autora, numa feliz conjunção entre o lugar de enunciação e a voz que artisticamente se produz. Não cabe a mim validar qualquer experiência. Na posição de leitor, o que desejo aqui é dizer como me chegaram os ecos das histórias desse livro, histórias que precisam ser lidas, pois certamente necessitavam ser escritas e, no conjunto, testemunham que cada mulher negra, sobre quem geralmente não se fala e a quem raramente se dá voz, carrega em si um universo, um infinito particular. Isso é óbvio, mas nem sempre é fácil enxergar o óbvio. Ainda mais quando ele é esmaecido pela naturalização do silêncio sobre muitas vidas.

Termino esse pequeno itinerário de leitura partilhando o assombro e o alumbramento que me trouxe o final do conto “A gente combinamos de não morrer”, por sua belíssima ode à palavra, afirmando que a escrita também pode ser um lugar.

E fui escrevendo mais e mais. (…) Na verdade, naquele momento, eu já estava arrependida e queria voltar para o meu lugar. Se é que tenho algum. Mas escrever funciona para mim como uma febre incontrolável, que arde, arde, arde… (…) Gosto de escrever palavras inteiras, cortadas, compostas, frases, não frases. Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida. Outro dia, tarde da noite, ouvi um escritor dizer que ficava perplexo diante da fome do mundo. Perplexo! Eu pedi para ele ter a bondade, a caridade cristã e que incluísse ali todos os tipos de fome, inclusive a minha, que pode ser diferente da fome dos meus.

(…)

Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro. Tenho fome, outra fome. Meu leite jorra para o alimento de meu filho e de filhos alheios. Quero contagiar de esperanças outras bocas. (…) Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito…

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“Tu deviens responsable pour toujours de ce avec que tu as allié”
(Nicolas Machiavel – Le Petit Prince¹)

Partir somente quando já naufraga,
Miserável, a louca embarcação.
Dizer adeus prevendo que uma vaga
Basta a todos os ratos do porão.

___

(1) Apud. MARX E HEGEL. Por que estamos envergonhados? Autos PIC 94.0002.0007273/2015-6: São Paulo, 2016.

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Os três parágrafos abaixo, escritos por João Paulo Cuenca, abordam de forma quase precisa a inquietação que os acontecimentos do dia de hoje me trouxeram. Por isso mesmo, não poderia me furtar a dividir, com uma tristeza perplexa, tais reflexões aqui. Vem-me à cabeça a indagação sobre como o dia de hoje será narrado nos livros de história daqui a vinte e poucos anos (espero que ainda haja livros, história e humanidade até lá!). Espero quase fervorosamente que não seja como o antecedente de um golpe que pôs fim ao mais longo período democrático do país.

Há algo em jogo para além das disputas partidárias ou do apoio e da queda de um governo: são os rumos da República, ou melhor, da própria democracia. E para mim a atitude do juiz alçado à condição de herói despreza esse valor, ao divulgar grampos avidamente, atropelando a justiça com fins partidários — e não com fins políticos, posto que essa crítica me parece imprecisa já que o Judiciário É POLÍTICO, pois é um dos poderes da República.

Pois bem, ao tornar pública a conversa da pessoa que ocupa a presidência da nação, o juiz federal Sergio Fernando Moro, pelo pouco que sei de direito como leigo, cometeu um ato ilegal (veja mais aqui sobre essa questão). Uma vez que na interceptação existe o envolvimento de uma pessoa com prerrogativa de foro, não caberia ao juiz suspender o sigilo das interceptações telefônicas, mas sim remetê-la ao tribunal competente — no caso, o Supremo Tribunal Federal. Não estou nem pensando na questão da ilegalidade da própria interceptação, caso ela tenha sido feita após a própria ordem de interrupção da medida. A parcialidade do juiz me parece evidente quando se constata que esse é provavelmente o último ato dele antes de remeter toda investigação ao Supremo, em razão da prerrogativa de foro que ganharia um dos investigados, ou talvez o principal deles, chamado Luiz Inácio Lula da Silva. E Moro decide — ao meu ver, além de parcial, ilegalmente, divulgar tudo, sabendo bem das consequências políticas e sociais dessa divulgação.

Sei que isso dificilmente me livraria de argumentos ad hominem contra minhas breves reflexões, mas mesmo assim não custa afirmar aqui que acho que o PT, para se manter no poder, tomou muitos rumos desastrosos. Alianças com antagonistas históricos (como Maluf e Collor), distanciamento de pautas histórias em favor dos direitos humanos, desastrosas políticas ambientais e indigenistas, e repressão violenta ao direito de manifestação são os pontos mais tristes desses rumos fronteiriços ao desastre.

Por João Paulo Cuenca

A questão agora não é estar ou não com o PT. Não é ser “fora Dilma” ou “fica Dilma”. Eu nunca votei na Dilma, por exemplo, e acho seu governo desastroso. E daí? Essa não é a questão agora. Já deixou de ser há meses e vocês ainda não entenderam.

A questão é que o Juiz Moro não é imparcial e atropela a justiça com fins políticos, numa operação conjunta à grande parte da imprensa, partidos políticos e corporações. A imprensa não pode ser um partido político. O Judiciário não pode ser um partido político.

Entendam: o que está em jogo é algo muito mais importante do que quem ocupará ou não a cadeira de Presidente da República do Brasil. O que está em jogo é a própria cadeira. E a República.

(Publicado originalmente aqui.)

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Uma das primeiras notícias que me chegou no sábado de carnaval antecipava as cinzas da então distante e futura quarta-feira. No dia anterior (5 de fevereiro), morria Lohana Berkins, uma das principais referências do movimento de travestis e transexuais na Argentina. A informação me chegou por um texto da Daniela Andrade.

Ao saber do ocorrido, lembrei do assombro e da admiração que senti quando li pela primeira vez sobre Lohana. Era uma reportagem sobre a Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, fundada por ela, repleta de análises contundentes sobre preconceito e exclusão da população trans*. No entanto, com mensagens capazes de aflorar esperança e desejo de lutar por uma outra realidade possível.

Lohana Berkins, fundadora da Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, para Travestis e Transexuais

Lohana Berkins, fundadora da Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, para Travestis e Transexuais.

Tomar ciência de sua morte acabou me dando o ensejo, no entanto, de conhecer um pouco mais da história, das ideias e do legado dessa travesti que foi expulsa de casa e, com isso, obrigada a se prostituir a partir dos treze anos de idade para sobreviver. Mesmo com uma trajetória de luta e rebeldia, Lohana foi ainda a primeira travesti a se tornar funcionária do Estado, na assembleia de Buenos Aires, ao ser contratada pelo então legislador portenho Patricio Echegaray.

Sua trajetória incomum, capaz de agregar apoio de tantas pessoas em torno de uma causa, já é motivo de admiração. Mas a leitura de algumas palavras de Lohana Berkins me impeliu a dar início às publicações quinzenais de 2016 com este texto, neste meu “lugar de ensaiar com as palavras”. Meu objetivo aqui é celebrar sua memória de luta e resistência, e fazer com que pessoas que eventualmente leem o que escrevo e não ouviram falar dela, quando ainda era viva, possam conhecê-la.

“Si pudiera nacer de nuevo y elegir, elegiría ser travesti” – A militância de Lohana tem destaque desde pelo menos 1994, quando fundou a Associação de Luta pela Identidade Travesti e Transexual (ALITT). Foi a partir dessa organização que a questão do direito à identidade de gênero começou a ganhar visibilidade na Argentina.

Em 2000, sua notoriedade alcançou uma esfera além do movimento trans*, quando enviou uma carta à então secretária de Promoção Social do governo da cidade de Buenos Aires, solicitando uma audiência. O presidente argentino na época, Fernando de la Rúa, havia dito que queria acabar com a prostituição nas ruas da cidade. Lohana viu nessa afirmação um excelente motivo para exigir trabalho e dar visibilidade à discriminação contra as travestis no mercado de trabalho formal.

A carta enviada por Lohana contou com assinatura de apoio de mais de duzentas pessoas, entre as quais Nora Cortiña, cofundadora e hoje atual presidenta da Associação Mães da Praça de Maio, o escritor David Viñas e o artista plástico León Ferrari. Nela, Lohana ressaltava que

El motivo de mi carta responde a que jamás pude acceder a un trabajo. Posiblemente, esta misma le resulte familiar como todas las que usted recibe a diario. Pero yo me atrevería a decirle que no. Mi situación de no ocupada no radica tan sólo en la falta de trabajo, sino que por mi condición de travesti me veo obligada a ejercer la prostitución callejera… (1)

Em uma entrevista posterior ao diário Página 12, ela disse estar convencida de que o Estado legitima a discriminação contra a população trans. Tanto que era possível um político prometer, em campanha eleitoral, “uma cidade sem travestis”, ao mesmo tempo em que os meios de comunicação incitavam as pessoas a se organizarem para varrer mulheres e pessoas trans que exerciam a prostituição em determinados bairros de Buenos Aires.

