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Archive for novembro \25\UTC 2005

Estou de mudança

Impossível nos é, no mundo hodierno, não evocarmos Heráclito. Ele mesmo, que viu num mundo cercado de eternidades, num mundo de lavouras e navios, de céus e circularidades, num tempo do ser, a impermanência de todas as coisas.

Nossa vida flui como um rio. Sua água escorre pelos dedos do tempo — ou é o tempo que escorre pelos dentros da vida? Seja como for, sabemo-nos finitos no tempo e no saber. Esbarramos sempre com grandes mistérios: Haverá existência após nossa estada pelo reino da consciência, ou nos extinguiremos como a vela que nunca mais voltará a tocar o reino das chamas? Que destino nos espera no remoto amanhã? Ou daqui a um mês? Cinco minutos?

Uma cidade do tamanho das incertezas do mundo me espera. Complexa como as dobras da vida. Para enfrentá-la, minha única arma é a perplexidade de minha finitude…

São Paulo

Imagem de satélite: São Paulo

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“(…) pois só no teu silêncio úmido, só nesse concerto esquivo é que reconstituo, por isso molhe os lábios, molhe a boca, molhe os teus dentes cariados, e a sonda que desce para o estômago, encha essa bolsa de couro apertada pelo teu cinto, deixe que o vinho vaze pelos teus poros, só assim é que se cultua o obsceno (…)”
Raduan Nassar — Lavoura Arcaica

Acabo de voltar de viagem… Acabo de voltar de um tempo outro, de um tempo estacionado na inamovível roda da eternidade. Acabo de voltar de um mundo supersaturado de poesia, onde cada passo demora o tempo da semente, cada volta revolve o ser e o tempo das coisas. Acabo de assistir ao Lavoura Arcaica.

É difícil dizer qualquer coisa depois de ser sacudido por essa chama. O corpo responde, a alma responde… Se somos anjos montados em porcos, nenhum dos dois consegue ficar indiferente aos lânguidos e lancinantes apelos deste filme. É difícil não sentir a resposta do ventre aos sentidos, da alma às emoções. É difícil mergulhar no ventre mole destas horas e não sair com a sensação de que o mundo (íntimo ou exterior) não foi retorcido na esquina do instante, no átimo de um gole a mais de lirismo.

Lavoura Arcaica é um filme perfeito, absolutamente perfeito. O vinho violento de sua beleza vaza agora pelos meus poros. O choro convulsivo e a escrita igualmente convulsa e febril, após tanto estímulo, são incontroláveis. Também a respiração, dilatada pela dilatação dos próprios vasos sangüíneos, sob o efeito deste Dionísio de imagens, segue o ritmo desta música vertida do pó dos silêncios da alma. E a alma, após assistir-lhe nestas quase três horas de orgia — dos sentidos — e comunhão — dos sentimentos –, volta a ser barroca.

Impossibilitado que estou de escrever qualquer coisa mais coerente sobre esse filme, uma vez atirado numa insólita embriaguez, vendo todas as partes amputadas de minha alma se procurando na antiga unidade de meu corpo, transcrevo abaixo um texto sobre o filme, feito há cerca de quatro anos, alguns meses, creio eu, depois que o vi pela primeira vez (hoje foi a segunda).

***

L a v o u r ‘ A r c a i c a

Antíteses e Oxímoros captados pela película

Incesto, loucura, religiosidade, blasfêmia, razão, família, treva e luz… Lavoura Arcaica, o filme de Luiz Fernando Carvalho adaptado do romance homônimo de Raduan Nassar, traduz perfeitamente o universo das dualidades engendrado pelo escritor em seu livro de estréia.

A adaptação de Luiz Fernando recria com força expressiva e rigor poético a intensa e enxuta prosa de Nassar. O filme conta a história de uma família de descendentes de árabes dissolvida no silêncio dos conflitos abafados entre o estado arcaico (pré-civilizado) do “ramo podre” da família, e o estado racional, equilibrado, representado por aqueles que se sentavam à direita do pai à mesa.

