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Archive for the ‘A Carne da Multidão’ Category

Se o país não estivesse imerso em tanta fúria, tanto ódio, tanto grito, se por um instante se instalasse algum silêncio, talvez todos ouvissem o sinal de alarme: algo está em perigo. Funcionam os hospitais, os tribunais, as delegacias, abrem-se as repartições, mas não há nenhuma normalidade em nossos dias, nenhuma tranquilidade é possível. Em pouco tempo caminharemos às urnas com as mãos desarmadas, exerceremos com liberdade o ofício do voto, e ainda assim o alarme soará por toda parte: a democracia está em perigo.

A democracia não se resume à possibilidade de depositar um voto na urna; supõe, antes disso, o direito de todos e todas, pleno e absoluto, à existência. O candidato Jair Bolsonaro fere a democracia porque defende o desaparecimento de muitos: de seus adversários, que anseia por banir da política; dos ativistas, que quer extirpar do país; de quilombolas e índios, que pretende privar de suas terras; da comunidade LGBT, intimidada a conter em público seu afeto; dos jornalistas críticos, constantemente ameaçados por ele próprio ou por seus seguidores.

A democracia não sobrevive apenas com um respeito momentâneo às normas; sua preservação requer um compromisso constante com o Estado de Direito. Bolsonaro vem ferindo a democracia há décadas, em seu louvor às opressões da ditadura, em sua defesa insistente da tortura e do extermínio. Ameaçou a democracia no passado, e sua candidatura a ameaça no futuro, com o aceno a medidas autoritárias. A cada declaração ou insinuação, o sinal de alarme soa mais alto.

A cultura ele também quer abater, mas a cultura não se abate. A literatura ele quer calar, mas a literatura não se cala. Contra a censura, contra o desprezo, contra o desdém, contra a imposição de falsas verdades e de equívocas certezas, escritores e escritoras sempre souberam se erguer. Eis o ativismo da literatura, o ativismo que ele não poderá extirpar: a literatura será sempre um dos grandes antídotos para a desumanidade e a indiferença.

Por isso aqui nos erguemos, escritores e escritoras, críticos e críticas, editores e editoras, exercendo nosso ofício da palavra, ouvindo como outros o ruído das sirenes. Por isso clamamos por uma união de todos e todas que prezem pela democracia, que valorizem a existência da diversidade e do dissenso. A literatura, afinal, tem como ideal e como fim a aproximação ao outro, a compreensão de suas aflições, de seus suplícios, o encontro entre diferentes. E ainda que resista às circunstâncias mais adversas, como resistimos e resistiremos, a liberdade há de ser sempre o seu maior instrumento.

[Texto de autoria de Julián Fuks para o movimento independente]

Quem quiser, pode assinar por aqui: https://literaturapelademocracia.wordpress.com/.
Eu acabei de fazer isso!

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Texto: Fabiana Turci e Teofilo Tostes Daniel
Vídeo: Laboratório dos Sentidos.

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Extintas memórias

Extintas memórias de infância –
de tardes no museu –
ardem no fogo dos séculos.
Restam apenas jardins
ladeando cinzas.
E um rescaldo de vozes.
O tempo e as chamas
são implacáveis.

Naqueles salões, uma múmia
ou um fóssil humano
me revelou –

creio que antes mesmo
que eu conhecer a escrita –

como é funda a fria face
da morte.

Afora este horror primevo,
esqueletos de dinossauros e baleias
alimentavam a perplexidade
da curiosa mente infantil.

Via naquele meteoro,
que sobreviveu ao fogo do descaso
dos tempos presentes,

o que causou,
há sessenta e cinco milhões de anos,
a grande extinção do cretáceo-paleogeno.

A grande extinção do museu,
com duzentos anos
dois meses
e vinte e sete dias de vida,
é agora.