Nadie hace el mínimo intento por ocultar su travestofobia. (…). Si un cartel dijera por una ciudad sin judíos, sin discapacitados, o sin mujeres, ¿cuántos hubiesen saltado a repeler la barbarie? (2)

Nesse mesmo ano, ao ser entrevistada pelo jornal do Partido dos Trabalhadores Socialistas, Lohana fez um comovente balanço de sua vida de lutas:

Mi vida fue muy dura pero, a pesar de todo esto, si pudiera nacer de nuevo y elegir, elegiría ser travesti. Sería travesti, negra, boliviana, judía, la que se hizo abortos, la mujer golpeada, asesinada por el policía, la que encarcelaron. Elegiría todo eso de nuevo. Porque el triunfo más grande que voy a tener al final de mi vida es que voy a tener la seguridad de que jamás, mientras fui consciente, soporté una discriminación, una exclusión, ni en público ni en privado. Me rebelo a todo esto. Contra la discriminación, la exclusión, la represión seguiré luchando el resto de mi vida… (3)

Após toda projeção de suas reivindicações, Lohana foi contratada como assessora do legislador portenho Patricio Echegaray, tendo trabalhado nessa função até 2002. Nesse ano, foi aprovada, mas impedida de se inscrever, com seu nome social, para ser professora em uma escola pública. Isso lhe deu ensejo para que fizesse uma denúncia à Defensoria Pública de Buenos Aires, que conseguiu uma ordem para que as autoridades respeitassem sua identidade de gênero.

Lohana Berkins morreu, mas sua fúria travesti segue viva.

Lohana Berkins morreu, mas sua fúria travesti segue viva.

“Somos traidoras del patriarcado” – Com um forte discurso feminista, Lohana provocava as estruturas da sociedade ao analisar as condições de vida das travestis e mulheres transexuais, frequentemente vítimas de exclusão e de constantes agressões, vivendo à margem da sociedade, impelidas à prostituição e com baixíssima expectativa de vida.

Somos traidoras del patriarcado y muchas veces pagamos esto con nuestra vida. Brevemente dicho, las travestis sufrimos dos tipos de opresión. Por un lado, la opresión social basada en el imaginario colectivo de lo que es una travesti: misterio, ocultamiento, perversión, contagio, etc. El patriarcado nos castiga por “renegar” de los privilegios de la dominación que nos adjudican los genitales con los cuales nacemos. (4)

Mesmo tendo vivido boa parte de sua vida à margem da sociedade, jamais desistiu de exigir do Estado o reconhecimento de sua existência e de sua identidade. Em 2010, foi uma das importantes lideranças da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, uma aliança de diversas organizações que impulsionou a aprovação da Lei de Identidade de Gênero da Argentina, uma das mais avançadas do mundo, aprovada pelo parlamento em maio de 2012.

Lançamento da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, em 2010.

Lançamento da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, em 2010.

“El motor de cambio es el amor” – Lohana Berkins esteve internada durante várias semanas numa clínica de Buenos Aires, antes de seu falecimento. Diante do agravamento de seu quadro de saúde, ela divulgou uma carta, por meio de uma companheira de militância. Como Lohana morreria no dia seguinte, aquelas foram suas últimas palavras. Deixo-as ecoando, à espera do tempo da revolução – que é agora –, também convencido de que o motor da mudança é o amor:

Queridas compañeras, mi estado de salud es muy crítico y no me permite reunirme personalmente con ustedes. Por eso quiero agradecerles sus muestras de cariño y transmitirles unas palabras por medio de la compañera Marlene Wayar, a quien lego esta posta. Muchos son los triunfos que obtuvimos en estos años. Ahora es tiempo de resistir, de luchar por su continuidad. El tiempo de la revolución es ahora, porque a la cárcel no volvemos nunca más. Estoy convencida de que el motor de cambio es el amor. El amor que nos negaron es nuestro impulso para cambiar el mundo. Todos los golpes y el desprecio que sufrí, no se comparan con el amor infinito que me rodea en estos momentos. Furia Travesti Siempre. Un abrazo. (5)

"Hay que tener mucho coraje", desenho de Andrea D’Atri.

“Hay que tener mucho coraje”, desenho de Andrea D’Atri.

Notas
_____

(1)
La Izquierda Diario: Lohana Berkins: “Si pudiera nacer de nuevo, elegiría ser travesti”. 6 de febrero de 2016. Disponível em http://laizquierdadiario.com/Lohana-Berkins-Si-pudiera-nacer-de-nuevo-elegiria-ser-travesti/.

(2)
Página 12: El drama de buscar vida nueva. 23 de abril de 2000. Disponível em: http://www.pagina12.com.ar/2000/00-04/00-04-23/pag22.htm.

(3)
La Izquierda Diario: “¿No es una obscenidad una Constitución que defiende la propiedad privada antes que la vida?”. Reprodución de la entrevista de Lohana Berkins publicada en La Verdad Obrera Nº 64, la prensa partidaria del Partido de los Trabajadores Socialistas, del 17 de mayo del 2000. 6 de febrero de 2016. Disponível em  http://laizquierdadiario.com/No-es-una-obscenidad-una-Constitucion-que-defiende-la-propiedad-privada-antes-que-la-vida.

(4)
Lohana Berkins. Un itinerario político del travestismo. In: Diana Maffía (compiladora): Sexualidades migrantes – Género y transgénero. Páginas 127 a 137. 2003. Disponível em: http://dianamaffia.com.ar/archivos/sexualidadesmigrantesdm.pdf.

(5)
La Nacion: Murió la activista trans Lohana Berkins. 5 de febrero de 2016. Disponível em: http://www.lanacion.com.ar/1868550-murio-la-activista-trans-lohana-berkins.

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Vivemos tempos estranhos. Em dois protestos contra o governo federal, ocorridos nos dias 15 de março e 12 de abril, manifestantes tiram selfs com as PMs. Como atos de cidadania, são protestos legítimos. Chama a atenção, no entanto, a cordialidade das polícias nestas manifestações. Dada a história de truculência de nossas polícias, talvez fosse de se esperar algum tipo de repressão em atos tão grandes contra um governo e contra uma ordem vigente — as manifestações abrigaram diversos lunáticos pedindo intervenção militar. Pouco menos de duas semanas depois do segundo desses protestos, porém, numa grande passeata de professores em São Paulo (bom, é verdade que os números, como usualmente ocorre, variam de acordo com quem conta…), um enorme contingente policial bem menos amistoso claramente intimida quem vai às ruas.

Mas o paroxismo chega ao máximo quando vemos as imagens da recente brutalidade — que alguns insistem em chamar de “confronto” — cometida pela PM paranaense contra professores que se manifestavam, também contra um governo, mas dessa vez o governo local. As imagens chocam o país, embora infelizmente só mostrem a polícia sendo… polícia. Infelizmente, o ocorrido não é uma exceção. Num outro caso recente, com menor repercussão — e certamente menos aparatos de guerra — a guarda municipal agiu de forma assemelhada, na prefeitura de Goiânia, contra professores em greve. E vendo os vídeos e as imagens mais recentes da repressão policial em Curitiba, talvez não seja tão difícil entender que, em manifestações que pedem algumas sandices como “basta de Paulo Freire”, os manifestantes se animem em aplaudir e tirar fotos com a polícia.

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Non, pas Charlie… Pardonnez-moi.

Algumas vozes veem que o “confronto” (essa detestável palavra eufemística para repressão policial) entre professores e a PM é mais um motivo de louvar os manifestantes dos dias 15 de março e 12 de abril, que não precisariam entrar em confronto com a polícia para lutar por um Brasil melhor — sim, em algum lugar cheguei a ler isso! Essas mesmas vozes questionam, num indisfarçável tom inquisitorial, se isso que aconteceu no dia 29 de abril é que seria uma manifestação “pacífica” de “professores” — as aspas aqui não são minhas. Curiosamente, entretanto, as manifestações de 12 março e 15 de abril foram marcadas por um tom bem raivoso e testemunhou — não poucas! — hostilidades contra vozes discordantes. Talvez até agressões contra portadores involuntários de cores dissonantes, de acordo com certo relato insólito de suposta agressão a um cachorro com um lenço vermelho — relato que pode até ser falso, mas vivemos tempos em que não é possível distinguir bem a realidade de certos absurdos

Mas não há como negar que as manifestações contra o governo federal foram bem pacíficas, se comparadas com tantas outras ocorridas nos últimos tempos — das primeiras do Movimento Passe Livre em 2013 às recentes dos professores paranaenses. Para mim, isso demonstra que manifestações podem ser bastante violentas especialmente se um determinado agente se empenhar em disseminar o “vandalismo” e o terror. Esse agente é a própria polícia.

Em 2013, quando a polícia paulista resolveu se retirar de cena, talvez apostando que sem sua presença os protestos acabariam ficando incontroláveis, o que se viu foi exatamente o contrário. Já nas recentes manifestações, a simpatia mútua entre PM e manifestantes, nas passeatas de 12 de março e 15 de abril, permitiu que, mesmo estando exaltados os ânimos, os incidentes violentos não tomassem grandes proporções.

