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Archive for março \18\UTC 2013

Dormimos enquanto passava algum jogo na televisão. Lembro de ter deixado o volume mais baixo, para que somente um lance de emoção, ou um gol, pudesse nos despertar eventualmente. Sim… Palmeiras e São Caetano teria sido capaz de nos fazer dormir. Mas, embora a tv estivesse ligada durante esse jogo, não tentamos assisti-lo. E adormecemos durante Ponte e Atlético Sorocaba.

Não sei exatamente a que horas, acordo com um grito de gol exaltado: “Gooooooooooooooooooool do São Paulo!” Logo em seguida mais um gol do São Paulo. Só então, compreendo que se trata de algum programa esportivo mostrando gols dos estaduais. Lembro então do meu Flamengo, que perdeu mais uma vez para o Resende (isso volta e meia acontece nos cariocas da vida) e, até as últimas notícias que eu tinha então, ainda estava sem técnico.

calvinflaO tempo de uma lembrança foi o lapso entre o segundo gol do São Paulo e o gol do Oeste. O narrador, quando o tricolor paulista sofreu o gol, fez seu trabalho de forma quase burocrática, não prolongando o grito, que não chegou a ser sequer um grito. Recordo então que a última vez em que soube desse jogo – quando a tv transmitia Palmeiras e São Caetano – ele estava exatamente 2×1. Teria o São Paulo empatado? Perdido? Ou assegurou a vitória e a sobrevida do atual técnico? Apuro ouvidos e atenção, mas não me mexo. Quero apenas saber do resultado, sem grandes esforços. Se fosse preciso levantar e buscar a informação, permaneceria ignorando. Mas aquela informação era ofertada assim: fácil e ao acaso.

Um novo grito no mesmo tom e na mesma intensidade daquele primeiro, que me despertou, se repete. O terceiro gol do São Paulo foi claramente comemorado pelo narrador, durante o jogo. Mas teve ainda um último gol. Nele o narrador se esforça e prolonga o grito. Mas ele está nitidamente num tom abaixo. Antes que a narração me confirme – já que eu não olho para a televisão no momento –, advinho: gol do Oeste.

Aquela diferença tonal me intrigou. Tentei manter na mente o remembramento daqueles dois últimos gritos. Tinha de levantar e, no mínimo, me preparar tudo para dormir. Em contraste com a preguiça geral e quase endêmica do fim de semana, era preciso despertar na hora certa nesta segunda. Portanto, não poderia prescindir de um despertador.

Levanto, mas vou direto para o teclado que jaz quase esquecido no quartinho. Minha impressão era a de que o narrador havia gritado o gol do São Paulo em fá sustenido, e o do Oeste em mi. Parecia-me que um tom – significativo e marcante – separava a celebração de um mal disfarçado lamento. Em relação ao gol do São Paulo, erro por pouco. Ele foi comemorado em fá. Ou, pelo menos, a minha lembrança me diz assim, com o teclado confirmando.

Como tenho a impressão de um tom de separação, tento o mi bemol. Baixo demais. Em relação ao gol do Oeste – ou, ao menos, em relação à minha lembrança, pois não tinha os áudios dos gols comigo, mas somente o eco ainda não longínquo ressonando como memória – eu havia acertado. Foi narrado em mi, num simulacro de comemoração que me soou como um lamento. Meio tom. Um deslize separando júbilo de… outra coisa qualquer que não fosse isso.

Volto para o quarto e a Fabi desperta, talvez com o som dos meus passos. Sorrio e conto a minha pequena descoberta, a história dos tons… Ela me sorri, lindamente perdida entre o sono e o júbilo. Ela, que começou a ver futebol por minha causa, hoje é mais entusiasta do que eu dos esportes. Acho que também por influência da conjugação de um ano olímpico com a ótima fase do seu Corinthians. Termino minha narrativa e logo o sono a vence. E eu fico ouvindo gritos de gol, aleatoriamente, na tv. Volto ao teclado e constato – ou invento, perdido entre memória e criação – que as vozes mais agudas costumam gritar gol entre fá e mi bemol – apenas o fá sendo verdadeiro grito de celebração. As vozes mais graves, ao que me parece, gritam em ré, narram gols sem envolvimento em dó sustenido e lamentam gols desfavoráveis entre dó e si (o si me soa como aqueles gols da Argentina sobre o Brasil).

tritonoCuriosamente, o espectro dos tons que constato ou crio para os gols vai de si a fá. Com os extremos formando um trítono. Esse fato me assombra e me faz desconfiar de que muito provavelmente eu invento praticamente tudo. Isso porque estou escrevendo uma história – algo entre um conto e uma pequena novela – que está num momento em que a percepção do trítono é algo de extrema importância. Isso depois de o personagem, que narra sua experiência, ter lido um pequeno tratado sobre o trítono. Portanto, andei lendo e escrevendo muito sobre trítonos ultimamente!

Sento-me para escrever esse breve relato e me recordo que o mesmo programa que me despertou e despertou em mim essas questões também me informou que o Flamengo já tem um novo técnico. Apesar disso, não consigo ver nesse momento mares melhores para ele. Talvez seja a saudade de ouvir mais gols do meu time comemorados com um sonoro grito sustentado em fá.

zico-flamengo

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