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Tempo, tempo, tempo, tempo

“Tempo, tempo, tempo, tempo, / És um dos deuses mais lindos” – celebrar hoje quarenta anos me traz à mente esses versos de “Oração ao Tempo”. Tenho para mim que o tempo é a medida de nossas memórias. Olho para trás e vejo quarenta anos de histórias vívidas. E, navegando na nave do instante, chego a essa marca com a impressão de que olho o mundo a partir da mesma perspectiva do deslumbramento, desde que me entendo por ser no mundo.

Encaro esses vários “eus” que fui nas horas, dias, meses e anos que vivi, e sinto que essa sensação de continuidade tem muito a ver como essa perspectiva a partir da qual se olha. Isso a que chamamos interioridade, subjetividade, e que talvez responda pela forma como absorvemos, processamos e devolvemos ao mundo os estímulos que recebemos. Porque, de resto, somos a constante impermanência do vir a ser, incapazes de nos banharmos duas vezes nas águas do mesmo rio.

Fui acumulando – ou inventando – ferramentas e lentes que me ajudam a olhar para esse espanto que é o mundo, pois a imensidão da vida é maior até mesmo do que a do mar. Como o menino Diego, da bela história narrada por Galeano em “A função da arte”, que pede ao pai que o ajude a olhar a imensidão do mar, que ele avistava pela primeira vez. Ou como o menino Miguilim, que além das lentes corretivas, tentava levar em seus olhos a sagacidade do olhar de Dito, seu irmão morto, para desentender os mistérios da vida – no meu caso, levo a ausência do olhar de meu pai, que morreu na primeira década de minha vida.

Atingir quarenta anos é uma marca especial para quem foi batizado no segundo dia de vida, para não morrer pagão, e fez sete cirurgias antes dos três anos de idade. Hoje, na busca por firmar um acordo com o tempo, lembro o que ouço desde criança, que a vida começa aos quarenta, e peço no mínimo mais uns quarenta anos de caminhos, para continuar aprendendo a olhar, e uns vinte de bônus – a ideia de escrever até os cem anos é absolutamente fascinante. Quero que minhas palavras continuem a soar como vozes da própria memória. Cada vez mais rica e repleta. Enquanto isso, certamente, essa velha canção continuará ecoando em mim: “Tempo, tempo, tempo, tempo…”

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ADENDO – dia 23/06/2019

Gosto muito de fazer aniversário. Não sou de arquitetar grandes festas ou grandes celebrações. Eu, que sou uma pessoa naturalmente extrovertida, tendo a certa introspecção nesse período. Desconfio que seja porque, a cada renovação de ciclo solar, uma espécie de festa interna acontece.

Gosto muito de fazer aniversário, porque é um tempo de grande fluxo de afeto – que vem de muitas formas. Cada abraço, cada palavra dita ou escrita, por todos os meios – que se multiplicam nesse tempo de vertigem de comunicação em que vivemos –, cada manifestação de carinho acende um sol dentro.

Obrigado a cada um por trazer um pouco de fogo para acender esse sol interno, por afluir afeto, por celebrar comigo esse marco que são os quarenta anos. Vou responder aos poucos a cada mensagem deixada em tantos lugares. Mas queria deixar desde já essa resposta, ampla e repleta de gratidão, ao universo múltiplo dos afetos afluentes que me rodeiam.

Gratidão infinita… ∞ ❤🧡💛💚💙💜

Toda sociedade que se imaginou nova, se imaginou matriarcal.
Viviane Dias – Matriarcado de Pindorama

Na Poética, que trata especificamente da tragédia, mas cujas análises comumente são usadas em muitos outros tipos de arte, Aristóteles indica que o teatro (e talvez, por extensão, a arte) tem como função promover a purificação das emoções, por meio da catarse. Ao buscar demonstrar isso, Aristóteles deixa visível o rastro que liga o teatro grego que ele conheceu – e as grandes tragédias de seu tempo – com os ritos de purificação, não somente aqueles presentes nos grandes ritos cívicos celebrados na pólis, mas também nas celebrações de mistérios (órficos, báquicos, eleusinos). Aqui, vale lembrar que Téspis, conhecido como o primeiro ator e tido como inventor da tragédia, se apresentava em coros dedicados a cantos de ditirambos, que possuíam um caráter litúrgico em louvor a Dionísio, e não um caráter propriamente artístico. Portanto, a arte e a liturgia muito provavelmente nasceram indistintas na Grécia antiga.