Quando falo assim da polícia, não estou falando particularmente contra um ou outro policial. Afinal, sempre esperamos encontrar exceções. Aliás, de acordo com informações imprecisas, prontamente negadas pelas autoridades, 17 policiais paranaenses neste recente episódio de violência policial mereceriam não só aplausos, mas também assistência da sociedade para se defenderem da própria PM, ao supostamente serem presos por se recusarem a cumprir ordens. Ao dizer que os verdadeiros “vândalos” em manifestações são as forças policiais, o que critico é essa máquina de obediência cega que estrutura nossas polícias militares, o que favorece a disseminação da banalidade do mal. Talvez contra professores (nesta semana), contra jornalistas e contra estudantes (em 2013) a ação da polícia cause assombro e comoção. Mas essa forma de agir faz parte de sua lógica. E os massacres diários da polícia contra a parcela mais vulnerável da população, em especial contra pessoas negras, confirmam isso. A permanência da tortura como método de investigação também.

Nesta semana, a PM ensinou aos professores no Paraná uma dolorosa lição que certamente eles já conheciam. Na carne dos professores, foi novamente demonstrado que violência é o outro nome do trabalho das PMs. Ficou claro ainda que elas existem para coagir. E não para garantir alguma segurança a todos. Claro que quem está no poder busca minimizar o absurdo. O governador do Paraná, Beto Richa, ainda tentou defender o injustificável. “Os policiais ficaram parados protegendo um prédio público, conforme determinação do Judiciário. Na medida em que os manifestantes avançam nos policiais, eles têm de reagir, até numa proteção de sua própria vida”, afirmou. Faltou apenas combinar com os fatos, para que eles não desmentissem tão claramente sua fantasia. Acho que a eloquência do vídeo abaixo basta para evidenciar isso.

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Não quero competir com a folia que se alastra. As urgências do carnaval me deixariam algum leitor? Algum par de olhos desejoso de escritura e diálogo? Penso que é impossível querer disputar com essa torrente do século, essa efemeridade arrebatadoramente sôfrega, esses quatro dias de celebração do corpo.

Pieter Bruegel, o Velho - A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Pieter Bruegel, o Velho – A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Os tempos de carnaval sempre me lembram o dionisíaco personagem Mynheer Peeperkorn, de A Montanha Mágica. Apesar de seu discurso desarticulado e, muitas vezes, sem sentido, ele acaba se tornando um mestre para o personagem principal, Hans Castorp. Peeperkorn se situa além e fora dos debates travados entre o humanista Lodovico Settembrini e o jesuíta totalitário Leo Naphta.

Colocando-se acima dos discursos em choque — que representam uma espécie de síntese das forças políticas e ideológicas que disputam espaço e poder na sociedade europeia pouco antes da I Grande Guerra –, a personalidade de Peeperkorn faz com que tudo quanto ele diga não importe tanto quanto sua própria presença, já que tudo nele é fascínio. Seu carisma faz com que todos os que dele se aproximem acabem se transformando, de repente, em súditos, o que faz Castorp concluir que a civilização não é um mero produto do intelecto, mas que sua construção depende, antes, do entusiasmo e da embriaguez.

Associo Peeperkorn mais à minha ideia de carnaval do que ao carnaval em si. Diante disso, não desejo obrigar minha escrita a competir com as noções de folia que herdo, sobretudo, do êthos desse fascinante personagem e de músicas do meu repertório afetivo. Em razão dessa festa, que em mim é contemplação e serenidade, deixo para depois tudo o mais que eu poderia querer escrever neste espaço.


A Noite dos Mascarados – Chico Buarque & Elis Regina

 

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Neste dia 29 de janeiro, quero me juntar a vozes quotidianamente caladas que pedem ouvidos que ouçam. Vozes de pessoas que passam invisíveis por nós, sem que tenhamos olhos de vê-las. Gostaria que este texto conseguisse propagar, por transdução, esse grito contido — levando adiante a força e a emissão dessas vozes sem alterá-las.

Hoje, celebra-se o Dia da Visibilidade Trans*, data que alude ao lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. Aproximei-me das pautas de pessoas trangêneras ao começar a pesquisar sobre o tema, por causa de um projeto literário. Mas conhecer as questões ligadas às chamadas identidades trans* é — que bom! — um caminho sem retorno. Em primeiro lugar, por ser impossível a indiferença ao conhecermos a urgência de suas pautas e a negação sistemática (ou, melhor dizendo, “cistemática”) de quase todos os aspectos ligados à sua cidadania. Em segundo lugar, por tornar-se impossível aceitar como natureza os diversos elementos que engendram nossa identidade e nosso ser no mundo.

No propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras.

Até há bem pouco tempo, eu não me sabia um homem cisgênero. Como a maior parte das pessoas cis, eu simplesmente ignorava esse termo. Isso equivale a dizer que, aos meus olhos, a minha identidade era experimentada como uma espécie de natureza. Isso não quer, no entanto, dizer que eu ignorasse que houvesse homens e mulheres trans*.

Para mim, reconhecer a cisgeneridade é um ato político. É compreender, em primeiro lugar, que eu ocupo um lugar específico no mundo, que tenho privilégios específicos por conta disso e que é a partir desse lugar discursivo que meu olhar se conforma. É, ainda, não aceitar como uma natureza a construção de minha identidade. E é, também, reconhecer minha liberdade para me determinar perante o mundo.

Eu sou alguém a quem todos sempre identificaram como pertencente ao gênero masculino e me identifico dessa forma. Mas, ao reconhecer que isso é uma construção, ganho ferramentas para questionar certos papéis que me são atribuídos pelo simples fato de eu ser homem cisgênero e heterossexual. Papéis esses que fazem com que alguns direitos que tenho, e que deveriam ser comuns a toda e qualquer pessoa, sejam, na verdade, privilégios.

Para mulheres ligadas às pautas feministas, esses questionamentos não são uma novidade, uma vez que o feminismo também questiona a suposta natureza feminina e os papéis de gênero designados a homens e mulheres. Essa, inclusive, não é uma discussão nova no feminismo. Logo no início de “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir já aborda questão:

“Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: o que é uma mulher?”

O mesmo também me parece valer para o movimento gay. A homossexualidade já foi considerada um crime e isso se refletia na linguagem. O mundo que via a prática homossexual como delito costumava se referir a ela pelo termo pederastia. Como homossexualismo, figurou na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, sob o número 320.0, até 1990, ou seja, até há muito pouco tempo. E o desejo por alguém do mesmo gênero não seria um comportamento esperado, pelos papéis heteronormativos destinados a homens e mulheres. Contra a naturalização da heteronormatividade se insurge o movimento gay.

É neste ponto que o meu espanto pela oposição ao termo cisgênero se dá. Existe um discurso dominante transfóbico que desconsidera a existência de homens e mulheres trans*. Essa lógica, espalhada e naturalizada pelo senso comum, considera que homens trans* seriam falsos homens, assim como mulheres trans* seriam falsas mulheres. Esse tipo de pensamento está impregnado na fala quotidiana. Mas também, de forma mais sutil, está presente no discurso médico cissexista, que designa como doente mental ou transtornada a pessoa que apresenta uma identidade transgênera — ou seja, uma identidade desconforme com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

Vejo o uso do termo cisgênero, que teve início no interior da comunidade trans*, como um fenômeno linguístico que abre a possibilidade de contestação da normatividade cisgênera — ou cisnormatividade. E os diversos modos de tentar silenciar esse uso contribuem para a oposição de pessoas transgêneras a pessoas normais. Por isso, não consigo entender que pessoas cisgêneras, aparentemente inseridas em lutas a favor de grupos oprimidos, recusem o termo cisgênero como se ele fosse um absurdo, ou até uma ofensa, sem atentar para as consequências disso. Deslegitimar o termo cisgeneridade é continuar aceitando que existam as pessoas trans* e as… biológicas! Uma outra forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans.

Quando não aceitamos a cisgeneridade, reafirmamos discursivamente que pessoas trans* são anormais, doentes. Ou ainda, lhes negamos mais uma vez o direito à existência. Aliás, existe toda uma construção social que aceita a cisgeneridade (essa coisa sobre a qual não se deve falar!) como uma norma compulsória — ou um “cistema”, como dizem as pessoas ligadas ao movimento trans*. Esse mesmo cistema que aceita como evidência natural a cisgeneridade compulsória designa as identidades trans* como uma doença. Sim, a transexualidade (designada patologicamente como transexualismo) é ainda considerada um transtorno mental e tem um número na atual Classificação Internacional de Doenças (CID-10): F64.0.

Quem argumenta que o termo cisgênero engendra um novo par opositivo (cisgênero/transgênero), construído de forma hierárquica e dicotômica, ou então que não seria possível designar a pessoa cisgênera como aquela que se adéqua às suas expectativas de gênero porque ninguém se encaixa totalmente a elas — como se o termo cisgênero significasse isso — me parece ignorar tanto onde se irrompe a noção de cisgeneridade quanto seu significado usual. Essa noção se movimenta dentro de discursos que consideram fluidas as categorias de gênero e que reconhecem a autodeterminação como um direito humano.

