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Archive for novembro \22\UTC 2015

A dez dias do lançamento de meu livro “Trítonos – intervalos do delírio” (Patuá, 2015), além de sentir uma ansiedade boa por ver o corpo do livro feito de celulose e tinta, palavras e espaços vazios para o leitor, é inevitável olhar para trás e me assombrar com a constatação de que esse livro condensa e testemunha oito anos de minha escrita. Não que eu tenha me dedicado exclusivamente, durante todo esse tempo, ao livro que nasce. Nesse período, publiquei “Poemas para serem encenados”, participei da coletânea “História Íntima da Leitura”, escrevi poesia e prosa neste blog – ao qual imprimi uma periodicidade de publicação desde o ano passado – e participei de algumas oficinas de escrita. Além disso, escrevi e tenho escrito coisas inéditas, para projetos futuros. Mas desde 2007 que as três principais histórias desse livro me acompanham. E a partir do dia 2 de dezembro, esse livro deixará de ser exclusivamente meu – e eventualmente das pessoas próximas com quem tenho a alegria de compartilhar meus processos de escritura – para ser do mundo. “Porque a gente desaparece maravilhosamente entre as palavras”, diria um querido amigo que está intimamente ligado ao nascimento das duas primeiras histórias de “Trítonos”.

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Foi na casa em que Marcelo Tosta morava, no centro de São Pedro d’Aldeia, que sugiram os primeiros esboços de “Menina de Aruanda”. Foi lá que li os textos que habitavam o caderno verde de Micheli Coutinho – que hoje é fotógrafa e também mora em São Paulo – de quem roubei o nome e um pouco do êthos de minha personagem principal no primeiro conto deste livro. E numa de minhas idas a São Pedro, no segundo semestre de 2007, fui levado a uma gira num terreiro que funcionava em ermo local no distrito da Cruz – área rural daquela pequena cidade na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Todo esse conjunto de impressões fermentou minha escrita nos meses seguintes, até que eu terminasse a primeira história do livro. O livro, no entanto, ainda não existia. Não da mesma forma, pelo menos. Minha ideia na época era reunir contos que falassem de arte, talvez cada um focado numa das seis artes do mundo clássico (música, artes cênicas, pintura, arquitetura, escultura e literatura).

Ainda envolto nessa ideia primeira para um livro de contos, comecei a segunda história, concebida meio ao acaso a partir de um evento curioso ocorrido em minha casa. Num período em que o Marcelo e uma outra amiga estavam hospedados por lá – essa distância no corpo da escrita diz que não é a mesma casa de hoje –, eu acordo no meio da madrugada com um barulho muito alto – qualquer coisa caindo no chão. Saio do quarto e encontro os dois sentados, um pouco sem jeito. Marcelo me explica que o porteiro havia acabado de interfonar, pois um vizinho havia reclamado – do barulho, penso eu – do cheiro da comida que ele estava fazendo. Ainda com sono, dou uma pequena bronca, mais por causa de ter acordado com a conversa alta e os barulhos que eles estavam fazendo. Vou deitar e penso que aquilo é um ótimo argumento para uma história. Segundo o relato do Marcelo e da Karine, minutos depois eu volto com uma cara de alucinado e anuncio o destino literário daquele fato anedótico. Pego papel e caneta e volto para o quarto, que agora fica com a luz acesa por alguns minutos. Ali começara a nascer “Gritos do Açafrão”. Por alguns meses, escrevi metade da história, mas ela ficou em suspenso por quase um ano porque me faltavam os elementos musicais – já que o personagem principal era um pianista. Foi depois da leitura de “O som e o sentido”, de José Miguel Wisnik, que consegui terminar o conto. O livro me fora apresentado e emprestado pela minha amada Fabiana Turci, antes mesmo de começarmos a namorar. Ainda antes de namorarmos, ela foi a primeira leitora crítica – e, para minha alegria, entusiasta – desse conto.

A última história foi a que conduziu o livro a tornar-se o que hoje ele é. Intui sua ideia inicial após visitar a Oficina Brennand no Recife, em 2009, levado pela querida amiga Marina Barreto Gama e sua irmã Raquel. Mas só três anos depois comecei a escrevê-la. “Paisagens de sal”, o maior dos três grandes contos do livro, consumiu, até sua conclusão, três anos de escrita e pesquisas constantes, além de um mergulho no universo da loucura e o desenvolvimento de um olhar desconfiado em relação às certezas provisórias do discurso psiquiátrico. Por trabalhar com o tema das artes plásticas, mergulhei no universo da arte contemporânea, sobretudo a partir do surrealismo, o que me permitia traçar uma linha de contato com Hieronymus Bosch e suas representações da loucura – especialmente em pinturas como “A extração da pedra da loucura”, “A Nave dos loucos” e, no que diz respeito às angústias e ao delírio, “As Tentações de Santo Antão”, de onde, aliás, extraí a figura do demônio que tortura uma orquestra inteira sob a égide dos trítonos. Mas não bastava uma arte que desse voz ao inconsciente, pois o universo do conto era traçado a partir das narrativas de loucos. Foi inevitável, portanto, me deparar com a figura de Arthur Bispo do Rosário e, a partir dela, conhecer as histórias e mazelas da psiquiatria no Século XX. Como ocorre com meu personagem principal – um psiquiatra – também eu passei, no decorrer do desenvolvimento dessa última história, a desacreditar dos diagnósticos e das profilaxias psiquiátricas. Se os meus motivos interessam menos, os motivos do meu personagem foram alimentados sobretudo com as narrativas dos horrores cometidos no manicômio de Barbacena, narrados em pormenores por Daniela Arbex no livro Holocausto Brasileiro.