São Paulo, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional em chamas (2/3 de setembro de 2018)

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Anis

A Anis (matilhalab), para mim, é uma comprovação do quão poderoso é o poder do amor. Quando ela chegou em nossa casa, ela não chegava perto de mim de jeito nenhum. Estava sempre apavorada e com o rabinho entre as pernas. Ela sofreu muitos maus-tratos e, por conta disso, tinha muito medo de homens. Até mesmo o cheiro de uma roupa minha fazia com que ela saísse correndo As primeiras tentativas de aproximação foram tentando dar pãezinhos. Mas era preciso que eu desse para a Fabi entregar pra ela. E mesmo assim, ela pegava desconfiada.

Mas a Fabi se tornou logo seu porto seguro e, com o tempo, ela foi reaprendendo a ser uma cachorrinha, a brincar, a ter curiosidade pelas coisas. Foi a partir da Anis, inclusive, que a Fabi se interessou por florais e acabou se tornando terapeuta floral. Isso porque após mais ou menos seis meses, a Fabi começou a dar um floral para a Anis, e rapidamente houve uma melhora geral. Não que quiséssemos que ela se tornasse isso ou aquilo. Apenas a queríamos bem.

Hoje, claro que a Anis é uma cachorrinha mais desconfiada e medrozinha. Pelos traumas e, talvez, pela própria personalidade — se em nós humanos às vezes é difícil distinguir essa linha, imagina em cachorros, que se expressam de outras formas. Especialmente no caso dela, a quem não conhecemos antes de ter sofrido os maus-tratos. Mas quando ela vem correndo para pegar um petisco, pula na cama para me cheirar quando eu chego ou quando acordo, ou quando olho para essas fotos que a Fabi (Laboratório dos sentidos) tirou no início do mês passado, minha alegria é sempre uma emoção do tamanho dessa história toda. Que me faz pensar que, provavelmente, para o amor não há defesas. Porque elas não são necessárias…

Anis

Anis

2015: A matilha.

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Ontem (8/7) fez um mês que se abriu uma cisão mágica no tempo e no espaço, cisão capaz de promover profundos encontros e comunhão. Numa sexta-feira, 8 de junho, ocorria a primeira edição do Sarau Verbo Raio, organizada pela Lilian Sais e pelo Marcus Groza. E essas duas potências juntaram outras vozes, promovendo uma polifonia rara e especial. Além de mim e dos curadores do sarau, estiveram também os incríveis artistas (da palavra, do verbo, do som) Alexandre Marinho, Julia Mendes, Luiza Borba e Maria Giulia Pinheiro.

Sarau Verbo Raio

Os cinco primeiros vídeos registram, com as devidas edições, a minha apresentação. Mas para ver a beleza de tudo o que foi, recomendo fortemente assistir ao vídeo inteiro na página da Tapera Taperá, que sediou o evento.

Vídeos:

Trecho do conto “Gritos do açafrão”, de Trítonos – intervalos do delírio.

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Espaço público (poema) + Naci en Palestina (música)

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Corpo cerzido (poema) + Veredas do Tempo (música)

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Se eu acreditasse num deus (poema)

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Hinech Yafa (música) + Canção profética (poema)

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Entrei nessa sexta-feira no último ano de minha década de 30 particular. Aniversários sempre me despertam memórias e me fazem olhar para trás. E essas memórias podem ter significados diversos e despertar emoções distintas. Há momentos em que resvalam em melancólica saudade, em nostalgia. Noutras, como agora, que me trazem uma alegria e uma gratidão imensas.

Desde que fiz trinta anos de vida, no agora longínquo mês de junho de 2009, tanta vida pulsou, transbordante. Meus pés se fincaram por tantos caminhos. Minha voz ressonou por tantas paragens. Minha escrita encontrou vários leitores – menos do que eu gostaria de ainda conquistar, porém mais do que supunha que teria ao longo desses nove anos.