O termo cisgênero simplesmente designa o sujeito que se identifica como pertencente ao gênero que lhe foi designado ao nascer. Ele circuscreve a alteridade para o transgênero. Define o “Outro” e, por oposição, o próprio sujeito que fala. E, o que é mais importante, ele sinaliza que as pessoas trangêneras são sujeitos do discurso sobre si mesmas, e não objetos de análise definidos de fora de suas vivências.

Além disso, diferente do que algumas críticas costumam afirmar, a cisgeneridade não se refere a pessoas que se adequam à expectativa de seu gênero. Até porque o discurso de onde essa palavra emerge compreende o gênero como uma construção. Ele é, portanto, amplo e plural para sujeitos cisgêneros, trangêneros ou não-binários. O que frequentemente ocorre, porém, é que nós nos esquecemos de que nossa identidade nunca é fixa, que se trata sim de uma construção contínua, o que é válido tanto para pessoas cis como para trans*. Mas as pessoas que têm formas de proceder ou identidades esperadas e naturalizadas não são questionadas sobre quando se perceberam ou se tornaram aquilo que são.

Site Transfeminismo.com

Site Transfeminismo.com

Não vejo como é possível conceber e aceitar como naturais a exclusão e a invisibilidade das identidades trans*. E, para mim, o silêncio em torno da cisgeneridade está intimamente ligado a isso. Como aponta a Bia Bagagli num texto intitulado Cisgeneridade e Silêncio, “podemos entender que o silêncio funda a cisgeneridade”. “Esse silêncio”, ela aponta, “se dá ao mesmo tempo em que produz coerências e inteligibilidades às identidades dos sujeitos cisgêneros e interdições à plena identificação de gênero aos sujeitos transgêneros”.

Conhecer minimamente a transfobia generalizada em nossa sociedade me impele à luta pela quebra desse silêncio. Por essa razão, me uno hoje à blogagem coletiva pela visibilidade trans*, convocada pelo site Transfeminismo. Porque reconheço os privilégios advindos de minha posição de homem cisgênero heterossexual e sei da exclusão e da violência diariamente enfrentadas por pessoas transgêneras, julgo que não tenho o direito de lavar as minhas mãos e contribuir com a perpetuação desse silêncio…

Chamada de uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com

Veja a chamada para uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com


Nota: Reconheço aqui minha dívida, durante a escritura deste texto, à leitura ou à releitura de alguns escritos da Bia Pagliarini Bagagli, da Hailey Kaas e da Viviane V., no site Transferminismo.com, e da Leila Dumaresq no blog Transliteração, que abordam o tema da cisgeneridade. Muito obrigado a elas e a tantas outras pessoas que tenho lido ultimamente e que me dão a oportunidade de compreender um pouco melhor sobre as vivências trans*.

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É urgente espalhar amor

Para calar canhões e metralhadoras,
conter a mão brutal
no momento de desferir o golpe;
para combater a cultura de pólvora e chumbo
que assola os quatro cantos do mundo,
opor-se a cada guerra
e a cada assassinato;
para impedir que o cinza dos asfaltos
continue a ser tingido
pelo sangue de culpados e inocentes

é urgente espalhar amor
com a sofreguidão de todas as sedes.

Porque são tempos miseráveis
aqueles em que o amor
é motivo de escândalo e perplexidade,
e o ódio,
aplaudido de pé,
se alastra como uma praga
na boca e nas mãos de tantos,
e na morte e no massacre
de quem ousa ser,
mesmo que involuntariamente,

o Outro.

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Por influência de dois professores anarquistas no ensino médio (2º grau, na época), desde a primeira eleição em que votei tenho uma grande desconfiança em relação ao nosso sistema político. Nas eleições majoritárias, em geral espera-se que o chefe do executivo faça o que pode e o que não pode. Já em relação às eleições proporcionais, o voto é um tiro no escuro. Podemos até ter um bom candidato na mira, mas a verdade é que não temos ideia de quem o nosso voto ajuda a eleger, já que o voto se dilui no partido ou legenda. Essa desconfiança sempre me levou a anular o voto, para me abster de ser cúmplice nalgum crime.

Hoje, no entanto, vejo que o mesmo Estado que falha ao atender as necessidades da população vem sendo estimulado a manter ou aumentar sua intervenção sobre a vida particular do indivíduo. Os legislativos não só avançam a passos lentos na garantia de diversos direitos humanos, como perigam retroceder em relação a muitos direitos conquistados — alguns deles em caráter precário, provisório ou parcial.

Acompanhando os debates políticos, vejo que proliferam candidatos que ameaçam ou não defendem as famílias e a própria vida humana. Por conta disso, decidi arriscar meu voto, dando-o, na próxima semana, a candidatos e candidatas que vão lutar em defesa dessas causas.

Meus candidatos e minhas candidatas desejam reconhecer como família uma grande pluralidade de arranjos, são favoráveis ao casamento civil igualitário para homossexuais e à adoção de crianças por casais formados por pessoas do mesmo sexo, querem criminalizar a transfobia e a homofobia, buscam aprovar uma lei de identidade de gênero que garanta o direito básico à identidade para pessoas transgêneras, são a favor da descriminalização do aborto e tendem a ser favoráveis também à das drogas.

Meus candidatos e minhas candidatas defendem um conceito abrangente de família, que inclui muitas possibilidades de arranjo. As crenças, num estado laico — que deve garantir a pluralidade delas –, não podem impedir o reconhecimento de direitos que até hoje são negados a casais homossexuais, não obstante os avanços que já tivemos. E é preciso ainda defender a família de um possível retrocesso que pode acontecer em função de candidatos que fazem uma política totalmente subordinada a noções religiosas endurecidas por discursos de ódio.

Meus candidatos e minhas candidatas também defendem políticas que têm o potencial de aumentar o número de adoções de crianças abandonadas ou órfãs. Isso porque eles e elas não veem razão para negar que casais homossexuais possam adotar crianças. Com isso, meus candidatos e minhas candidatas se colocam em defesa das novas famílias que aptas a surgirem por causa dessa possibilidade.

Meus candidatos e minhas candidatas também defendem a família da dissolução causada pelos preconceitos, em especial pela transfobia e pela homofobia. Defendem ainda a vida de pessoas constantemente ameaçadas por esses preconceitos. Não é incomum que pessoas sejam agredidas, humilhadas e muitas vezes expulsas de casa por serem travestis, transexuais ou gays. Também não é raro que famílias percam um ente querido por crimes de ódio contra orientação sexual ou identidade de gênero fora da cis-hétero-normatividade. Contra isso, meus candidatos e minhas candidatas defendem não só a criminalização da homofobia e da transfobia, mas também políticas de conscientização e educação para a diversidade.

Meu candidatos e minhas candidatas querem ver aprovado o Projeto de Lei 5002/2013 (Lei João W Nery), que dispõe sobre o direito à identidade de gênero, garantindo o direito básico à identidade a pessoas transgêneras. Hoje, além de terem de aceitar um diagnóstico de doença mental para isso, essas pessoas ainda dependem do entendimento — e, eventualmente, dos conceitos pré-estabelecidos — de um juiz ou um tribunal, e das burocracias do sistema judiciário, para que o Estado reconheça sua identidade. A dicotomia entre os documentos e a imagem passada, além de causar diversos constrangimentos e as expor a riscos derivados do preconceito, faz com que elas tenham reduzida suas chances de encontrar empregos formais, o que não raro as empurra ao subemprego ou mesmo à prostituição para sobreviver. Vale lembrar que, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das travestis e transexuais brasileiras se prostituem. Por isso, votarei também em quem se compromete a defender a vida e a dignidade humana dessas pessoas ainda condenadas à invisibilidade.

Meus candidatos e minhas candidatas também são contra o fato de que cerca de 800 mil mulheres que já recorreram o aborto no país sejam consideradas criminosas e possam vir a ser presas, impactando seriamente o núcleo familiar dos quais elas fazem parte. Também são contra o risco de famílias perderem uma integrante que, para fazer o aborto, tem de recorrer, na melhor das hipóteses, a clínicas clandestinas. São contra a submeter essas mulheres (em geral as mais pobres) a métodos que põem em risco suas vidas. E são contra uma estrutura que as condena ao medo de procurar atendimento quando algo sai errado, sob o risco de terem o atendimento negado ou serem presas. Portanto, em defesa da família e da vida de milhares de mulheres, meus candidatos são contra a criminalização do aborto.

