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Archive for outubro \17\UTC 2005

Mercado de verdades

Sussurram e gritam tantas verdades, que este mundo parece incréu. À rua, pululam certezas, salvações e anátemas. E a mesma questão que me coloco, permanece silente, pendurada no pêndulo das antinomias: Há universal?

O que se pode afirmar com alguma certeza neste mundo, senão que a nossa passagem por aqui é célere? Que haja uma ética universal, que haja valores ou vetores universais, que haja beleza ou padrões estéticos capazes de julgá-la, de nada disso sei. Às vezes, creio que sim. Mas, noutras horas, tenho a impressão de que em cada cabeça assiste uma sentença, ao menos uma!

Assim, experimento o que é ser no mundo. Ser no mundo é finitude, é a experiência da radical finitude. A finitude que é certeza da própria morte e a finitude que é o peso da própria ignorância acerca do sentido das coisas talvez sejam os primeiros (ou únicos) universais que se podem admitir.

Tudo o mais quiçá não passem de mercadorias expostas ao gosto do freguês no mercado de verdades e de respostas que tornam mais suave o mundo.

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Quando o chão treme

Quando o chão em que a gente pisa treme, jogando abaixo ou fazendo ruir nossas construções, o que fazer? A quem apelar? Onde se agarrar?

Placas tectônicas partem ao meio vidas e esperanças. A morte chega igualmente para ricos e pobres. A penúria não, nem a fome, pouco as endemias. Mas sempre restará o lixo dos banquetes para alimentar os que têm fome, os remédios vencidos para tratar a doença de miseráveis que insistem em permanecer vivos. Sempre restarão sobras da fartura para a caridade.

Mas isso foi lá do outro lado do mundo, e ninguém sabe bem onde fica o Paquistão. Nem a Cachemira. Nem mesmo a Índia! São abstrações situadas, sitiadas na outra face da esfera planetária, com nomes incompreensíveis, saídos diretamente do Vedas ou do Corão. Mas mesmo assim, como o poeta que acordou pensando em uma pedra numa rua de Calcutá, penso também na criança abstrata, cuja vida desconheço, cujo nome ignoro, mas cujo olhar é de uma concreta interrogação pelo sentido da permanência no mundo que acabou de ruir. Que chão pode ter essa criança que, subitamente, encontra-o fendido pelo mover de suas próprias entranhas?

Embora à distância, seu sofrimento não me é indiferente. Nessa hora, a fragilidade da vida nos lembra que há universalidade na dor…

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