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Archive for the ‘A Carne da Multidão’ Category

Tenho um orgulho imenso de estar nessa coletânea que será lançada no próximo sábado (15/7), no espaço da Editora Oito e Meio, no Rio de Janeiro… Li a versão inicial de cada um dos contos e posso assegurar: são demais! É uma honra habitar essas páginas ao lado de tantos ótimos escritores.

Lançamento do livro "Tabu" no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

Lançamento do livro “Tabu” no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

Como surgiu o livro? Com a palavras, a querida Flávia Iriarte, organizadora da obra:

Estamos em outubro de 2016. Dois grupos de escritores de todas as partes do Brasil se encontram às quartas e quintas-feiras, durante um mês, para debater acerca de suas produções literárias, em um encontro online (bendita era digital!). Cada participante deve apresentar um projeto – romance ou coletânea de contos – para desenvolver, o quanto possível, ao longo deste período. Eu e a Maiara Líbano somos as encarregadas de coordenar o desafio, fazendo a leitura dos textos e dando um retorno com sugestões aos seus respectivos autores. Era esta a proposta da segunda edição do Curso de Escrita Criativa do Carreira Literária.

Com o que não contávamos, no entanto, era que, além de personagens e narradores, conflitos e pontos de virada, das nossas histórias, terminássemos os encontros falando sobre tudo que estava por detrás delas. Sobre nossos próprios conflitos e angústias e o quanto deles têm os nossos personagens, sobre nossos processos de criação e o quanto eles têm de falhas e acertos, sobre as relações – complexas e intrigantes – entre nossas vidas e nossas ficções.

Em suma, o que não estava no script, era que, além de contos e romances, se desenvolvessem, durante aquelas quartas e quintas, verdadeiros laços de amizade, que extrapolaram os limites daquele outubro para se desdobrar no tempo e no espaço.

É um livro, portanto, que nasceu a partir de uma certa política da amizade. Uma política em que a leitura — e a crítica que constrói junto — é um dever do amigo…

Participo da coletânea Tabu com o conto A última claridade desse dia, do qual deixo os primeiros parágrafos:

É estranho pensar nisso, mas a festa foi perfeita. Mal posso acreditar. Dois dias inteiros junto das pessoas mais importantes da minha vida. Tentei prever cada detalhe, controlar cada emoção. Porque, ao menos nesse instante, eu me queria rodeada apenas pela alegria de celebrar a existência com essas pessoas que amo tanto. Lá dentro, escuto Noah tocar no acordeão minha música preferida. É um presente que torna essa hora extrema ainda mais bonita. E difícil. O sol avermelha todo o horizonte. É impressionante como esses acordes melancólicos combinam com a feérica paisagem daqui.

Ouvir esse acordeão me lembrou de quando cheguei aqui no Canadá, para fazer a residência artística. Com pouco dinheiro, pegava um monte de trabalhos paralelos. Num deles, fui contratada para fazer a ilustração da capa de um disco de Noah. E quem estava lá, me esperando para discutir sobre esse trabalho? Seu irmão, Ethan. Bastou trocarmos algumas palavras para que a afinidade entre nós se tornasse evidente. Dessa afinidade, veio um convite para sair… E hoje Ethan está aqui do meu lado. Nossos dedos se entrelaçam como no dia do nosso primeiro beijo, há quase vinte e dois anos atrás.

Ethan aperta minhas mãos com muita intensidade. Está lindo, escondido atrás desses óculos escuros. Ele evita a todo custo me olhar. Quer apenas cumprir o combinado, como se eu não estivesse vendo as lágrimas silenciosas que já caem em seu rosto. Penso agora na sorte de tê-lo conhecido. Em toda uma vida incrível ao seu lado, cercada de arte e dos amigos que estiveram aqui nesse fim de semana. Em nossa Daphne, que hoje segue os passos do tio na música. É estranho pensar que a minha menina já está na faculdade. Ainda penso como se ela fosse aquela coisinha pequena, espevitada, correndo pela casa e batucando em todas as coisas. Sentir que vou deixá-la desamparada é a única coisa que me faz pôr em dúvida minha resolução. Sei que isso não é real, mas a verdade da gente é aquilo que a gente sente. Acho que não… A verdade de um ser é seu próprio corpo.

Para saber mais sobre o livro Tabu, clique aqui.