Meus candidatos e minhas candidatas não acreditam na falácia de que um Estado mais policialesco — e, portanto, mais repressivo — aumente a segurança dos cidadãos e das cidadãs. Não desejam ampliar o uso da violência por esse Estado, que concentra em suas mãos a prerrogativa de seu uso legal. Eles e elas tendem a ser favoráveis a experiências que sigam no caminho da descriminalização das drogas. Veem que o dinheiro que deixaria de ser investido no combate insano às drogas seria usado em políticas educacionais e de inclusão social. Meus candidatos e minhas candidatas não estão fechados à ideia de que, permitindo a comercialização legal de drogas hoje ilegais, organizações criminosas dedicadas ao tráfico tenderiam a ser enfraquecidas, diminuindo a violência contra as famílias e a ameaça à vida de tantos. Além disso, enxergam o dinheiro arrecadado com a tributação do comércio legal e mais seguro das drogas, que deverá atender a exigências mínimas que hoje não têm sequer como ser observadas, também poderia ser investido em programas educacionais de prevenção ao uso de drogas e a programas de inclusão. Eles e elas creem que não é com mais polícia que se amplia a segurança pública, mas como menos abismos e disparidades dentro do tecido social.

Sobre esse último assunto, faço uma pequena digressão para lembrar o que ocorreu durante o período da chamada Lei Seca norte-americana (implementada, sob forte pressão de movimentos religiosos, por meio da emenda constitucional 18/1919), que se estendeu de 1920 a 1933. Apesar de reduzir o consumo de álcool, a Lei foi um grande fracasso, aumentando a violência e a corrupção — a década de 20, que foi a década dos gângsteres nos EUA, levou mais de 500 mil pessoas a trabalharem em atividades clandestinas ligadas ao comércio ilegal de bebidas e aumentou em 30% a taxa de assassinatos no país. Além disso, a falta de controle sobre as bebidas produzidas clandestinamente ocasionou danos permanentes à saúde de, pelo menos, 100 mil americanos e fez com que os casos de morte por cirrose praticamente não diminuíssem durante a Lei Seca, apesar da redução do consumo de álcool. Ela foi revogada em 1933 pela emenda constitucional 21/1933, o que acabou deixando a estados e municípios norte-americanos a competência para legislar sobre a questão.

Foi o típico caso de uma lei que buscava legislar sobre o que seria moralmente aceitável no comportamento das pessoas, embora se mascarasse como uma lei que visava a combater os efeitos sociais e físicos deletérios causados pelo abuso do álcool. Da mesma forma vejo a proibição que atinge a diversas drogas hoje. São leis morais, dão ao Estado a prerrogativa de definir o que é moralmente aceito no comportamento particular dos cidadãos e das cidadãs, não obstante as discussões médicas e sociais que envolvem — e que também se aplicam às “drogas legais”, como o álcool e o cigarro.

Voltando à questão eleitoral, não alimento qualquer presunção de que as pessoas em quem votarei vão resolver, se eleitas, todos os diversos problemas que existem em nosso país — alguns dos quais abordei neste breve texto. Mudanças estruturais e de pensamento são lentas, gradativas, e necessitam de pessoas engajadas a elas. Mas diante dos rumos que os legislativos podem tomar, decidi votar em candidatos e candidatas que defendam um conjunto de lutas e valores relacionados aos direitos humanos, se opondo a fundamentos religiosos que visem a limitar esses direitos. Eles e elas serão contrapontos necessários a um conservadorismo que deseja legislar os costumes e a moral, e que vem gradativamente aumentando seu poder na política brasileira. Mas com um sistema eleitoral perverso, que faz a escolha de candidatos nas eleições proporcionais um tiro no escuro, não bastava escolher candidatos que defendessem essas bandeiras. Era necessário escolher candidatos e candidatas de um partido que, além de agregar as lutas que eu também defendo, se recusasse a fazer coligações que as contradissessem e que trouxessem nomes que defendem exatamente bandeiras opostas. Um partido que também não mantivesse entre suas fileiras ou as de seus coligados uma extensa lista de fichas-suja. Como as regras eleitorais permitem arranjos diferentes em cada Estado, posso falar apenas que, naquele em que moro, encontrei candidatos e candidatas com essas características e decidi arriscar meu voto.

E, por tudo que apontei até aqui, reafirmo: meus candidatos e minhas candidatas defendem as famílias e a vida humana. E os seus?

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Pessoas vindas não se sabe donde
não podiam ficar perambulando,
sujando o espaço público. Também
deviam entender que elas não podem
ter filhos livremente, propagando
a inocentes, heranças de miséria.

Que treinemos então nossas milícias
para que nos defendam bem daqueles
que não querem servir, pois são culpados
enquanto não provarem o contrário.
Direitos se conquistam e não valem
aos que se atiram sem perdão no lixo.

Quem está condenado na existência
não deve ameaçar a segurança
dos que gozam as bênçãos de seus méritos.
Prendam mesmo as crianças e as grávidas.
Como somos de bem, porém, clamamos:
protejam fetos; domestiquem bichos!

Foto: Nilton Fukuda / Estadao

Foto: Nilton Fukuda / Estadão


(Triste poema do dia de hoje, em que a conhecida violência policial — contra os que não têm — continua sendo aplaudida. Versos tortos feitos a partir do seguinte e estarrecedor comentário deixado numa notícia intitulada “Polícia volta a atirar bombas para dispersar multidão no centro de SP”, publicada pelo maior Portal de Internet do Brasil:
“A verdade é que são pessoas vindas não se sabede onde que ficam perambulando pelo centro, sujando tudo. O centro de SP está irreconhecível. Piorou muito. Se os governantes não agem decentemente, com os impostos que eu pago, que a Justiça e a polícia ajam. Tem o meu apoio. Borracha nos baderneiros e desocupados. São dois focos a atingir:educação, para a pessoa entender que só podem ter filhos se tiver condições para tal e legal, não pode ocupar o que não é seu.Fora desocupados.SP não merece isso” (sic) — de um comentarista escondido sob o codinome de “Fundamental”.)

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(em diálogo com Beatriz Pagliarini Bagagli)

Habitar com o corpo
uma falha discursiva
e resistir

mesmo que tudo diga que assim
não pode, não deve
existir.

Manter-se na pólis,
ainda que tacitamente
decretos de exílio

estejam publicados
na boca do povo,
na voz de um deus.

Lutar contra o controle
da singularidade dos sujeitos
sujeitando corpos – indóceis? –  a padrões

e domando a política dos quereres.
Permanecer atento para escutar
o que costura as bordas do Fora.

Opor-se ao arbítrio de normas,
interdições e regramentos
que não digam respeito às margens
de convívio com os outros.
Estar no Outro,

no diverso e no estranho.
Ser o provisório
universo do desejo,
o verso vermelho de carne
que sangra palavras.

Apropriar-se de si.

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Tendo por detrás um mundo arrasado, ele segue adiante. Leva em si uma síntese de toda a humanidade, capitaneada por uma brincante esperança — crer no amanhã é um jogo de todos os dias.

A loucura estúpida da guerra transmutou em pó e ruínas o concreto de seus dias. O céu absurdamente azul agride o cinza fumegante dos escombros e a rubra ideia de vermelho do sangue derramado. Ainda assim, ele ostenta um frágil sorriso. E brinca com a leveza e o equilíbrio precário de um balão rosa jogado no ar.

Sua imagem me chegou sem aviso e exigiu de mim o silêncio que há em cada palavra. Pediu ainda o vazio do espaço não preenchido dentro e entre cada letra. E foi um silente pedido com urgências. Pedido perdido de assombro, de espanto. Do espanto que produz palavras que não logram alcançar a delicada dureza da imagem sobre a qual falam.

Quem é? Está sozinho? Tem nome? Tem sonhos? Não ouso sequer dar-lhe uma história. Suponho antes da palavra. Imagino que, talvez, a dele já lhe pese um tanto, como a de todos nós, que tateamos finitudes. E prefiro ficar com o instantâneo de sua alegria lúcida e de sua lúdica ação comum a todo infante — e que bem poderia também ser comum a todos nós, homines ludens: ganhar alturas com o arremesso de uma bola.

Foto: القدس - alquds (Periódico)

Foto: القدس – alquds (Periódico)

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Publicado originalmente no Transfeminismo.com.

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel fez em uma publicação pública no facebook de Daniela Andrade em uma discussão sobre a imagem da página Era de Cisperar. Apaguei algumas marcas de interlocução (os seus nomes) no texto a quem Teofilo estava se dirigindo, já que ele estava dialogando com outras pessoas no post. Mesmo assim, como podem ver, trata-se de um texto que merecia ser publicado para além dos efêmeros comentários do facebook.

Bia Pagliarini Bagagli

***

Retirado da página "Era de Cisperar"

Retirado da página “Era de Cisperar”

Minha leitura dessa imagem não me remete a possíveis erros, que certamente ocorrem, causados por desconhecimento — embora a língua não seja neutra e ela também guarda, em sua estrutura, os preconceitos da sociedade (basta lembrar que palavras como ídolo e gênio não têm feminino, e que, ao nos referirmos a um coletivo com pessoas variadas, utilizamos sempre marcas linguísticas no masculino). Eu sou uma pessoa cisgênera. Mesmo não estando no lugar de quem pode falar com alguma autoridade — pois não tenho a vivência transgênera, ou entre-gêneros –, vejo muitos estudos acadêmicos, supostamente sérios, reproduzindo… a ignorância.

