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Archive for fevereiro \29\UTC 2016

A página do Nube – Núcleo Brasileiro de Estágios publicou nesta segunda-feira (29/02) minha entrevista para o programa Prefácio da TV Nube. Nesse bate-papo com a Fernanda Martinelli, falo sobre o meu livro Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá), além de conversar um pouco sobre leitura e escrita.

Apresentação: Fernanda Martinelli
Imagens: Igor Castro e Welder de Lavor
Edição: Igor Castro
Direção: Mauro De Oliveira

A entrevista foi um dos destaques de hoje por lá.

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Na festa que quatro anos da Editora Patuá (há pouco mais de um ano, portanto), voltei acompanhado por dez amuletos, além de duas garrafas de cerveja. Entre esses amuletos, estava Des. caminhos, o livro de Adri Aleixo. Nessa ocasião, ela me disse que seu livro era para se ler num único ato, numa tarde de sábado — imaginei uma tarde chuvosa, com cheiro de terra subindo e abraçando o olfato acostumado ao asfalto dessa selva de pedras a que hoje chamo de minha cidade, por adoção e no provisório de todo estar. Na primeira folha em branco do livro, sua caligrafia me faz “um convite para des. caminhar entre pétalas e estilhaços”.

Dos amuletos que vieram comigo após a festa de 4 anos da Editora Patuá, em 20 de fevereiro de 2015.

Dos amuletos que vieram comigo após a festa de 4 anos da Editora Patuá, em 20 de fevereiro de 2015.

Já faz algum tempo que respondi a esse convite e me coloquei, des. caminhante, nas estradas impressas dessas páginas. Em setembro terminei o livro e em outubro comecei a escrever esse texto, que acabou interrompido pelo incessante fluxo de dias corridos. Mas lembro bem que adentrei o livro como num orbe repleto de sonhos e quimeras, pétalas e estilhaços, delicadezas e rios… E, claro, de montes, desses típicos dos horizontes dessas Minas Gerais. Logo no início, uma revelação (ou uma re-lembrança)  me preparou para a natureza dos poemas que me esperavam: Poético é o Estado Físico da Matéria.

Os poemas ali devem ser lidos com todo o corpo, com “orvalho no olhar” e “os pés cheios de inundação”. Como leitor, ecoei a súplica desses versos: “me pegue e me leve / para um desses seus / poemas.” Mas a verdade é que eu já estava neles, des.caminhando com os olhos, atendo ao momento nos quais se “desprende um clarão / para sublimar insanos”.

Os versos de Adri me evocavam tardes chuvosas, nas quais a gente vai se “desconhecendo a partir do que falavam / ora pétala / ora erva”. Talvez porque seu livro inteiro me evoque aquela imagem que ela me ofereceu numa conversa: “um livro para se ler inteiro numa tarde de sábado (que imaginei chuvosa). Ainda que eu tenha me deslocado bastante, na ordem prática dos dias, desse ambiente de leitura, ele pulsa no livro inteiro. Encenei meu papel de leitor em três atos, quase cíclicos. O primeiro, numa noite, voltando do trabalho de ônibus. O segundo e maior, numa manhã quente de domingo, enquanto a casa ainda dormia. E o último ato, repetindo o primeiro, também dentro de um ônibus, mas com a leitura terminando antes que eu chegasse ao meu destino — e, com isso, me ficaram reverberando os poemas finais pelo resto do trajeto. No poema Des.caminhos, leio que “Foi refazendo caminhos que me permiti / necessária”. O poema seguiu “Adejando rios / Desfolhando noites.” Fiquei com essas imagens ressonantes, antes de me dirigir ao poema derradeiro, Des.caminhos II — “Coisa de rir e de sonhar”! Deixo-o inteiro aqui:

Na ida todo santo ajuda
mas na volta
houve tanto alumbramento
tanta iluminura.
Coisa de rir e de sonhar.