Foi com trinta anos que lancei meu primeiro livro. Quando ele foi publicado, eu ainda tinha 29, mas levei mais de um ano para lançá-lo. Foi nessa mesma época que comecei a namorar a Fabi, minha esposa, com quem sou casado há sete anos.

Nessa década, tantas coisas aconteceram que seriam necessárias muitas e muitas páginas para dizer tudo. Fiz diversos amigos, assisti à Sagração da Primavera e o Café Miller pouco depois da morte da Pina Bausch, namorei e casei com minha esposa, me mudei de casa duas vezes, mudei meu blog para o lugar em que ele está há oito anos, lancei dois livros – o Trítonos – intervalos do delírio, lançado em 2015 pela Editora Patuá, foi o acontecimento literário da minha vida –, comecei a fazer aulas de canto, passei por quatro coros, abri e fechei uma editora, aprendi rudimentos de edição fazendo um documentário, viajei para alguns lugares, sonhei, esbocei projetos que me esperam pacientemente, realizei outros, descobri diversos autores, venci diversos desafios, senti meu corpo mudando, aprendi a dirigir e comprei um carro muito por causa disso, transformei minha casa numa matilha, “conheci” aquele que talvez seja um dos escritores vivos que mais me assombram – o Raduan Nassar –, comecei a tocar um repertório de música cigana que venho apresentando em saraus da vida, compus duas canções, tenho buscado olhar não para o que falta mas para o que sou, trabalhei – muito! –, escrevi, escrevi, escrevi, escrevi… e amei. Uau!!! E ainda me resta um ano inteirinho dessa década. E ontem combinei com a Fabi que esse seria o ano mais feliz da minha década de 30 – e, por que não?, da nossa vida até agora.

Neste dia em que se iniciou o novo ciclo solar que me levará aos quarenta anos, senti que celebrava a vida com todas as pessoas que me ligaram, escreveram, abraçaram, me deram parabéns ou desejaram felicidades, pessoalmente ou por escrito. Li cada uma das inúmeras mensagens que esperam resposta. E prometo respondê-las todas, aliás.

Envolvido nessa alegria, olhei para meus nove últimos anos tentando pensar o que eles foram. Busquei entender quem era aquele que chegou na casa dos trinta anos em 2009 e chegou agora aos 39 anos nesta sexta-feira. O que viveu esse que sou? Nessa viagem, acabei tentando selecionar dez fotos minhas representativas dessa trajetória – além de uma do dia de quase ontem. Muita coisa ficou de fora. Se fossem cem fotos, ainda faltaria espaço para tanta recordação bonita – vivemos numa era de abundância de imagens. Então nessa madrugada, após ter a linda surpresa da presença da minha mãe e da minha irmã – que agora dormem – aqui celebrando comigo, revisito algumas memórias registradas em fotos. E divido com cada um que, mesmo não estando nessas fotos, está comigo naquilo que estou sendo e tenho sido.

2018: 39 anos.

2009 ou 2010: Entre a publicação e o lançamento de “Poemas para serem encenados”

2011: Open House: Fabi&Teo

2011: Viagem de Lua de Mel – Cartagena das Índias

2011: Vernissage da exposição “Olhos d’Água e de Fogo”, do querido Marcelo Tosta

2012: Lançamento de História Íntima da Leitura na Casa das Rosas

2015: Lançamento de Trítonos – intervalos do delírio, na Casa das Rosas

2015: A matilha.

2017: No dia em que “conheci” Raduan Nassar

2017: No Rio de Janeiro, dissolvendo tabus.

2018: Música cigana no Espaço Núcleo

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A alegria é o presente do amor. A tristeza é o preço do amor. A raiva é a força que o protege. Esta foi minha terceira lição de amor revolucionário. Nós amamos a nós mesmos quando respiramos no fogo da dor e recusamos a deixá-la transformar-se em ódio (1).
– Valarie Kaur

Há exatamente uma semana, Marielle Franco foi executada. E até hoje, eu não havia conseguido digerir em palavras essa dor política. A dor de uma morte violenta choca sempre, especialmente num país em que os números da violência urbana superam os números de países em guerra. Abre a chaga latente que nos faz sentir que estamos todos vulneráveis. Uns bem mais do que outros, é verdade.