Vale lembrar que as pessoas transgêneras sofrem de uma permanente invisibilidade em relação a vários aspectos da vida quotidiana. Aspectos que a nós, cisgêneros, parecem ‘normais’, como o fato de ninguém estranhar que meu nome na identidade difere da imagem que eu tenho e passo às pessoas no convívio social. Aliás, para ser o que sou não preciso de um atestado médico falando… que eu tenho um transtorno psiquiátrico!

E no caso da figura, há um agravante: a exclusão de pessoas trans* do espectro de homens e mulheres. Homens trans* são homens e mulheres trans* são mulheres. Parece tautológico ter de repetir isso, mas no atual estado de coisas, não é ainda. Claro, há também pessoas não-binárias. Mas trans* não são, necessariamente, uma categoria, ou um outro gênero, fora do gênero masculino ou feminino. Agora, se alguém “foi lá falar sobre gênero” — e eu leio esse lá da figura como o lugar do “legítimo” saber, do poder de dizer da taxonomia do mundo, lugar esse que comumente é ocupado por pessoas cisgêneras –, talvez fosse de “cisperar” que essa pessoa ao menos não reproduzisse o preconceito do senso-comum.

Além disso, a língua é uma construção, ela não muda por decreto. Muitas vezes alternativas irrompem para responder a um silêncio, a uma não-nomeação de algo que demanda um nome. Por exemplo, o termo cisgênero. Eu aprendi pela linguagem que tinha à época — cresci nos anos oitenta — que a oposição às pessoas transgêneras — que eu basicamente identificava como travestis — eram as pessoas… normais. Particularmente, eu não achava as travestis anormais. Mas minha estrutura de pensamento não dispunha senão do repertório linguístico que reproduzia a ideia de que as travestis — e, na verdade, qualquer pessoa transgênera — não era normal. Faltava-me exatamente a palavra cisgênero! Aliás, é sintomático que o corretor ortográfico automático do meu Google Chrome grife como errada a palavra cisgênero e não aponte erro na palavra transgênero. Tocando essa questão, vale muito a leitura desse texto magnífico, que mostra a relação entre o irrompimento da noção de cisgeneridade e a possibilidade (política) de contestação da normatividade cisgênera.

No caso dessa imagem do post: Por que alguém que vai falar sobre gênero não poderia dizer, por exemplo, “os homens, as mulheres e as pessoas não-binárias”? Simples, direto, inclusivo e, me parece, mais respeitoso com o estar-sendo de cada um.

Longe de mim dizer o que é certo e errado, sobretudo no campo da linguagem. Em especial no que deve ser ou não dito para se referir a pessoas trangêneras, tendo em vista que eu sou uma pessoa cisgênera e o que me cabe nesse campo, se eu quiser respeitar as pessoas trans* — e minha opção é sempre pelo respeito –, é estar atento a como as pessoas pedem que eu me refira a elas.

Vamos voltar um pouco no tempo, num tempo em que eu não era sequer nascido. No tempo dos meus avós, quando era comum pais esconderem em casa filhos deficientes — sobretudo com deficiência mental ou graves problemas físicos. Nesse tempo, era “aceitável” se referir a deficientes físicos como aleijados, coxos, mancos, aleijões, etc. E a deficientes mentais como retardados, mongóis, débeis, entre outras coisas.

Eu sou deficiente físico. Como cresci nos anos oitenta, só se referiam a mim como aleijado quando queriam me xingar — e há crueldade também entre as crianças. No entanto, não era sequer aceitável que numa conversa educada, alguém falasse de mim como “aquele aleijado”, ou “aquele coxo”. Mas nesse tempo, ainda não era tão incomum as pessoas se referirem, em conversas normais, a um deficiente mental como “mongol”, “débil” e até “retardado”. Hoje isso não é aceitável, e o comum é falar que alguém tem “deficiência mental”, ou designando pelo tipo de deficiência, como “down”, etc. Lendo o livro Holocausto Brasileiro, que conta a história do manicômio de Barbacena, o maior hospício do país no Século XX, onde mais de 60 mil internos morreram das formas mais horríveis — frio, fome, choque, etc. — é possível intuir sobre o porquê esse estigma perdurou mais.

Coincidentemente, com a mudança no uso quotidiano das palavras, vemos o crescimento da preocupação com a acessibilidade e com a educação inclusiva. E mesmo que estejamos muito longe de estarmos num mundo acessível, é nítido que as pessoas se constrangem quando se defrontam com a inacessibilidade dentro de seus próprios espaços — lojas, supermercados, etc.

Agora vamos pensar na forma de nos referirmos à homossexualidade. Esse paralelo que traço é para pensar grupos que sofrem com estigmas. Nos anos 80, era bem comum dizer que fulano era bicha, por exemplo. E também gay — que é uma palavra aceita, leve e que não tem um sentido de xingamento. Lésbicas eram invisíveis — conheci pessoas que sustentavam seriamente que não existiam lésbicas, e era só um “homem de verdade” chegar nelas, que elas “cederiam”.

Em contrapartida, a dicotomia não era entre os gays/bichas e os héteros, mas entre os gays e os normais. Lembro que em meados dos anos 90 é que os termos homo e heterossexuais passaram a ser mais usados. A primeira vez que eu ouvi o termo homofobia, por exemplo, deve ter sido lá para 96 e 97 — não estou falando do seu surgimento, claro, que eu nem sequer sei como foi. E é claro que, sendo hétero, provavelmente eu deva ter conhecido esse termo depois dos meus amigos gays.

Obviamente, ainda existe muito preconceito contra os homossexuais, que só recentemente vêm tendo alguma paridade (ainda precária) de direitos, em suas uniões, com relação às uniões heterossexuais. Mas é de se notar que a popularização dos termos hétero e homossexuais se deu de forma mais ou menos concomitante com o crescimento do movimento que ainda em meados dos anos 2000 eu conhecia como GLS, que não só lutou contra a homofobia, mas também pela conquista de uma série de direitos negados. Essa popularização levou, inclusive, a setores mais conservadores da sociedade a inventarem a bizarrice do “orgulho hétero”, algo que seria impensável nos anos 80 porque os gays, na fala popular, não estavam em dicotomia com os héteros, mas com os “normais”.

Adentrando agora ao campo da transgeneridade — ou da cisgeneridade compulsória, sempre invisível e condenando pessoas transgêneras a serem opostas conceitualmente às pessoas “normais”: Além de a conquista de direitos estar ainda engatinhando — e não existir uma lei que permita e simplifique a mudança de nome é um índice do quanto os direitos básicos são negados a essa parcela da população –, as referências desrespeitosas às pessoas transgêneras ainda são socialmente aceitas. Não raro se fala “as travas”, “os travecos”, “as/os trans”, “o transexual” (quando se trata de uma mulher trans), etc.

E sobre a questão que a Daniela levantou, de que ela não é uma trans, isso faz muito sentido. A Daniela realmente não é uma trans, mas sim uma mulher. Uma mulher trans. Quando alguém se refere a ela como uma trans, há o apagamento do fato de ela ser uma mulher e, eu arriscaria até, o apagamento de que ela é uma pessoa. Metonimicamente, ela se torna apenas algo que a caracteriza, que a constitui. Deixa de ser um todo e se torna uma parte. E, “coincidentemente”, a parte considerada pela sociedade como “abjeta”. Em contraposição, eu jamais serei o cis — e nem qualquer mulher cisgênera será a cis. Quem se referir a mim, falará “daquele homem”. Sim, é verdade que há uma elipse quando nos referimos a alguém como “a trans”, mas existe uma construção social que leva a essa elipse que reforça preconceitos. E eu arriscaria dizer, mesmo sendo uma pessoa cis e não tendo a vivência da experiência transgênera, que essa elipse tende a significar o apagamento ou a desumanização da pessoa trans. A elipse de seu ser no mundo.

E os exemplos que ela usa são ótimos. Alguém fala que “a cis foi à praia”? É tão nonsense, que não dá sequer para imaginar isso. No entanto, com mulheres trans, isso deveria ser aceitável? Por quê? Aliás, a maior parte das pessoas cisgêneras nem sabem o que isso significa. E há também quem, sabendo o que é, se recusa a aceitar essa categorização, como se ela fosse um absurdo, ou até uma ofensa. Afinal, haveria, por exemplo, as mulheres trans e as… biológicas? Uma nova forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans? Isso não se parece, inclusive, com um discurso religioso fundamentalista?

Bom, eu acho que não dá para ignorar o poder das palavras e da nominação do mundo. Poder dizer o que as coisas são é uma forma de poder. Por isso, existem disputas de nomenclaturas. Existe o esforço de precisão ou rejeição de termos. Não fossem as palavras tão importantes, no distópico 1984 George Orwell não conceberia um mundo capaz de criar a novilíngua — e muito menos pensar no que politicamente isso significa. Essa minha visão, porém, pode ser um defeito do olhar de quem trabalha com palavras…

Transfeminismo

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel…

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É tempo de silenciar e viver
da falaciosa segurança que nos aprisiona
em nosso ódio,
em nossa impotência,
em nossa indiferença,

em nossos medos.

É tempo de mascar o ópio festivo
da ordem,
da normalidade,
do progresso,

da mediocridade do ouro.

