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Archive for maio \01\UTC 2006

Esperava o sushi na mesa quase do lado de fora do restaurante, um pequeno restaurante japonês no estacionamento de um hipermercado a poucos metros da Avenida Paulista. Estava de costas para o estacionamento e para rua. Os olhos estavam voltados para o interior do restaurante e seu movimento de pessoas apressadas. O olhar, no entanto, se mantinha voltado para dentro, mirando paragens, cartografias, tons e ruínas do íntimo.

Não pensava no trabalho — nem no realizado, nem naquele que me esperava. Acho que eu vagava entre desejos, esperanças e escombros. Estava tão dentro de mim, que não via o movimento, não notava a demora do sushi, nem a realidade à minha volta.

Súbito, a realidade toca em meu ombro direito e me chama:

— Tio, você tem um trocado pra me ajudar pra eu comprar (o que?) para o meu irmão?

A realidade era pequenina, como sua voz. Tinha o nariz sujo e uma espontaneidade na forma de pedir sem gaguejar. Falava baixo, como convinha a uma realidade pedinte, ainda mais sendo tão desprovida de tamanho. A realidade — um menino de pouco mais de seis anos, creio eu — não estava sozinha. Vinha acompanhada de outra realidade, provavelmente o irmão, igualmente com o nariz sujo, mas com o olhar assustado de quem certamente não saberia pedir sem gaguejar. Aquela realidade ainda menor, que não devia ter acompanhado mais do que quatro primaveras, segurava uma nota de um real, que às vezes era levada à boca.

O repentino encontro com aquelas realidadezinhas de narizes sujos me assustou. Elas chegaram silenciosas e sorrateiras e, com a voz mansa e macia, me arrancaram violentamente de meu mundo. O susto, que me fez retesar o corpo e empalidecer, chegou-me logo ao toque sutil da mãozinha da realidade em meu ombro. Naquele instante, conheci o pavor das feras despertadas de seus sonos pela iminência dos perigos selvagens.

Visivelmente confuso, gaguejando bastante, talvez reaprendendo ali mesmo, no improviso da hora inesperada, a encaixar na minha fala os eixos sintagmático e paradigmático da língua (onde estaria Barthes e seus elementos de semiologia?), respondi:

— Aqui comigo, eu não tenho nem dinheiro nenhum, não.

Aquela realidade diminuta sorriu, com olhos e lábios, achando graça do ocorrido, embora a muito custo tentasse demonstrar alguma seriedade. Aquele sorriso não era do pedinte, mas da criança que extrai graça a um acontecido. A realidade menorzinha não sorriu, parecia ainda mais assustada com meus olhos empalidecidos de susto. A essa altura, já recobrei a cor e imaginava que gosto teria aquela nota verde na boca da criancinha. O menino maior, que conduz seu irmão, ensaia entrar no restaurante. Percebe, no entanto, que logo será enxotado dali, afinal, clientes tão ocupados com suas próprias realidades objetivas, com seus trabalhos, seus negócios, seus laudos, números, sistemas e cifrões, não podem ser importunados por aquelas nanicas realidadezinhas pedintes. Talvez somente eu, que estava tão dentro de mim e tão fora do mundo, pudesse ser abordado àquela hora. Então, o menino perde o jeito sério de pedinte e põe molecagem infantil em seus olhinhos. Vira para mim já se rindo e me pergunta:

— Você levou o maior susto, né?

Sorrio, mas antes que eu responda uma voz donde emana autoridade e coerção aborda aqueles seres reais:

— Onde estão seus pais que não estão acompanhando vocês?

— Tá ali, ó — aponta o maior.

— Me leva lá pra eu poder conversar com eles.

É o segurança do estacionamento, creio eu. Tenta coibir a exploração infantil ao mesmo tempo em que impede que a realidade dos clientes do hipermercado, incluindo aí os clientes do restaurante que fica em suas dependências, seja disturbada por quaisquer realidades mendicantes. Talvez até conheça os pais daquelas crianças. O maior, com toda desenvoltura, ainda tenta contornar a situação. Os olhinhos do menor, no entanto, ficam ainda mais assustados e sua boquinha morde com sofreguidão a nota verdinha de um real que ele conserva em mãos. Certamente pela pressão dos que exploram a sujeira de seus narizes pedintes, mas também pela necessidade de sobreviver, aquele serzinho aprende, com lições duras e de sabor amargo, qual o valor do dinheiro.