André, filho rebelde e enfermo, representante perfeito do ramo da família que, segundo o próprio, “havia-se degenerado”, é o narrador da história que revela os contrastes, os conflitos, os gritos abafados que ele, e somente ele, “o guardião das coisas da família”, ouvia. Este filho “de olhos escuros” nutre uma “pestilenta” paixão por Ana, sua irmã mais nova, que também se senta à esquerda do pai na mesa, junto à ala doente encabeçada pela própria mãe. Após entregarem-se, ela e André, ao incesto, Ana evita-o, rejeita-o, o que acaba provocando sua saída de casa por desespero. O filme começa com Pedro, o irmão mais velho, que encabeça o ramo da família que se senta à direita do pai, que saiu à imagem de seu progenitor, indo buscar André num quarto barato de pensão. É para seu irmão mais velho que André narra toda a história desse amor que nasceu condenado, contaminado pelo “tremor maligno” da epilepsia (aos gritos, desesperado, André revela a Pedro ser epilético).

Pedro consegue convencer André a retornar para casa. Este último, como o filho pródigo da parábola que o romance de Nassar recria, regressa. Todavia, ele é ciente de que seu retorno, antes de significar um recomeço, tal como ocorre na história evangélica; é a resolução da tragédia que sua ausência apenas postergou. No festim dado em comemoração ao retorno do “filho pródigo”, a loucura de Ana que emerge e a reação do pai ao tomar conhecimento acerca do incesto ocorrido constituem-se o desfecho trágico.

Assim como o romance, o filme trabalha bastante os contrastes gerados pelo conflito da paixão, do direito à libido, com a religião ancestral da família, personificada no pai e em seus sermões vazios. Sua longa duração, que contrasta com a narrativa curta e seca do romance, acaba por recriar-lhe, cinematograficamente, a intensidade narrativa (e, de fato, grande parte do filme é narrada). O texto é dito (trechos inteiros do livro) e encenado, numa redundância que finda por aumentar a expressividade do filme. A morosidade dos acontecimentos, que dilata o tempo ou a percepção do mesmo, é a raiz mesma da expressividade da obra de Luiz Fernando Carvalho. Para realçar os contrastes, no plano da interpretação, tem-se a alternância entre gritos de desespero e o “piedoso mutismo” das mulheres (Ana, por exemplo, não fala em nenhum momento do filme), passando pela austera e constante fala do pai. No plano das imagens, a alternância entre claros estourados da fazenda (“era boa a luz doméstica de nossa infância”) e cenários escuros onde assiste o filho exasperado.

O grande oxímoro que emerge, reside na fala de André no soberbo diálogo entre pai e filho, logo após o retorno do filho pródigo. Exortado pelo pai a pôr ordem em seu discurso, André responde-lhe com a síntese própria daquela história. “Toda ordem traz uma semente de desordem, a clareza, uma semente de obscuridade”. A ordem imposta pela família gerou a desordem na família. André e Ana vivem uma paixão incestuosa. Lula, o caçula da família, ambiciona seguir o exemplo de André e fugir de casa. O próprio patriarca, austero e imperturbável, será a mão algoz de desferirá golpes mortais sobre a própria prole, ao saber do ocorrido entre André e Ana. De Pedro e da Matriarca, pouco se sabe, muito se supõe. As três outras irmãs de André não são personagens das quais se pode supor nada, porém fica a certeza de que André conhecia suas mazelas, como todos os gritos abafados sob as roupas sujas. Nas regras inflexíveis, nos sermões vazios proferidos à mesa, bem como no desmedido carinho materno, residia o germe da dissolução daquela família.

Lavoura Arcaica termina por confundir nossa percepção de tempo. Ao fim do longo filme, tem-se a sensação de que algo mobiliza o espectador por alguns instantes, enquanto este sai da morosidade do tempo arcaico (rural, cujo labor se dá na lavoura) para a confusão do tempo contemporâneo, ao qual ele acaba sendo jogado enquanto sobem os créditos e enquanto tem-se a sensação de se ter assistido a uma obra-prima.

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Palavras da moça com um girassol por dentro

“O moço é ator, cantor, escritor, poeta, amigo. Sua habilidade com as palavras cativa e desperta admiradores, dentre os quais me encontro (e encanto).

Tem lá no fundo o sonho secreto (ou já declarado) de voar, e se não o faz literalmente, o faz na leveza das palavras saídas de sua caneta — ou pena.

É o moço da poesia e da prosa poética — traz a poesia no sangue.

É um artista em todas as dimensões possíveis e imagináveis.

É o querido Theo Tostes.”

Quem me escreveu estas palavras — e o fez com tanto carinho que, colocando-as aqui, desejo homenageá-la mais do que a mim, que quiçá não seja merecedor de todas elas –, foi uma moça com um girassol por dentro, como as palavras exatas de minha fofíssima irmã a definem!

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