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Archive for janeiro \29\UTC 2015

Neste dia 29 de janeiro, quero me juntar a vozes quotidianamente caladas que pedem ouvidos que ouçam. Vozes de pessoas que passam invisíveis por nós, sem que tenhamos olhos de vê-las. Gostaria que este texto conseguisse propagar, por transdução, esse grito contido — levando adiante a força e a emissão dessas vozes sem alterá-las.

Hoje, celebra-se o Dia da Visibilidade Trans*, data que alude ao lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. Aproximei-me das pautas de pessoas trangêneras ao começar a pesquisar sobre o tema, por causa de um projeto literário. Mas conhecer as questões ligadas às chamadas identidades trans* é — que bom! — um caminho sem retorno. Em primeiro lugar, por ser impossível a indiferença ao conhecermos a urgência de suas pautas e a negação sistemática (ou, melhor dizendo, “cistemática”) de quase todos os aspectos ligados à sua cidadania. Em segundo lugar, por tornar-se impossível aceitar como natureza os diversos elementos que engendram nossa identidade e nosso ser no mundo.

No propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras.

Até há bem pouco tempo, eu não me sabia um homem cisgênero. Como a maior parte das pessoas cis, eu simplesmente ignorava esse termo. Isso equivale a dizer que, aos meus olhos, a minha identidade era experimentada como uma espécie de natureza. Isso não quer, no entanto, dizer que eu ignorasse que houvesse homens e mulheres trans*.

Para mim, reconhecer a cisgeneridade é um ato político. É compreender, em primeiro lugar, que eu ocupo um lugar específico no mundo, que tenho privilégios específicos por conta disso e que é a partir desse lugar discursivo que meu olhar se conforma. É, ainda, não aceitar como uma natureza a construção de minha identidade. E é, também, reconhecer minha liberdade para me determinar perante o mundo.

Eu sou alguém a quem todos sempre identificaram como pertencente ao gênero masculino e me identifico dessa forma. Mas, ao reconhecer que isso é uma construção, ganho ferramentas para questionar certos papéis que me são atribuídos pelo simples fato de eu ser homem cisgênero e heterossexual. Papéis esses que fazem com que alguns direitos que tenho, e que deveriam ser comuns a toda e qualquer pessoa, sejam, na verdade, privilégios.

Para mulheres ligadas às pautas feministas, esses questionamentos não são uma novidade, uma vez que o feminismo também questiona a suposta natureza feminina e os papéis de gênero designados a homens e mulheres. Essa, inclusive, não é uma discussão nova no feminismo. Logo no início de “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir já aborda questão:

“Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: o que é uma mulher?”

O mesmo também me parece valer para o movimento gay. A homossexualidade já foi considerada um crime e isso se refletia na linguagem. O mundo que via a prática homossexual como delito costumava se referir a ela pelo termo pederastia. Como homossexualismo, figurou na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, sob o número 320.0, até 1990, ou seja, até há muito pouco tempo. E o desejo por alguém do mesmo gênero não seria um comportamento esperado, pelos papéis heteronormativos destinados a homens e mulheres. Contra a naturalização da heteronormatividade se insurge o movimento gay.

É neste ponto que o meu espanto pela oposição ao termo cisgênero se dá. Existe um discurso dominante transfóbico que desconsidera a existência de homens e mulheres trans*. Essa lógica, espalhada e naturalizada pelo senso comum, considera que homens trans* seriam falsos homens, assim como mulheres trans* seriam falsas mulheres. Esse tipo de pensamento está impregnado na fala quotidiana. Mas também, de forma mais sutil, está presente no discurso médico cissexista, que designa como doente mental ou transtornada a pessoa que apresenta uma identidade transgênera — ou seja, uma identidade desconforme com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

Vejo o uso do termo cisgênero, que teve início no interior da comunidade trans*, como um fenômeno linguístico que abre a possibilidade de contestação da normatividade cisgênera — ou cisnormatividade. E os diversos modos de tentar silenciar esse uso contribuem para a oposição de pessoas transgêneras a pessoas normais. Por isso, não consigo entender que pessoas cisgêneras, aparentemente inseridas em lutas a favor de grupos oprimidos, recusem o termo cisgênero como se ele fosse um absurdo, ou até uma ofensa, sem atentar para as consequências disso. Deslegitimar o termo cisgeneridade é continuar aceitando que existam as pessoas trans* e as… biológicas! Uma outra forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans.

