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Archive for março \30\UTC 2014

Amanhã é um dia para não ser celebrado. Mas é preciso lembrá-lo e, sobretudo, é preciso enxergar seus revérberos contínuos em nossos dias. Saber que o silêncio e a impunidade continuam a gerar silêncio e impunidade, tortura institucionalizada e dor.

É imprescindível olhar para trás com o incômodo de termos permitido que criminosos anistiassem a sim próprios. Não há alívio. Sabemos que houve torturas, mortes, execuções, crimes imprescritíveis. Existem vítimas. Mas dos criminosos não se dizem os nomes. Não se pode falar quem torturou, quem matou. Torturou-se, matou-se — indeterminando os sujeitos de tais atrocidades.

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Além das verdades do senso-comum, muito pouca coisa há. Arquivos inteiros ainda permanecem sob sigilo. É sintoma desse silêncio reinante que uma comissão da verdade tenha sido instituída somente quarenta e oito anos depois do golpe. Assim como é sintoma desse silêncio, e de tanta verdade ocultada, que um dos maiores jornais do país tenha chamado, num editorial de 2009 — poucos meses após a Constituição de 1988 completar 20 anos –, a ditadura militar brasileira de “ditabranda”. Os ecos desse passado silente também estão nas ações policiais contra cada manifestação popular, desde aquela que vimos ano passado contra o aumento nas tarifas do transporte público, até aquelas que não são relatadas — e que terminam em violências maiores, embora invisíveis.

E certamente é um fruto desse silêncio a mera possibilidade, no entanto bastante concreta, de policiais militares correrem quase em fuga pelas ruas da segunda maior cidade do país — a cidade em que nasci –, arrastando o corpo (morto?) de uma pessoa. Inocente. Executada por eles? Socorro policial que induz à morte. Um caso isolado? Em que medida as polícias militares herdam suas práticas dos grupos de extermínio notórios durante o regime de exceção e das práticas de tortura usadas nos chamados porões da ditadura?

O golpe do dia 31 de março de 1964 encontrou apoio de setores da sociedade, que lhe deram sustentação. O clamor por mais ordem, a noção de que a família tradicional e o temor a Deus deveriam ser preservados, além do medo de uma suposta ameaça comunista no contexto da guerra fria foram determinantes para o êxito do golpe. Ao recordar isso, é impossível não se perguntar sobre quais são os clamores alarmistas do tempo presente. Os militares, que diziam assumir provisoriamente o governo para “garantir” a democracia e livrar o país do perigo comunista, ficaram no poder durante 8019 noites, ou 21 anos, 11 meses e 15 dias. Os detalhes dessa história, no entanto, permanecem desconhecidos. O silêncio impera. E esse silêncio que ainda perdura não é uma resposta…

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O que somos é construído pelo sedimento de nossas experiências, em nossa viagem solitária pela vida. Se por um lado existe algo que pareça uno em nossa identidade, ao ponto de podermos dizer “eu” e sentirmos estar sendo o mesmo numa contínua progressão, por outro é fácil reconhecer que nunca somos fixamente esse mesmo, e que o outro nos habita e faz com que hoje sejamos diferentes do que já estivemos sendo.

Para quem, como eu, vive uma relação identitária esperada e naturalizada, não é comum que se questione sobre o outro que aflora em si. Dessa forma, quando me transformo e me modifico, seja porque amadureço, me amedronto, envelheço ou mudo um juízo sobre algo, sou ainda percebido como um contínuo. Há, no entanto, aqueles a quem sempre se pergunta quando foi que se tornaram o que são. Aqueles que têm suas identidades interditas, em algum grau, pelo confronto com o que nossa cultura estabeleceu como natural — embora não seja possível saber no humano aquilo que é natureza, pois somos demasiado humanos. Talvez pela patente e necessária luta por afirmar sua diferença e, em muitos casos, construir sua identidade, estes, a quem se pergunta tais questões ligadas ao devir, são vistos como não naturais. Como se pessoas com identidades ditas naturais — ou seja, naturalizadas pelas convenções aceitas pela sociedade — também não se inventassem a cada dia.

Embora eu me invente quotidianamente, já que sou, como todos, rondado pelo outro que me constitui, ninguém jamais me perguntou, por exemplo, quando foi que decidi permanecer cis ou me descobri hétero. E essas explicações, para mim, estariam na ordem do indizível, das coisas que não têm nome. Sou criado, porém, de uma forma a acreditar na ilusão de que essas características seriam uma espécie natureza, não levando em conta todas as construções simbólicas, de origens múltiplas, agregadas ao que venho sendo.

Na última semana de fevereiro concluí um livro que testemunha a história de alguém cuja identidade frequentemente é vista como um desvio do “natural”. A autobiografia de alguém a quem certamente sempre se pergunta como foi que se tornou aquilo que é. E que responde, em muitos sentidos, a essa pergunta que lhe deve ter sido lançada inúmeras vezes. Lendo sua história, numa narrativa impressionante, fluida, vertiginosa e envolvente, pude ver que ele é um homem como eu. Na narrativa de suas memórias estão inscritos também seus valores. Percebo então que partilhamos muitas de nossas visões de mundo, embora não nos conheçamos, tenhamos histórias de vida bem distintas e sejamos de gerações diferentes — ele é um pouco mais velho do que meu pai seria hoje, se estivesse vivo. Creio que essa identificação de valores e de concepções de mundo acentue ainda mais a visão que se forma: ele é um homem como eu.

Mas há nele algo, que é da ordem de sua história de vida, que nossa sociedade tende a enxergar como uma diferença de substância, uma outra natureza. Não é. Tanto a minha identidade quanto a dele são construídas nesse caldo simbólico chamado cultura. Mas como eu sou um homem cis, sou interpretado como natural. Já ele é um homem trans.