Capa do livro Tabu, lançado pela Carreira Literária / Editora Oito e Meio

Tabu – Carreira Literária / Editora Oito e Meio

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os coturnos ecoam até aqui
manchando as ruas de terríveis
reminiscências

ouve a marcha dos soldados?
assinaram um papel
autorizando o emprego das forças

armadas
para quem não marchar direito

enquanto isso o concreto modernista
fincado na caatinga
por suaves linhas repletas
de eufemismos

pega fogo

no dia anterior
derrubaram um prédio
com gente dentro

quase gente talvez

e todo dia
pega fogo
chumbo quente
e bala dirigida
teleguiada, mas nunca

perdida
em distâncias tão vizinhas

o tempo é de temor
pois jamais nos recuperamos
de 1964

São Paulo, 25 de maio de 2017.

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Torturas, execuções sumárias, abusos de autoridade, exclusão ou preconceito oficial, ameaças veladas ou explícitas. O Estado Brasileiro não deixou de ameaçar significativa parcela de sua população (especialmente a mais vulnerável) por nenhum dia, desde que o país se redemocratizou.

Não promovemos uma transição que se pautasse pela verdade e pela justiça. Todos que mataram em nome do Estado, em prol de um regime que teve início há exatamente 53 anos estão anistiados.

Ainda no período da Ditadura Militar, foi realizado um projeto que tentou fazer com que a memória nefasta desse tempo não se perdesse. O BRASIL: NUNCA MAIS conseguiu reunir, clandestinamente, mais de 850 mil páginas de 710 processos que tramitavam no Superior Tribunal Militar. Ele foi coordenado por dois religiosos: o reverendo Jaime Wright e o cardeal de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns.

O projeto foi responsável por ser a primeira — e talvez, até hoje, uma das mais importantes — pesquisa sistemática que revelou a violação frequente violação aos direitos humanos por parte de agentes do estado. E tudo isso, com uma característica peculiar: tais revelações eram extraídas de documentos produzidos pelo próprio Estado, autor de tais violações.

A História hoje nos mostra que esse foi um trabalho ousado, arriscado e imenso. Pode-se imaginar a dificuldade de copiar clandestinamente mais de 850 mil páginas, preservá-las e remetê-las a um local seguro, para que não se perdessem.

Tenho orgulho de trabalhar hoje numa instituição que luta para preservar e, não só isso, para ampliar essa memória. Hoje o Ministério Público Federal é responsável por manter no site Brasil: Nunca Mais digital (http://bnmdigital.mpf.mp.br/) todo esse acervo, digitalizado e indexado, permitindo pesquisas textuais nesses documentos, disponíveis na íntegra para consulta de qualquer cidadão.

No entanto, sinto que, como sociedade, falhamos terrivelmente em preservar a memória, a lembrança desse passado. “Para que não se esqueça; para que nunca mais aconteça”, como dissera Dom Paulo. Mas infelizmente não deixou de acontecer um só dia. As torturas e execuções sumárias (de culpados ou inocentes, pouco importa) continuam ocorrendo. A polícia continua vandalizando quase toda manifestação contra o status quo (isso ficou evidente em 2013, nas manifestações do Movimento Passe Livre, quando bastou a polícia se retirar, apostando no caos, e o caos deixou de existir nas ruas). Abusos de autoridades, detenções por desacato após ordens claramente ilegais e arbitrárias, tudo isso continua. O arbítrio da força ainda impera, gerando medo, dor, morte e desaparecimentos forçados.

E como a história acontece como tragédia e se repete como farsa, ganha força hoje no país um estarrecedor discurso de ódio anti-comunista, como se ainda vivêssemos em plena guerra fria. E no ano passado, em outro dia 31, dessa vez de agosto (52 anos e cinco meses depois daquele 31 de março), assistimos a mais um envergonhado golpe. Inegavelmente, algo mudou desde então. Algo difícil de precisar e cujas consequências estamos bem longe de vislumbrar agora, enquanto vivemos no turbilhão desses dias.

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A ideia primeira desse vídeo era apenas apresentar essa música para divulgar minha participação no último “Desconcertos de Poesia” de 2016 no dia 6 de dezembro, evento promovido pelo amigo, escritor e poeta Claudinei Vieira no Patuscada – Livraria, bar & café. Neste evento, para o qual tive a honra de ser convidado para mostrar um pouco da minha escrita e também um pouco de música, vou cantar algumas canções ciganas, entre as quais esta.

Mas ser casado com uma Youtuber abre possibilidades que para mim, menos habituado à linguagem audiovisual, são impensáveis. A partir das gravações feitas, minha amada Fabi Turci, autora do site (https://laboratoriodossentidos.com/) e do canal (https://www.youtube.com/c/laboratoriodossentidos) Laboratório dos sentidos editou esse vídeo incrível usando não só as gravações que ela fez comigo cantando, mas também com inserções de imagens tiradas dos documentários “Cobra Gypsies”, “Los olvidados – Palestina una historia de resistência” e “Al otro lado – la vida en palestina dividida por el muro israeli”, todos disponíveis aqui no Youtube.