Quando não aceitamos a cisgeneridade, reafirmamos discursivamente que pessoas trans* são anormais, doentes. Ou ainda, lhes negamos mais uma vez o direito à existência. Aliás, existe toda uma construção social que aceita a cisgeneridade (essa coisa sobre a qual não se deve falar!) como uma norma compulsória — ou um “cistema”, como dizem as pessoas ligadas ao movimento trans*. Esse mesmo cistema que aceita como evidência natural a cisgeneridade compulsória designa as identidades trans* como uma doença. Sim, a transexualidade (designada patologicamente como transexualismo) é ainda considerada um transtorno mental e tem um número na atual Classificação Internacional de Doenças (CID-10): F64.0.

Quem argumenta que o termo cisgênero engendra um novo par opositivo (cisgênero/transgênero), construído de forma hierárquica e dicotômica, ou então que não seria possível designar a pessoa cisgênera como aquela que se adéqua às suas expectativas de gênero porque ninguém se encaixa totalmente a elas — como se o termo cisgênero significasse isso — me parece ignorar tanto onde se irrompe a noção de cisgeneridade quanto seu significado usual. Essa noção se movimenta dentro de discursos que consideram fluidas as categorias de gênero e que reconhecem a autodeterminação como um direito humano.

O termo cisgênero simplesmente designa o sujeito que se identifica como pertencente ao gênero que lhe foi designado ao nascer. Ele circuscreve a alteridade para o transgênero. Define o “Outro” e, por oposição, o próprio sujeito que fala. E, o que é mais importante, ele sinaliza que as pessoas trangêneras são sujeitos do discurso sobre si mesmas, e não objetos de análise definidos de fora de suas vivências.

Além disso, diferente do que algumas críticas costumam afirmar, a cisgeneridade não se refere a pessoas que se adequam à expectativa de seu gênero. Até porque o discurso de onde essa palavra emerge compreende o gênero como uma construção. Ele é, portanto, amplo e plural para sujeitos cisgêneros, trangêneros ou não-binários. O que frequentemente ocorre, porém, é que nós nos esquecemos de que nossa identidade nunca é fixa, que se trata sim de uma construção contínua, o que é válido tanto para pessoas cis como para trans*. Mas as pessoas que têm formas de proceder ou identidades esperadas e naturalizadas não são questionadas sobre quando se perceberam ou se tornaram aquilo que são.

Site Transfeminismo.com

Site Transfeminismo.com

Não vejo como é possível conceber e aceitar como naturais a exclusão e a invisibilidade das identidades trans*. E, para mim, o silêncio em torno da cisgeneridade está intimamente ligado a isso. Como aponta a Bia Bagagli num texto intitulado Cisgeneridade e Silêncio, “podemos entender que o silêncio funda a cisgeneridade”. “Esse silêncio”, ela aponta, “se dá ao mesmo tempo em que produz coerências e inteligibilidades às identidades dos sujeitos cisgêneros e interdições à plena identificação de gênero aos sujeitos transgêneros”.

