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Archive for maio \26\UTC 2010

Desejo de estradas, de árvores e de matas do caminho. Sentido norte, às bordas de Minas. Na até pouco tempo desconhecida — para mim — São João da Boa Vista, esperava-nos uma experiência de êxtase. Assim queríamos, assim imaginávamos, assim vivíamos este domingo último, desde o despertar.

Claro que entre o vivido e o imaginado, há imensos descompassos. O que planejamos não consegue dar conta de tudo quanto é. Certa vez escrevi uma frase, num conto, que se inscreveu em mim, no meu êthos: O real é de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.

O primeiro maravilhamento foi pegar a estrada. Eu e dois ciganos: Fabiana Turci e Marcelo Tosta. Tostes, Turci e Tosta têm o vício de se maravilharem com a amplidão azulada do céu, com a poeira vermelha levantada em estradas de terra, com o sol batendo verde na copa das árvores. E sob influência de determinadas músicas, os êxtases desses três seres que somos se intensificam.

Junto conosco, viajaram as paisagens sonoras de Madredeus, Trio Harel, Orquestra Popular de Câmara, Zeca Baleiro e suas dez cantoras das “Odes descontínuas”, Milton Nascimento e Gustav Mahler — este último, interdito. Não seria possível à condutora do carro manter-se na concretude da estrada com Mahler. Íamos nós e tudo quanto somos ao encontro da paisagem sonora de Yann Tiersen. Sim, esse ser que para nós se assemelha a um quase mito estaria em carne, osso e sons no Teatro de São João da Boa Vista, essa cidade até então desconhecida — para nós — às bordas das Gerais.

Já havíamos passado do meio do caminho, quando chegou a notícia pelo celular: acabaram os ingressos para o show. Eram 14h53 da tarde. Levamos alguns segundos para decidir que continuaríamos a viagem ainda assim e alguns minutos para nos refazermos da frustração trazida pela má notícia da “fortuna imperatrix mundi”. Não sei saber se foi pelo impacto da notícia, ou pelo alumbramento de ver uma lua imensa no azul do céu, que o caminho que seguimos a partir dessa hora tornou-se um desvio. Quase 90 quilômetros de desvio, por uma estrada que parecia voltar pelo avesso. Após nos certificarmos de que teríamos de pegar o primeiro retorno e, no Km 134 daquela estrada, seguir o caminho que leva a Mogi-mirim, lembramo-nos da importância do desvio para a tradição filosófica moderna. Era tarde. Chegaríamos depois de o show já ter começado. Mas, ainda assim, seguíamos, leves e corpóreos como as notas que soavam nossas canções de estrada.

Depois de percorrer mais chão do que havíamos imaginado, uma placa mandou que virássemos, indicando que aquela curva nos levaria a São João da Boa Vista. Encontramos no meio da estrada o limite entre a cidade que buscávamos e o município anterior. Um ponto melhor demarcado do que aquele em que o Trópico de Capricórnio corta uma das estradas que tomamos. Quero crer, porque a realidade poética é a que melhor me convém, que cruzamos o Trópico no exato ponto em que fizemos o retorno em nosso desvio.

O entorno foi deixando de ter aspecto de fazenda, sítio, zona rural; foi, pouco a pouco, revelando a cidade que nos recebia. Uma pequena e encantadora cidade que me fez recordar Cabo Frio. Sim, sempre que estou numa pequena cidade, lembro de Cabo Frio — ou, mais precisamente, da Cabo Frio em que morei. Mais do que isso, lembro do tempo em que lá vivi, quando o tempo parecia ter outro ritmo, quando as horas, os minutos, os segundos pareciam respeitar mais o instante do gozo e do aprendizado. Estar numa pequena cidade sempre me desperta essa nostalgia dos tempos que me formaram, que fizeram de mim o que sou.

Ainda pensava nisso, quando se tornou óbvia a necessidade de pedir informações. Onde ficaria o Theatro Municipal? Seguíamos quase como se conhecêssemos a cidade, mas era preciso certificarmo-nos. Paramos no ponto exato que impediu mais um desvio nosso do caminho — que seria o terceiro! Quando andamos tendo um norte onde chegar, o caminho sempre parece mais difícil; os perigos e desvios sempre mais constantes, e a gente não experimenta nunca a sensação do ‘perder-se’, mas somente a de ‘estar perdido’.

