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Archive for julho \27\UTC 2014

Aos deuses e às deusas de todas as crenças e incertezas eu invoco, para o caso de haver um ou mais que, eventualmente existindo, possa me ouvir.

Rogo-lhes que santifiquem minhas dúvidas, que multipliquem em meus olhos perguntas e questionamentos. E que a incerteza me livre de dizer como verdades perpétuas e imutáveis os seus incognoscíveis nomes, ou de tomar alguma explicação provisória como um absoluto.

Para isso, que minha fome de eternidade se aplaque com o efêmero da beleza, e não com o dogma de suas inexistências. Ou de suas presenças constantes ao redor do mundo, no fundamento mítico de toda cultura e de toda palavra.

Por amor a tudo quanto é sagrado e a tudo quanto é profano, que a frágil liberdade de ser me guie por todo onde. E que criemos tantas terras e tantos céus quantos nossa potência criadora, nossas linguagens e nossos verbos puderem fundar.

Possa eu sempre repartir liberdade e palavra como quem reparte o pão. Porque o corpóreo desejo de encontro pode criar conversas infinitas. Se hoje me engajo na conversa de tantos que já inexistem na carne, possa eu também semear uma precária eternidade pelo sopro de minhas palavras.

Que eu lute pelos meus princípios, e tenha a coragem de abandoná-los caso encontre outros que me pareçam melhores. Que eles me bastem enquanto me servirem ao íntimo. E que eu tenha a sorte de partilhá-los, nunca os infligir. Mas que minha ética jamais consinta em silenciamentos.

E peço que eu não seja submetido à tentação de achar que meus princípios devam mudar o mundo. Preservem-me desse engodo, deuses e deusas de toda descrença. Afastem-me ainda de todo dever-ser que eu possa tencionar impor a quem quer que seja.

Mas mesmo me mantendo longe do engodo de mudar o mundo, livrem-me também da indiferença e da apatia. Para que eu prossiga contando histórias buscando tocar, quiçá, alguns corações. E para que eu siga desejando, ardentemente, o impossível…

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É tempo de silenciar e viver
da falaciosa segurança que nos aprisiona
em nosso ódio,
em nossa impotência,
em nossa indiferença,

em nossos medos.

É tempo de mascar o ópio festivo
da ordem,
da normalidade,
do progresso,

da mediocridade do ouro.

É tempo de seguir a jurisprudência da desumanização
que permite a injustiça,
que garante o arbítrio da força,
que indefere a escrita

de um poema para nossos tempos.

É tempo de permitir, em nome da paz,
que atirem bombas em nossa rua,
que invadam nossa casa,
que sujem nossas mãos com as armas do crime,
que violem nossos corpos

para que se celebre a violência inominada
de nossa omissão.

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(para Fabiana Turci)

Foi assim:
a aspereza de abismos,
a maciez de rochas,
fervuras e geleiras
me ofertaram
o repertório poético da concretude,
ensinando a carne de minhas mãos
a te tocar.

Os cheiros de campos e asfaltos,
rosas e dejetos,
campas e corpos
adestraram-me
para os teus aromas.

Ervas, manjares e manás,
todas as fomes
e todos os banquetes
me permitiram sorver
a tua inteireza.

Meus absurdos azuis,
teus vermelhos participantes da ideia mesma,
as convulsões amarelas de Van Gogh,
as sombras de Caravaggio e os delírios de Bosch
prepararam-me para as tuas paisagens.

Timbres pungentes, vozes tangentes,
acordes perfeitos, trítonos, dissonâncias,
escalas e escolas,
melodias insuspeitas, ritmos insustentáveis
e o ruído branco
me ensinaram a ouvir
os teus silêncios…
Foi assim.

Detalhes de 'O Jardim das Delícias', de Hieronymus Bosch.

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