Conhecer minimamente a transfobia generalizada em nossa sociedade me impele à luta pela quebra desse silêncio. Por essa razão, me uno hoje à blogagem coletiva pela visibilidade trans*, convocada pelo site Transfeminismo. Porque reconheço os privilégios advindos de minha posição de homem cisgênero heterossexual e sei da exclusão e da violência diariamente enfrentadas por pessoas transgêneras, julgo que não tenho o direito de lavar as minhas mãos e contribuir com a perpetuação desse silêncio…

Chamada de uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com

Veja a chamada para uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com


Nota: Reconheço aqui minha dívida, durante a escritura deste texto, à leitura ou à releitura de alguns escritos da Bia Pagliarini Bagagli, da Hailey Kaas e da Viviane V., no site Transferminismo.com, e da Leila Dumaresq no blog Transliteração, que abordam o tema da cisgeneridade. Muito obrigado a elas e a tantas outras pessoas que tenho lido ultimamente e que me dão a oportunidade de compreender um pouco melhor sobre as vivências trans*.

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“Corpo, cubismos, ventos metálicos, dialéticas pontuais. Ao teu aforismo solar anarquiza o meu desaforismo lunar.”
(Laysa Carolina Machado – A Morada Transitória)

Corpo em transe
não é corpo
errado,
pois não há outro eu
fora da carne.
Qualquer um procede
à constante transliteração
da pele que habita.

Corpo em trânsito
é o lugar
do ser no mundo.
Transitar pelo próprio
constructo corpóreo
é ato contínuo
de toda gente.

Corpo à margem
cumpre sentença
condenatória,
se for transtornado
de acordo com o juízo
dos contrassensos comuns.
Como se toda pessoa
não fosse transeunte.

Corpo transigente
ao que transborda
guarda em si
a herança
de seus muitos pretéritos.
Nele há rastos
de quilombos transeculares,
de povos em holocausto,
de bicho, de floras
e de rubros oceanos primevos.

Corpo transido
no traslado da vida
também vive —
palpitante.
O corpo é
morada
transitória
e única.

Corpo transformado
pelo tempo, pela ciência
ou pelas técnicas
arcaicas
do êxtase
é o que nos apresenta
ao mundo.
Somos somas.

Corpo é o transcurso
da identidade.


O título deste poema me chegou ao ver uma amiga do Facebook compartilhar uma notícia sobre o documentário A Morada Transitória (para assistir ao filme, clique aqui e digite a senha amoratrans), que aborda a história da atriz e professora Laysa Carolina Machado, primeira mulher transexual no País eleita para dirigir uma escola. Os muitos caminhos cibernéticos me levaram ainda ao vídeo de uma performance com trechos de um monólogo com o mesmo título, escrito e encenado por Laysa, de onde retirei a epígrafe do poema.

Esta publicação abre alas ao Dia da Visibilidade Trans*, celebrado no dia 29 de janeiro. A data alude ao lançamento pelo governo federal, em 29 de janeiro de 2004, da primeira campanha contra a transfobia no país: Travesti e respeito. Ela foi realizada em parceria com ativistas e organizações de pessoas trans* de todo país. Na ocasião, excepcionalmente, o quinzenário será antecipado, para falar do tema e lembra a data. Até lá!

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(para Fabiana Turci)

Trinta fragmentos
De trinta estrelas
Dançam pelo céu
E o espaço-tempo
Vira um carrossel
(Flash e Sépia – Guinga/Aldir Blanc)

I

Antes da linguagem
já existe a memória
de ser.
Memória feita de névoa
e instintos.

O corpo
é diminuta amplidão,
latifúndio sem fronteiras
com o mundo.

II

Quando a linguagem
desponta na boca,
também se desenham as fronteiras
de si.
Nomear o mundo
é ato de espanto contínuo.

Saber-se
é a primeira lição de alteridade.

III

Brincar com o silêncio
é arriscar-se no abandono.
Desejar a quietude,
mais do que tudo,
ainda que te desejem
ruidosa.

Verter-se
para si mesma.

IV

Nomadismo é lição
aprendida logo
no amanhecer de si,
antes mesmo das primeiras letras.
Talvez para que a memória
tenha algo que escape
à palavra.