Com as três histórias concluídas, a obra me parecia pronta. No entanto, minha amada Fabi ainda me sugeriu acrescentar algo que conduzisse e interligasse os três contos a partir de uma voz que trabalhasse o aspecto feminino evocado nas três histórias. Não dei gênero algum a essa voz, para que qualquer pessoa pudesse se inserir nesse lugar. Pessoalmente, inclusive, não sei sequer apontar quem seria a persona por trás dessa voz – deixo ao leitor trabalhar essas hipóteses. Mas submeti a figura que narra a uma força e uma autoridade, ao mesmo tempo, mística e feminina, permitindo que às experiências dos três contos fossem aderidas novas camadas de significação a partir de uma noção de empoderamento do feminino, num mundo ainda submetido – e desgastado – pela violência da dominância masculina. Faltavam, portanto, serem escritas as quatro narrativas de interlúdio. E só soube definitivamente dessa necessidade quando ficaram prontas. Três delas estão publicadas na Mallarmagens revista de poesia e arte contemporânea. Já a quarta, que fecha o livro, assim como os três grandes contos, estão aguardando os leitores dentro da obra, que será lançada no dia 2 de dezembro, na Casa das Rosas, a partir das 19h. Todos estão convidados a mergulhar nesse labirinto de delírios sussurrados pelo ruído branco a que habitualmente chamamos silêncio.

Divido, por fim, a belíssima orelha do livro, escrita pela minha amada irmã e grande poeta Roberta Tostes Daniel:

“Trítonos – intervalos do delírio” desenha um mapa alucinatório, ponto por ponto, qual partitura, sobrepondo quaisquer linguagens aos ditames da experiência. Segue, ao longo de suas três histórias, um código denso e virulento, insólito e perigoso, expondo traços e máscaras do humano. A vilania incrustada nos despojos da civilização e em arraigados hábitos circunavega a inocência primordial da infância, os cumes da fantasia musical e dos labirintos da loucura, liberando a sordidez da dita normalidade, dos claustros de uma consciência socialmente martirizada. Sua escala chega ao trítono, som impossível porque persecutório, onde só é possível enfrentar a dissonância, e a cada leitor desnudar a obra “para descobri-la em seus próprios termos, sendo que nessa leitura final estará sozinho”. Após a tríade dessas geografias que se entretecem com meticulosidade de aranha, a solidão é uma instância-ritual. Referências se encontram escalavradas, rosários imiscuídos a tradições e povos margeados. A música tenta soar como silêncio ou como fogo? O que é ruído branco? Sendas de impossíveis transcendências de sangue e paisagens de sal. A palavra atenta à ira e à profecia, vacante e grávida de sentido. Levante de desejos plasmados por cheiros e volúpias indizíveis. Um livro dos desatinos, um lugar: corpo, palavra, prosódia. Num ritmo lento ou vertiginoso, sem jamais perder de vista a profundidade do rasgo da pele. Os nomes dos personagens são pistas, talvez falsas. A precisão das informações pode estar chagada pela invenção. A linguagem como o panteão do (im)possível.

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Trítonos – intervalos do delírio
Teofilo Tostes Daniel
Contos
São Paulo: Patuá, 2015
168 p.
Formato: 14×21.
ISBN: 978-85-8297-255-7
Preço: R$ 38,00 + frete
Venda no site da Editora Patuá.

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(em conversa com Ricardo Escudeiro)

Nas vozes angelicais
ou nas gargalhadas de enxofre,
todas as doze notas
se encontram em rigorosa
correspondência.

O diabo em música
altera apenas
os intervalos.
Seu ludíbrio consiste
em descartar o que não é
inteiro.

A inteireza de três tons
parece desafinar
o mundo todo.
Soa como ruído
e vida proscrita dos cantos
litúrgicos.

O corpo espera sôfrego
a resolução e repete,
com o ouvido:
trítonos são os intervalos
do delírio.

Hieronymus Bosch - Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Hieronymus Bosch – Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Escrito a partir do poema “quinta diminuta”, publicado em fevereiro deste ano na Mallarmagens — Revista de Poesia e Arte Contemporânea, numa série de três poemas de Ricardo Escudeiro. Faço dele ainda um primeiro chamamento para meu livro Trítonos — intervalos do delírio (Editora Patuá), a ser lançado em breve.

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