Ele é João W. Nery. E seu livro, Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois, é uma releitura de sua própria história. Uma releitura, pois é a segunda autobiografia que ele escreve. Em 1984 publicou o livro Erro de Pessoa: João ou Joana?, que narrava seu périplo da infância até a chamada cirurgia de redesignação sexual, a que se submeteu em 1977. Viagem solitária inclui também a narrativa de sua vida desde então.

João foi o primeiro trans-homem a se submeter a um procedimento desse tipo no Brasil, quando tais cirurgias eram consideradas ilegais. Tanto que o cirurgião Roberto Farina, que o operou, e que foi o primeiro médico brasileiro a operar uma transmulher em 1971, foi condenado por lesão corporal grave por conta de uma cirurgia feita em Waldirene Nogueira. Ela, cujo nome de batismo era Waldir Nogueira, foi operada por Farina e, após a operação, fez um pedido de retificação de seu registro civil na Justiça paulista em 1975, o que foi negado. O fato chamou atenção da opinião pública, uma vez que ela havia se submentido a um procedimento cirúrgico não previsto em lei como lícito.

“A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir”, escreve João. O leitor que acompanha as narrativas dessa viagem sente a angústia de alguém que se vê sem lugar no mundo, dessemelhante a todos que o circundam. Mas também se maravilha com a força desse mesmo alguém que, ante a premente necessidade de se reinventar, efetivamente se refaz.

“Iluminando o silêncio das coisas sem nome”, como diz o belo e preciso verso de um poema escrito pelo autor, Viagem solitária é a partilha de uma experiência, feita com grande coragem e generosidade por um homem de mente inquieta. Um homem que descobriu “que há várias masculinidades diferentes e que são construídas também pelas tecnologias da cultura dominante”. Alguém que abriu à força de muita luta veredas para transitar pelos papéis designados a um homem, que era o lugar em que sempre se viu. Que ainda luta contra a invisibilidade a que as pessoas trans são relegadas, nos mais diversos aspectos da vida — no plano legal, no plano social, no plano simbólico… E que, mesmo com todas as lutas empreendidas, fez questão de continuar dócil e afetivo, e de transmitir, como pai, essa doçura e essa afetividade a seu filho adotivo. Ao ponto de escrever, já no final da viagem pela qual conduz seus leitores, que sentiu que sua paternidade tinha valido a pena e, sobretudo, que seu filho se tornara o seu “acerto” na vida.

Vale para Viagem solitária o que Antônio Houaiss escreveu no prefácio do primeiro livro de João W. Nery, Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível para a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”. Vale também a exortação que Houaiss deixa ao fim deste prefácio: “Leiam-no e humanizem-se”. João conta que perdeu o medo das palavras com o antropólogo Darcy Ribeiro, com quem costumava conversar na adolescência e que se tornara uma espécie de mentor intelectual. Ao viajar pelos sendeiros abertos por sua escrita, o leitor constata que ele aprendeu bem essa lição…

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O Fortuna
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis
(Carl Orff – Fortuna imperatrix mundi // de Carmina Burana)

Projetamos nossos desejos sobre o mundo para, então, aguardarmos o tempo da realização. A essas projeções, chamamos umas vezes de sonhos, outras de utopias, outras ainda de idealizações e, eventualmente, de planos.

Os planos pressupõem um método que leve o desejo e a projeção a ganharem corpo e se plasmarem na concretude das coisas palpáveis. Planos são como que cartografias do desejo. Para que se concretizem em colheita ou realização, há um sem número de variáveis envolvidas. As contingências dirigem os planos a lugares insuspeitos, por vezes superando o imaginado, noutras frustrando sua matéria desejante, esfriando a motivação. Ou revelando que motivação era o que não havia, mas apenas uma ideia vaga sobre o que seria desejável.

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quinzenario0002A roda da fortuna é a imperatriz do mundo. A ela submetemos nossa finitude e nossas realizações. Sua impermanência deflagra o caráter provisório de tudo o que há. Haver no mundo é estar sendo. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. No ar do tempo, que corre dentro das gentes e das coisas.

Em relação aos planos permanentes que eventualmente tenhamos, uma das contingências que podem determinar sua realização, mudança ou abandono é o fôlego para levá-los ou não adiante. No breve suspiro que é a vida, quantos brevíssimos suspiros de horas temos para oferecer permanentemente ao planejado? Fomos audaciosos demais no que pretendíamos? Ou faltou ousadia?

Quando os calendários inauguraram o novo ano, comecei a plasmar no palpável do (ciber)espaço um plano de escrita permanente e de atualização periódica deste blog. Assim surgiu o Semanário, que hoje tem publicado o nono texto em quase dois meses. O projeto de atualização semanal foi executado até aqui com folga. No entanto, ocupou, nas horas livres dos dias e nos dias livres da semana, mais tempo do que o previsto, roubando de outros projetos os escassos instantes.

Diante da ausência de tamanho fôlego para tantos projetos, e da necessidade de estabelecer prioridades, uma mudança de planos se torna um imperativo. Abandono, então, o plano inicial de escrever semanalmente no blog, para me dedicar a outras escritas. E estabeleço um novo compromisso de produção de texto, que será quinzenal — ou, mais precisamente, ‘quatorzenal’, já que as atualizações vão ocorrer a cada duas semanas.

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No dia 16/03 volto à programação normal, com a publicação de algumas impressões sobre o livro Viagem solitária, de João W. Nery. O livro, que terminei nesta última semana, é uma releitura — devidamente atualizada — de sua obra anterior Erro de Pessoa, lançada 27 anos antes, em 1984. Vale para Viagem solitária o mesmo que Antônio Houaiss escreveu sobre Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”.

Até lá!

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