Talvez para escrever
no fundo de si
o signo da impermanência.

V

Apoderar-se da permanência
de cada palavra.
Grafar no papel
como quem escreve
na própria pele.

Iniciar um inventário
de todas as suas casas.

VI

Ter sonhos recorrentes,
conferindo antiguidade
ao que se inventa
sem total controle.
No mais, saciar-se
com as desrazões da lógica.

E ainda assim
preferir nomear o inconsciente
de segredo.

VII

Sentir-se responsável
por alguém que nasce.
Tecer com isso
um longo fio de cumplicidade
com a sua matriarca.

Depois inventar jogos
para continuar na infância
das coisas.

VIII

Testemunhar a cisão
inevitável
de sua casa.
Ruir e se refazer.

Caminhar na direção
do fora.

IX

Não apenas mudar,
mas desejar a alteridade.
Encontrar meios e razões,
inda que com parcos recursos,
para cambiar rumos.

Engendrar os fundamentos
das próprias forças
e da recusa à crueldade.

X

Compreender que a distância
às vezes é um artifício
necessário.
Cortar laços.

Erigir muros
contra aquilo que dói.

XI

Adolescer e se apoderar
de novas dimensões
do corpo.
Sentir intimamente
as urgências.

Às vezes, confundir
dor com intensidade.

XII

Mergulhar em sonhos
olímpicos e na poesia.
Comungar com a natureza
dos peixes e dos seres
aquáticos.

Competir consigo
e vencer-se.

XIII

Alegrar-se em percorrer ruas
como se suas fossem.
Inventar para si um lugar
e desejar ardentemente
uma página em branco.

Escutar o silêncio
como um preparo para receber
o outro.

XIV

Compreender que a palavra
é um poder.
Apoderar-se de todo
papel em branco.

Constatar que o verbo
se faz constantemente
carne.

XV

Compreender que a justiça
é um poder corruptível.
Jamais assinar nenhum
papel em branco.

Desconfiar de todo verbo
que pretenda ser
carne.

XVI

Compreender que o pensamento
é um poder insubjugável.
Apoderar-se de si
como de um papel em branco.

Constatar-se verbo
que faz ebuliente
a carne.

XVII

Percorrer uma vereda
para se libertar da herança
que pesa e imobiliza.
Matar simbolicamente
os pais.

Depois disso, mudar-se
para uma ilha.

XVIII

Em desterro, tornar
todas as ruas percorríveis.
Inventar caminhos
para se perder
sem necessidade de chegar.

Abrir-se ao encontro
e desejá-lo.

XXIX

Insistir em passos
que não são seus.
Ainda assim,
desconstruir ainda mais a herança,
por dentro.

A experiência também pode
ser uma forma de se afastar.

XX

Insistir em passos
que não são seus
é insustentável.
É hora de tornar-se
aquilo que se está sendo.

Escolher-se, mesmo que distante
dos sonhos alheios.

XXI

Assumir o descompasso
entre o desejo que se herda
e aquele que brota.
Assumir que se quer
o que não tem utilidade direta
no mundo.

Regressar, ciente
de que nunca se volta ao mesmo ponto.

XXII

Descobrir a solidão
como fundamento
da incomunicabilidade.
Aproximar-se
do futuro.

Encontrar-se naquilo
que ainda será.

XXIII

Foi neste ponto que te conheci,
dividindo poesias
e manhãs de sábado.
Neste tempo eu não te queria,
e a exaustão e o cansaço
de minhas escusas
te fizeram dizer adeus
no auge do outono.

Mas deixaste sinalizada a abertura
de tua casa e teu corpo.

XXIV

Ainda querias me contar
das belezas que viste no mundo
e por isso me escreveste.
Disseste ver, em minha imagem que guardavas,
uma felicidade possível.

A partir de então, compartimos
nosso tempo, nossas palavras
e outros desobjetos.

