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Archive for abril \27\UTC 2014

I – Saudade

“Saudade é um mosaico
De tudo que eu deixo de mim,
Nada mais.”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Esparso, disperso,
procuro-me nos chãos que pisei:
eu sou feito desse caminhar.
Meu rosto invisível
Desenha-se nos sulcos das pedras
por sobre as quais passaram meus pés.

Não chego a saber
se o que de fato me constitui
é o pó que acumulo das estradas
ou é o que deixei
de mim. Se sou história ou lembrança.
Se saudade é o que falta ou o que levo.

___

II – Multidão

“Que a vida é pra se navegar
O que muda é o convés”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Em mim o mar é.
O meu sangue carrega o primevo
oceano, rubro como a cor
pouco antes do nome.
Eu mesmo sou barco e travessia;
borrasca, caos, cais e calmaria.

Corpo é multidão,
mesmo imerso em silêncio, e na noite.
O múltiplo me habita inclusive
quando estou sozinho.
Sei que quem canta na minha voz
e mais me sabe é o próprio universo.

___

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Entro no ônibus praguejando contra quem o projetou. Além de não ser acessível – todos os que servem essa linha também não são –, este possui ainda mais um obstáculo: uma barra bem no meio do último degrau, parecida com essas de fazer pole dance. Aquele requinte de inacessibilidade já era capaz de atrapalhar quem estivesse entrando com uma mochila um pouquinho maior. Com muletas, então, subir no ônibus é uma batalha.

Vou me sentar na cadeira isolada antes da roleta e não tem como, pois simplesmente não há espaço. Olho o símbolo que diz que o assento é preferencial e quase gargalho com aquela mentira. Um pouco aturdido, volto para procurar um lugar vago nas poltronas duplas, enquanto desvio dos passageiros que seguem atrás de mim, para pagar ao cobrador a passagem. Demoro alguns instantes imprecisos a me habituar ao pequeno caos e finalmente vislumbro onde vou sentar. Noto haver um lugar vago ao corredor, na poltrona mais próxima. O senhor que está sentado à janela faz menção de se levantar, para me ceder o seu lugar. Incisivo, falo que não precisa, que prefiro mesmo um lugar ao corredor, e me sento.

Nem bem me acomodo e já percebo certa ansiedade do meu companheiro de trajeto. Agradeço-lhe a intenção de me ceder o lugar na janela, mas novamente lhe explico que no corredor é melhor para minhas pernas. Logo em seguida, ele me pergunta para onde vou. Desconfiado, menciono a avenida principal perto de casa, que é grande o suficiente para manter a inexatidão.

Constatando que vou descer antes, ele explica que vai para Santo Amaro e me indaga se eu sei se aquele ônibus passa numa rua que não conheço. Revelo minha ignorância sobre o itinerário posterior ao meu. Ele busca se acalmar, dizendo-me que se não passar, ele pode descer na Avenida. E logo me revela que está indo para uma clínica que faz um tal exame de sono.

Na sequência, comenta sobre um assunto incontornável em São Paulo: o trânsito. Lamenta que o trânsito esteja caótico – e, naquele dia em especial, agravado pela chuva que caíra pouco antes. Conta que saiu de casa às 17h, pegou um ônibus, metrô e depois aquele ônibus em que estamos, e está com receio de não chegar a tempo – seu horário na clínica é às 20h30. Diz que em 1959, quando fez dezoito anos e começou a dirigir como chofer de táxi, quase não havia carros nas ruas.

Teria a opção de ir de trem, mas naquele horário seria impraticável para ele fazer várias baldeações, já com 71 anos. E para qualquer pessoa com um pouco mais de dificuldades. Lembro-me de já ter estado, pouco antes das 18h, numa das linhas que ele teria de pegar para chegar ao seu destino e, na hora de descer, foi quase uma operação de guerra. Hoje, eu também não teria condições… Mal termino o pensamento, num átimo, e atino que meu companheiro agora lamenta que hoje não exista mais uma linha direta que servia à região onde ele mora.

– Sabe aquela música que fala “moro em Jaçanã”? Então, eu pegava esse trem. Moro ainda depois de Jaçanã.