Escrevo agora, não apenas por Marielle, ou por Anderson, seu motorista que também se tornou alvo incidental. Eles já foram mortos covardemente e nenhuma palavra poderá fazer o tempo retroceder. Não escrevo por suas famílias, que lidam com a dor íntima da perda e a lacuna que a partida de uma pessoa querida deixa. Desde os primeiros momentos, eles lidam com o desafio de viver o recolhimento de um luto que também tem uma dimensão pública. Tampouco escrevo por uma obrigação de dizer qualquer coisa. Vozes mais qualificadas e representativas vêm ecoando a luta e o luto por Marielle. Escrevo para fazer o exercício fundamental que sempre foi a escrita para mim: a oportunidade de colocar as ideias no lugar, diante do assombro. Seja o assombro diante do sublime (que frequentemente me leva à literatura), seja diante do absurdo, que encontra não apenas na literatura, mas em textos tateantes como este, uma forma de dar vazão e significado ao que não tem sentido, nem nunca terá. Porque nossos olhos sempre ardem por compreender e interpretar as coisas. E assim cosemos nossas precárias explicações sobre o mundo.

Há uma semana eu estava trabalhado no computador e entrei num site de notícias e li uma matéria, publicada mais ou menos naquela hora, que falava da morte de uma vereadora do PSOL. Naquele momento (sempre somos bastante autorreferentes), meu primeiro susto foi o local, relativamente próximo de dois locais em que morei no Rio, um deles em que minha mãe e minha irmã moram até hoje.

Mas o espanto ao ler a matéria se transformou. Pelo que estava escrito, havia indícios de que se tratava de uma execução, o que se confirmou depois. Era, portanto, um crime que vinha em resposta à atuação política da ex-vereadora. O leque de suspeitos é grande, de policiais que cometeram abuso de poder e foram denunciados a milicianos.

Os dias que se seguiram prolongaram o assombro. Foram dias de peso e perplexidade. Pelo ocorrido e pelos desdobramentos dessa morte. Pois à dor pessoal de quem perdeu Marielle se somou a dor política de uma parcela do país que anda sedenta por justiça e paz. Um luto de milhões acabou invadindo o luto particular da filha, da companheira, da irmã, dos pais e dos amigos de Marielle. A família, certamente, sofre a impossibilidade do recolhimento, nesse momento de dor tão íntima. Mas segue lutando, para dar sentido à essa perda. Ou muitos sentidos.

Por mais que até o momento não se tenha nenhuma certeza sobre quem seriam os responsáveis por esse crime, as investigações mostraram claramente que o carro em que estava a vereadora foi seguido desde o evento de que ela participou, na Lapa (região central do Rio de Janeiro), até o local da execução, a cerca de quatro quilômetros. A munição usada foi comprada originalmente pela Polícia Federal e desviada, sabe-se lá sob que circunstâncias. O que se sabe é que se trata do mesmo lote de munições usadas em crimes nos locais mais variados, tanto no Rio de Janeiro quanto fora do estado. O principal deles foi a chacina de Osasco, a maior ocorrida no estado de São Paulo. Cometida por policiais militares (e um guarda civil) que teriam vendido parte dessa munição para PMs do Rio.

Mas a perplexidade não estancou aí, na morte brutal e premeditada, e na proliferação de suspeitos. Depois de morta, Marielle não esteve imune ao ódio que parece se alastrar como praga pelo país. Não basta matar a mulher. Muitos querem também apagar sua memória. Na falta de fatos concretos, proliferam mentiras. Numa ampla campanha difamatória, afirmaram que ela era ex-esposa de um traficante, teria sido eleita com apoio do tráfico e que sua morte estaria ligada a uma suposta troca de facção criminosa. Quando não apelam para mentiras, se valem de lógica deturpada. Como a afirmação de que, por defender bandido, ela acabou sendo morta por eles, num claro movimento de responsabilizar Marielle pela própria morte.