XXV

Como importa mais o corpo,
minhas recusas sinalizavam
nova exaustão tua.
Não sei se o desejo do encontro
sobreviveria a outro adeus,
mas neste ponto
talvez eu já não me soubesse
sem ti.

Essa é a parte dizível,
mas nunca completamente explicável,
da brotação do meu amor
por ti.

XXVI

Quando desejamos que o encontro
e os despudores de nossas urgências
fosse a própria vida,
foi preciso inventar um lugar
para chamar de nossa casa.
Designar como Nossa Biblioteca
o lugar em que o que era meu
e o que não era
se misturou, primeiro no chão,
depois nas estantes.

Nomear como nossa vida
ao existir.

XXVII

Houve um tempo
em que mandamos imprimir
as histórias que nos cercavam.
Fizemos o filme
das nossas histórias íntimas
de leitura.

Povoamos nossa casa de amigos,
de sonhos nossos
e alguns importados.

XXVIII

Houve um tempo outro,
e tão contínuo,
em que precisei te procurar ao meu lado,
para te saber.
Eu te reconhecia a mesma
e, ao mesmo tempo,
te desconhecia.

Ainda assim, segui amando
teu mínimo eu
que permanecia.

XXIX

Venceste a desesperança,
o sentir caótico, o perder-se
de si,
o cigarro, as cruezas dissimuladas
e aquilo que não cabe
num nome.
Abandonaste sonhos velhos
que não mais resplandeciam
e jaziam como um peso morto.

Fizeste ressonar a tua
orquestra de papel.

XXX

Amo cada um dos trinta anos
que conformaram teu rosto
e teu existir.
Desejo viver ao teu lado,
ao menos, os próximos trinta,
povoar o mundo com os sonhos
que tivermos e inventarmos,
e fartar nossa casa de corpóreas
venturas.

Ensaio uma síntese
das trinta razões para eu te amar.

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Sempre gostei de trazer desafios arbitrários para minha escrita. Desafios formais ou temáticos sempre me interessaram. Lembro-me do espanto, quando li na infância — com sete ou oito anos –, num livrinho hoje tão perdido na memória que não lhe sei o nome nem o autor (1), um poema todo feito com palavras iniciadas pela letra “T” (2). Talvez essa — que julgo ser a minha primeira memória de leitura — tenha sido uma experiência fundante para mim como leitor, antecedente até mesmo à descoberta de que as palavras poderiam servir algo para além do dizer e que delas era possível extrair o gozo. Essa experiência não me trouxe o desejo de escrita. Dela, no entanto, me ficou o assombro e, muito possivelmente, alguma herança que acabou conformando meu êthos como escritor.

Esse poema primitivo me ecoava como lembrança desde que comecei a escrever os meus (nunca esqueci de como me soava o início do poema, embora nada lembrasse da forma como ele se dispunha em versos: “Tuca, Teresa, Toninha: três tias, todo tempo tricotando”). Sem ter mais o livro e ainda sem ter o recurso da internet, onde parece que tudo se deposita, ele me habitava como uma névoa. Mas essa névoa, que nada mais era do que uma apagada lembrança, me motivou a tentar recriá-la nas duas primeiras estrofes de um soneto que escrevi pouco mais de dez anos depois dessa leitura fundante.

Vórtices vértices virão, viajantes…
Vidas vivi; ouvi vibrantes vozes.
Velhas visões, volúpias vãs, velozes
Vagavam vivas em violões ventantes.

Véus… versos vêm vibrar, e vêm vazantes!
Vêm viscerais, vivazes feito vozes.
Violas vagam a vestir viscoses
Vestindo ouvidos com visões volantes.