Não sei por meio de que conexão, ele dá início a uma ode ao seu tempo, quando os filhos tinham “medo e respeito” pelos pais. Lamenta que hoje os pais não possam ser firmes, não possam mais bater e educar seus filhos. Reclama então de seu neto, que não tem compromisso com nada e é muito mimado. Abstenho-me, nesse ponto, de participar da conversa, limitando-me a vagos monossílabos. Em geral, tenho grande resistência a toda louvação de um tempo em que certamente eu não estaria vivo. Só posso existir hoje. É o tempo que tenho, e é dele que devo fazer, para mim, o melhor dos tempos.

Em seguida, me relatou que deixou o táxi, tornou-se caminhoneiro e depois marinheiro para, então, voltar a ser taxista, que foi como se aposentou. Só quando diz ter sido marinheiro é que reparo numa enorme tatuagem que cobre todo seu antebraço direito.

Talvez por se deparar com sua vida em perspectiva, estanca a fala, reflexivo, como que olhando para dentro. Após um fundo suspiro, sem qualquer sinal de pompa ou encenação, exclama:

– Eu tive uma vida muito boa!

Tocado mais pelo tom de sua voz, que conferia às palavras quase banais uma verdade palpável, fiquei um tempo em silêncio. Compartindo o silêncio do meu companheiro de trajeto. Não sei precisar como e quem o quebrou, mas aproveitei o interesse despertado por sua fala anterior, para mudar o rumo da prosa. Em vez de denegrir o presente em nome de um passado repleto apenas de laivos de duvidosas idealizações, interessavam-me suas memórias.

Perguntei-lhe algo sobre como era a vida de marinheiro. Ele contou que havia conhecido metade do mundo nesse período. Esteve em diversos portos na América, na Europa e em alguns no Oriente Médio. Revelou-me que tinha medo de ir para os lados do Vietnã, por causa da guerra. Ficou quatro anos embarcando e desembarcando mercadorias em Lloyds brasileiros. Deixou a marinha mercante após se casar. A dura vida de marinheiro e, em especial, o fato de passar três a quatro meses embarcado a cada viagem foram decisivos para que tomasse essa decisão.

Viramos na grande avenida que passa perto da minha casa. Ali, me mostrou que naquela transversal funcionava a Metalúrgica Barbará, que seria, na época, do genro de Jucelino. Ele, como caminhoneiro, carregava material de construção ali, para levar a Brasília – que, embora já inaugurada, ainda era um canteiro de obras. Segundo o meu companheiro de trajeto, o dinheiro que se desviou daquela construção teria dado para construir “dez Brasílias”. Exageros à parte, não deixo de crer naquela testemunha e sua verossímil história. Infelizmente, não há como supor que a corrupção endêmica do país seja uma invenção dos dias atuais.

Nem bem nos afastamos do cruzamento com a antiga metalúrgica, ele diz, quase surpreso de si mesmo:

– Eu não tenho dinheiro nenhum, que é coisa que fica para provocar briga depois que a gente vai, mas tenho muitas histórias. Minha vida daria um livro…

Pergunto se ele não teria vontade de escrever um livro com suas memórias. Ele me diz que seus filhos insistem para que o faça. Seu tom reticente, no entanto, me revela que não, ele prefere contá-las a ter de escrevê-las.

Só então me dou conta de que já estou quase chegando no meu destino. Levanto-me para passar o bilhete e rodar a roleta. O trânsito lento me dá ainda alguns minutos de conversa. De pé, detenho-me junto ao banco em que estava sentado.

– Você já deve estar cansado de tanto me ouvir falar, não?

– Imagina! Estou é lamentando ter que descer agora e interromper a conversa – respondo.

Seu sorriso me revela que ele captou a verdade do que lhe disse. Despedimo-nos. Por algum motivo, o motorista perde a entrada de seu trajeto habitual e acaba entrando na minha rua. Desço, contente com o erro, embora novamente me veja praguejando contra o projetista daquele ônibus e seus requintes de inacessibilidade.

Enquanto ando os poucos metros entre o ponto de ônibus e minha casa, me dou conta de que não perguntei o nome de meu companheiro de trajeto. Cogito tentar alcançar o ônibus, para perguntar-lhe da janela, mas a ideia vã desvanece quando vejo o ônibus dobrar a esquina. Apesar de inominados um para o outro, levo comigo algumas de suas histórias, a parcela de sua herança que ele deixou para mim…

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