‘Naci en Alamo’ é uma canção cigana, de autoria de Giorgos Katsaris e Dionisis Tsaknis, que descobri na voz de uma cantora de origem judaica (sefardita), chamada Yasmin Levy. Ela é um lamento de povos apátridas e/ou que têm experiências de um nomadismo forçado. Cabe hoje na voz e na história de ciganos, de palestinos, de curdos (especialmente os yazidis), de congoleses, de sírios etc, assim como também de judeus, sobretudo antes de 1948. Descobri a versão ‘Naci en Palestina’ na voz de uma excepcional cantora tunisiana que conheci recentemente, Emel Mathlouthi.

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Agosto termina deixando um abismo de dúvidas e receios sobre os rumos do país. Abismos, aliás, que nunca se fecharam. Talvez por isso, o dia hoje tentou seguir a normalidade. Mulheres e homens saíram para trabalhar, crianças foram para as escolas, os ônibus circularam normalmente, lojas e restaurantes abriram. Mas uma tensão — presente nos ares do país durante todo esse ano — não se dissipava. A chuva que caia desde cedo na cidade em que habito não lavava a alma de ninguém. Talvez os céus apenas chorassem por essa herança de incertezas.

Mas o que vivemos hoje está longe de ser uma exceção em nossa história. Olhando para trás, é possível constatar que “o maior eixo de continuidade da história recente do Brasil é a instabilidade”. Se pensarmos a história recente do país a partir da chamada Era Vargas, vamos perceber que tivemos somente onze eleições diretas para presidente desde 1930. Por isso, temos hoje estranhas configurações de pais que votaram para presidente o mesmo número de vezes que seus filhos. Mesmo no meu caso, minha mãe só votou para presidente duas vezes a mais do que eu.

Dos oito presidentes eleitos nessas onze eleições que tivemos nos últimos 86 anos de nossa história, somente quatro conseguiram terminar seus mandatos. E em 127 anos de República, apenas 12 presidentes foram eleitos por voto direto, tomaram posse e governaram até o final, incluindo nesse cálculo a presidenta Dilma Rousseff no primeiro mandato. Constatar isso de forma quase didática é um pouco assustador… Ainda mais pelo fato de termos vivido os últimos vinte (e um?) anos com uma ilusão de estabilidade, derruída no decorrer de 2016. Realmente torço para que meus temores sejam exagerados, mas a história me mostra que a junção de um descrédito generalizado em relação à democracia com um crescimento preocupante de diversos discursos de ódio jamais produziu bons frutos.

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. - André Mendes Pini

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. – André Mendes Pini.

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O dia de hoje é cinza.
Assim se tingiram
os céus da cidade
que ontem festejou
com fogos de artifício
artifícios discursivos
– o que há para comemorar?
Indiferente à perplexidade
ante os duros golpes
dos tempos, segue
a luta.

A luta da mulher
que acorda de madrugada
para cruzar a cidade
e garantir seu lugar
à sombra dos patrões,
e depois levar para casa
a comida pouca,
que cozerá com seu cansaço
para alimentar o crescimento
das crianças.

A luta de quem mora
longe – inda que perto de nós –,
onde o estado de
exceção é regra,
e o Estado, uma exceção.
A luta das pessoas
que são governadas,
das que são despojadas
de palavras,
das que não sabem
quanto custa o dólar,
mas contam cada centavo
do trigo.

Há muito foi exilada
a esperança.
Ouço gritos, que ainda
parecem longínquos,
pedindo cárcere de quem
luta por mais do que circo
e pão.

Agora, parece que vão banir
o vermelho das ruas
– quem sangra,
que fique em casa!
O dia de hoje é cinza.

São Paulo, 12 de maio de 2016.

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Diante da força de um escrito, em algumas condições nos esquecemos de que quem escreve o faz a partir do lugar que ocupa no mundo. A aristocracia periférica de um Jorge Luis (Borges), escritor ao mesmo tempo europeu e argentino; o provincianismo de um menino de Cordisburgo chamado João (Guimarães Rosa), capaz de colocar muita filosofia na boca de seus personagens sertanejos; e a origem negra de um certo Joaquim Maria (Machado de Assis), cuja cor foi desbotada nos livros de história da literatura, importam menos, quando eles são lidos, do que a chamada “grandeza universal” de suas obras. Mesmo quando elas têm cores essencialmente regionais.

O mesmo não ocorre com quem não pode ter seus traços tão facilmente apagados na estrutura da sociedade. A cor de um Afonso Henrique (de Lima Barreto), a sexualidade de um Caio (Fernando Abreu), o gênero de uma Cecília (Meireles) ensejam muito frequentemente debates sobre o lugar que ocupam e a partir do qual escrevem. Por quê?