Toda essa campanha difamatória acaba apagando o caráter político de sua morte. Além disso, ela funciona como uma espécie de recado velado a toda pessoa que defende os direitos humanos, um alerta insinuando que “o próximo pode ser você”. Isso é extremamente preocupante, ainda mais nesse momento, pouco mais de um mês depois de o comandante do Exército, o general Villas Boas, declarar que os militares precisam ter garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade. Isso no início de uma intervenção federal no Rio de Janeiro da qual o presidente em exercício pretende obter ganhos eleitorais.

Há ainda uma terceiro aspecto que essa campanha difamatória cumpre, que eu só compreendi ao assistir a um vídeo (que reproduzo aqui, ao fim deste texto) de uma ativista norte-americana, de origem indiana, chamada Valarie Kaur. Cheguei a esse vídeo também pela Fabi, que o assistiu no dia seguinte à morte de Marielle. Ela disse que passou todo o dia com um nó na garganta, pensando em como seguir, e então foi atravessada pelo vídeo e voltou a respirar. No vídeo, Valarie diz o seguinte:

“As histórias podem criar o milagre que transforma estranhos em irmãs e irmãos. Esta foi a minha primeira lição do amor revolucionário – que as histórias podem nos ajudar a não vermos estranhos.” (2)

Essa foi a chave que me fez ver que é um risco, para um sistema de pensamento pautado pela raiva, tomar contato com a história do outro, que pensa e age de forma distinta. Pois isso pode minar essa raiva, dissipar esse ódio. Encontrar a humanidade nessa alteridade pode parecer inaceitável. Por isso também é tão importante destruir reputações. Se eu vejo uma pessoa como Marielle, que milita em favor dos direitos humanos, como oponente, eu não posso descobrir que ela é tão semelhante a mim em seus sonhos, seus medos, suas alegrias. Não posso sentir como legítimas as lágrimas de quem chora por sua partida. Preciso desqualificar a memória de quem parte e o luto de quem chora essa perda. Além de desencorajar quem segue pelo mesmo caminho.

Como alguém que é atingido por esse recado que desqualifica a dimensão política da morte de Marielle, me vi impelido a tentar ouvir essas críticas e refletir sobre sua origem. Sobre que mundo é esse, que torna possível a articulação desses discursos.

Quem defende os Direitos Humanos defende bandidos?

Uma das primeiras tentativas que vi de culpar Marielle pela própria morte foi uma imagem amplamente compartilhada (inclusive por um vereador de São Leopoldo pelo MDB), com uma foto da ex-vereadora e os seguintes dizeres: “Trate bandido como vítima e um dia a vítima será você”. Essa frase tem como pressuposto que quem defende o respeito aos direitos humanos é contra a punição a quem comete crimes. E tem um segundo pressuposto, ainda mais complicado, que é o de que a criminalidade estaria ligada à pobreza. Os dois pressupostos são, no entanto, falsos.

Quem defende os direitos humanos se opõe à execução de culpados (e, não custa lembrar, também inocentes) por agentes que detêm o monopólio do uso legal da força (a polícia). Ou seja, defende que quando se flagra alguém cometendo um crime, o criminoso deve responder por seu ato perante a justiça. No entanto, num país com alto índice de violência e forte sensação de impunidade, defender o devido processo legal soa como defender que criminosos não paguem pelo que fizeram.