Talvez seja possível hoje pensar que a arte atende a muitas necessidades. Ela celebra valores, deuses e a própria vida; estabelece conexões e laços de comunhão; engendra não apenas mecanismos de imitação e percepção da realidade, como também cria novas realidades potenciais; permite formas de expressão; faz denúncias e aponta riscos; promove prazer, diversão, riso ou gozo, etc. Olhando agora, passados alguns dias daquele alumbramento experimentado ao assistir à peça, penso que “Matriarcado de Pindorama”, encenada pela companhia Estelar de Teatro, acaba para mim atendendo um pouco a todas essas necessidades.

A encenação revisita a História do Brasil a partir do ponto de vista do protagonismo feminino. Revela histórias de resistência de personagens históricas, que cruzam com deusas e pombagiras. “Quando a nossa voz entra no mundo, todos os mapas se alteram. Porque a voz das mulheres é um rio caudaloso que abre caminho para muitas vozes”, anuncia o coro de mulheres.

Mas a peça faz mais do que revisitar a história. A plateia participa de um rito cênico, um ritual de pajelança em que uma mulher – Vera Brasilis – busca a cura de suas dores, que se originam de um mal presente desde o mais remoto passado, ou seja, desde a invasão desta terra há mais de 500 anos. O rito evoca toda uma ancestralidade que se manifesta bem diante de nossos olhos. “E neste espaço de possibilidades, rito-teatro, me permito o desejo-magia. Agora sou ponte-cabocla. Quantas mulheres cabem neste corpo?”, pergunta ao público uma das atrizes, ainda na rua, pouco antes de conduzi-lo a uma viagem pelas funduras do espaço cênico, onde muitas vozes se levantam.

Como provavelmente ocorria com o teatro em suas origens mais remotas na antiguidade, toda encenação é também um rito de purificação. Uma das personagem, porém, adverte: “Mas aqui, meu senhor e minha senhora, queremos apresentar uma atração inédita. Um mundo em vias de despatriarcalização. Se eu tive forças para cavar um passado inacreditável, neste rito-teatro inverto meu sentido e olho para frente, cavando um futuro que já se faz presente sim, mesmo se invisível para a maioria”.

A plateia é convidada a revisitar o passado para escrever um novo futuro, para ser mais um tijolo que construirá esse mundo em vias de despatriarcalização que está nas ruas, nas redes, na luta diária pela vida. Por todas as formas de vida, pois recontar a história do ponto de vista das mulheres também pode ser contar a história a partir do ponto de vista da exploração da natureza. E, prenunciando essa possibilidade, a índia Moema proclama: “sou parente da terra, também irmã da água, e sei ler os segredos do tempo. E eu sabia que esse fogo que você trouxe para cá não ia parar de queimar nem em quinhentos anos.”

Nesse trajeto, somos lembrados de que “o mundo nos ensina por todos os poros. Ainda que silenciados!” E a plateia segue, conduzida entre vertiginosos fragmentos sem fim de histórias. Todas, histórias de resistência e apagamento. Histórias que A HISTÓRIA não conta “O que acontece se apenas uma mulher contasse a verdade sobre sua vida?” Ao fim dessa mescla de manifesto e rito cênico catártico pela despatriarcalização do amanhã, presenciamos uma espécie de Sabbat de bruxas. Brasileiras e antropofágicas, cultuando o inapreensível ao som de batuques. “Somos bruxas e preparamos um caldeirão de imagens em ebulição”. Quem vem?

*Fotos: Tati Wexler
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Matriarcado de Pindorama é uma peça escrita por Viviane Dias, que também assina a direção, junto com Ismar Rachmann. No elenco, além de Viviane, estão Anderson Negreiro, Carla Raíza, Gabriel Moreira, Inês Soares Martins, Lucía Soledad Spívak, Nathalia Lorda, Regina Santos e Rico Marcondes. Vídeo projeções: Bianca Turner. O espetáculo está em cartaz sábados e domingos, até 28 de abril, na sede da companhia Estelar de Teatro, na Rua 13 de Maio, 120 (São Paulo).

A medida de nossas histórias

Tenho para mim que o tempo é a medida de nossas histórias, a constante fundamental de nossa memória. Nestes últimos dias, tornou-se uma espécie de febre nas redes a comparação entre uma imagem atual e outra registrada há dez anos. Entro da dança com minha habitual fascinação pelo tempo, evocando os lodos primitivos de nossa individualidade, local onde surgem, como uma espécie de bolor vivo e úmido, as lembranças.

