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Archive for fevereiro \15\UTC 2015

Não quero competir com a folia que se alastra. As urgências do carnaval me deixariam algum leitor? Algum par de olhos desejoso de escritura e diálogo? Penso que é impossível querer disputar com essa torrente do século, essa efemeridade arrebatadoramente sôfrega, esses quatro dias de celebração do corpo.

Pieter Bruegel, o Velho - A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Pieter Bruegel, o Velho – A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Os tempos de carnaval sempre me lembram o dionisíaco personagem Mynheer Peeperkorn, de A Montanha Mágica. Apesar de seu discurso desarticulado e, muitas vezes, sem sentido, ele acaba se tornando um mestre para o personagem principal, Hans Castorp. Peeperkorn se situa além e fora dos debates travados entre o humanista Lodovico Settembrini e o jesuíta totalitário Leo Naphta.

Colocando-se acima dos discursos em choque — que representam uma espécie de síntese das forças políticas e ideológicas que disputam espaço e poder na sociedade europeia pouco antes da I Grande Guerra –, a personalidade de Peeperkorn faz com que tudo quanto ele diga não importe tanto quanto sua própria presença, já que tudo nele é fascínio. Seu carisma faz com que todos os que dele se aproximem acabem se transformando, de repente, em súditos, o que faz Castorp concluir que a civilização não é um mero produto do intelecto, mas que sua construção depende, antes, do entusiasmo e da embriaguez.

Associo Peeperkorn mais à minha ideia de carnaval do que ao carnaval em si. Diante disso, não desejo obrigar minha escrita a competir com as noções de folia que herdo, sobretudo, do êthos desse fascinante personagem e de músicas do meu repertório afetivo. Em razão dessa festa, que em mim é contemplação e serenidade, deixo para depois tudo o mais que eu poderia querer escrever neste espaço.


A Noite dos Mascarados – Chico Buarque & Elis Regina

 

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