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Archive for junho \10\UTC 2012

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Recebo, dos jardins de minha casa,
lições sobre os silêncios desse tempo
imperscrutável. Insondável. Íntimo.
Vasculho a intimidade dessa terra
com água, fazendo evolar seus cheiros.
Ouço os marulhos úmidos do chão.
Ouço os sussurros líquidos da terra
a brincar com raízes, e moldando-as.
A agudeza de inumeráveis folhas
represa luminâncias lá do sol.
Com elas e dejetos desse solo
perfaz toda matéria de seus corpos.

Na escuridão de cova bem profunda
a raiz retrabalha seus clarões.
No dentro, a luz se torna seiva bruta.
O silêncio voraz dessa alquimia
verdeja o mundo inteiro. Cora as flores.
Forja até a doçura do que é fruto.
E nódoa a nódoa o tronco então se faz
mais lenhoso, se passa mais o tempo
e bem mais se acumulam primaveras.
Sonhados por sementes, os percursos
dos galhos, das raízes e das folhas
delineiam as vastidões dos bosques.

E é meu. E é infinito meu jardim
forjado pelos sonhos das sementes.
Cada espécime vive os próprios ciclos
além da vida una à própria espécie.
E todo ser brotante à minha volta
leciona-me os ensinos de estações:
o cansaço, o hibernal recolhimento,
as brotações e a exuberância quente;
a seminal latência e a floração.
Vejo que mesmo as plantas sobrevivem
às violências, e também se tornam
outras, já bem diversas de si mesmas.

As lições dos jardins de minha casa
são onde tempo e espaço se conjugam,
onde espera e labor se moldam, mútuos,
na história e direção de cada galho.
Nesses jardins eu flagro o ser maduro
forjando seu caráter inda verde,
indicando seu êthos ao brotar,
ganhando e dividindo o próprio chão.
Nessa terra tão íntima e fecunda,
tão limitada e imensa, brota a flora
que flagro dar-se a mim, enquanto rego,
observo, adubo, moldo, amo e narro.

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