Uma única indicação nos bastou. Naquilo que devia ser o centro da cidade estavam incrustrados a Catedral, sua praça, e o Teatro Municipal, onde havia começado há pouco o show de Yann Tiersen. Na porta do teatro, uma pequena multidão se aglomerava, discutindo sobre a distribuição antecipada dos ingressos com quem deveria ser da organização da Virada Cultural na cidade. Foi divulgado que os ingressos começariam a ser distribuídos uma hora antes do show (previsto para 16h30), mas antes das 15h os ingressos já estavam esgotados. Os mais exaltados começaram a se dispersar, após muita reclamação. Permaneciam aqueles que simplesmente queriam ver o show, como o rapaz que trazia nas mãos uma foto impressa do músico e sua família.

Eu já estava descrente. Mas os ciganos que me acompanhavam traziam no rosto uma certeza de que em breve entraríamos no teatro. Certeza fundamentada no impalpável, é necessário dizer. Não sei exato quanto tempo esperamos. Sei que começaram a sair algumas pessoas do teatro — e o assombro de todos que estavam às portas do teatro, impedidos de entrar, era: como alguém sai no meio desse show? Isso renovou os protestos dos que remanesciam atados a uma esperança sem fundamentos. Talvez todos nós que não brigávamos, não nos exaltávamos, mas apenas esperávamos, estivéssemos fruindo o espetáculo pela dimensão da ausência. O que é uma entidade como Yann Tiersen senão uma manifestação corpórea do inatingível? Os ídolos são outra coisa além disso?

Não soube nem precisar essa pergunta. Mas a resposta nos chegou de repente. As portas se abriram e, com a anuência de alguém, entramos no teatro. Umas quinze pessoas que o fio do destino havia guiado até essa experiência de converter em êxtase a frustração. “Sur le fil” nos recebia. O violino do instrumentista francês parecia saudar nossa chegada. Delírio, alumbramento, gozo, êxtase.

Dali para frente, adentramos num território em que as palavras só podem falar da dimensão da ausência da possibilidade de dizer algo. Tateio as palavras, os fonemas. Reviro do avesso as frases. Mas nada consegue dizer com exatidão da alegria, do maravilhamento que era estar lá dentro, que era sermos recebidos por aquela música.

A plateia do teatro estava absolutamente fascinada. Nós, que não acompanhamos todo o espetáculo, também estávamos. O inaudito, o impossível transmutado em experiência nos desnorteava. A celebração daquele instante eram os sons que se ouviam. Música inclassificável, além de toda palavra. Som exprimindo o indizível das gentes, dos dentros mais fundos. Aquele conjunto de vibrações nos lembrava do milagre que é existir quando — e onde — nada poderia haver. Não é possível ouvir Yann Tiersen sem se sentir grato à vida por isso.

Tudo beirava o indizível, tocava regiões onde palavras são poucas para tanto sentir. No entanto, se tudo parecia ser o ápice, pouco depois éramos surpreendidos por regiões ainda mais altas, por voos sonoros ainda mais amplos, anchos, largos. Talvez por isso, terminado o bis protocolar e acesas as luzes do teatro, a plateia não quis se pôr à caminho, não desejou retornar para a dimensão cotidiana da vida. Como os aplausos não cessaram, houve um segundo bis, este provavemente imprevisto — da dimensão e do tamanho de nosso desvio, durante nossa viagem. Ali se fez uma música que não pedia que se suprimisse o cansaço. Ela sinalizava apenas o desejo de haver um lugar onde seja possível estar cansado. Música indescritível, sonora e visualmente. Mesmo eu, que a testemunhei, por vezes não acredito no efêmero existir daquela massa sonora. Massa sonora que se perpetuava, neutra, na dimensão da ausência. Os músicos deixavam seus instrumentos ainda soando no palco, quase como por mágica. Ligavam algum aparato, se despediam da plateia e iam embora. Por fim, o último músico deixou seu instrumento soando, circulou pelo palco vazio, mas ressoando ainda, até se aproximar da chave que, desligada, inaugurou o silêncio. Luzes se apagaram. A plateia, enlouquecida, aplaudia o silêncio e a ausência.

Não nos restou outra opção a não ser celebrarmos tudo quanto testemunhamos e nos colocarmos no caminho de volta, junto com os sons que trazíamos. Gratos à vida por morarmos em nós…

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Meus pulmões sorvem ar cotidiano,
mas algo já parece diferente.
Sequer sei precisar: por mais que tente,
eu não explico o instante soberano.

O que, intocável, faz que brilhem sóis
sem ter havido nada de sublime?
O que, sem nome ou fato, é que se exprime
na exatidão em que se faz a voz?