Deparo-me contigo com trinta recém-completos – a foto foi tirada em julho – e constato o quanto você viveu nessa década. Às vésperas de completar quarenta anos – o que ocorrerá em junho – sinto que muita vida pulsou, transbordante. Seus pés se fincaram por tantos caminhos. Sua voz ressonou por tantas paragens. Sua escrita encontrou novos leitores – menos do que gostaria de ainda conquistar, porém mais do que você supunha que teria ao longo desses dez anos.

Você viveu imensas alegrias nessa década. Encontrou um amor para a vida (a Fabi), casou, abriu e fechou uma editora (a Vagamundo), publicou seu primeiro livro de contos pela Editora Patuá. A literatura, aliás, te trouxe muitos amigos — sedimentando essa antiga noção de que o que te move à escrita é o desejo de encontro. A música, outros tantos. Você ainda abrigou três cachorrinhas (@ matilhalab) e em breve adotará um filho ou uma filha – o futuro é aberto!

Nesses dez anos, também viveu novos desafios, o corpo mudou e exigiu novos cuidados. O positivo efeito colateral disso é que esses desafios te obrigaram a se aceitar mais e se acolher nas necessidades de seu corpo. E todas essas experiências – e muitas outras – estão no cerne daquilo que te levou a escrever que “o rosto do real é sempre de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.”

Dois eus deslocados no tempo.

Sabe quando a música chega, chama, passa e você segue empós o rastro de uma melodia, para que ela não pare? Cantar na Cia Coral Mawaca é um pouco assim. Recebemos canções que vêm das esquinas dos tempos e juntos soamos para que elas sigam. Fazendo com que nossos corpos se transformem em condutores de sons ancestrais.

O grupo se formou no início desse ano, quando o Mawaca abriu a atividade em sua sede. E desde então, somos um único corpo que soa. E eu, mais uma voz-pessoa dentre todas, essenciais para que o canto-comunhão se faça.

Cantar é uma festa. E, na Cia Coral Mawaca, é ainda ser atravessado, em diáspora, pelo canto de tantos povos, por variados modos de escalar o som. Há dez dias, em nossa última apresentação, com a qual fechamos nosso primeiro ano de existência como grupo, levamos no corpo os sons e as canções que soaram. Quebramos a distinção dos gregos, que tinham uma musa para a música (Euterpe) e outra para a dança (Terpsícore). E nos unimos a certas culturas, para as quais a dança e a música são artes quase indistintas. Cantar e soar é também dançar, e tudo em grupo, em roda, em rito… Quase sempre, por lá, também é assim!

Nesse dia plateia nos seguiu e a música só acabou lá fora. Acabou? Não! Ecoa ainda como memória e desejo de seguir soando…


Vídeo sobre a Cia Coral Mawaca


Teaser do vídeo sobre a Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Apresentação da Cia Coral Mawaca no Estúdio Mawaca em 18 de dezembro de 2018. Direção Músical: Angélica Lewwiller, Cris Miguel, Magda Pucci, Rita Braga e Zuzu Leiva

 

Nas camadas vulcânicas da palavra

Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os fluxos da prosa.

Durante toda essa trajetória, partilhar os ritos da escrita formou esse laço que participa dos fundamentos de nossa experiência de irmandade. Sempre fomos leitores um do outro. Muitas vezes, isso suplantava silêncios impostos pelo hábito – sobretudo meu, que sempre fui um animal silencioso e sempre usei a escrita também como um escudo, onde tentava realizar a impossível tarefa de esconder fragilidades. Não pude deixar de pensar no silêncio – e na escrita esgarçando sons e, por vezes, dissonâncias nas entranhas dele – ao ler os versos “Foi preciso muita palavra / até arrancar deste silêncio / um lugar seguro.”

A leitura é sempre uma experiência pessoal. Aqui neste livro, em especial, é muito frequente eu cometer o “pecado” de inserir na literatura o biográfico. Em diversos momentos, me lembro que uma parte central daquilo que nos tornamos teve início naquela longínqua atividade em que cada um de nós consagrou um caderno somente para a escrita. Vivíamos uma segunda mudança de cidade e, naquele momento em que o movimento parecia mais definitivo – dentro do provisório de todas as coisas –, tomávamos contato com a poesia de nosso pai, junto dos livros da minha mãe que haviam chegado do Rio de Janeiro – e longe dos quais estivemos por mais de um ano. Nosso pai já era uma ausência há alguns anos e, naquele contato com poucos de seus escritos, pudemos buscar uma espécie de diálogo literário para preencher o vazio de sua presença. Sei que essa é uma experiência marcante tanto para minha irmã quanto para mim. São essas histórias, que fundam nossa memória, que são evocadas por um poema como Art is a guaranty of sanity:

A aranha se nivela ao espaço urbano
o rosa é alimentado pelas cavidades orais
dois pedaços de madeira se abraçam
duas pessoas se amam e não se veem.