É tempo de seguir a jurisprudência da desumanização
que permite a injustiça,
que garante o arbítrio da força,
que indefere a escrita

de um poema para nossos tempos.

É tempo de permitir, em nome da paz,
que atirem bombas em nossa rua,
que invadam nossa casa,
que sujem nossas mãos com as armas do crime,
que violem nossos corpos

para que se celebre a violência inominada
de nossa omissão.

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Seus deuses? Seus orixás? Suas figuras do sagrado? Seus templos? Não são válidos, pois você não acredita numa verdadeira religião. E se você tem fé, ela é sem fundamentos. Sem razões de ser. Afinal, onde está sua escritura sagrada?

Em uma pessoa, essa visão indica um fechamento que pode ser lamentado por uns, mas que também será louvado pelos que contrapõem uma verdadeira religião — a própria — às outras, falsas. É esperado que pessoas digam que só há um verdadeiro deus: o meu; e uma verdadeira religião: a minha. Não há nada de errado nisso. Elas podem dizer isso com respeito, ou atacando o que veem como o caráter nocivo daquilo que julgam falso, errado, canhoto ou demoníaco. E mais, pessoas eventualmente podem ter preconceitos, e não considerarem algumas manifestações de fé como religiões. É uma visão cega à pluralidade do mundo. Porém, quando manifesta individualmente, é apenas algo que se pode lamentar.

Mas, e quando é o Estado que afirma esse tipo de coisa? Um Estado que se diz laico? Que não tem religião oficial desde 1891, com a primeira Constituição Republicana? Se isso acontece — ou, pior, quando isso acontece — o que se percebe é que somos continuamente convocados a agir em favor das vozes que são, de algum modo, caladas. Somos convocados a não consentir em silenciamentos. E a lembrar ao Estado que ele deve garantir a igualdade.

Há igualdade? Uma igualdade formal, legal, escrita na letra morta das leis. Mas que está longe de existir nas práticas discursivas. Nas práticas discursivas do próprio Estado, inclusive. Por essa razão, não é possível se calar quando o Estado toma partido ou retira direitos, sob o risco de sermos cúmplices.

Um juiz de direito, ao julgar um pedido feito numa Ação Civil Pública do Ministério Público Federal que requer a retirada de vídeos do Youtube que promoveriam a intolerância e a discriminação religiosas, manifestou em nome do Estado um preconceito que nega a pluralidade do mundo. O que é inaceitável. No processo 0004747-33.2014.4.02.5101, o juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio, assinou uma decisão, de 28 de abril, em que afirmou que os cultos afro-brasileiros não contêm traços necessários de uma religião, que seriam um texto-base (cujos exemplos ele cita o corão e bíblia), uma estrutura hierárquica e um Deus a ser venerado.

O MPF, na ação, pede a retirada de vídeos que, ao criticarem as práticas dessas religiões, disseminariam discursos de ódio e desprezo a religiões de origem africana. E solicitava antecipação desse pedido, o que foi negado pelo juiz. Para fundamentar sua decisão, o magistrado fez um enviesado raciocínio. A ação do MPF contraporia dois direitos fundamentais: a liberdade de opinião e a liberdade de religião. No entanto, segundo a decisão, “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões”, só restando à Justiça negar o pedido do Ministério Público, para garantir a liberdade de opinião, que em momento algum estaria colidindo com a liberdade de religião, já que a opinião não era direcionada a nenhuma religião.

O fato de um agente público afirmar, em nome do Estado, que os cultos afro-brasileiros não são religiões provocou uma onda de justas críticas. Era realmente espantoso que alguém, em nome de um poder do estado brasileiro, dissesse algo assim. O repúdio à decisão não veio apenas dos adeptos das religiões desconsideradas ou de operadores do direito. Líderes religiosos diversos, dentre os quais um pastor evangélico, também criticaram com justiça a decisão.

O MPF moveu um recurso em que o procurador regional dos direitos do cidadão do Rio de Janeiro, Jaime Mitropoulos, deixa manifesta sua perplexidade pelo fato de o juiz “dizer o que é e o que não pode ser considerado religião, chegando a ponto de estabelecer, de acordo com sua compreensão, que as manifestações afro-brasileiras não são religiões”. “Como assim, Excelências!?”, questiona o procurador, e muitas outras vozes. Embora o recurso trate da retirada dos vídeos, uma boa parte dele era dedicada a mostrar como a argumentação do juiz colide com uma série de estudos e tratados internacionais que tratam da matéria.

“Equivoca-se a decisão, tendo em vista que as religiões de matrizes africanas são sim sistemas de crenças, possuem liturgias, corpos com alguma estrutura sacerdotal organizada hierarquicamente, cerimônias, altares, fiéis, ritos, templos (embora via de regra sem suntuosidade, muitos sobre o chão de terra batida, o que em hipótese alguma lhes retira o caráter sagrado) e, essencialmente, a fé em divindades que são cultuadas (adoradas e veneradas, como queira), não obstante possam destoar do padrão hegemônico das religiões majoritárias que a decisão pretende usar como paradigma para restringir o seu alcance.” Esse foi, na minha opinião, o contraponto mais tocante de todo o recurso contra o absurdo proferido pelo juiz da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Tocante porque eu já estive, para contemplação estética do rito, num centro desses, que ficava na zona rural de uma pequena cidade, e testemunhei com meus próprios olhos como um pedaço de chão de terra batida se transfigura em solo sagrado.

A repercussão do que ele escreveu na sentença foi tão negativa que o juiz voltou atrás e, no dia 20 de junho — alguns dias após o MPF mover seu recurso –, assinou uma nova decisão, em que destacava o forte apelo da mídia e da sociedade civil contra a sua decisão. No novo documento, ele registrou que sua percepção agora era de que os cultos afro-brasileiros se tratam, sim, de religiões. E, ainda que de forma rasa e superficial, ele enfim contrapôs a liberdade religiosa à liberdade de opinião. E manteve sua decisão de indeferir a liminar pedida pelo MPF, sob o argumento de que a liberdade de opinião estaria sendo regularmente exercida.

Pode-se discordar desse julgamento, como certamente discorda o autor da ação, mas dessa vez o juiz conseguiu se aproximar do tema que deveria ser discutido na ação: quando a liberdade de opinião deve sofrer alguma restrição para resguardar outras liberdades, como, no caso, a de religião? Essa é uma discussão difícil, pois as religiões podem criticar os fundamentos e as práticas umas das outras, demonstrando aos fiéis porque aquela é a religião verdadeira. Além disso, também não são incomuns os discursos contrários às religiões de um modo mais amplo.

É habitual religiões protestantes criticarem o catolicismo — e nem sempre o desrespeitando da mesma forma como um pastor da Universal fez quando chutou, num programa de televisão, uma santa católica — por adorarem imagens. Católicos criticam os protestantes por não seguirem a tradição apostólica dos primeiros cristãos, nem crerem na igreja fundada por Cristo e confiada a Pedro e seus sucessores. Católicos e protestante criticam o espiritismo por evocarem os mortos. O espiritismo diz que a besta do apocalipse é a figura do papa no período em que vigorava o dogma da infalibilidade papal (de 610 a 1870), e que o próprio número da besta estaria presente em cada soma dos algarismos romanos encontrados nos títulos que o papa ostentava nesse período: VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS (Vigário Geral de Deus na Terra), VICARIVS FILII DEI (Vigário do Filho de Deus) ou DVX CLERI (Príncipe do Clero). O espiritismo também critica o candomblé, afirmando que suas práticas muitas vezes estimulam espíritos obsessores. Todo movimento comunista costuma repetir que a religião é o ópio do povo. E Richard Dawkins, uma espécie de profeta do ateísmo, afirma que crer em Deus não é apenas inútil e supérfluo, mas também prejudicial. Tais opiniões podem soar agressivas para quem crê naquilo que é criticado, mas dificilmente poderiam fundamentar decisões contra a difusão desses conteúdos.

No caso da ação do MPF, a análise do contexto é fundamental. De acordo com o mapeamento das casas de religiões de matriz africana no Rio feito pelo Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (Nirema) da PUC-Rio, e que deu origem ao livro Presença do Axé, lançado este ano, 430 das 847 casas pesquisadas desde 2008 relataram episódios de intolerância religiosa contra seus centros ou seguidores. E como não há limites para o absurdo, terreiros são fechados e seguidores de religiões afro vêm sendo expulsos de favelas do Rio por traficantes evangélicos, numa versão da realidade que faria inveja à Ionesco. Coincidentemente, entre os vídeos apontados pelo MPF na ação, existe um que me parece justificá-la, em que um pastor diz aos fiéis: “toca no irmão do teu lado e diz, você pode fechar todos os terreiros de macumba do teu bairro”. Ainda assim, não é fácil encontrar o limite entre o que são críticas a uma outra religião e o que é discurso de ódio e intolerância. Mas, talvez para fugir à dificuldade de sopesar dois direitos fundamentais colidentes, a decisão do juiz só perpetua a intolerância.