Esses versos são uma bela metáfora sobre a escrita. Aliás, são muitas as alusões à escrita, à leitura e a linguagem. Inda no primeiro ato de minha leitura, deparei-me com um poema que, sem pudores, ordena: “Tire sua roupa e leia este poema / você tirou os seus sapatos para empinar a pipa / Para que servem as máscaras”. No percurso desse poema, ainda me deparo com a seguinte preocupação: “não deixe amarelar as palavras como se amarelam as flores”. Mal saído desse alumbramento, sou tragado pelo início espantoso de Fonemas: “Ele inaugura linguagens / no percurso do meu corpo”. A poeta, que se diz “Vestida de chuva / e plena de encantos”, anuncia e partilha Do Verbo que se encarna em todo leitor e todo escriba:

A palavra estilhaçou meu peito
e o que pulso
É poesia.

É poesia, pulsante e em estado puro, o que encontrará todo leitor que se aventurar por esses Des. caminhos.

Des. caminhos, de Adri Aleixo (Patuá, 2014).

Des. caminhos, de Adri Aleixo (Patuá, 2014).

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Nos últimos dias de janeiro, mandei um exemplar de meu Trítonos – intervalos do delírio (Editora Patuá) para a Isabella Lubrano, do Canal do Youtube Ler Antes de Morrer. A Isabella trabalhou comigo, na época em que estagiou no lugar onde trabalho até hoje. Pouco depois de lançar o meu livro, um grande amigo meu que trabalhou conosco, o Leo Pascoal, me lembrou que ela estava com esse ótimo canal sobre livros no Youtube, que tem a audaciosa proposta de resenhar 1001 livros… ou morrer tentando.

Mandei meu livro após assistir aos primeiros vídeos. Mas só depois do envio desse livro é que assisti aos primeiros vídeos chamados de “Book Haul”, em que ela mostra (a cada mês) as obras que foram enviadas ao canal por editoras, expectadores e escritores. Sim, Ler Antes de Morrer (e isso só vim a descobrir depois do envio de meu livro) faz questão de abrir um espaço para divulgar obras de novos escritores.

Nesta terça-feira (23/02), Isabella publicou o “Book Haul” de fevereiro. Além da alegria de ver meu livro apresentado no canal (e em muito boa companhia!), fiquei muito feliz que ele tenha sido apresentado a partir da evocação de memórias. E pensando que “a imaginação é a memória enlouquecida”, como belamente definiu o escritor Carlos Kiffer no Documentário com os Autores do livro História Íntima da Leitura (realização minha, da Fabiana Turci e do Paulo Mainhard), nada mais propício à apresentação desse meu livro.

Book Haul de Fevereiro do Ler Antes de Morrer (a partir de 7 min e 26 seg):

Documentário com os autores do livro História Íntima da Leitura (realização: Paulo Mainhard, Fabiana Turci e Teofilo Tostes Daniel):

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(para Eduardo Lacerda)

Vejo a poesia espalhada
pelo caminho dos ventos,
pelos meus olhos atentos,
pela cidade asfaltada.

Outro dia de folia,
em que um homem é arcano
de seu destino profano
de se fazer melodia.

Com a corda no pescoço
e os dois pés na corda bamba
se equilibra o utopista.

Aos poucos ergue um colosso
que em tinta e papel descamba –
é o sonho que aqui se avista.

com Eduardo Larcerda, no relançamento de Trítonos - intervalos do delírio, durante a Festa de 5 anos da Editora Patuá.

com Eduardo Larcerda, no relançamento de Trítonos – intervalos do delírio, durante a Festa de 5 anos da Editora Patuá.

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Uma das primeiras notícias que me chegou no sábado de carnaval antecipava as cinzas da então distante e futura quarta-feira. No dia anterior (5 de fevereiro), morria Lohana Berkins, uma das principais referências do movimento de travestis e transexuais na Argentina. A informação me chegou por um texto da Daniela Andrade.

Ao saber do ocorrido, lembrei do assombro e da admiração que senti quando li pela primeira vez sobre Lohana. Era uma reportagem sobre a Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, fundada por ela, repleta de análises contundentes sobre preconceito e exclusão da população trans*. No entanto, com mensagens capazes de aflorar esperança e desejo de lutar por uma outra realidade possível.

Lohana Berkins, fundadora da Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, para Travestis e Transexuais

Lohana Berkins, fundadora da Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, para Travestis e Transexuais.

