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Archive for janeiro \13\UTC 2004

(para Cynthia S. Badaró)

Celebrar mais um ano que se inicia parece fornecer algum motivo para festa, embora não se alcance muito freqüentemente a frivolidade deste ato. O ano novo não renova a vida, não modifica ninguém, não tem porque trazer esperanças. Desentendo a alegria (que cada vez me parece mais desespero) que se sente quando os relógios marcam meia-noite. Seria mais fácil se todos rasgassem apenas as folhas dos calendários, sem o exagerado ruído dos fogos, numa festa em que não se festeja nada.

Se a vida continua a mesma, talvez se possa, ou se deva, ou se espere o desenvolvimento de um olhar novo sobre a vida. Quem sabe o homem não possa extrair dela um sentido mais edificante, não pela mudança da própria vida, mas pelo traslado da perspectiva com a qual a observa. Talvez esta lembrança se estenda até a primeira semana do novo janeiro, do novo calendário. Mas o tédio, ou a absoluta desmemoria lançam no olvido todas as promessas, as esperanças e as expectativas (de novo olhar ou até de nova vida) na morosidade de um ano que nasce já velho, já pré-fabricado pelos artífices dos fogos que estouram nas praias e enlouquecem os cães. Nem o vestido branco trouxe mais paz, nem a simpatia mais dinheiro, nem o olhar novo se sustentou para muito além da ressaca.

Embora o homem seja capaz de abstração, seus atos carecem de concretude para ganharem a conformação da existência, a qualidade de fenômeno. A própria filosofia ocidental, exercício de mais de dois mil e quinhentos anos de abstração, só é um fenômeno pela concretude das obras que trouxe ao mundo, pela pena de um Platão, pelas idéias impressas e libertárias de um Espinosa, pelos livros de um Nietzsche, ou de um santo Agostinho, ou as obras tardiamente achadas de um grande sistematizador como Aristóteles. O ano novo não ganha a qualidade de novo fenômeno pela repetição pré-fabricada do mesmo olhar, pelas escolhas que se impõem e tolhem a liberdade de criação e, sobretudo, porque são estéreis nas obras que supostamente deveriam fazer. O olhar novo não é um fenômeno concreto, nem uma esperança, mas uma repetição desta sociedade-standard que quer sempre que o novo se imponha, e faz da novidade uma necessidade velha e desgastada.

Por que, em lugar de buscar o novo no novo ano, tudo de novo, não volvemos os olhos para o que nos cerca e enxergamos a poesia do habitual e do quotidiano, daquilo que sempre está lá como num eterno e terno enleio de aurora? Por que não procurar celebrar o novo elegendo aquilo que gostaríamos de que estivesse mais uma vez e sempre conosco, em ato, palavra ou pensamento? Por que não pensar na mulher amada, não sussurrar ao pé do ouvido dela nosso amor — chama infinita enquanto dura? Por que não ouvir, em lugar da algaraviada dos fogos tão sem sutilezas, o coração da amada enquanto repousa sobre seu colo a cabeça?

Quando se tem a mulher amada ao lado, não se quer o novo. Quer-se o congelamento do instante, quer-se o instantâneo do tempo, quer-se o quebrar dos ponteiros que movem o mundo do passado para o futuro. Em síntese, o que se quer aos braços da amada é a eternidade. Como a eternidade da beleza destes olhos que miram a câmara escura que, por mágica, a flagra tão iluminada. E como não desejar que os olhos da amada não cintilem, que seus lábios não sejam sorrisos e beijos, que sua pele não seja fonte de aromas e relevos gráceis? E como não desejar o amor de Cynthia, o eterno retorno do mesmo amor?

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