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Archive for 3 de setembro de 2006

“Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar

Ana e o mar… mar e Ana
Historias que nos contam na cama
Antes da gente dormir

Ana e o mar… mar e Ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar”
(Ana e o Mar — Fernando Anitelli)

Diz-se, se não me falha a memória, que o coração é o único músculo estriado cujo movimento é involuntário. O que significa que ele se contrai malgrado a nossa vontade. Ele pulsa sem que ordenemos e, na maior parte das vezes, sem até mesmo que o sintamos bater, no seu incessante trabalho de sístoles e diástoles.

Inda que eu esteja enganado e haja mais um músculo estriado de movimento involuntário (eu não lembro bem esse detalhe e não conheço anatomia o suficiente para fazer afirmações peremptórias neste sentido), indubitável é que o coração pertence ao rol de exceções do corpo humano. Isso porque os músculos estriados são aqueles cuja contração depende da vontade, da voluntas.

É aí que, ao figurar nesta lista de exceções, sendo um músculo involuntário, quando por suas características era de se esperar o contrário, parece o coração anunciar — com esse fato — sua destinação. Ou antes, anunciar num complexo sistema simbólico a realidade dos sentimentos que nos assaltam.

Pôs o homem simbolicamente no coração a sede dos sentimentos. Afinal somente um músculo involuntário poderia se entender com o que em nós também é tão involuntário quanto ele: o que sentimos. Podemos domar nossos sentimentos. Podemos lutar contra eles e caminhar em direção contrária à que eles nos apontam. Não fosse assim, seria impossível calar quando a vontade é de brigar, seria impossível manter-se longe de algo ou alguém de quem temos o desejo de estar perto. Lutamos e vencemos, todos os dias, pequenos ou grandes sentimentos. Mas não deixamos de senti-los. E, quando são demasiado intensos, às vezes se torna mesmo impossível não caminhar na direção em que nos apontam.

Assim, como no fragmento da música que abre este texto, pergunto: quem já conseguiu dominar o amor? Quem é capaz de dizer ao coração ‘ame’ ou ‘não ame’? O amor não conhece medidas nem conveniências, burla cálculos, inverte números e subverte fórmulas. O amor é a desmedida do humano. É o carro desgovernado em direção ao precipício. É o potro selvagem e indomável correndo em planícies arcaicas. O amor é o que não se define, mas que se conhece muito bem. É o solvente universal das almas.

O senhor de todos os mistérios — o tempo — pode operar transmutações em nosso sentir. Simpatias podem virar indiferença, tristezas podem virar alívio, aparentes incompatibilidades podem se tornar amizades… Dizem até que amor pode virar ódio, embora eu não creia na realidade desta suposição, não a entendo possível. Entendo até que é possível uma paixão se transformar em ódio, mas não o amor, que pode mudar de face, tornar-se fraterno, quando antes era erótico, por exemplo. Até suponho que o amor pode virar um não-amor, mas o ódio e o amor não me parecem semelhantes para se permitirem dissolver um nas fibras do outro. Porém, se sentimentos podem mudar com o tempo, o tempo daquilo que se sente é sempre o presente. Sobretudo em se tratando do amor. Não se ama ou deixa de amar com organogramas, ou por cartas precatórias, tratados, leis, decretos ou medidas provisórias. Não se ama pensando se no futuro o amor continuará. Ele não tem prazo de validade. O amor é válido enquanto durar o estoque. O amor só admite o presente em seu bojo. Em seu estojo, o único átimo que se guarda se chama agora.

Por isso, repetindo as palavras daquela canção de Marisa Monte, afirmo peremptoriamente que meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você…

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