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Archive for abril \26\UTC 2016

antologia-patuscadaHá exatamente um mês foi lançada a “Antologia Inaugural – Patuscada“, na festa de inauguração do “Patuscada – Livraria, bar & café”. Desde então minhas estantes são habitadas por essa obra, que reúne poemas e contos de pouco mais de uma centena de autores que apoiaram esse projeto – entre os quais me orgulho de estar. Meu endereço nela são as páginas 214 e 215, onde podem ser lidos dois poemas meus: “Alumbramento a céu aberto” e “Vaga vida”.

Confesso que a antologia ainda não ocupou seu lugar na taxonomia de meus livros. Mas aguarda paciente, junto a uma pequena congregação livresca de recém-chegados, o tempo em que há de rumar para o seu canto exato. Se eu não cuidar, periga apenas de essa congregação crescer ainda mais e ocupar muitos desvãos nas estantes.

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Penso nessa antologia inaugural, organizada pelos queridos amigos e poetas Eduardo Lacerda, Leonardo MAthias e Ricardo Escudeiro, cumprindo uma função semelhante àquela desempenhada pelo Patuscada: um ponto de encontro, onde pessoas se reúnem ao redor de sonhos. Agregam-se e festejam em derredor da literatura, da poesia, da arte e da amizade. E demonstram que a philía inaugura possibilidades de memória e legado, e também engendra um testemunho para o porvir. O mesmo ocorre na antologia. Ela congrega vozes distintas que se colocam lado a lado. E se oferecem, juntas, ao porvir de leituras e bibliotecas.

Termino essa lembrança dividindo as palavras do colofão da antologia. Quem lê e acompanha os livros da Patuá, sabe do cuidado especial que ela tem com esse pedaço do livro, por vezes tão esquecido. Tais palavras dialogam lindamente com esse espírito aqui evocado. E, curiosamente, também evoca um elemento essencial do meu “Trítonos – intervalos do delírio“, obra que recentemente lancei pela editora.

Para os que acreditam na poesia e nos encontros que a poesia pode promover, nós repetiremos incansavelmente ao modo de Belchior:

amar e mudar as coisas nos interessa mais.

O que buscamos não é só a festa, mas a celebração da poesia e da amizade, o delírio:

amar e mudar as coisas nos interessa mais.

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A “Antologia Inaugural – Patuscada” e o meu livro “Trítonos – intervalos do delírio” podem ser encontrados, junto de diversos outros amuletos, no site da Editora Patuá.

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Leio em loop infinito os versos que recebi hoje de minha irmã. Releio-os numa felicidade de imensidões. Eu, que me sei poeta e escritor por sua influência. Por desejar também ter cadernos pautados para jogar com a linguagem. Numa desmedida de ternura, quando os todos caminhos parecem abertos e transitáveis. Se bem que já havia tendências nesse tempo, quando você tinha pouco mais do que nove anos e eu, quase doze. Você tinha a altura e a intensidade de uma linguagem esgarçada pelo trágico. Eu arquitetava formas, engendrava desgastadas rimas e me divertia em impor regras para constranger a liberdade absoluta do dizer. Se a poesia em você eram jorros de metáforas dilaceradas nas asas dos pássaros, para mim valia a diversão de pôr palavras num pilão e extrair-lhes os óleos do inabitual.

Que dizer desse caminhar que, ao mesmo tempo, é solidão e partilha? Ouvimos de Drummond um conselho sobre os poemas: “Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.” E o silêncio é um outro nome para a solidão. Por isso o poeta das sete faces nos diz também: “Penetra surdamente no reino das palavras.” No entanto, poetas tocam o incomunicável para voltear e dar a ver o lodo das palavras, essas metáforas gastas, repletas de histórias e corruptelas. Para sentar junto na fogueira dos tempos e cantar sobre essas descobertas. A solitária escrita deseja a leitura, almeja o encontro.

E nosso encontro precede à palavra. Nasce anterior ao verbo. Remete a signos ainda cindidos, significantes com cambiantes significados. O logos do afeto nos guiou os passos. E, por graça e obra da vida, caminhamos num mesmo sentido, mesmo que por caminhos diversos. E sob a égide dos versos, das metáforas e da poesia espargida, fizemos o pacto dessa fraternidade. Juntos seguimos. Sempre, sempre, sempre, e cada vez mais.