Tomar ciência de sua morte acabou me dando o ensejo, no entanto, de conhecer um pouco mais da história, das ideias e do legado dessa travesti que foi expulsa de casa e, com isso, obrigada a se prostituir a partir dos treze anos de idade para sobreviver. Mesmo com uma trajetória de luta e rebeldia, Lohana foi ainda a primeira travesti a se tornar funcionária do Estado, na assembleia de Buenos Aires, ao ser contratada pelo então legislador portenho Patricio Echegaray.

Sua trajetória incomum, capaz de agregar apoio de tantas pessoas em torno de uma causa, já é motivo de admiração. Mas a leitura de algumas palavras de Lohana Berkins me impeliu a dar início às publicações quinzenais de 2016 com este texto, neste meu “lugar de ensaiar com as palavras”. Meu objetivo aqui é celebrar sua memória de luta e resistência, e fazer com que pessoas que eventualmente leem o que escrevo e não ouviram falar dela, quando ainda era viva, possam conhecê-la.

“Si pudiera nacer de nuevo y elegir, elegiría ser travesti” – A militância de Lohana tem destaque desde pelo menos 1994, quando fundou a Associação de Luta pela Identidade Travesti e Transexual (ALITT). Foi a partir dessa organização que a questão do direito à identidade de gênero começou a ganhar visibilidade na Argentina.

Em 2000, sua notoriedade alcançou uma esfera além do movimento trans*, quando enviou uma carta à então secretária de Promoção Social do governo da cidade de Buenos Aires, solicitando uma audiência. O presidente argentino na época, Fernando de la Rúa, havia dito que queria acabar com a prostituição nas ruas da cidade. Lohana viu nessa afirmação um excelente motivo para exigir trabalho e dar visibilidade à discriminação contra as travestis no mercado de trabalho formal.

A carta enviada por Lohana contou com assinatura de apoio de mais de duzentas pessoas, entre as quais Nora Cortiña, cofundadora e hoje atual presidenta da Associação Mães da Praça de Maio, o escritor David Viñas e o artista plástico León Ferrari. Nela, Lohana ressaltava que

El motivo de mi carta responde a que jamás pude acceder a un trabajo. Posiblemente, esta misma le resulte familiar como todas las que usted recibe a diario. Pero yo me atrevería a decirle que no. Mi situación de no ocupada no radica tan sólo en la falta de trabajo, sino que por mi condición de travesti me veo obligada a ejercer la prostitución callejera… (1)

Em uma entrevista posterior ao diário Página 12, ela disse estar convencida de que o Estado legitima a discriminação contra a população trans. Tanto que era possível um político prometer, em campanha eleitoral, “uma cidade sem travestis”, ao mesmo tempo em que os meios de comunicação incitavam as pessoas a se organizarem para varrer mulheres e pessoas trans que exerciam a prostituição em determinados bairros de Buenos Aires.

Nadie hace el mínimo intento por ocultar su travestofobia. (…). Si un cartel dijera por una ciudad sin judíos, sin discapacitados, o sin mujeres, ¿cuántos hubiesen saltado a repeler la barbarie? (2)

Nesse mesmo ano, ao ser entrevistada pelo jornal do Partido dos Trabalhadores Socialistas, Lohana fez um comovente balanço de sua vida de lutas:

Mi vida fue muy dura pero, a pesar de todo esto, si pudiera nacer de nuevo y elegir, elegiría ser travesti. Sería travesti, negra, boliviana, judía, la que se hizo abortos, la mujer golpeada, asesinada por el policía, la que encarcelaron. Elegiría todo eso de nuevo. Porque el triunfo más grande que voy a tener al final de mi vida es que voy a tener la seguridad de que jamás, mientras fui consciente, soporté una discriminación, una exclusión, ni en público ni en privado. Me rebelo a todo esto. Contra la discriminación, la exclusión, la represión seguiré luchando el resto de mi vida… (3)

Após toda projeção de suas reivindicações, Lohana foi contratada como assessora do legislador portenho Patricio Echegaray, tendo trabalhado nessa função até 2002. Nesse ano, foi aprovada, mas impedida de se inscrever, com seu nome social, para ser professora em uma escola pública. Isso lhe deu ensejo para que fizesse uma denúncia à Defensoria Pública de Buenos Aires, que conseguiu uma ordem para que as autoridades respeitassem sua identidade de gênero.