Parece-me muito evidente que a literatura escrita por homens cisgêneros, brancos (ou embranquecidos) e heterossexuais é recebida como literatura universal. E o que é escrito por mulheres, por transexuais, por gays ou por negros, o que seria? Se, por um lado, a análise a partir do lugar de enunciação de quem escreve só costuma valer para quem ocupa lugares periféricos na própria periferia do capitalismo que é o nosso país, por outro marca um ato de resistência, ao demonstrar que a humanidade se engendra, complexa e plural, em todos, e que existem vozes imensas relegadas a um absurdo silêncio.

O livro “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo, pode ser visto como uma realização estética dessa resistência, ao ressoar a voz de uma multidão habitualmente silenciada. Uma multidão de mulheres negras e de filhos dessas mulheres. O que ouvimos é a sua humanidade, e não a voz de um esteriótipo engessado, de um personagem-tipo cobaia de teses sociológicas.

Antes que o leitor enverede por qualquer história, a primeira frase da Introdução à obra, escrita por Jurema Werneck, já adverte que “A mulher negra tem muitas formas de estar no mundo (todos têm).” Parece óbvio, mas alguns de nós temos o privilégio de nos esquecemos disso com assustadora frequência, porque podemos apagar a própria existência dessas mulheres. No entanto, a literatura de Conceição Evaristo é um grito de resistência que nos recorda desse fato e dessas vidas.

Com um realismo complexo e repleto de poesia, mas às vezes narrando alegorias míticas, nos encontramos com um enorme caleidoscópio de mulheres de todas as idades: Ana, Duzu, Maria, Natalina, Salinda, Luamanda, Cida, Zaíta, Bica. Enquanto algumas dessas mulheres morrem de balas achadas ou perdidas, outras fazem cooper em Copacabana antes do trabalho. Há as que choram seus maridos mortos, as que são linchadas e as que amam — seus homens ou suas mulheres. Uma aborta e depois aluga seu ventre. Outra realiza uma viagem em busca da lembrança da cor dos olhos de suas mães…

conceicao-evaristoCuriosamente não tem nome a mulher que faz essa viagem, ao mesmo tempo íntima e mensurável em quilômetros, de retorno a Minas, após acordar bruscamente se perguntando de que cor eram os olhos de sua mãe, no belíssimo primeiro conto que nomeia o livro. Talvez o nome dessa personagem seja Conceição. Pelo menos, na minha liberdade leitora, foi assim que a chamei, lutando, no entanto, para não confundir a personagem com sua criadora. Isso porque Conceição Evaristo, a autora, reside hoje no Rio, onde se formou em Letras pela UFRJ e se tornou mestra e doutora em Literatura, mas nasceu e cresceu numa favela em Belo Horizonte.

Seu “Olhos d’Água” traz múltiplas histórias, repletas de intensidades por vezes brutais e doridas, protagonizadas por mulheres negras, como a autora, numa feliz conjunção entre o lugar de enunciação e a voz que artisticamente se produz. Não cabe a mim validar qualquer experiência. Na posição de leitor, o que desejo aqui é dizer como me chegaram os ecos das histórias desse livro, histórias que precisam ser lidas, pois certamente necessitavam ser escritas e, no conjunto, testemunham que cada mulher negra, sobre quem geralmente não se fala e a quem raramente se dá voz, carrega em si um universo, um infinito particular. Isso é óbvio, mas nem sempre é fácil enxergar o óbvio. Ainda mais quando ele é esmaecido pela naturalização do silêncio sobre muitas vidas.

Termino esse pequeno itinerário de leitura partilhando o assombro e o alumbramento que me trouxe o final do conto “A gente combinamos de não morrer”, por sua belíssima ode à palavra, afirmando que a escrita também pode ser um lugar.

E fui escrevendo mais e mais. (…) Na verdade, naquele momento, eu já estava arrependida e queria voltar para o meu lugar. Se é que tenho algum. Mas escrever funciona para mim como uma febre incontrolável, que arde, arde, arde… (…) Gosto de escrever palavras inteiras, cortadas, compostas, frases, não frases. Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida. Outro dia, tarde da noite, ouvi um escritor dizer que ficava perplexo diante da fome do mundo. Perplexo! Eu pedi para ele ter a bondade, a caridade cristã e que incluísse ali todos os tipos de fome, inclusive a minha, que pode ser diferente da fome dos meus.

(…)

Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro. Tenho fome, outra fome. Meu leite jorra para o alimento de meu filho e de filhos alheios. Quero contagiar de esperanças outras bocas. (…) Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito…

quinzenario0042

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