Com um amor que precede e transcende o verbo, te amo, minha irmã!

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Irmão

A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

Roberta Tostes Daniel

 

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Lançar um livro depois de oito anos me dedicando a escrevê-lo foi algo transformador. Por isso, não consigo ser o mesmo depois de ter lançado Trítonos – intervalos do delírio. Olho para os meus locais de escrita e noto que eles hoje estão esperando para serem povoados por novas obsessões, novos projetos, novas histórias. É nesse estado de espera que me encontro um pouco desde o lançamento, como se eu ainda estivesse me despindo de meu livro.

Hoje, “Trítonos – intervalos do delírio” é uma linda marca em mim, em minha vida, em minha história… Agradeço demais à Editora Patuá, e ao querido editor e amigo Eduardo Lacerda por isso. Agradeço também à minha amada Fabiana Turci que, como leitora primeira, modificou tantas vezes e tão essencialmente os rumos de minha prosa nesse projeto. E à minha irmã Roberta Tostes Daniel, poeta de grandes alturas que me ofereceu o testemunho poético de sua leitura na linda orelha escrita para meu livro.

Meu livro também se tornou uma linda marca na parede de minha casa. O querido Leonardo MAthias presenteou “Trítonos” com uma capa simplesmente fantástica. Lembro do deslumbramento ao vê-la pela primeira vez. Era diferente de tudo quanto eu havia pensado, em termos de referências visuais. Era uma nova leitura e uma recriação do meu livro, com a distância de um leitor — algo que me era impossível fazer como autor. E, por isso mesmo, era maior do que a minha imaginação poderia projetar. Sim, nesse caso, o real foi de um maravilhamento que desconcertou o imaginado.

Quando adquiri a arte original de minha capa, descobri que o Leo fizera um trabalho incrivelmente plural. Na verdade, são duas imagens distintas, que mudam conforme o lado a partir do qual a obra é observada. Descobri poder usá-la de modos diferentes, se desejo evocar a visão interna de uma sacerdotisa ou as amplas asas de uma harpia. Estava devendo essas fotos para o querido Leo MAthias. Com uma alegria imensa, divido-a com ele e com todos meus amigos. Dividir alegrias e belezas é, na verdade, multiplicá-las. A arte não se cansa de me ensinar isso.

E meu livro está à venda no site da Editora Patuá (acesse aqui). E está muito bem acompanhado, com cerca de 350 títulos de autores contemporâneos. Vale muito explorar seu catálogo!

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Diante da força de um escrito, em algumas condições nos esquecemos de que quem escreve o faz a partir do lugar que ocupa no mundo. A aristocracia periférica de um Jorge Luis (Borges), escritor ao mesmo tempo europeu e argentino; o provincianismo de um menino de Cordisburgo chamado João (Guimarães Rosa), capaz de colocar muita filosofia na boca de seus personagens sertanejos; e a origem negra de um certo Joaquim Maria (Machado de Assis), cuja cor foi desbotada nos livros de história da literatura, importam menos, quando eles são lidos, do que a chamada “grandeza universal” de suas obras. Mesmo quando elas têm cores essencialmente regionais.

O mesmo não ocorre com quem não pode ter seus traços tão facilmente apagados na estrutura da sociedade. A cor de um Afonso Henrique (de Lima Barreto), a sexualidade de um Caio (Fernando Abreu), o gênero de uma Cecília (Meireles) ensejam muito frequentemente debates sobre o lugar que ocupam e a partir do qual escrevem. Por quê?

Parece-me muito evidente que a literatura escrita por homens cisgêneros, brancos (ou embranquecidos) e heterossexuais é recebida como literatura universal. E o que é escrito por mulheres, por transexuais, por gays ou por negros, o que seria? Se, por um lado, a análise a partir do lugar de enunciação de quem escreve só costuma valer para quem ocupa lugares periféricos na própria periferia do capitalismo que é o nosso país, por outro marca um ato de resistência, ao demonstrar que a humanidade se engendra, complexa e plural, em todos, e que existem vozes imensas relegadas a um absurdo silêncio.