Não sei supor com que eu me assereno.
Será que é parte em mim que ao fim ecoa
ou é, talvez, a imperfeição de um tom?

Se ar cotidiano faz-me pleno
e enfim me iguala a tudo quanto soa,
passo a existir exato como som.

Poema escrito para a Oficina Escrevivendo: Poesia, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas.

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“Será que um livro para quando é posto de lado, ou os livros são máquinas de moto-perpétuo, que funcionam sem necessidade de leitores?” (pág. 30)

“O silêncio que brota dos livros e nos envolve é um silêncio cheio de sons. Um silêncio que altera as coordenadas da eternidade”. (pág. 38)

“Não por acaso, penso, os livros são feitos com a carne das árvores, e as bibliotecas acabam se transformando em florestas petrificadas, com ramos e raízes que se entranham em nós e florescem na nossa imaginação.” (pág. 38)

“… talvez o estilo do escritor seja apenas o fantasma de suas carências mais do que a realidade de suas virtudes.” (págs. 436/437)

Os Jardins de Kensington, do escritor argentino Rodrigo Fresán, foi o último livro que terminei, ainda no mês passado. Altamente recomendável para quem é apaixonado por livros, por histórias, por ficção temperada com doses de realidade e fantasia, e pela escrita. Os registros que aqui reproduzo são alguns parcos trechos que anotei, entre muitas passagens memoráveis. A que compara bibliotecas a florestas petrificadas foi usada como epígrafe a um texto meu escrito recentemente, ainda inédito e demandando revisão, chamado “Bibliofilia”.

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As anotações abaixo foram feitas no blog antigo, entre os dias 7 e 12 de dezembro:

“Fé é o que abre no habitual da gente uma invenção, (…)” – Guimarães Rosa | Grande Gedeão (Tutaméia)

“(…) porque amar não é verbo; é luz lembrada.” – Guimarães Rosa | João Porém, o criador de perus (Tutaméia)

“Só o amor em linhas gerais infunde simpatia e sentido à história, sobre cujo fim vogam inexatidões, (…)” – Guimarães Rosa | Palhaço da boca verde (Tutaméia)

***

“(…) o mundo não dá a ninguém inocência nem garantia.”
“A gente quer mas não consegue furtar no peso da vida.”
“– Louvado seja tudo o que há!”

Todas as frases acima foram retiradas do conto ‘Rebimba, o bom’ (do livro Tutaméia), de Guimarães Rosa.

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Genealógico

Sou filho dos burgos
mas não sou burguês.
Meus cantos são lusos,
não sou português.

Meu povo me aponta
safaris no corpo,
contrastes, afrontas
e um velho índio morto.

Entre hóstias e hostes
cravaram-me um Tostes
de algum povo ao léu.

Fugindo com fome,
meu último nome
chamou Daniel.

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Inauguro esse espaço, sem saber ao certo o porquê. Todos os lugares que construo nesta rede mundial chamada internet, todos os sítios ditos virtuais que forjo acabam por ficar meio abandonados. Minha escrita não costuma ser voltada para o chamado ciberespaço.

Não obstante, insisto. E, em meu desejo de permanência, quase não me mudo. Exceto quando as contingências assim o exigem. Tanto que meu ‘blog’ anterior tem quase cinco anos de idade. E 25 ‘posts’. O resto, é gestado no silêncio, é escrito para outro suporte. Tenho essa mania antiquada de pensar o que escrevo para livros. Coisa de quem não é muito ecológico, de quem quer gastar papel e arrancar árvores do solo.

Tenho declarada obsessão pelo impresso. Aliás, tenho uma certa ideia fixa em relação à permanência. Sempre desconfio, inclusive, que meus textos, se não estão no papel, podem sumir. Não bastam todos os back-ups do mundo. Preciso usar a impressora, ver as letras contra o branco de uma folha. O preto no branco.

Assim, mesmo sem saber ao certo o porquê, mudo de endereço virtual. É verdade que a mudança em si se deve às limitações do ‘Blogger’ e às vantagens do ‘WordPress’. Mas por que insito? Por que permaneço no mundo virtual? Talvez porque eu acredite que a escrita se dá pelo desejo do encontro. Um encontro que pode ser facilitado pela proximidade semântica promovida pela internet. Mesmo contra o desconcerto e o excesso de informação. Ainda que eu me perca pelas infovias, sempre aposto todas as minhas fichas no encontro. Ou no desejo de.

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