No refratário masculino ou museu
da imensa colcha de retalhos, almejo
Louise Bourgeois entre pernas mutiladas.

De peles que habitam almodôvares
de casas sobre eus femininos
de lampejos da gritaria

do passado, da máquina do tempo.
Na mania de cheirar o teto
de fotografar as árvores, de olhar o pai morto.

Amantes se deitam ao frio chão da sala
do ano de 2006 onde guarneço devires e cachorros.

Dez anos se passam: o céu se abre aos minaretes
o olhar de um muezim vale o templo
onde a arte é uma garantia de sanidade.

Após mais de vinte e cinco anos de leituras recíprocas, partilhadas desde o fim da infância, acompanho a publicação de Uma casa perto de um vulcão. Para o leitor e o irmão que sou, é um acontecimento muito especial. Se o irmão por vezes acaba lendo por trás de muitos versos os traços biográficos de memórias partilhadas, o leitor vai além, por não identificar na literatura uma escrita confessional. Ainda mais porque aqui encontro a força de um fenômeno da natureza, um derramamento poético diante do qual não é possível estar incólume. Com isso, adentramos noutras camadas vulcânicas da palavra, sendo especialmente tocado pelo trabalho com a linguagem dessa poeta que diz: “mastigo o ermo das palavras / quando não quero dizê-las / estendo os braços, frágeis de sentido / por algo como a luz – ou a fome.”

As lavas de um vulcão, quando emergem de dentro das entranhas da Terra, expõem as infâncias do mundo. O magma é uma espécie de memória, que dá a ver que as paisagens por aqui já foram formadas por ebuliente rocha líquida. Essa memória hoje irrompe, em geral, nas margens de placas tectônicas e quase sempre vem precedida por abalos sísmicos. Por isso, não nos enganemos: a profundeza dos chãos não guarda silêncios.

Pelo trabalho incansável nos meandros da linguagem, é possível exumar os diversos elementos que culminam na constituição da voz. São as lavas arrefecidas que se transformam em terras férteis e abrigam raízes em si. A poesia magmática ganha contornos de uma evocação de diversas formas de ancestralidade. Esse olhar poético voltado às origens (do cosmo, da casa/planeta que habitamos, das coisas, da vida, das estruturas que nos cercam, das referências, da linguagem e de si mesma) já se revela desde o primeiro poema do livro, chamado Infância, que anuncia: “Tenho a idade da Terra”.

Todos esses elementos ancestrais constituem a individualidade da voz em sua enunciação poética. E o tempo dessa condensação de elementos é o presente, ao qual esse livro também volta seu olhar. É possível vislumbrar os olhos frequentemente perplexos ante os absurdos que estruturam as relações de poder em que estamos inseridos. Nesse movimento, os versos se embatem tanto com as estruturas políticas dominantes quanto com a microfísica do poder, dando a ver dissimetrias. E se colocando, politicamente, ao lado daqueles que desejam e lutam e clamam e precisam de mudanças. Vapores é um exemplo expressivo desse movimento, trazendo versos como:

Caminho até a Praça XV
onde a seda vermelha
se enrola à estátua
equestre do general
Osório. Fagulhas
e fumaça alucinógena
fundida com os bronzes
dos canhões roubados
no Paraguai
incensam as acrobacias
das garotas
na manifestação.

Consciente de sua ancestralidade e desejosa de mudanças, a voz poética é permanentemente confrontada com as potências e os limites da linguagem. E, dessa forma, Uma casa perto de um vulcão faz uma incursão pelo pensamento meditativo. Talvez respondendo à constatação de que “Ninguém te ensina / a devassar / o cômodo / do que és”, a poesia adentra no terreno fecundo da reflexão filosófica. Ao lado de um fenômeno como um vulcão, é impossível que o pensamento não seja conclamado para dar conta, não de entender, mas talvez de erigir o mundo. “O mundo é menos / que acaso. Filos, ethos, ente / fatos.”