Opor-se a execuções por grupos de extermínio ou ao linchamento (no Brasil, algumas fontes apontam a média de um linchamento por dia) é ser contrário à prática do justiçamento, da vingança. E defender que mesmo quem comete um crime deve ter alguns direitos básicos garantidos, como o direito à vida, o direito de não ser considerado culpado sem um devido processo legal, o de não sofrer tortura e outras penas cruéis e desumanas, entre outros.

Quem defende os direitos humanos não defende a impunidade e, muito menos, supõe que bandidos sejam vítimas da sociedade. Afinal, há criminosos ricos e pobres. A ausência de Estado em locais mais periféricos apenas permite que criminosos ajam com mais liberdade, aumentando a sensação geral de insegurança e submissão ao crime. Mas muito dificilmente na mais violenta das favelas a porcentagem de ligadas a atividades criminosas será maior do que, por exemplo, no Congresso Nacional. Portanto, bandidos não são vistos como vítimas da sociedade por quem defende os direitos humanos. Mas é evidente que quem milita nessa área vai se opor à criminalização da pobreza.

Aqui, lembro a crítica tecida por um procurador do Ministério Público Federal sobre quem se podem tecer várias críticas, menos a de ser a favor da impunidade. Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jata no Paraná, foi uma das muitas vozes que se insurgiu contra o absurdo mandado de prisão coletivo que se pretendia expedir em determinadas regiões (pobres) do Rio de Janeiro, no começo da intervenção no Rio. Seguindo a tradição de defesa dos direitos humanos, que marca o MPF, o procurador declarou que “se cabem buscas e apreensões gerais nas favelas do Rio, cabem também nos gabinetes do Congresso”.

Quem defende os direitos humanos não liga quando morre um policial?

Outra crítica comum contra militantes e organismos que trabalham em favor dos direitos humanos é que esses organismos e essas pessoas agiriam quando se executa um bandido, mas não fazem nada em relação aos policiais que morrem. Esse tipo de crítica frequentemente é feita por quem não costuma se engajar quando ocorre a morte de policiais e certamente não sabe que no Rio (estado que tem a segunda polícia que mais mata e a primeira que mais morre no país), a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa realiza um trabalho de apoio aos parentes de policiais mortos. A própria Marielle, quando era assessora do deputado estadual Marcelo Freixo, trabalhou nessa comissão. O ex-chefe do estado-maior da PM no Rio, que acompanhou e incentivou esse trabalho desde o início, se manifestou homenageando Marielle Franco e pedindo que cessassem as tentativas de macular sua memória com boatos e notícias falsas.

Quem defende os direitos humanos não está preocupado com quem é vítima da violência?

Não é raro ouvir que quem defende os direitos humanos cobra investigação quando um bandido é morto, mas ignora as pessoas que morrem vítimas da violência urbana. Essa crítica talvez se fundamente no fato de que vítimas de crime buscam amparo nas forças de estado (polícia e judiciário), enquanto militantes em prol de direitos humanos costumam ser mais ouvidos quando é um agente de estado que comente um crime (o que pode deixar a vítima desse crime órfã de amparo). No entanto, pessoas que defendem os direitos humanos têm forte preocupação acerca de que modelos de segurança pública o país utiliza. Isso porque é impossível conceber um estado que garanta os direitos humanos se os direitos básicos à vida e à segurança não são garantidos.

Evidentemente, os modelos de segurança podem divergir. Mesmo entre os grupos que militam em prol dos direitos humanos. Em geral, no entanto, esses grupos tentem a preferir uma polícia desmilitarizada ou, no mínimo, com uma melhor formação para o respeito aos direitos humanos (a desmilitarização foi recomendada em 2012 pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, num relatório que continha 170 recomendações diversas ao país — mas essa recomendação sobre a política não foi aceita pelo então governo). Também tendem a apoiar restrições ao porte e uso de armas pela população e a progressiva descriminalização das drogas. E contrários, em geral, à pena de morte. Até aqui, há o espaço para divergências, pois se trata de modelos de políticas de segurança pública. No âmbito do inegociável, esses grupos costumam defender de forma incisiva os cidadãos contra torturas, execuções, abusos de autoridade, buscando proteger o cidadão quando este é perseguido por agentes estatais e perde o amparo do próprio estado.