Ainda meio atônito com a rapidez do ocorrido, não olho para trás. Apenas meus pensamentos se despedem daquelas realidades tão pequerruchas. Ou nem isso, pois meus pensamentos, antes alheios ao que me circundava, não conseguem se desvencilhar daquela súbita invasão da realidade. Não volto logo para dentro de mim, e mesmo quando o faço, não retorno mais aos pensamentos de desejos e ruínas que me alheavam e ensimesmavam. Em vez disso, começo a imaginar como seria um insólito convite àquelas realidades para que almoçassem comigo. Esse pensamento me chega junto com o meu sushi. Fico a imaginar como seria ensinar àqueles serezinhos a usar o hashi para pegar aquelas trouxinhas de salmão cru com arroz, para colocar o gengibre sobre os sushis e mergulhá-los no shoyu. Assim, compartilharíamos boas gargalhadas com as bagunças e as tentativas malogradas. Não… Isso não faz parte da realidade, concluo. É apenas um devaneio meu.

Queria, no entanto, ter ofertado algo mais do que o meu susto àquelas criaturazinhas. Não que o meu susto tenha sido oferta sem valor algum, já que despertou um pequeno riso. Sim, não foi pouco, pois involuntariamente eu ofertei um motivo para sorrir. E foi um riso gostoso de criança, espremido e sufocado diante do rito formal que a ocasião exigia — já que não é usual que sorriam os pedintes. Acho que fiquei até com saudades daqueles narizes sujinhos, das outras risadas que imaginei que poderíamos dar juntos, ante o afogamento de um sushi no shoyu.

Via-me envolto nestes pensamentos enquanto tentava conduzir um pouco do gengibre para cima de um sushi com o hashi. Mas não estava totalmente alheado da realidade circundante. Na mesa ao lado, duas mulheres falavam de negócios, números e contratos. O sushiman pegava mais uma posta de salmão para fatiar. Eu quase afoguei meu sushi outra vez…

Neste instante, reparo que outra realidade se aproxima. É uma menina de uns doze anos, idade de Otoyo, personagem de “O Barba Ruiva”, de Kurosawa, que protagoniza a mais bela cena que eu vi até hoje no cinema ao lado de seu novo amigo Chobo, de sete anos, em que este, em meio a um varal de roupas estendidas, dá-lhe pirulitos roubados por ela tê-lo deixado escapar quando ele roubara uma tigela de sopa de aveias da clínica Koshikawa. Esta Otoyo que se aproxima tem traços nordestinos e carrega nas costas uma sacola. Não tem nariz sujo como os daquelas duas realidadezinhas que me abordaram pouco antes, mas suas roupas estão um pouco sujas. Ela percebe que a olho e, não sei se pela proximidade ou se por eu ter sido o primeiro ali a notar-lhe a presença, ela, sem rodeios, pede-me para eu lhe pagar um refrigerante.

— Pode pedir lá dentro — respondo timidamente.

Ela entra, pede o que lhe apraz à dona do restaurante, que fica no caixa, e aponta para minha mesa. Aceno positivamente com a cabeça e com um sorriso. Não reparo com que refrigerante ela sai de dentro do restaurante. Ela sai apressada, como pressentindo que ali não é seu lugar e que somente o acaso a pôs ali dentro. Mas na saída, olha para mim e diz:

— Obrigada! Deus lhe pague!

Como resposta eu apenas sorrio. Os papéis, embora ninguém notasse, estavam invertidos. Era eu quem devia lhe agradecer, pois não é sempre que um raio de realidade cai duas vezes sobre o mesmo lugar e muito menos freqüente ainda é a materialização súbita de nossos devaneios. Penso nisso enquanto a Otoyo nordestina alcança uma saída lateral no estacionamento e some numa rua paralela à Avenida Paulista, a duas quadras do coração de São Paulo.

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