Esses três movimentos não são estanques. Talvez cada um deles predomine em determinado ponto da obra, mas todos podem ser percebidos constantemente, se fazendo presentes ao mesmo tempo em muitos poemas. E assim o livro se assemelha a um vulcão. O passado do mundo vem à tona na erupção de tudo o que se guarda nas funduras da terra. Esse passado/lava encontra de forma imediata e avassaladora com o presente em torno, a casa perto do vulcão, promovendo o embate e, por vezes até, a destruição das estruturas e a necessidade de novos fundamentos. E, por fim, no tempo mais lento da reflexão e do pensamento, a poesia sedimenta a experiência de perplexidade diante de tudo o que há, como as rochas que, quando resfriadas, deram conformação de eternidade aos últimos momentos de Pompeia e Herculano, após a erupção do Vesúvio.

Nesse sentido, a linguagem do livro recria a própria experiência vulcânica que enuncia. A palavra em ebulição escapa para a superfície da folha e se molda aos contornos da voz – com tudo aquilo que lhe dá um timbre único. Desse vulcão, repleto da densidade de camadas poéticas, irrompe um jorro sempre em busca de fissuras sobre o sólido para emergir, quente e denso, e assim lançar outras novas camadas sobre o mundo. “O futuro / é logo ali” e, para dar conta do vir a ser, é necessário imaginação – essa memória alucinada como um poema. “Um poema sempre um poema / à deriva / da próxima página.”

(O livro está à venda no site da Editora Patuá. Clique aqui.)

Uma casa perto de um vulcão – Roberta Tostes Daniel

 

Se o país não estivesse imerso em tanta fúria, tanto ódio, tanto grito, se por um instante se instalasse algum silêncio, talvez todos ouvissem o sinal de alarme: algo está em perigo. Funcionam os hospitais, os tribunais, as delegacias, abrem-se as repartições, mas não há nenhuma normalidade em nossos dias, nenhuma tranquilidade é possível. Em pouco tempo caminharemos às urnas com as mãos desarmadas, exerceremos com liberdade o ofício do voto, e ainda assim o alarme soará por toda parte: a democracia está em perigo.

A democracia não se resume à possibilidade de depositar um voto na urna; supõe, antes disso, o direito de todos e todas, pleno e absoluto, à existência. O candidato Jair Bolsonaro fere a democracia porque defende o desaparecimento de muitos: de seus adversários, que anseia por banir da política; dos ativistas, que quer extirpar do país; de quilombolas e índios, que pretende privar de suas terras; da comunidade LGBT, intimidada a conter em público seu afeto; dos jornalistas críticos, constantemente ameaçados por ele próprio ou por seus seguidores.

A democracia não sobrevive apenas com um respeito momentâneo às normas; sua preservação requer um compromisso constante com o Estado de Direito. Bolsonaro vem ferindo a democracia há décadas, em seu louvor às opressões da ditadura, em sua defesa insistente da tortura e do extermínio. Ameaçou a democracia no passado, e sua candidatura a ameaça no futuro, com o aceno a medidas autoritárias. A cada declaração ou insinuação, o sinal de alarme soa mais alto.

A cultura ele também quer abater, mas a cultura não se abate. A literatura ele quer calar, mas a literatura não se cala. Contra a censura, contra o desprezo, contra o desdém, contra a imposição de falsas verdades e de equívocas certezas, escritores e escritoras sempre souberam se erguer. Eis o ativismo da literatura, o ativismo que ele não poderá extirpar: a literatura será sempre um dos grandes antídotos para a desumanidade e a indiferença.

Por isso aqui nos erguemos, escritores e escritoras, críticos e críticas, editores e editoras, exercendo nosso ofício da palavra, ouvindo como outros o ruído das sirenes. Por isso clamamos por uma união de todos e todas que prezem pela democracia, que valorizem a existência da diversidade e do dissenso. A literatura, afinal, tem como ideal e como fim a aproximação ao outro, a compreensão de suas aflições, de seus suplícios, o encontro entre diferentes. E ainda que resista às circunstâncias mais adversas, como resistimos e resistiremos, a liberdade há de ser sempre o seu maior instrumento.

[Texto de autoria de Julián Fuks para o movimento independente]

Quem quiser, pode assinar por aqui: https://literaturapelademocracia.wordpress.com/.
Eu acabei de fazer isso!

Nosso voto ontem (e hoje e sempre)

Texto: Fabiana Turci e Teofilo Tostes Daniel
Vídeo: Laboratório dos Sentidos.

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