Esse tipo de apagamento do outro muito me choca, bem como qualquer prática violenta contra aqueles que existem na diferença da maioria. Assim como me choca que num estado laico, uma autoridade oficial ainda se arrogue o direito de dizer que religiões são só as monoteístas. E quanto ao resto, talvez sejam apenas bonitas mitologias. Em minha posição agnóstica, só me resta rezar aos deuses que não sei se existem por tempos melhores.

quinzenario0008

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Amanhã é um dia para não ser celebrado. Mas é preciso lembrá-lo e, sobretudo, é preciso enxergar seus revérberos contínuos em nossos dias. Saber que o silêncio e a impunidade continuam a gerar silêncio e impunidade, tortura institucionalizada e dor.

É imprescindível olhar para trás com o incômodo de termos permitido que criminosos anistiassem a sim próprios. Não há alívio. Sabemos que houve torturas, mortes, execuções, crimes imprescritíveis. Existem vítimas. Mas dos criminosos não se dizem os nomes. Não se pode falar quem torturou, quem matou. Torturou-se, matou-se — indeterminando os sujeitos de tais atrocidades.

quinzenario0007

Além das verdades do senso-comum, muito pouca coisa há. Arquivos inteiros ainda permanecem sob sigilo. É sintoma desse silêncio reinante que uma comissão da verdade tenha sido instituída somente quarenta e oito anos depois do golpe. Assim como é sintoma desse silêncio, e de tanta verdade ocultada, que um dos maiores jornais do país tenha chamado, num editorial de 2009 — poucos meses após a Constituição de 1988 completar 20 anos –, a ditadura militar brasileira de “ditabranda”. Os ecos desse passado silente também estão nas ações policiais contra cada manifestação popular, desde aquela que vimos ano passado contra o aumento nas tarifas do transporte público, até aquelas que não são relatadas — e que terminam em violências maiores, embora invisíveis.

E certamente é um fruto desse silêncio a mera possibilidade, no entanto bastante concreta, de policiais militares correrem quase em fuga pelas ruas da segunda maior cidade do país — a cidade em que nasci –, arrastando o corpo (morto?) de uma pessoa. Inocente. Executada por eles? Socorro policial que induz à morte. Um caso isolado? Em que medida as polícias militares herdam suas práticas dos grupos de extermínio notórios durante o regime de exceção e das práticas de tortura usadas nos chamados porões da ditadura?

O golpe do dia 31 de março de 1964 encontrou apoio de setores da sociedade, que lhe deram sustentação. O clamor por mais ordem, a noção de que a família tradicional e o temor a Deus deveriam ser preservados, além do medo de uma suposta ameaça comunista no contexto da guerra fria foram determinantes para o êxito do golpe. Ao recordar isso, é impossível não se perguntar sobre quais são os clamores alarmistas do tempo presente. Os militares, que diziam assumir provisoriamente o governo para “garantir” a democracia e livrar o país do perigo comunista, ficaram no poder durante 8019 noites, ou 21 anos, 11 meses e 15 dias. Os detalhes dessa história, no entanto, permanecem desconhecidos. O silêncio impera. E esse silêncio que ainda perdura não é uma resposta…

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O que somos é construído pelo sedimento de nossas experiências, em nossa viagem solitária pela vida. Se por um lado existe algo que pareça uno em nossa identidade, ao ponto de podermos dizer “eu” e sentirmos estar sendo o mesmo numa contínua progressão, por outro é fácil reconhecer que nunca somos fixamente esse mesmo, e que o outro nos habita e faz com que hoje sejamos diferentes do que já estivemos sendo.

Para quem, como eu, vive uma relação identitária esperada e naturalizada, não é comum que se questione sobre o outro que aflora em si. Dessa forma, quando me transformo e me modifico, seja porque amadureço, me amedronto, envelheço ou mudo um juízo sobre algo, sou ainda percebido como um contínuo. Há, no entanto, aqueles a quem sempre se pergunta quando foi que se tornaram o que são. Aqueles que têm suas identidades interditas, em algum grau, pelo confronto com o que nossa cultura estabeleceu como natural — embora não seja possível saber no humano aquilo que é natureza, pois somos demasiado humanos. Talvez pela patente e necessária luta por afirmar sua diferença e, em muitos casos, construir sua identidade, estes, a quem se pergunta tais questões ligadas ao devir, são vistos como não naturais. Como se pessoas com identidades ditas naturais — ou seja, naturalizadas pelas convenções aceitas pela sociedade — também não se inventassem a cada dia.

Embora eu me invente quotidianamente, já que sou, como todos, rondado pelo outro que me constitui, ninguém jamais me perguntou, por exemplo, quando foi que decidi permanecer cis ou me descobri hétero. E essas explicações, para mim, estariam na ordem do indizível, das coisas que não têm nome. Sou criado, porém, de uma forma a acreditar na ilusão de que essas características seriam uma espécie natureza, não levando em conta todas as construções simbólicas, de origens múltiplas, agregadas ao que venho sendo.

Na última semana de fevereiro concluí um livro que testemunha a história de alguém cuja identidade frequentemente é vista como um desvio do “natural”. A autobiografia de alguém a quem certamente sempre se pergunta como foi que se tornou aquilo que é. E que responde, em muitos sentidos, a essa pergunta que lhe deve ter sido lançada inúmeras vezes. Lendo sua história, numa narrativa impressionante, fluida, vertiginosa e envolvente, pude ver que ele é um homem como eu. Na narrativa de suas memórias estão inscritos também seus valores. Percebo então que partilhamos muitas de nossas visões de mundo, embora não nos conheçamos, tenhamos histórias de vida bem distintas e sejamos de gerações diferentes — ele é um pouco mais velho do que meu pai seria hoje, se estivesse vivo. Creio que essa identificação de valores e de concepções de mundo acentue ainda mais a visão que se forma: ele é um homem como eu.

Mas há nele algo, que é da ordem de sua história de vida, que nossa sociedade tende a enxergar como uma diferença de substância, uma outra natureza. Não é. Tanto a minha identidade quanto a dele são construídas nesse caldo simbólico chamado cultura. Mas como eu sou um homem cis, sou interpretado como natural. Já ele é um homem trans.

Ele é João W. Nery. E seu livro, Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois, é uma releitura de sua própria história. Uma releitura, pois é a segunda autobiografia que ele escreve. Em 1984 publicou o livro Erro de Pessoa: João ou Joana?, que narrava seu périplo da infância até a chamada cirurgia de redesignação sexual, a que se submeteu em 1977. Viagem solitária inclui também a narrativa de sua vida desde então.

João foi o primeiro trans-homem a se submeter a um procedimento desse tipo no Brasil, quando tais cirurgias eram consideradas ilegais. Tanto que o cirurgião Roberto Farina, que o operou, e que foi o primeiro médico brasileiro a operar uma transmulher em 1971, foi condenado por lesão corporal grave por conta de uma cirurgia feita em Waldirene Nogueira. Ela, cujo nome de batismo era Waldir Nogueira, foi operada por Farina e, após a operação, fez um pedido de retificação de seu registro civil na Justiça paulista em 1975, o que foi negado. O fato chamou atenção da opinião pública, uma vez que ela havia se submentido a um procedimento cirúrgico não previsto em lei como lícito.

“A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir”, escreve João. O leitor que acompanha as narrativas dessa viagem sente a angústia de alguém que se vê sem lugar no mundo, dessemelhante a todos que o circundam. Mas também se maravilha com a força desse mesmo alguém que, ante a premente necessidade de se reinventar, efetivamente se refaz.

“Iluminando o silêncio das coisas sem nome”, como diz o belo e preciso verso de um poema escrito pelo autor, Viagem solitária é a partilha de uma experiência, feita com grande coragem e generosidade por um homem de mente inquieta. Um homem que descobriu “que há várias masculinidades diferentes e que são construídas também pelas tecnologias da cultura dominante”. Alguém que abriu à força de muita luta veredas para transitar pelos papéis designados a um homem, que era o lugar em que sempre se viu. Que ainda luta contra a invisibilidade a que as pessoas trans são relegadas, nos mais diversos aspectos da vida — no plano legal, no plano social, no plano simbólico… E que, mesmo com todas as lutas empreendidas, fez questão de continuar dócil e afetivo, e de transmitir, como pai, essa doçura e essa afetividade a seu filho adotivo. Ao ponto de escrever, já no final da viagem pela qual conduz seus leitores, que sentiu que sua paternidade tinha valido a pena e, sobretudo, que seu filho se tornara o seu “acerto” na vida.

Vale para Viagem solitária o que Antônio Houaiss escreveu no prefácio do primeiro livro de João W. Nery, Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível para a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”. Vale também a exortação que Houaiss deixa ao fim deste prefácio: “Leiam-no e humanizem-se”. João conta que perdeu o medo das palavras com o antropólogo Darcy Ribeiro, com quem costumava conversar na adolescência e que se tornara uma espécie de mentor intelectual. Ao viajar pelos sendeiros abertos por sua escrita, o leitor constata que ele aprendeu bem essa lição…

quinzenario0004

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