(Do poema “Os Dias da Madredeus”)

Quando comecei a ler Ítalo Calvino, pela primeira vez ouvi dizer da chamada Oficina de Literatura Potencial (conhecida como OuLiPo). Embora não me enxergasse com tamanha obsessão pela criação de regras restritivas e arbitrárias — e por vezes absurdas, como a escrita de um livro inteiro suprimindo uma vogal –, identifiquei-me de imediato com sua proposta geral, de aumentar as potências expressivas da linguagem por meio de restrições.

Penso que até hoje o desejo de engendrar restrições me persegue. Este ano, a leitura de “Six Songs of Causality”, de Ricardo Domeneck, fez com que um poema ficasse me rondando por semanas. Primeiro como projeto, depois como lista de palavras e, por fim, como execução — construção de uma estrutura e permuta entre palavras. O poema de Domeneck era um jogo com uma série de palavras predeterminadas, permutadas em seis poemas, gerando seis diferentes possibilidades de sentido na relação sintática entre elas. As seis canções me pareceram fractais, e encontrar essa forma — que veio antes de qualquer conteúdo — me levou a escrever Seis fractais de casualidade. Num exemplo como esse, percebo que restrições realmente podem potencializar a capacidade expressiva da linguagem.

Percorro esse caminho sinuoso de lembranças, que talvez digam algo sobre minhas escolhas como escritor, para chegar ao cerne do que desejo abordar aqui. Em meu último texto do ano passado, faltou falar sobre o que passar a escrever com periodicidade para este blog acarretou para a própria escrita, ou na minha relação com ela. Foi minha amada musa e leitora primeira de tudo quanto escrevo quem me chamou atenção para isso. E, a partir de um comentário dela, comecei a pensar este, que seria o primeiro texto de 2015.

Há algo numa página em branco que o assemelha a um blog como este: Em ambos, tudo cabe e tudo pode. A própria escrita se conforma como esse terreno de absoluta liberdade. Talvez para fugir à paralisia que uma liberdade absoluta pode provocar, inventam-se restrições para a escrita — ao menos intuo que, para mim, funcione assim. Contra a abertura disforme de todas as possibilidades, sempre me fixei em projetos — mesmo que fosse para mudá-los, enquanto os executava — e aceitei normas autoimpostas.

Este blog, hoje chamado Ensaio Aberto, nunca foi propriamente um projeto. Sempre foi um lugar de escrita eventual. Escrever para ele tinha a ver com um desejo de encontro e interlocução. Esse desejo, no entanto, muitas vezes era obliterado pela força de projetos a que me lançava. Isso explica, por exemplo, as intermitências e os abandonos que ele sofreu desde 2004. Explica também anos inteiros com um ou dois posts publicados — que, por vezes, nem sequer eram textos, mas citações, vídeos, etc.

Um espaço onde afluíam tantas liberdades parecia não mais funcionar bem para mim. Permanecia o desejo de interlocução e de encontro com leitores, bem como de proximidade semântica que a internet me parece propiciar. Mas um espaço como esse, se não se alimenta sempre da escrita, também não consegue gerar o tipo de movimento que eu me queria.

Para lidar com o excesso de liberdade, que transformava esse blog quase num caderno em branco, com eventuais riscos e notas mais ou menos esparsas, criei uma regra simples: escrever sempre. Para isso, estabeleci uma periodicidade que “deveria” ser respeitada — um dever gratuito, como qualquer outra restrição que eu possa querer estabelecer para o que escrevo. Primeiro, estabeleci uma meta não realista, e que me exigiria sacrificar um tanto meus projetos de escrita para cumpri-lo. Depois, percebendo como e o que funcionaria, bastou ajustá-la.

A necessidade de escrever constantemente me levou não apenas a olhar todas as coisas como matéria-prima de escritura. Ela exigiu que eu, de fato, escrevesse sobre o que me despertava o interesse. Que eu transformasse em linguagem uma série de intuições, ideias e impressões que, em outras circunstâncias, certamente não virariam texto. E, como consequência, não só dirigiu o meu olhar de forma mais constante para o efêmero do mundo, como também me demandou interpretá-lo.