O livro “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo, pode ser visto como uma realização estética dessa resistência, ao ressoar a voz de uma multidão habitualmente silenciada. Uma multidão de mulheres negras e de filhos dessas mulheres. O que ouvimos é a sua humanidade, e não a voz de um esteriótipo engessado, de um personagem-tipo cobaia de teses sociológicas.

Antes que o leitor enverede por qualquer história, a primeira frase da Introdução à obra, escrita por Jurema Werneck, já adverte que “A mulher negra tem muitas formas de estar no mundo (todos têm).” Parece óbvio, mas alguns de nós temos o privilégio de nos esquecemos disso com assustadora frequência, porque podemos apagar a própria existência dessas mulheres. No entanto, a literatura de Conceição Evaristo é um grito de resistência que nos recorda desse fato e dessas vidas.

Com um realismo complexo e repleto de poesia, mas às vezes narrando alegorias míticas, nos encontramos com um enorme caleidoscópio de mulheres de todas as idades: Ana, Duzu, Maria, Natalina, Salinda, Luamanda, Cida, Zaíta, Bica. Enquanto algumas dessas mulheres morrem de balas achadas ou perdidas, outras fazem cooper em Copacabana antes do trabalho. Há as que choram seus maridos mortos, as que são linchadas e as que amam — seus homens ou suas mulheres. Uma aborta e depois aluga seu ventre. Outra realiza uma viagem em busca da lembrança da cor dos olhos de suas mães…

conceicao-evaristoCuriosamente não tem nome a mulher que faz essa viagem, ao mesmo tempo íntima e mensurável em quilômetros, de retorno a Minas, após acordar bruscamente se perguntando de que cor eram os olhos de sua mãe, no belíssimo primeiro conto que nomeia o livro. Talvez o nome dessa personagem seja Conceição. Pelo menos, na minha liberdade leitora, foi assim que a chamei, lutando, no entanto, para não confundir a personagem com sua criadora. Isso porque Conceição Evaristo, a autora, reside hoje no Rio, onde se formou em Letras pela UFRJ e se tornou mestra e doutora em Literatura, mas nasceu e cresceu numa favela em Belo Horizonte.

Seu “Olhos d’Água” traz múltiplas histórias, repletas de intensidades por vezes brutais e doridas, protagonizadas por mulheres negras, como a autora, numa feliz conjunção entre o lugar de enunciação e a voz que artisticamente se produz. Não cabe a mim validar qualquer experiência. Na posição de leitor, o que desejo aqui é dizer como me chegaram os ecos das histórias desse livro, histórias que precisam ser lidas, pois certamente necessitavam ser escritas e, no conjunto, testemunham que cada mulher negra, sobre quem geralmente não se fala e a quem raramente se dá voz, carrega em si um universo, um infinito particular. Isso é óbvio, mas nem sempre é fácil enxergar o óbvio. Ainda mais quando ele é esmaecido pela naturalização do silêncio sobre muitas vidas.

Termino esse pequeno itinerário de leitura partilhando o assombro e o alumbramento que me trouxe o final do conto “A gente combinamos de não morrer”, por sua belíssima ode à palavra, afirmando que a escrita também pode ser um lugar.

E fui escrevendo mais e mais. (…) Na verdade, naquele momento, eu já estava arrependida e queria voltar para o meu lugar. Se é que tenho algum. Mas escrever funciona para mim como uma febre incontrolável, que arde, arde, arde… (…) Gosto de escrever palavras inteiras, cortadas, compostas, frases, não frases. Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida. Outro dia, tarde da noite, ouvi um escritor dizer que ficava perplexo diante da fome do mundo. Perplexo! Eu pedi para ele ter a bondade, a caridade cristã e que incluísse ali todos os tipos de fome, inclusive a minha, que pode ser diferente da fome dos meus.

(…)

Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro. Tenho fome, outra fome. Meu leite jorra para o alimento de meu filho e de filhos alheios. Quero contagiar de esperanças outras bocas. (…) Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito…

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