Lohana Berkins morreu, mas sua fúria travesti segue viva.

Lohana Berkins morreu, mas sua fúria travesti segue viva.

“Somos traidoras del patriarcado” – Com um forte discurso feminista, Lohana provocava as estruturas da sociedade ao analisar as condições de vida das travestis e mulheres transexuais, frequentemente vítimas de exclusão e de constantes agressões, vivendo à margem da sociedade, impelidas à prostituição e com baixíssima expectativa de vida.

Somos traidoras del patriarcado y muchas veces pagamos esto con nuestra vida. Brevemente dicho, las travestis sufrimos dos tipos de opresión. Por un lado, la opresión social basada en el imaginario colectivo de lo que es una travesti: misterio, ocultamiento, perversión, contagio, etc. El patriarcado nos castiga por “renegar” de los privilegios de la dominación que nos adjudican los genitales con los cuales nacemos. (4)

Mesmo tendo vivido boa parte de sua vida à margem da sociedade, jamais desistiu de exigir do Estado o reconhecimento de sua existência e de sua identidade. Em 2010, foi uma das importantes lideranças da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, uma aliança de diversas organizações que impulsionou a aprovação da Lei de Identidade de Gênero da Argentina, uma das mais avançadas do mundo, aprovada pelo parlamento em maio de 2012.

Lançamento da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, em 2010.

Lançamento da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, em 2010.

“El motor de cambio es el amor” – Lohana Berkins esteve internada durante várias semanas numa clínica de Buenos Aires, antes de seu falecimento. Diante do agravamento de seu quadro de saúde, ela divulgou uma carta, por meio de uma companheira de militância. Como Lohana morreria no dia seguinte, aquelas foram suas últimas palavras. Deixo-as ecoando, à espera do tempo da revolução – que é agora –, também convencido de que o motor da mudança é o amor:

Queridas compañeras, mi estado de salud es muy crítico y no me permite reunirme personalmente con ustedes. Por eso quiero agradecerles sus muestras de cariño y transmitirles unas palabras por medio de la compañera Marlene Wayar, a quien lego esta posta. Muchos son los triunfos que obtuvimos en estos años. Ahora es tiempo de resistir, de luchar por su continuidad. El tiempo de la revolución es ahora, porque a la cárcel no volvemos nunca más. Estoy convencida de que el motor de cambio es el amor. El amor que nos negaron es nuestro impulso para cambiar el mundo. Todos los golpes y el desprecio que sufrí, no se comparan con el amor infinito que me rodea en estos momentos. Furia Travesti Siempre. Un abrazo. (5)

"Hay que tener mucho coraje", desenho de Andrea D’Atri.

“Hay que tener mucho coraje”, desenho de Andrea D’Atri.

Notas
_____

(1)
La Izquierda Diario: Lohana Berkins: “Si pudiera nacer de nuevo, elegiría ser travesti”. 6 de febrero de 2016. Disponível em http://laizquierdadiario.com/Lohana-Berkins-Si-pudiera-nacer-de-nuevo-elegiria-ser-travesti/.

(2)
Página 12: El drama de buscar vida nueva. 23 de abril de 2000. Disponível em: http://www.pagina12.com.ar/2000/00-04/00-04-23/pag22.htm.

(3)
La Izquierda Diario: “¿No es una obscenidad una Constitución que defiende la propiedad privada antes que la vida?”. Reprodución de la entrevista de Lohana Berkins publicada en La Verdad Obrera Nº 64, la prensa partidaria del Partido de los Trabajadores Socialistas, del 17 de mayo del 2000. 6 de febrero de 2016. Disponível em  http://laizquierdadiario.com/No-es-una-obscenidad-una-Constitucion-que-defiende-la-propiedad-privada-antes-que-la-vida.

(4)
Lohana Berkins. Un itinerario político del travestismo. In: Diana Maffía (compiladora): Sexualidades migrantes – Género y transgénero. Páginas 127 a 137. 2003. Disponível em: http://dianamaffia.com.ar/archivos/sexualidadesmigrantesdm.pdf.

(5)
La Nacion: Murió la activista trans Lohana Berkins. 5 de febrero de 2016. Disponível em: http://www.lanacion.com.ar/1868550-murio-la-activista-trans-lohana-berkins.

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