Sem a arbitrariedade autoimposta da constância, certamente eu não escreveria sobre tema como a tentativa de proibir os rolezinhos, as expectativas sombrias de aumento da repressão durante a Copa, os cinquenta anos do Golpe de 64, o encontro com um desconhecido falante no ônibus, a absurda decisão judicial que afirmou que os cultos afro-brasileiros não contêm traços de uma verdadeira religião e os resultados das eleições legislativas. Além disso, pode ser que alguns outros textos, cujos temas costumavam ser matéria de escrita nesse blog, não nascessem apenas por inércia.

Outro aspecto novo é a maior interlocução que minha poesia provocou. Desde o fim de agosto, a maior parte dos textos publicados foram poemas meus. Antes, minha poesia era exposta apenas circunstancialmente. Dos poemas que publiquei esse ano, somente uns dois ou três seriam certamente publicados sem o estabelecimento de um plano de publicação periódica. E talvez outros nem sequer nasceriam, já que alguns eu escrevi pensando na interlocução com os leitores — habituais ou eventuais — daqui. Não sei se os poemas sobre a garantia da ordem, a absurda violência policial, o desejo espalhar o amor como antídoto ao ódio que rege o mundo e a iminente morte de Manoel de Barros, escritos diretamente na plataforma do blog, teriam nascido se eu não estivesse habitando constantemente o terreno da escrita pública.

Inicio 2015 com o desejo de, ao menos, continuar a prática do ano que passou. Nele, escrever aqui constantemente foi uma experiência muito importante para mim, que me permitiu chegar a lugares aos quais eu não chegaria de outro modo. Mais do que divulgar alguns dos meus escritos, ela tem alterado positivamente os rumos da minha escrita. Isso não é pouco! Mas como não há experiência definitiva, pode ser que no futuro eu volte a abandonar esse espaço, ou mesmo que venha povoá-lo ainda mais. A vantagem de criar as próprias regras é poder burlá-las quando quiser.

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(1) Após o texto já ter sido publicado aqui e divulgado no Facebook, minha mãe publicou por lá o seguinte comentário:

“Filho, este livro que você menciona em seu texto foi utilizado, se não me engano, em sua primeira série no Instituto Nossa Senhora da Piedade. Chamava-se “A Canoa Virou” e reunia poemas para crianças. Lembro-me de você lendo os poemas e adorando aquele modo de dizer as coisas. 🙂 “

Na hora aquilo me ecooou. Era o nome do livro, perdido na memória. Provavelmente, algum apanhado de cantigas populares e poemas infantis, com ilustrações. Lembrei até de sua capa azul, com um menino naufragando numa canoa vermelha. Aliás, não sei se lembrei realmente, ou se invento. Mas, se eu inventei, agora é realidade. Com as facilidades de um blog, em vez de ter de mandar imprimir e encartar esse comentário, simplesmente o inseri aqui nesta nota.

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(2) Pesquisando pela internet, após me deparar com a lembrança evocada assim que comecei a escrever esse texto, encontrei o poema e descobri seu autor, Elias José, um escritor e professor mineiro, falecido em Santos em 2008. Eis o poema a que me refiro:

Três tias

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias
Todo tempo tricotando
Tanto tempo
Tal tarefa
Tricô tanto

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias tagarelas
Tudo tentam
Tudo temem
Tanto tango
Tais tragédias
Tais trejeitos
Tudo treme

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias
Tão tiranas
Todavia três tias
Tão ternas.

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Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

As estatísticas de um ano especial:

Em 2014, fiz de meu blog um Ensaio Aberto de escrita. Ainda um caderno de notas públicas. E, além disso, um lugar de ensaiar com palavras.

As portas estão sempre abertas ao leitor, inda que as linhas aqui publicadas sejam um tanto vacilantes…

Clique aqui para ver o relatório completo

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