Sinto-me impelido a escrever sobre direitos humanos, pois o fato de Marielle Franco ter sido uma ativista dessa causa foi visto por muitas pessoas como motivo suficiente para questionar a gravidade de sua morte, ou para responsabilizar parcialmente a própria vítima pelo ocorrido. Além disso, há a difamação, que tem sido tão grave que um grupo de advogadas se uniu para rastrear os boatos contra a ex-vereadora, para encaminhá-los à Delegacia de Repressão contra Crimes de Informática. Elas pedem o seguinte:

“Se você se deparar com algum post de ódio ou que contenha alguma afirmação que difame a vereadora, salve uma cópia do material com o máximo de informações que puder, como o nome de quem fez o compartilhamento, link da postagem e do perfil da pessoa. Se tiver sido por WhatsApp, adicione também o número do telefone que te encaminhou a mensagem. Envie as informações para contato @ ejsadvogadas.com.br.”

Nos primeiros dois dias desse anúncio, mais de duas mil denúncias foram encaminhadas a esse grupo. Não devemos nos alarmar, pensando no alcance potencial das mentiras inventas. Essas duas mil denúncias testemunham algo poderoso, que é a intensa mobilização em torno da preservação de uma memória de luta.

Vivemos um tempo em que ter esperança é um exercício diário. Somos chamados a prosseguir e cada uma de nossas escolhas determina o lugar que ocupamos (ou desejamos ocupar) no mundo. Dá um alento saber que a morte de Marielle não produziu silêncio, e que atos se espalham pelo país. Enquanto vejo a dimensão dessas manifestações, canto mentalmente uma nova letra para uma velha canção. Quase ouço uma voz indistinta, entoando que “Mais que nunca é preciso cantar. / É preciso cantar e tomar as cidades.”

Se uma voz poderosa se cala, precisamos de dez novas que ressoem numa defesa intransigente das garantias e direitos que vêm sendo negados a tantos. Há tanto tempo! Vozes que se recusem a se deixar transformar em ódio. Que ocupem ruas, praças, tribunas e tribunais. Talvez nesses encontros surjam algumas dessas vozes.

Penso que é primordial aprender a usar os mecanismos de vigilância a nosso favor. Cada cidadão, hoje, tem a possibilidade de fiscalizar atos de agentes que detêm o monopólio da força. É importante que se saiba e se propague que qualquer cidadão tem o direito de filmar uma abordagem policial. Sabemos do risco de algo assim, pois forças autoritárias inventam regras que não existem para não serem fiscalizadas. Mas se estivermos em segurança, não precisamos hesitar de fazê-lo. Talvez estejamos contribuindo para criar uma cultura em que agentes públicos que detêm o monopólio da força sintam medo de infringir a lei. Como qualquer cidadão.

Certamente há ainda muitos caminhos a percorrer e a se inventar. Mas, por fim, registro que hoje fiquei feliz quando, conversando com a Fabi, ela me contou que há diversos grupos que vêm fazendo um resgate do trabalho e da memória de ativistas vivos. Contando histórias como a de Marielle, que infelizmente só se tornou conhecida após sua morte. E, como sabemos, “as histórias podem criar o milagre que transforma estranhos em irmãs e irmãos”.

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(1) No original: “Joy is the gift of love. Grief is the price of love. Anger is the force that protects it. This was my third lesson in revolutionary love. We love ourselves when we breathe through the fire of pain and refuse to let it harden into hate.”

(2) No original: “Stories can create the wonder that turns strangers into sisters and brothers. This was my first lesson in revolutionary love – that stories can help us see no stranger.”

Marielle Presente! Atos se espalham pelo país.

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