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Archive for outubro \01\UTC 2006

Em novembro de 2005, em Natal, após o término de um congresso, eu e alguns colegas saímos e fomos a um barzinho, ‘bebemorar’. Ao lado de nossa mesa, a não mais do que cinco passos de nós, algumas meninas, que não deviam ter mais do que vinte e quatro anos (algumas poderiam ser até menores), se prostituíam. Seus fregueses pareciam europeus, e provavelmente o fossem.

Enquanto andava os cerca de trezentos metros entre minha casa e o colégio em que funcionava a 259ª Zona Eleitoral de São Paulo, onde fui votar, lembrava dessas meninas. Numa família em que as filhas logo cedo vêem como caminho a venda do próprio corpo, a venda do voto deve ser algo absolutamente normal. Porque a perversa combinação de voto obrigatório e o estado de permanente carência em que vive grande parte da população é a primeira peça que engendra a corrupção do sistema político: a corrupção eleitoral, pela formação dos chamados currais eleitorais.

O ministro Marco Aurélio, do TSE, num julgamento sobre se o eleitor poderia usar camisa de seu candidato para ir votar (a chamada ‘manifestação individual e silenciosa’), disse que “daqui a pouco estaremos exigindo que o eleitor vá votar de luto”. Aproveitando a ironia do ministro como uma sugestão, saí de preto, de luto, para ir votar. De luto pelo simulacro que é nossa democracia, onde somos paradoxalmente obrigados a exercer nossa liberdade de escolha. Em luto pelo Brasil que está diante de nós e pelo Brasil que sairá hoje das urnas, pois não tenho nenhum motivo para esperar que algo diferente e melhor venha emergir nestas eleições.

Em 2002, eu não votei; justifiquei meu voto. Diante do grande entusiasmo popular com a vitória de Lula, eu olhava tudo com certo distanciamento e grande desconfiança. Que aliança era aquela entre o PT e o PL, de Crivela, Waldemar da Costa Neto (então presidente do PL) e uma das figuras mais execráveis da política nacional, o então chamado Bispo Rodrigues? Esta era apenas uma das muitas alianças espúrias que foram se descortinando depois, ante os meus olhos, que envolviam até o PP, de Maluf. Eram, obviamente, partidos que estariam com o poder, estivesse o poder onde estivesse.

Com isso, após ter votado, não sei se exerci um direito, cumpri um dever ou cometi um crime. Talvez os limiares destas três categorias não estejam bem delimitados em nosso arremedo de democracia.

Abaixo, um texto que recebi por email, cuja relação com o dia de hoje é bastante óbvia:

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O VÍDEO DA CICARELLI

No país em que o caminho para a reeleição é embalado por medidas como um cartão do Bolsa Família que permite sacar R$ 120 apareceu um débil mental com R$ 1,7 milhão — com nota em cima de nota — para pagar por um conjunto de papéis com denúncias contra tucanos de São Paulo.

Óbvio que o tal do dinheiro virou um escândalo. O retardado com a mala carregava no carro dinheiro de um prêmio de loteria para pagar por meia dúzia de papéis. Merece colocar na cadeia quem carrega e quem pagou pela compra.

Isso posto, vamos aos tais dos documentos. Enfim, o que havia nos papéis que valiam R$ 1,7 milhão ????

Qualquer informação com esse preço merece ser investigada, com boa chance de chegar a uma conclusão óbvia: assim como o picareta que iria pagar pelos documentos — e o que iria vender — provavelmente iria aparecer algum tucano como forte candidato a puxar um tempo de cana também.

Mas é difícil acreditar que Lula perca a reeleição, que Serra não seja eleito ou que algum cacique petista ou tucano acabe na cadeia por essa história.

Mas enquanto o escândalo todo explode na cara do país, quatro notícias sobre um vídeo da apresentadora e modelo Daniella Cicarelli namorando em uma praia da Espanha lideram a lista dos cinco textos mais lidos no site do maior jornal do país, a Folha de S.Paulo.

Agora considere que em torno de 10% da população tem acesso à Internet, um público qualificado. Desses uma minoria, algo ínfimo, deve estar lendo jornais, menos ainda especificamente a Folha. E o tema preferido é o vídeo da Cicarelli.

Não se trata de julgamento moral ou de condenar quem quis ver o tal do vídeo. Mas transformar em prioridade tudo o que se falou sobre o vídeo depois da notícia principal deixa larga diferença.

Tão larga a ponto de justificar como um débil mental a serviço do principal grupo político do país paga R$ 1,7 milhão em notas por meia dúzia de papéis com denúncias gravíssimas contra o segundo grupo político do país e nenhum deles vai ser punido.

Pior, já se fala até em acordos de bastidores entre os dois grupos para facilitar os mandatos de um lado e de outro. Enquanto o país pára pra ver o que namorado fez com a Cicarelli, estão fazendo coisa muito mais obscena com o cidadão.

Rogério Martinez – 21-09-2006

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